A escuridão foi absoluta. O som foi engolido. Por um instante que se estendeu pela eternidade, o universo de Zeon deixou de existir, substituído por um nada branco e ofuscante que sobrecarregou todos os seus sentidos. A onda de choque da detonação da antimatéria atingiu o Espectro como o martelo de um deus, atirando o Kation de cem toneladas para trás como se fosse um brinquedo.

    O cockpit de Zeon foi um inferno de metal gritando. Ele foi jogado violentamente contra suas amarras, sua cabeça chicoteando para o lado e batendo contra a armação do assento. Alarmes que ele nem sabia que existiam dispararam em um coro ensurdecedor e caótico, antes de serem silenciados quando múltiplos sistemas de energia falharam em cascata.

    Então, silêncio.

    Um silêncio ensurdecedor, quebrado apenas pelo chiado agudo da estática em seu capacete e o som fraco e distante de sua própria respiração ofegante. O cheiro de ozônio e metal superaquecido era tão espesso que queimava seus pulmões.

    “Anya…” ele engasgou, a voz um sussurro rouco.

    Os sistemas de emergência do Espectro entraram em ação. As luzes vermelhas do cockpit piscaram, fracas, revelando a devastação. O visor principal, já rachado, estava agora quase opaco, uma teia de aranha de cristal quebrado que mal mostrava o corredor lá fora.

    ALERTA: MÚLTIPLAS VIOLAÇÕES DO CASCO. NÍVEIS DE ENERGIA CRÍTICOS. ALERTA: FALHA CATASTRÓFICA NOS ATUADORES DA PERNA ESQUERDA. ALERTA: PERDA DE FLUIDO HIDRÁULICO.

    Ele tentou mover o Kation. O gigante de metal apenas gemeu. Zeon olhou para baixo através de uma parte menos danificada do visor e viu a nova realidade de sua situação: a explosão o havia forçado a uma genuflexão humilhante. O Espectro estava caído sobre um joelho, a perna esquerda uma massa inútil de metal retorcido, transformando seu Kation em um gigante aleijado. Ele estava preso.

    A fumaça e a poeira de antimatéria começaram a baixar no corredor.

    “Anya!” ele gritou, desta vez mais alto, o pânico subindo por sua garganta. “Anya, status! Responda, porra!”

    Nenhuma resposta. Apenas o silvo da estática.

    O canal da unidade, agora vazio de Jax e Anya, era um abismo de silêncio. A imagem do Martelo partido ao meio, desfazendo-se em partículas púrpuras, surgiu em sua mente, e agora a imagem do Vidente sendo aniquilado se juntou a ela.

    Não. Não de novo.

    Ele forçou os sensores de zoom do Espectro, varrendo freneticamente a zona de impacto. Onde o Vidente estivera, agora havia apenas uma cratera fumegante no chão de obsidiana, as bordas lisas e cauterizadas de uma forma que desafiava a física. O próprio ar parecia distorcido acima dela.

    E o Nemesor?

    O coração de Zeon parou. Através da névoa de poeira e partículas entrópicas, a silhueta escura ainda estava lá. Ele não havia sido apagado.

    Mas ele não estava ileso.

    O Lorde Nictis estava… cambaleando. Um de seus apêndices em forma de asa de metal negro havia desaparecido, arrancado pela detonação. Fagulhas de energia púrpura, como sangue, vazavam da junta exposta. A luz em seus olhos de estrela morta pulsava erraticamente, com fúria. A explosão de antimatéria, o sacrifício desesperado de Anya, o havia ferido.

    Pela primeira vez, Zeon sentiu algo emanando da criatura que não era curiosidade sádica ou indiferença cósmica. Era ódio. Um ódio puro, malevolente e focado.

    O Nemesor ergueu lentamente sua cabeça, seus olhos passando pela cratera do Vidente, passando pelo Kation aleijado de Zeon, e fixando-se em algo no chão, perto da entrada da Câmara da Forja.

    Zeon seguiu o olhar dele.

    “Não…”

    Ali, caída entre os destroços, estava uma pequena figura em armadura cinza. Anya. Ela estava imóvel, seu corpo parcialmente coberto por fragmentos do pilar que havia caído antes. Ela havia sido pega na borda da explosão.

    Ela estava viva? Morta? Ele não sabia. O sinal vital dela, como o de Jax, havia desaparecido de seu HUD – talvez uma falha do sistema devido à explosão, talvez…

    O Nemesor começou a flutuar. Lento, deliberado, ignorando completamente o Kation de Zeon. Ele estava indo em direção a ela.

    O terror que tomou conta de Zeon foi absoluto, mais frio e mais afiado do que qualquer lâmina. Aquele não era o pior cenário tático imaginável. A tática estava morta, junto com Jax. Aquilo era o fim.

    Ele estava preso, um comandante aleijado em um trono quebrado, forçado a assistir. Jax havia sido apagado. A Nasus os havia abandonado. E agora, o Nemesor estava indo até Anya.

    O medo de ficar sozinho.

    Era um terror primal, mais profundo e mais sombrio do que o medo da morte. Se o Nemesor a alcançasse, se ele a apagasse como fez com Jax, Zeon estaria verdadeiramente só. Um fantasma em uma máquina quebrada, no meio de um matadouro de doze mil homens, abandonado pela sua frota, em um túmulo no fim do universo.

    “Não…” ele sussurrou, a voz quebrando dentro do capacete. Ele bateu com os punhos enluvados no console quebrado, as luzes de alerta piscando inutilmente sob o ataque. “Não, não, não…”

    A loucura começou a arranhar as bordas de sua disciplina de séculos. Era impossível. Ele tentou forçar o Espectro a se mover, a se arrastar. O Kation apenas gemeu, os atuadores mortos da perna esquerda faiscando inutilmente.

    “ANYA!” O grito rasgou sua garganta, não mais um comando, but a raw howl of panic and denial.

    O Nemesor, ferido e furioso, continuou seu avanço lento, ignorando-o.

    “NÃO!” Zeon rugiu, a voz embargada pelo desespero. “OLHE PARA MIM!”

    Ele agarrou os controles de suas armas, disparando o que restava de seus canhões de ombro. A barragem de plasma atingiu as costas do Nemesor.

    “VIRE-SE! LUTE COMIGO, SEU BASTARDO! EU AINDA ESTOU AQUI! LUTE COMIGO!”

    A energia dissipou-se inofensivamente em seu escudo de realidade, agora visivelmente mais fraco e oscilante… mas ele nem sequer vacilou.

    O pensamento atingiu Zeon com a força d

    e um tapa no rosto. Sim, nós o ferimos. A explosão de Anya funcionou. Mas a que custo? O custo de tudo? O Kation dela… e agora ela? Tudo isso pela chance de arranhar um monstro que nem sequer se importava em ser arranhado? Um monstro que ainda estava de pé, indo terminar o serviço?

    Que escolha eles tinham? Nenhuma. Morrer como Jax? Apagado? A futilidade da troca era uma piada cósmica doentia, e a risada estava ecoando na cabeça de Zeon.

    A criatura não se importava com a ameaça barulhenta e presa. Ele queria a variável que o havia ferido.

    Ele continuou seu avanço lento e inexorável em direção à figura caída de Anya, sua foice colossal erguida, pronta para apagar a última peça do universo de Zeon, o último elo com sua própria humanidade.

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