Capítulo 6 — Cinzas Sob a Pele
O cheiro foi a primeira coisa que voltou.
Não era o odor antigo de sangue seco nem o mofo comum das pedras esquecidas. Era algo diferente, intrusivo. Um cheiro metálico, áspero, como ferro queimado misturado a cinza fria. Um odor que não pertencia a lugar algum — e que, ainda assim, agora vivia dentro dele.
Caelus abriu os olhos.
A escuridão não se dissipou de imediato. Ela ondulava, espessa, como se o mundo estivesse coberto por uma película mal aplicada. Quando a visão começou a se organizar, ele distinguiu pedra acima de si — um teto baixo, irregular, sustentado por vigas antigas enegrecidas pelo tempo. Raízes finas atravessavam fendas como veias expostas, e gotas d’água caíam em intervalos irregulares, cada impacto ecoando alto demais no silêncio.
Dor.
Não era uma dor localizada. Não havia um ponto específico a que pudesse apontar. Era uma presença total, uma pressão interna que parecia empurrar contra os limites do corpo por dentro. Os ossos doíam como se estivessem rachados. O peito ardia a cada inspiração, não nos pulmões, mas mais fundo, onde a respiração deixava de ser mecânica e se tornava existência.
Ele tentou se mover.
O mundo girou violentamente.
Antes que pudesse cair para o lado, uma mão firme pressionou seu ombro. O toque foi imediato, sólido, humano. Não havia criação ali. Não havia transcendência. Apenas carne, força e decisão.
“Não,” disse uma voz baixa. “Fica.”
Lia.
O simples reconhecimento do nome ancorou algo dentro dele. Caelus respirou superficialmente, esperando que a vertigem passasse. Não passou — apenas recuou, como um animal que se afasta sem deixar o território.
“Se tentar se levantar agora,” ela continuou, “vai desmaiar. E se desmaiar outra vez, eu não sei se te trago de volta.”
Caelus piscou. Cada gesto parecia atravessar uma resistência invisível, como se o ar estivesse mais denso dentro do próprio corpo.
“Onde…?” A palavra saiu quebrada, incompleta.
“Embaixo,” Lia respondeu. “Abaixo de tudo que importa.”
Ele tentou sorrir. Não conseguiu.
“Quanto tempo?”
Ela hesitou. O silêncio que se seguiu foi mais informativo do que qualquer resposta imediata.
“Um dia,” disse por fim. “Talvez dois. Eu parei de contar quando o sino da guarda parou de tocar.”
Dois dias.
Algo dentro dele se retraiu, não por medo, mas por cálculo. Dois dias era tempo demais. O Silêncio não respeitava convalescença.
Quando tentou inspirar fundo, uma fisgada violenta atravessou seu peito. Não foi nos pulmões. Foi como se algo mais interno tivesse sido forçado a se abrir — e agora se recusasse a fechar.
Ele levou a mão ao tórax por instinto. Os dedos tremiam.
“Não faz isso,” Lia disse imediatamente. Ela se inclinou para frente, os olhos atentos. “Não agora.”
“Eu preciso—”
“Não.” A palavra veio seca, afiada. “Você não precisa de nada. Você quase morreu.”
Quase.
A palavra não tinha peso real para ele. Ou o corpo sustentava a criação, ou não sustentava. A linha entre uma coisa e outra nunca fora clara — até agora.
“Ele ainda está aqui,” Caelus murmurou.
Lia se enrijeceu. “Quem?”
“O peso,” ele disse. “Não foi embora.”
Ela fechou os olhos por um instante, como quem se prepara para ouvir algo inevitável.
“Claro que não foi,” respondeu. “Você despejou criação demais num lugar que já estava rachado. A cidade ainda está fechada. Patrulhas em todas as entradas. Pessoas presas porque viram demais. Outras porque disseram teu nome em voz alta.”
Ele abriu os olhos. O teto pareceu se afastar, como se a distância entre ele e o mundo tivesse aumentado de forma artificial.
“Quantos?” perguntou.
“Não sei,” Lia respondeu. “Mas mais do que zero. E isso já é demais.”
