Capítulo 27: O Ladrão Fantasma
O impacto do dardo não terminou no escudo. O projétil profano, tudo o que restava de Anya, continuou sua trajetória e atingiu o cubo negro.
A explosão não foi com fogo, mas com sangue.
Um bolsão de matéria orgânica e carmesim, uma profanação final, espalhou-se pela superfície do artefato divino, banhando-o, manchando-o com o sacrifício final e grotesco de sua última defensora. O som úmido do impacto foi a única coisa que quebrou o silêncio do corredor.
Zeon chegou tarde demais. Ele parou seu avanço manco, seu Kation um monumento de metal quebrado, seu cockpit um túmulo de choque e estática. Ele assistiu, paralisado, seu processador neural tentando e falhando em compreender a cena à frente. O Aegis se fora. A Forja, o Coração Quebrado de Adel, estava exposta, pingando com… com ela.
Ele olhou para o artefato ensanguentado. E então ele olhou para o Nemesor.
O Lorde Nictis, ferido pela explosão de antimatéria, mas ainda de pé, agora flutuava lentamente em direção ao seu prêmio. A criatura o ignorava completamente. Zeon, o Capitão, o piloto do Kation, o ‘Fantasma’, era menos que um inseto. Um detalhe irrelevante, uma testemunha inconveniente cuja morte poderia esperar. O Nemesor estava focado apenas em seu objetivo: a Forja agora profanada.
“Você…” Zeon sussurrou no canal morto, a voz um rosnado que mal passava por seus dentes cerrados, um som que era mais vibração do que palavra. “Você a matou… você a usou… como uma bala… e agora você vai… pegá-la?”
A fúria era tão absoluta que o sufocava. A arrogância. A indiferença. Ver aquela coisa estender sua mão esquerda intacta, não para Anya, mas para o artefato que ela cobria, como se fosse um troféu…
“Como se ela fosse sua? Como se ela fosse apenas… sangue em seu prêmio?”
E na alma de Zeon, onde a loucura e a dor haviam queimado tudo, uma única e fria centelha de ódio se acendeu, tão fria e escura quanto o vácuo.
Você não vai tê-la.
Ele não pensou. Ele não calculou. Ele não era mais um estrategista. Ele era um nervo exposto, uma promessa. Ele agiu.
Não havia mais tática, apenas a promessa silenciosa que fizera aos restos de Anya. Seu Kation estava aleijado, inútil para uma investida. Suas armas estavam derretidas ou vazias. Mas ele tinha uma última, desesperada, carta. Um sistema enterrado tão fundo nos protocolos do ‘Espectro’ que ele nunca o usara em combate real, apenas em simulações impossíveis. Um protocolo de emergência, uma ferramenta de fuga desesperada exclusiva da sua classe de Kation – a habilidade que, ironicamente, lhe dava o nome de ‘Fantasma’.
Os motores de dobra de curto alcance.
Com um único e focado comando mental, impulsionado por pura fúria, ele drenou as últimas reservas de energia do reator moribundo, desviando-as dos sistemas de suporte de vida, dos sensores moribundos, de tudo.
Uma compressão violenta e instantânea esmagou Zeon contra seu assento, forçando o ar de seus pulmões com um solavanco de arrancar os ossos. O cockpit rachado e escuro desapareceu. Por uma fração de segundo, o mundo exterior se tornou um túnel nauseante de luz distorcida e cores impossíveis, o universo se dobrando sobre si mesmo.
O ‘Espectro’ desapareceu de sua posição ajoelhada e reapareceu. Não a metros de distância, mas instantaneamente, com um crack ensurdecedor de ar deslocado, diretamente entre o Nemesor e a Forja.
O lorde Nictis parou, sua mão a centímetros do cubo. Pela segunda vez desde que chegara, a criatura demonstrou genuína surpresa.
Zeon não lhe deu tempo para reagir. O ódio era um relâmpago em seus nervos. Ele se virou, seu braço de metal – o único membro funcional que lhe restava – se estendendo. Seus dedos robóticos se fecharam ao redor do cubo negro e ensanguentado.
A superfície estava quente, pulsante como um coração profano. E estava molhada. Coberta por uma camada espessa, úmida e terrivelmente orgânica que era tudo o que restava de Anya. A sensação tátil, transmitida através dos sensores de seus dedos de Kation, foi uma violação tão profunda que o fez querer vomitar dentro do capacete. O cheiro de sangue coagulado e ozônio alienígena invadiu os filtros de ar danificados.
Mas o horror se aprofundou quando ele agarrou o artefato. Sob seus dedos de metal, ele viu. As finas fissuras que marcavam a superfície do cubo negro, cicatrizes de uma guerra antiga, pareciam respirar. A matéria orgânica carmesim que cobria o cubo não estava apenas ali; estava sendo lentamente, terrivelmente, absorvida.
Fios finos de sangue e tecido celular eram puxados para dentro das rachaduras escuras, desaparecendo nas profundezas insondáveis do artefato. Ele podia ouvir um leve som sibilante através dos microfones externos, um som de digestão profana. A própria Forja, o Coração Quebrado de Adel, estava faminta. Estava se alimentando dos restos profanados de sua defensora.
Ele a segurou. Ele segurou os restos dela sendo consumidos. Ele segurou a Forja faminta.
“Você não vai ficar com ela!” ele gritou, a promessa agora uma declaração de guerra, sua voz ecoando no cockpit morto.
O Nemesor, recuperando-se da surpresa, soltou um rugido psíquico de pura fúria, uma onda de ódio que fez o Kation de Zeon tremer. Ele ergueu seu braço danificado, a foice instável crepitando para a vida, tarde demais.
Com a última gota de energia frenética de seu reator agora moribundo, Zeon ativou os propulsores de manobra de seu braço bom, girando o Kation aleijado. Impulsionado por nada além de ódio e da necessidade de arrancar aquele horror das mãos do Nemesor, ele se virou e correu.
Ele não correu. Ele se arrastou. Arrastando sua perna morta em uma chuva de faíscas, o metal gemendo em protesto, cada movimento uma agonia. Ele não era um soldado executando uma retirada tática, cuja disciplina se fora para sempre. Ele não era um capitão, cujo posto era agora cinzas em sua boca.
Ele era um ladrão, roubando um artefato que se alimentava de mortos.
Ele era um profanador, carregando um coração faminto banhado nos restos de sua amada.
Ele era um fantasma nascido do fogo e da perda, fugindo de um matadouro cósmico, carregando o coração quebrado e faminto de um deus, banhado no sangue e na alma da mulher que ele não conseguiu salvar.
O Capitão Zeon estava morto. Algo muito mais antigo, raivoso e agora profanado tomara seu lugar.

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