Capítulo 2 – Três Dias de Sussurros
O acólito do Templo ficou paralisado no corredor mal iluminado, o pergaminho formal, agora um objeto ridículo e impotente, escorregando de seus dedos para cair com um baque surdo no chão de madeira. O eco da palavra “julgamento” ainda pairava no ar denso, uma ofensa tão monumental, uma blasfêmia tão audaciosa, que seu cérebro treinado em deferência e hierarquia lutava para processá-la.
O homem à sua frente, Caelus, não era alto, nem fisicamente imponente. Mas no corredor estreito, sob a luz vacilante da lamparina do quarto, ele projetava uma sombra que parecia vasta e antiga. O sorriso em seus lábios havia desaparecido, substituído por uma serenidade fria, a calma do olho de um furacão.
“V-você…”, o acólito gaguejou, o rosto pálido como cera. “Você não pode… O Sumo Sacerdote é o juiz de Kaelon perante Deus!”
“O Sumo Sacerdote julga segundo a Lei dos Homens. A Lei do Templo”, respondeu Caelus, a voz agora desprovida de ameaça, mas cheia de um peso incontestável. “Outra Lei será proclamada naquele dia. Outro Juiz se sentará no trono. Agora vá. Sua mensagem foi entregue. E a minha também.”
O acólito, que passara a vida cultivando uma aura de superioridade sacerdotal, se viu reduzido a um menino assustado. Ele se curvou de forma desajeitada, quase tropeçando, pegou o pergaminho caído como se queimasse e praticamente correu pelo corredor, seus passos apressados ecoando na madeira até desaparecerem escada abaixo.
Lia fechou a porta lentamente, o som do ferrolho sendo passado pareceu alto demais no silêncio que se seguiu. Ela se virou para Caelus, o punhal ainda em sua mão, mas agora apontado para o chão, esquecido. Seu rosto era uma máscara de incredulidade e fúria protetora.
“Julgamento? Que julgamento, Caelus?”, ela sibilou, a voz como o raspar de uma faca em pedra. “Você enlouqueceu de vez? Você vai marchar para o coração do poder deles, para o palco que eles construíram, com os guardas deles em cada esquina, e vai… o quê? Julgá-los com palavras?”
Barnabé, por outro lado, parecia ter visto o próprio céu se abrir. Seus olhos brilhavam com um fervor febril. “Ele vai humilhar Malaquias! Ele vai provar diante de toda a cidade que o poder do Templo é pó! É o começo, Lia! O começo do Reino!”
“É o começo do fim!”, retrucou Lia, virando-se para o jovem. “Eles vão matá-lo, seu idiota! Eles não precisam de um motivo, mas agora ele deu a eles o melhor motivo de todos: blasfêmia contra o Sumo Sacerdote! Ele acabou de assinar a própria sentença de morte!”
Enquanto os dois discutiam, a força que sustentava Caelus abruptamente o abandonou. A adrenalina do confronto se dissipou como fumaça, e o preço do milagre anterior voltou com juros. Uma onda de vertigem o atingiu, e ele cambaleou, a mão se apoiando na parede para não cair. Um fio escuro de sangue escorreu lentamente de sua narina direita.
“Caelus!”, gritou Lia, esquecendo Barnabé e correndo para ampará-lo, guiando-o de volta para o banquinho. A visão do sangue em seu rosto a aterrorizou mais do que qualquer exército.
Ele limpou o sangue com as costas da mão, a respiração pesada, os olhos fechados contra a dor que pulsava atrás deles. “A engrenagem… começou a girar, Lia”, murmurou ele, a voz fraca, mas firme. “Foi posta em movimento muito antes de eu nascer. Não posso pará-la. Tudo que posso fazer… é tentar guiar sua direção.”
“Direção a um cadafalso?”, ela retrucou, a voz tremendo de preocupação enquanto ela limpava o rosto dele com o pano úmido.
“A direção que o Pai aponta”, ele respondeu, e com isso, encerrou a discussão. Ele mergulhou em um silêncio exausto, deixando Lia e Barnabé trocando olhares cheios de medo e fé conflitantes, o ar carregado com o peso dos três dias que viriam.
O acólito não parou de correr até chegar aos portões monumentais do complexo do Templo. Os guardas, acostumados com sua compostura, observaram com surpresa enquanto ele passava por eles, as vestes em desordem, o rosto suado e pálido. Ele não se deteve nos pátios externos, mas subiu as escadarias de mármore, seus passos ecoando, em direção às câmaras internas onde apenas os sacerdotes de alto escalão podiam entrar.
Ele encontrou Malaquias em sua sala de conselho privada, cercado por outros dois sacerdotes anciãos, Jônatas e Sadoc, cujos rostos pareciam esculpidos em pedra preocupada. Estavam planejando a retórica do debate, os sofismas teológicos que usariam para encurralar o Galileu.
“Sumo Sacerdote!”, ofegou o acólito, curvando-se profundamente, a respiração em farrapos.
Malaquias ergueu uma sobrancelha para a falta de decoro. “Fale. Ele aceitou o convite?”
“Sim, Sumo Sacerdote. Ele… ele virá.”
