Capítulo 5 – O Rasto do Leão
O caos era uma sinfonia de gritos, aço contra aço e o som surdo de corpos caindo. A praça do Templo se transformara em um moinho de carne humana. Lia descia a escadaria, o corpo de Caelus um peso esmagador em seus ombros. O cheiro de seu sangue e do suor dela se misturavam no ar carregado de ozônio. Cada passo era uma decisão tática, um cálculo de risco em uma fração de segundo.
Ela se movia em diagonal, evitando o confronto direto entre os guardas do Templo e a turba enfurecida que subia. A turba era seu escudo. Empunhando paus, facas de açougueiro e pedras arrancadas do calçamento, os miseráveis de Kaelon haviam encontrado um propósito. A humilhação de Malaquias se tornara sua vitória, e eles estavam dispostos a morrer por ela. Uma mulher com o rosto marcado pela fome apunhalou um guarda do Templo na coxa com um fuso de tear. Um pescador corpulento esmagou o elmo de outro com uma marreta de quebrar pedras. Era a fúria dos oprimidos, anárquica e suicida.
Lia, no entanto, não compartilhava de seu fervor. Para ela, eles eram apenas o terreno, uma paisagem perigosa que ela precisava navegar. Ela viu uma brecha perto da lateral da escadaria. Com um grunhido, ela saltou por cima do parapeito de mármore de um metro de altura, aterrissando com um impacto que lhe roubou o fôlego em um canteiro de oliveiras ornamentais que agora estava pisoteado e destruído. O choque da queda enviou uma onda de dor por suas pernas, mas ela não parou. Estava fora da linha principal da batalha.
O som metálico e disciplinado da marcha romana se aproximava. As coortes avançavam como uma muralha de escudos e aço, seus scuta vermelhos interligados, os gládios curtos trabalhando como pistões mortais. Eles não corriam; avançavam, empurrando a multidão para trás, esmagando o motim com uma eficiência impiedosa. Não era uma batalha, era um extermínio.
“Eles não estão tentando prender ninguém”, Lia percebeu com um calafrio. “A ordem de Valerius foi ‘esmagar’. Ele quer a praça limpa. Viva ou morta.”
Isso significava que ela tinha minutos, talvez segundos, antes que a onda de aço romano a alcançasse. Ela se arrastou para as sombras da base do Templo, movendo-se ao longo da parede, longe do massacre que acontecia na praça aberta. O peso de Caelus era uma âncora, retardando-a, mas deixá-lo era impensável. A promessa dela a ele, e a promessa silenciosa a si mesma, era a única coisa que importava naquele mundo em chamas.
Ela parou atrás de uma grande coluna para recuperar o fôlego, o peito ardendo. Ela ajustou Caelus em seus ombros. O rosto dele estava pálido como a morte, e a respiração, um farfalhar quase imperceptível. O sangue de seu ouvido e nariz havia parado, mas sua pele continuava febril. Ele estava se consumindo por dentro.
Um grito a fez se virar. Um jovem da turba, não mais velho que Barnabé, tentou fugir da linha romana, mas tropeçou. Um legionário, o rosto uma máscara impassível sob o elmo, deu um passo à frente, e com um movimento rápido e econômico, cravou seu gládio nas costas do rapaz. Não houve hesitação, nem crueldade. Apenas uma eficiência terrível.
Lia desviou o olhar, o estômago revirado. Ela precisava sair dali. A rota para o Bairro dos Tecelões estava do outro lado da praça. Inacessível. Ela precisava de um novo plano.
Seus olhos varreram a arquitetura ao redor. O complexo do Templo era um labirinto de pátios, oficinas e alojamentos sacerdotais. Uma cidade dentro da cidade. Se ela pudesse entrar…
Ela viu uma pequena porta de serviço, provavelmente usada por servos ou para remover lixo. Estava um pouco entreaberta, esquecida no caos. Era a sua única chance. Ignorando a dor lancinante em suas pernas, ela correu os últimos vinte metros até a porta, o som da batalha atrás dela abafado pela parede do Templo. Ela empurrou a porta com o ombro e mergulhou na escuridão, fechando-a atrás de si bem a tempo de ouvir o som de sandálias romanas batendo no calçamento do lado de fora.
Ela estava em um corredor estreito e escuro, o ar parado e cheirando a óleo de lâmpada e incenso velho. O silêncio era tão abrupto e total que seus ouvidos zumbiam. Com cuidado, ela baixou Caelus, encostando-o suavemente na parede. Seu corpo caiu mole, a cabeça pendendo para o lado. Por um momento terrível, ela pensou que ele estava morto. Ela pressionou os dedos em seu pescoço. Uma pulsação. Fraca, irregular, mas estava lá.
