O Nemesor flutuou com uma nova urgência, uma urgência nascida da dor e da fúria. A explosão de antimatéria o havia ferido de uma forma que as armas convencionais da Hegemonia não podiam sequer sonhar. Seu braço direito, aquele que empunhava a foice colossal, estava visivelmente danificado; o metal entrópico na junta do ombro parecia instável, tremeluzindo, e a própria foice crepitava com uma energia púrpura irregular, mais fraca, claramente comprometida. Ele estava sangrando energia púrpura da ferida aberta onde o segundo apêndice deveria estar.

    O tempo, para ele, ainda parecia ser uma ferramenta maleável, mas agora havia um prazo implícito antes que sua própria estrutura danificada pela antimatéria se recompusesse completamente. A explosão não apenas o ferira fisicamente, mas parecia ter perturbado sua conexão com as leis que ele manipulava.

    Ele parou diretamente diante de Anya, pairando a centímetros de distância. O orbe de escuridão em sua testa se fechou lentamente, as placas de metal segmentado deslizando de volta ao lugar com um clique suave e sinistro. A força que prendia Anya diminuiu ligeiramente, mas ela permaneceu suspensa, impotente.

    Sua arma principal estava comprometida. Seu corpo estava ferido. Mas a barreira da Forja, o Aegis enfraquecido, ainda precisava ser quebrada. Ele precisava de uma nova arma, uma ferramenta descartável, mas potente, para terminar o trabalho rapidamente. E ali estava ela, a fonte de sua dor, paralisada diante dele. Matéria-prima. Energia vital. Uma alma para consumir e refazer.

    Nesse momento de foco singular do Nemesor em sua presa, a pausa na atenção foi o convite que os outros Nictis esperavam. Dois Messores, os cirurgiões insectóides do caos, materializaram-se em flashes silenciosos de portais púrpuras ao redor do Espectro aleijado de Zeon. Suas múltiplas lentes ópticas púrpuras focaram-se friamente no gigante de metal ajoelhado. Suas lâminas de entropia começaram a cortar sua blindagem restante com uma eficiência fria e metódica.

    Faíscas de inexistência momentânea explodiram onde as lâminas tocaram o casco do Espectro. Alarmes de violação de blindagem gritaram. Zeon estava preso, um gigante acorrentado, forçado a lutar por sua própria vida enquanto era obrigado a assistir ao horror indescritível que começava a se desenrolar a poucos metros de distância.

    O que se seguiu não foi um ataque de raiva ou vingança por parte do Nemesor. Foi um procedimento frio e calculado. Uma desconstrução metódica e obscena. Uma alquimia profana.

    A mão esquelética esquerda do Nemesor moveu-se com uma lentidão deliberada. Seus dedos longos e finos, como agulhas de obsidiana, estenderam-se e tocaram a testa de Anya, no visor danificado de seu capacete.

    O metal da armadura e o policarbonato reforçado não se estilhaçaram. Eles começaram a se dissolver ao toque, como açúcar em água quente.

    “PARE!” Zeon rugiu de dentro do Espectro, a voz distorcida pela fúria e pela estática, enquanto ele rechaçava desesperadamente um dos Messores que o atacavam. “DEIXE-A EM PAZ!”

    Mas o Nemesor era indiferente. Seus dedos traçaram um caminho descendente, a onda de dissolução seguindo seu rastro. O visor desapareceu completamente, revelando o rosto de Anya por baixo – uma máscara de terror congelado pela paralisia psíquica.

    Os dedos escuros tocaram sua pele. Onde eles passaram, a pele ondulou como água perturbada e se desfez, não em sangue e carne, mas em uma poeira celular fina, um pó rosado que foi reabsorvido pela palma da mão do Nemesor com uma avidez silenciosa.

    Ele estava apagando suas feições. Metodicamente.

    E foi nesse momento, enquanto a entropia rastejava por seu rosto, enquanto seus olhos ainda existiam, mas já começavam a perder a cor, a forma, que ela o encarou. Naquele último instante de ser, naquele fragmento de segundo antes que a inexistência os reivindicasse completamente, seus olhos encontraram os sensores do Espectro. O terror ainda estava lá, mas por baixo dele, Zeon viu algo mais surgir – uma faísca final de reconhecimento, de urgência. Não foi resignação. Foi uma ordem silenciosa. Uma passagem de bastão.