“Eu sabia”, disse Malaquias com satisfação, trocando um olhar triunfante com os outros. “A arrogância precede a queda. Ele caiu na armadilha.”
“Não, Sumo Sacerdote”, disse o acólito, a voz ainda trêmula. “Eu não acho que ele vê isso como uma armadilha. Ele… ele me deu uma mensagem para o senhor.”
Malaquias se inclinou para frente, a curiosidade sobrepujando sua irritação. “E que mensagem um carpinteiro ignorante tem para mim?”
O jovem engoliu em seco, o medo o fazendo repetir as palavras exatas, pois elas estavam gravadas em sua mente como ferro em brasa. “Ele disse… ‘Diga ao seu mestre que não haverá debate’.”
Jônatas e Sadoc se entreolharam, confusos. “Ele está recuando? É um truque?”, perguntou Sadoc.
Malaquias silenciou-os com um gesto. “Continue”, ordenou ele ao acólito.
“Eu perguntei o que haveria, então”, o jovem continuou, a voz baixando para um sussurro temeroso. “E ele disse… ele disse que haverá um julgamento.”
Um silêncio pesado como uma lápide caiu sobre a sala. Jônatas engasgou. O rosto de Sadoc ficou vermelho de indignação. Malaquias, no entanto, permaneceu imóvel, os olhos fixos no acólito, processando a enormidade daquela declaração.
Então, um som estranho emanou dele. Primeiro um sopro, depois um tremor em seus ombros, e então ele jogou a cabeça para trás e riu. Não foi uma risada de alegria, mas um som seco, cortante e perigoso, cheio de escárnio e uma alegria sombria.
“Julgamento!”, ele berrou, batendo na mesa de mogno com a palma da mão. Os outros sacerdotes o olhavam, chocados. “Hahahahaha! Maravilhoso! Simplesmente maravilhoso! O blasfemo se condena com a própria boca!”
Ele se levantou, andando de um lado para o outro na sala, a energia crepitando ao seu redor. “Vocês não entendem? Ele acabou de nos entregar a arma perfeita! Eu ia expô-lo como um herege ignorante. Agora, eu o exporei como um demônio de orgulho! Um louco que ousa se colocar no lugar do Altíssimo para julgar Seu Sumo Sacerdote!”
Ele parou, os olhos brilhando com um fanatismo gelado. “Vamos espalhar a palavra. Não que ele aceitou um debate, mas que ele vem para julgar o Templo! Deixem o povo ouvir sua arrogância! Deixem que a indignação cresça! Quando ele subir aquelas escadas, não será recebido por uma multidão curiosa, mas por um tribunal furioso, pronto para condenar o blasfemo!” Ele se virou para seus subordinados, o sorriso cruel de volta aos seus lábios. “Preparem tudo. O palco. Os guardas. E preparem o desafio que eu planejei. Primeiro, deixaremos que ele faça seu ‘julgamento’. E depois que ele se enforcar com suas próprias palavras, eu o desafiarei a chamar o Deus da guerra para atacar Roma. Sua humilhação será absoluta, em duas frentes. Esta vitória será lembrada por mil anos.”
A notícia se espalhou por Kaelon como fogo em pasto seco. Não em sua forma real, mas em mil versões distorcidas pelos sussurros.
“O Galileu desafiou o Sumo Sacerdote!”
“Não, o Sumo Sacerdote o desafiou, e ele cuspiu na cara do mensageiro!”
“Ouvi dizer que ele vem para destruir o Templo com um único olhar!”
“Dizem que ele vai se declarar Rei nos degraus e marchar sobre o Praetorium!”
A cidade, normalmente um organismo funcional, embora caótico, de comércio e sobrevivência, adoeceu com uma febre de expectativa. O trabalho diminuiu. As pessoas se reuniam em grupos nas esquinas, nos mercados, nas tavernas, discutindo, argumentando, apostando. Dois lados se formaram claramente. De um lado, os pobres, os doentes, os despossuídos, para quem Caelus era a única centelha de esperança em uma vida de escuridão; eles viam seu ato como a coragem de um Messias. Do outro, os mercadores estabelecidos, os proprietários de terras, os devotos tradicionais e todos aqueles cuja vida dependia da estabilidade mantida pelo Templo e, por extensão, por Roma; eles viam Caelus como um anarquista perigoso, um louco que ameaçava destruir o pouco de paz que tinham.
No Praetorium, a austera fortaleza romana que dominava a cidade, o Prefeito Gaius Valerius lia os relatórios de seus informantes com um tédio estudado. O centurião Lucius Vorenus, comandante da patrulha da cidade, estava em pé diante dele, rígido em sua armadura segmentada.
“Outro relatório, Prefeito”, disse Lucius, a voz grave. “O Galileu aceitou o desafio do Templo, mas o fez com uma ameaça. A palavra ‘julgamento’ está em todas as bocas. A cidade está um barril de pólvora.”
Valerius mergulhou uma ameixa seca em uma taça de vinho e a comeu pensativamente. “Julgamento. Que gente dramática”, ele murmurou em latim. Ele se virou para o centurião. “Deixe-os ter seu teatro. É um problema religioso, não romano. Enquanto o sangue não escorrer para fora dos pátios do Templo, não é da nossa conta.”