Suspiro!
Um alívio tão profundo a atingiu que suas pernas cederam, e ela se sentou ao lado dele, o corpo tremendo com a adrenalina em retirada. Estavam seguros. Por enquanto.
Enquanto Lia lutava por sua vida e a de Caelus nos degraus de mármore, Barnabé corria como nunca correra antes. Ele não era um lutador, nem um corredor. Era um estudioso, filho de um comerciante, mais acostumado com pergaminhos do que com ruas em motim. Mas a ordem de Lia, e a imagem do rosto de Caelus o impulsionavam.
Ele mergulhou na multidão, o pequeno corpo se esgueirando pelas brechas que pessoas maiores não conseguiam. Ele ignorou os gritos, os corpos caídos, o medo que ameaçava paralisá-lo. As palavras de Caelus ecoavam em sua mente: Lembre-se da luz.
Mas a imagem que se recusava a sair de sua cabeça era a dos sacerdotes se contorcendo em agonia, do Sumo Sacerdote gritando com o peito incandescente. Aquele poder era aterrorizante. Era a ira de Deus em sua forma mais pura e assustadora. Era o Deus dos livros antigos, o Deus que partira o mar e enviara pragas. Era o Deus que Barnabé, em seu coração simples, secretamente temia. Seu Mestre era um canal para aquilo. E isso mudava tudo.
Ele finalmente saiu do aperto da praça e entrou nas ruas labirínticas da cidade baixa. Aqui, a notícia do que acontecera ainda era um boato confuso. As pessoas se amontoavam nas esquinas, olhando para a fumaça distante e o brilho do sol no Templo, tentando decifrar os sons da batalha.
Com o coração batendo na garganta, ele chegou à pequena pousada no Bairro dos Tecelões. Era um lugar miserável, escolhido por Lia por sua anonimidade e suas múltiplas rotas de fuga. Ele subiu as escadas e bateu na porta de um quarto específico, um ritmo codificado: dois toques curtos, um longo, um curto.
A porta se abriu uma fresta, e o rosto de um homem idoso e barbudo, outro dos primeiros seguidores de Caelus, apareceu. Seus olhos estavam cheios de medo.
“Barnabé! O que está acontecendo? Ouvimos os gritos!”
“O Mestre…”, Barnabé ofegou, empurrando a porta para entrar. Dentro do pequeno quarto, outros cinco seguidores estavam amontoados, rostos pálidos e assustados. “O Mestre enfrentou Malaquias. Ele… ele chamou por Deus. O Templo está ardendo.”
Um suspiro coletivo de espanto e medo encheu o quarto.
“E o Mestre? Onde ele está?”, perguntou uma jovem chamada Marta.
“Lia está com ele. Ela me disse para vir. Para reunir todos. Para esperar”, disse Barnabé, a urgência em sua voz. “Nós temos que estar prontos para partir.”
Um silêncio tenso se seguiu. Eles eram um pequeno grupo de pessoas comuns: um pescador, um coletor de impostos aposentado, duas mulheres que haviam sido curadas por Caelus, um artesão. Eles haviam abandonado tudo para seguir um homem que fazia milagres e falava de um novo Reino. Agora, a realidade daquela escolha – a fúria do Templo, a violência de Roma – caía sobre eles como uma pedra. A fé era fácil quando o Mestre estava lá, curando os doentes. Era muito mais difícil quando ele estava desaparecido e o som de uma cidade sendo rasgada ao meio ecoava do lado de fora.
De volta ao Praetorium, a calma do Prefeito Valerius havia retornado, mas era uma calma gélida, mortal. Ele estava de pé em seu terraço, observando a fumaça subir da praça. O massacre estava quase no fim. A disciplina romana havia prevalecido. A turba estava quebrada, os sobreviventes se dispersando como ratos. O saldo seria de centenas de mortos. Um número aceitável para restaurar a ordem.
Mas a ordem não havia sido restaurada. Apenas o caos havia sido suprimido. A causa do caos – o milagre aterrorizante – permanecia sem explicação.
Um centurião, o rosto manchado de fuligem e algo mais escuro, subiu as escadas e parou diante dele.
“Relatório, Prefeito. A praça está quase segura. Contamos mais de duzentos rebeldes mortos. Nossas baixas são mínimas. Alguns feridos.”
