A cidade não acordou.

    Ela permaneceu desperta.

    Havia algo de errado na maneira como o escuro se agarrava às ruas naquela noite — não como ausência de luz, mas como retenção. As tochas queimavam mais baixo do que o normal. As janelas permaneciam entreabertas, nunca totalmente fechadas, como se todos temessem perder algum som importante. O medo não exigia vigília absoluta; exigia atenção contínua.

    Caelus sentiu isso antes de ver.

    Ainda recostado contra a parede fria da câmara subterrânea, percebeu a alteração como uma pressão distante, semelhante à que antecede uma tempestade sem vento. Não era o Silêncio — ainda não. Era algo mais caótico. Humano.

    Lia foi a primeira a se mover.

    Ela não disse nada. Apenas guardou a faca, ajustou o pano no braço ferido e passou a mão pela parede até alcançar a abertura estreita que servia de saída. Seus olhos se demoraram no escuro além da pedra, calculando trajetos invisíveis.

    “Eles não estão procurando,” murmurou. “Ainda.”

    Barnabé se aproximou dela com cautela. “Como sabes?”

    “Porque quem procura faz barulho,” respondeu. “Isso aí fora é outra coisa.”

    Caelus fechou os olhos por um instante. O corpo ainda protestava a cada movimento mínimo, mas a consciência permanecia clara — mais do que estivera em dias. Planejar não lhe dera descanso, mas dera estrutura. E estrutura, descobria agora, aliviava parte da dor.

    “Estão esperando,” disse ele.

    Lia assentiu sem olhar para trás. “Exato.”

    Barnabé franziu a testa. “Esperando o quê?”

    Caelus abriu os olhos e fitou o teto irregular da câmara, como se pudesse ver através dele. “Que algo aconteça,” respondeu. “Qualquer coisa.”

    O mundo não precisava entender. Precisava apenas reagir.

    A decisão de sair não foi anunciada.

    Não houve palavra solene nem sinal acordado. Lia simplesmente se moveu, e o corpo de Caelus respondeu com atraso, como se ainda estivesse aprendendo a obedecer a intenções menos impulsivas. Barnabé os seguiu, mantendo distância suficiente para não interferir, próximo o bastante para não perder nenhum deles.

    A saída estreita exigia cuidado. Um passo em falso ali não faria barulho suficiente para alertar guardas, mas bastaria para denunciar nervosismo. Caelus concentrou-se no ritmo da respiração — curta, medida, quase mecânica. Cada passo era uma negociação silenciosa com o corpo.

    Quando emergiram na rua, o ar noturno pareceu mais pesado do que deveria.

    Não havia ninguém visível. Ainda assim, a sensação de observação era constante, como se o espaço estivesse ocupado por olhos invisíveis, treinados não para ver, mas para interpretar.

    Lia fez um gesto rápido, indicando o beco à esquerda.

    “Não vamos pelo caminho rápido,” disse em voz baixa. “Vamos pelo que cansa.”

    Barnabé engoliu em seco. “Isso aumenta o risco.”

    “Diminui o padrão,” ela respondeu.

    Caelus não interferiu. Havia aprendido — dolorosamente — que escolher onde não agir era tão importante quanto escolher onde agir. Confiar nela fazia parte do plano, ainda incompleto, ainda frágil.

    Avançaram.

    A cidade oferecia resistência silenciosa. Portas rangiam levemente mesmo sem serem tocadas. Um cão latiu à distância e foi rapidamente silenciado. Em uma esquina, uma mulher recolheu o filho com pressa exagerada, evitando olhar diretamente para Caelus — mas não rápido o bastante para não reconhecê-lo.

    Ele sentiu o impacto dessa percepção como um deslocamento interno.

    Não era reverência. Nem medo puro.

    Era expectativa.

    Continuaram.

    Em determinado ponto, ouviram vozes. Não próximas — mas próximas o suficiente para que qualquer palavra dita em tom normal fosse captada. Lia desacelerou ainda mais o ritmo, tornando-se quase parte da sombra projetada pelo muro.

    As vozes discutiam.

    “Eu vi,” dizia um homem. “Não foi fogo. Foi como se a coisa… crescesse.”

    “Isso não existe,” respondeu outro. “Se existisse, o Templo teria dito.”

    “O Templo não diz tudo.”

    Um terceiro riu. Um riso nervoso, rápido demais. “Claro que diz. Se não disse, é porque não aconteceu.”

    Caelus sentiu o impulso surgir — não de intervir, mas de corrigir. De alinhar o mundo com o que realmente ocorrera. A Criação respondeu ao impulso como um músculo que se contrai sem executar o movimento.

    Ele recuou internamente.

    Lia lançou-lhe um olhar rápido. Um aviso silencioso.

    Passaram despercebidos.