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era carregado de coisas não ditas, de escolhas feitas rápido demais para serem revistas.
Caelus tentou sentir a Criação como sempre fazia. Não chamou. Não forçou. Apenas buscou perceber.
Antes, era como calor sob a pele — constante, obediente. Agora, vinha em fragmentos. Havia zonas dentro dele que simplesmente não respondiam. Espaços mortos, como terra depois de um incêndio forte demais.
“Algo se quebrou,” ele disse.
Não foi lamento. Foi diagnóstico.
Lia assentiu lentamente. “Eu sei.”
Ele virou o rosto com esforço, até encontrá-la. Ela estava sentada no chão, as costas apoiadas na parede de pedra, uma faca apoiada entre os joelhos. Havia sangue seco na lâmina. Olheiras profundas marcavam seu rosto. Um corte recente no antebraço fora mal limpo, envolto em pano improvisado.
“Você matou alguém,” ele disse.
Não havia acusação em sua voz. Apenas reconhecimento.
“Dois,” Lia respondeu.
“Por mim?”
“Por você continuar respirando.”
Algo nele se contraiu. Não moralmente — fisicamente. Como se o corpo rejeitasse a ideia antes mesmo que a mente pudesse formulá-la.
“Eles iam chamar a guarda,” ela continuou. “Ou pior. Iam te vender como troféu. Eu não discuti.”
Ele fechou os olhos. Havia uma parte antiga dentro dele — anterior até à carne — que recusava aquilo. Mas essa parte estava enfraquecida. Não havia força suficiente para transformar rejeição em ordem.
“Eles vão continuar vindo,” Lia disse. “Templo. Roma. Gente comum querendo trocar teu nome por pão.”
“Eu sei.”
“E você não aguenta outro milagre como aquele.”
A frase caiu entre eles como uma pedra lançada num poço raso. Não havia eco. Apenas impacto.
Caelus tentou se sentar novamente, com mais cuidado. O mundo oscilou, mas não desabou. Suor frio brotou instantaneamente.
“Então não farei outro daqueles.”
Lia o encarou. “O que isso quer dizer?”
“Quer dizer,” ele respondeu, a voz mais fraca do que gostaria, “que eu não posso mais incendiar o mundo toda vez que ele sangra.”
Ela soltou uma risada curta, sem humor. “As pessoas lá fora acham que você é o incêndio.”
Ele apoiou as costas na pedra. O frio atravessou a túnica e entrou direto na pele.
“Chama demais também apaga,” murmurou.
Passos ecoaram no corredor estreito além da câmara. Lia se moveu instantaneamente, faca na mão, corpo tenso. Um vulto surgiu da sombra — Barnabé. Sujo, exausto, os olhos fundos de vigília prolongada.
Quando viu Caelus acordado, parou como se tivesse encontrado uma parede invisível.
“Você…” A voz falhou. “Você voltou.”
Caelus tentou sorrir. Não conseguiu.
Barnabé se aproximou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse desfazer aquilo. Ajoelhou-se ao lado dele.
“Eles dizem que você incendiou o Templo,” disse. “Que o céu escureceu. Que Roma vai esmagar metade da cidade pra provar que não tem medo.”
Caelus respirou fundo. A dor veio, mas não o derrubou.
“E o que você diz?” perguntou.
Barnabé hesitou. Pela primeira vez desde que o conhecia.
“Eu digo… que não sei mais o que você é.” Engoliu em seco. “Mas sei que o mundo não saiu ileso de te conhecer.”
Caelus olhou para as próprias mãos. Ainda eram mãos humanas. Calejadas. Tremendo levemente.
“Nem eu,” disse.
Algo se moveu dentro dele então. Não luz. Não poder. Algo mais frio. Mais preciso. Uma consciência que não pedia, apenas calculava.
Se continuasse assim, o corpo falharia.
Se parasse, o Silêncio avançaria.
Entre criar e calar, não havia escolha limpa.
Apenas custos.
Caelus fechou os olhos.
Pela primeira vez desde que deixara a Galileia, ele não pediu força.
Ele começou a planejar.

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