“E o sacerdote?”, perguntou Valerius, os olhos fixos nas ruínas fumegantes do Templo. O ouro derretido solidificara em estalactites grotescas nas paredes de mármore.
“O Sumo Sacerdote Malaquias foi retirado para seus aposentos. Ele está gravemente queimado. Mas vivo.” O centurião hesitou. “Meus homens que o viram dizem… dizem que as queimaduras não parecem de fogo comum, senhor.”
“Nada neste dia maldito é comum, centurião”, retrucou Valerius. Ele se virou. “E o Galileu? Caelus. Cadáver entre os mortos?”
“Não, senhor. Nós procuramos. Ele desapareceu.”
Valerius estreitou os olhos. “Desapareceu? Um homem não desaparece de uma praça cercada por duas coortes. Alguém o ajudou. Alguém o tirou de lá.” Sua mente tática começou a funcionar novamente, encontrando terreno familiar na caçada humana. “Ele está ferido. Ele não pode ir longe. Quero esta cidade fechada. Ninguém entra, ninguém sai. Patrulhas de busca em cada rua, cada casa, cada beco. Comecem pelo distrito portuário, onde ele tem mais apoio. Quero a cabeça dele em uma lança antes do anoitecer. O homem que zombou de Roma e incendiou seu próprio Templo não pode ser visto como vitorioso.”
“E os homens do Templo, senhor? As Serpentes… eles também estão caçando.”
Um sorriso frio tocou os lábios de Valerius. “Excelente. Deixe-os caçar. Ofereça uma recompensa. Mil denários pela sua captura, vivo. Cinco mil pela prova de sua morte. Deixe os cães de Malaquias e os caçadores de recompensa farejarem o rasto. E quando encontrarem o leão ferido… nós o tomaremos para nós.”
Ele sabia o que fazer agora. O milagre o assustara, mas suas consequências eram puramente políticas. Caelus não era mais um problema religioso. Ele era inimigo de estado. E Roma sabia como lidar com seus inimigos.
No corredor escuro do Templo, Lia sabia que ficar parada era morrer. Ela abriu a mochila de Caelus, um pequeno volume que ele carregava, e encontrou um odre de água. Ela umedeceu um pedaço de pano e limpou o rosto dele, tentando baixar a febre. Ele não reagiu.
Ela precisava movê-lo, mas para onde? Sair de volta para as ruas era suicídio. A cidade estaria em lockdown. A caçada já devia ter começado. Sua única chance era se aprofundar no território inimigo. No labirinto do Templo.
Ela o ergueu novamente, o esforço fazendo seus músculos gritarem. Ela começou a se mover pelo corredor, escolhendo direções que pareciam levar para longe das áreas principais. Ela passou por salas de armazenamento cheias de jarras de óleo e vinho, por escritórios com pergaminhos espalhados pelo chão, abandonados às pressas. O Templo estava estranhamente vazio. A maioria dos sacerdotes e servos ou estava na escadaria durante o confronto ou havia fugido em pânico.
Após o que pareceu uma eternidade, ela encontrou o que procurava: um pequeno alojamento, provavelmente de um sacerdote de baixo escalão. Era uma cela simples, com uma cama de palha, uma mesa e uma cadeira. Perfeito. Ela o deitou na cama, o corpo dele afundando no colchão.
Ela fechou e trancou a porta por dentro. Ela se aproximou de Caelus, o coração apertado de preocupação. Ele estava queimando de febre, a respiração ainda superficial. As “rachaduras” haviam sumido, mas sua pele parecia fina, quase translúcida. Ela rasgou um pedaço da própria túnica e começou a banhar o rosto e o pescoço dele com água fresca, em uma tentativa desesperada de lutar contra o fogo que o consumia.
Enquanto cuidava dele, ouviu vozes no corredor do lado de fora.
“…revistem tudo! O Sumo Sacerdote quer a cabeça do galileu e da mulher que o ajudou!”
Era a voz de um dos Leões do Templo. Estavam fazendo uma varredura sistemática.
Lia congelou, a mão pairando sobre a testa de Caelus. Ela sacou seu punhal, o aço frio um conforto familiar em sua mão. Eles estavam presos. Presos no coração do covil da besta, com seu campeão quebrado e inconsciente. A porta de madeira fina não os seguraria por mais de alguns segundos.
Ela olhou para o rosto sereno e pálido de Caelus, e depois para a porta. Seus lábios se curvaram em um rosnado silencioso. Se era ali que teriam sua última batalha, ela a faria cara. Ela não o entregaria. Não viva.

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