    Então, os olhos se foram, desfeitos em nada. Os dedos do Nemesor continuaram, apagando os lábios que nunca haviam falado a verdade completa de seus sentimentos. A mulher que Zeon conhecera por décadas estava sendo desfeita, molécula por molécula, transformada em nada mais do que matéria-prima despersonalizada.

    A mensagem silenciosa dela atingiu Zeon com a força de um golpe físico, atravessando sua loucura e dor, cravando-se em sua alma com a clareza fria de um testamento final, ecoando na quietude onde a imagem de seus olhos acabara de desaparecer.

    Agora é com você.

    ***

    A mensagem silenciosa dela atingiu Zeon com a força de um golpe físico, atravessando sua loucura e dor, cravando-se em sua alma com a clareza fria de um testamento final, ecoando na quietude onde a imagem de seus olhos acabara de desaparecer.

    A fúria fria, a disciplina do soldado, a máscara do Capitão Zeon que ele usara por séculos… tudo se estilhaçou em um milhão de pedaços. O olhar dela não o quebrara em desespero, mas em puro ódio. Um ódio tão absoluto que se tornou loucura.

    “ANYA!” O nome dela foi um rugido que não era humano, um som de pura agonia e ódio que ecoou no inferno de seu cockpit.

    Ele não estava mais pilotando com tática ou precisão. Ele estava possuído. A dor era um reator de fusão em sua alma, e a mensagem dela era o gatilho. Ignorando os protestos dos sistemas danificados, Zeon forçou o ‘Espectro’ a se erguer sobre sua única perna funcional, os atuadores gemendo sob a tensão impossível. O gigante aleijado ficou de pé, cambaleante, mas pronto para a última dança.

    Ele se voltou contra os dois Messores que o atacavam com uma violência suicida. Não houve cálculo, apenas aniquilação. A lâmina de plasma em seu braço bom queimou com um brilho branco ofuscante, a energia sobrecarregada fazendo o ar ao redor dela chiar. Seus canhões de ombro remanescentes dispararam suas últimas cargas de munição cinética em rajadas imprecisas e desesperadas. Ele usou o próprio corpo do Kation como um aríete, chocando-se contra um dos Messores, esmagando-o contra a parede enquanto sua lâmina de plasma o cortava repetidamente. Ele girou, a lâmina cortando o segundo Messor ao meio antes que pudesse recuar para um portal.

    Foi uma explosão de violência brutal e ineficiente, queimando as últimas reservas de energia e munição do Espectro. Quando terminou, os dois Messores eram destroços fumegantes. Mas o Kation de Zeon estava efetivamente morto. Os canhões estavam vazios. A lâmina de plasma sibilou erraticamente e se apagou, seu emissor superaquecido e derretido. Os sistemas de energia estavam em níveis críticos, mal mantendo o suporte de vida. O Espectro era agora pouco mais que um exosqueleto moribundo, um gigante de metal quebrado, de pé sobre uma perna, sustentado apenas pela fúria de seu piloto.

    Ele estava livre dos Messores. Livre para agir. Livre para cumprir a ordem silenciosa dela. Ele começou a avançar em direção ao Nemesor, arrastando sua perna destruída como um membro morto, faíscas voando do metal arrastado no chão, um monstro de metal quebrado movido por pura insanidade, tentando alcançar a única coisa que importava… tentando impedir o que ele sabia que estava acontecendo.

    Mas era tarde demais. Terrivelmente tarde demais.

    Seu avanço fútil serviu apenas para lhe dar um assento na primeira fila do inferno. Ele foi forçado a assistir, hipnotizado pelo horror, enquanto o Nemesor continuava seu procedimento hediondo.

    O Nemesor, agora sem oposição, focou sua mão esquerda em Anya. A pele dela, já exposta, foi a primeira a ir. Sob o toque dos dedos escuros, ela não queimou ou congelou; ela se desfez. Como pergaminho molhado, ela se dissolveu em uma fina poeira celular, um pó rosado que foi reabsorvido pela palma da mão do Nemesor com uma avidez silenciosa.