“Mas, Prefeito, a retórica é cada vez mais anti-romana. O povo o vê como um libertador. O incidente na guarnição há algumas semanas…”
“O incidente na guarnição foi histeria em massa induzida por algum tipo de fumaça alucinógena ou água contaminada”, interrompeu Valerius, embora seus olhos dissessem que ele não acreditava totalmente nisso. “Foi uma vergonha, e o Legado em Damasco já está lidando com isso. Desta vez, estaremos preparados.”
Ele se levantou e caminhou até o grande mapa da Judeia em sua parede. “Malaquias é uma cobra, mas é uma cobra previsível. Ele quer manter seu poder. Caelus é um fogo selvagem. Imprevisível. Meu instinto me diz que a cobra tentará usar o fogo para queimar seus inimigos, pensando que pode controlá-lo. Ela não pode. E quando o fogo sair de controle, todos… incluindo nós… se queimarão.”
Ele se virou para Lucius, os olhos cinzentos e frios como aço. “A partir de amanhã ao amanhecer, dobre as patrulhas. Posicione arqueiros nos telhados ao redor da praça do Templo, discretamente. Quero duas coortes da Legio VI Ferrata em prontidão total no acampamento fora da cidade. Se essa querela de fanáticos transbordar para as ruas e ameaçar a propriedade ou cidadãos romanos, vocês têm minha autorização para esmagá-la. Sem distinção. Mate o sacerdote, mate o profeta, mate quem estiver no caminho. A paz de Roma é a única lei que importa. Entendido?”
“Sim, Prefeito”, respondeu Lucius, batendo o punho no peito em saudação antes de se retirar.
Valerius ficou sozinho, olhando para o mapa. Ele não acreditava em deuses ou demônios. Mas acreditava no poder das ideias. E a ideia que Caelus representava era a mais perigosa de todas.
No esconderijo, o tempo se arrastava. Caelus passou a maior parte dos dois dias seguintes em um estado de meditação profunda, quase um transe. A dor e a exaustão haviam recuado, substituídas por uma quietude imensa e assustadora. Lia não gostava daquilo. Preferia quando ele estava com dor, quando era humano. Nessa quietude, ele parecia distante, algo outro.
Ela passou o tempo como sempre fazia: preparando-se. Afiando seu punhal e várias outras lâminas menores que mantinha escondidas. Mapeando rotas de fuga. Identificando os rostos dos espiões do Templo que agora vigiavam a padaria abertamente. Barnabé tentava pregar para os vizinhos, mas suas palavras se perdiam na tensão geral.
Na noite do segundo dia, Lia encontrou Caelus no telhado plano do prédio, olhando para as estrelas. O barulho da cidade era um murmúrio constante abaixo deles.
“Você não dorme”, ela afirmou, não uma pergunta. Ela se sentou ao seu lado, abraçando os joelhos.
“O sono requer um descanso que eu não posso ter”, ele respondeu, sem desviar os olhos do céu.
“Você está com medo?”, ela perguntou, a voz surpreendentemente suave.
Ele finalmente se virou para olhá-la. Havia uma vulnerabilidade em seus olhos que ela raramente via, uma dor antiga. “Não de Malaquias. Não de Roma.” Ele fez uma pausa, o conflito interno se manifestando em seu rosto. “O que me assusta, Lia, não é o que eles podem fazer comigo. É o que o Pai, através de mim, pode fazer com eles. O poder que move essas estrelas… não é gentil. Ele é justo. E a justiça divina, para os mortais, muitas vezes se parece com crueldade. Eu rezo não pela vitória, mas pela misericórdia. Por minha própria misericórdia. Para que eu não me perca na tempestade que está por vir.”
Aquela confissão o tornou humano novamente para ela. O terror não era do fracasso, mas do poder esmagador do sucesso. Ela não tinha palavras de teologia ou conforto. Então, ela ofereceu a única coisa que tinha. Ela estendeu a mão e pegou a dele. A mão de um carpinteiro. Calejada, forte. E terrivelmente humana.
“Então não se perca”, ela disse, a voz firme. “Seja apenas Caelus, o carpinteiro teimoso da Galileia que não sabe a hora de ficar quieto. O resto é só barulho.”
Ele apertou a mão dela, um gesto de gratidão silenciosa. Ficaram assim por um longo tempo, duas figuras solitárias em um telhado, sob um céu indiferente, esperando o amanhecer do terceiro dia.
E o amanhecer veio, vermelho como sangue derramado. O som que subiu da cidade não era o murmúrio habitual do despertar, mas o rugido baixo e crescente de uma multidão se reunindo. Dezenas de milhares de almas convergindo para um único ponto no mapa: as escadarias do Grande Templo.
Caelus se levantou, soltando a mão de Lia. Ele olhou para o horizonte, para o sol nascente que pintava as nuvens com fogo e glória. Ele respirou fundo o ar da manhã, um ar elétrico, carregado de expectativa e violência.
A hora havia chegado.

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