    Não houve gritos. A paralisia psíquica a silenciara. O único som na câmara, além do gemido rítmico e áspero do Kation de Zeon se arrastando, era um ruído baixo, úmido e nauseante vindo de onde Anya flutuava. O som de carne sendo desfiada em nível molecular, de ligações sendo quebradas.

    Com a pele desaparecida, Zeon viu os músculos dela, os feixes de fibras vermelhas e pulsantes. O toque do Nemesor não os rasgou; ele os desfez. As fibras se separaram, torcendo-se e entrelaçando-se sob o controle invisível da criatura, como se fossem fios em um tear alienígena. A complexa anatomia humana foi desfeita, e os músculos foram comprimidos, esticados e reconfigurados, formando uma haste densa e aerodinâmica onde o torso dela estivera.

    Em seguida, vieram os ossos. Sob a carne que se reconfigurava, o branco do esqueleto brilhou por um instante fantasmagórico. Zeon viu o contorno de sua caixa torácica… por um segundo. Então, o toque do Nemesor a alcançou. Os ossos perderam a solidez. Com um som sibilante, o cálcio se transmutou, liquefazendo-se em um metal líquido, pálido e prateado que fluía como mercúrio vivo. O Nemesor, como um mestre artesão do inferno, moldou aquele líquido vivo com gestos sutis. Ele o puxou para a frente, concentrando-o, engrossando-o para formar a ponta penetrante de um projétil e a quilha central da lança.

    A humanidade de Anya foi apagada, camada por camada, enquanto Zeon se arrastava, impotente. Seus membros se esticaram como cera derretida, perdendo as articulações, fundindo-se ao torso. Sua coluna, agora de metal líquido, encurvou-se e se alongou, fundindo-se com o crânio e os ossos pélvicos liquefeitos para formar a espinha dorsal da lança.

    Zeon foi forçado a assistir a cada segundo, sua mente se fragmentando com a impossibilidade grotesca do que via, a sanidade se desfazendo como a carne de sua amiga sob o toque profano do Nemesor.

    Este ato de criação através do consumo, de desconstrução para reconstrução, ressoou com algo profundo e aterrorizante dentro dele. Era uma lógica alienígena, uma lei do universo que ele nunca soubera que existia. Uma lei de sacrifício e poder, onde a vida era apenas combustível para a forja da morte. Era seu primeiro e mais brutal batismo na verdade mais terrível do cosmos: que a existência podia ser reescrita, que a alma podia ser transformada em arma.

    Não houve gritos. A paralisia a silenciara, transformando-a em uma tela passiva para a arte macabra do Nemesor. O único som na câmara era um ruído baixo, úmido e nauseante. O som de carne sendo desfiada e osso sendo reescrito.

    Zeon assistiu, hipnotizado pelo horror, enquanto os músculos dela se desfaziam em feixes de fibras vermelhas e pulsantes, que se reconfiguravam sob o controle invisível do Nemesor. Seus ossos perderam a solidez, tornando-se um metal líquido e pálido que fluía sob a carne reconfigurada, formando uma estrutura que não era mais humana.

    Em menos de um minuto, o procedimento terminou. Onde Anya estivera, agora flutuava um objeto.

    Um dardo biomecânico com cerca de dois metros de comprimento, uma fusão grotesca de orgânico e inorgânico. A ponta era de osso denso e afiado, a haste era de músculo contraído, e a cauda era uma franja de nervos que pulsavam com uma luz púrpura-escura. A alma dela, sua agonia silenciosa, era a ogiva da arma mais profana que Zeon já vira.

    O Nemesor ergueu sua mão livre, e o projétil de carne flutuou diante dele, apontado diretamente para a barreira translúcida que protegia a Forja.

    O lançamento foi instantâneo. Um borrão de movimento.

    O dardo de Anya atingiu o Aegis de Éter. O impacto não foi uma explosão. Foi um som. Um som que não deveria existir, agudo e estilhaçante como mil taças de cristal quebrando em uníssono. Era a antítese da harmonia do Aegis, a nota de pura dissonância da dor de uma alma sendo usada como um aríete.

    O Aegis de Éter Cristalizado, a defesa absoluta, estilhaçou-se.

    A Forja, o Coração Quebrado de Adel, estava exposta.

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