    Saíram da parte mais densa da cidade pouco antes do amanhecer. Não para campos abertos — isso seria óbvio demais — mas para uma zona de transição: oficinas abandonadas, depósitos vazios, terrenos onde nada florescia havia anos. Um lugar esquecido o bastante para não ser patrulhado, visível o bastante para não levantar suspeitas.

    Ali, Caelus sentiu a primeira fissura real na decisão de contenção.

    Uma criança estava sentada à entrada de uma oficina, os joelhos abraçados ao peito, o rosto sujo de poeira seca. Não chorava. Observava. Quando os viu, não correu. Não chamou ninguém.

    Apenas disse: “Você é ele.”

    Não foi pergunta.

    Barnabé parou imediatamente. Lia levou a mão à faca, não por ameaça, mas por hábito.

    Caelus parou.

    A criança o encarava com uma serenidade estranha, não infantil. Havia ali curiosidade, sim, mas também cálculo — uma tentativa de entender qual reação produziria o melhor resultado.

    “Quem te disse isso?” Caelus perguntou.

    “Meu pai,” respondeu a criança. “Antes de ir embora.”

    “Ele foi para onde?”

    Ela deu de ombros. “Disse que precisava ver se era verdade.”

    Lia soltou um suspiro quase imperceptível.

    Barnabé parecia prestes a falar, mas se conteve.

    A criança continuou: “Ele disse que se você fosse real, o mundo ia mudar. Se não fosse, pelo menos ia acabar logo.”

    Caelus sentiu o peso da frase atravessar o peito mais profundamente do que qualquer dor física recente.

    “E o que você acha?” perguntou.

    Ela pensou por um momento. “Acho que ninguém gosta quando as coisas mudam devagar.”

    Silêncio.

    A Criação respondeu novamente — não com força, mas com presença. Um leve ajuste no ar, quase imperceptível, como se algo estivesse pronto para ser feito, aguardando autorização.

    Caelus não deu.

    Ele se ajoelhou com cuidado, sentindo o protesto imediato do corpo. Manteve os olhos no nível da criança.

    “Não posso fazer nada agora,” disse. Não como desculpa. Como fato.

    Ela assentiu. “Eu sei.”

    Isso o surpreendeu.

    “Como sabes?”

    “Porque se pudesse, já tinha feito,” respondeu, simples. “É assim que funciona.”

    Lia observava a cena com tensão controlada. Aquilo não fazia parte de nenhum plano.

    Barnabé respirava mal.

    “Você vai ficar bem?” Caelus perguntou.

    A criança inclinou a cabeça. “Não sei. Mas sempre fico.”

    Ele assentiu.

    Levantou-se com esforço. A Criação recuou, frustrada, mas obediente.

    Quando se afastaram, Barnabé falou em voz baixa: “Você podia—”

    “Não,” Caelus respondeu, sem dureza.

    “Ela não pediu,” completou Lia. “Ela testou.”

    Continuaram.

    Quando o sol finalmente rompeu o horizonte, o mundo parecia falsamente normal. Pássaros cantavam. Trabalhadores começavam a surgir, fingindo que o dia anterior fora apenas mais um. A normalidade era uma defesa antiga.

    Foi nesse estado que o primeiro rumor realmente os alcançou.

    Um homem corria pela estrada lateral, ofegante, gesticulando enquanto falava com quem quisesse ouvir. Quando os viu, diminuiu o passo, os olhos arregalados.

    “Vocês ouviram?” perguntou, sem esperar resposta. “Ele não fez nada.”

    Caelus sentiu o impacto da frase como uma inversão completa do esperado.

    “O quê?” Barnabé perguntou.

    “O homem,” disse o corredor. “O do Templo. Dizem que ele não fez mais nada desde então. Nem um sinal. Nem uma palavra.”

    Lia franziu o cenho. “E isso é rumor agora?”

    O homem riu. “Claro que é. O mundo não gosta de silêncio.”

    Ele se afastou, continuando a espalhar a notícia como se fosse escândalo.

    Caelus absorveu aquilo lentamente.

    Não agir também deixava rastro.

    E, talvez, um mais perturbador.

    Pararam apenas quando o corpo de Caelus exigiu isso de forma inequívoca. Não por dor aguda — por falha iminente. Uma antiga casa de pedra, meio colapsada, oferecia abrigo temporário. Entraram sem cerimônia.

    Lia fez a inspeção rápida. Barnabé sentou-se perto da porta.

    Caelus recostou-se na parede, fechando os olhos.

    O mundo não o perseguira. Não ainda.

    Mas o mundo falava.

    E falaria mais.

    Ele sentiu, pela primeira vez desde que começara a caminhar fora da Galileia, algo próximo de antecipação.

    Não pelo que faria.

    Mas pelo que escolheria não fazer — e pelo preço que isso cobraria.

    O plano ganhava forma, não como solução, mas como contenção dinâmica. Uma série de saídas estreitas, sempre disponíveis, sempre custosas.

    E Caelus compreendeu, com clareza desconfortável, que aquele seria o padrão dali em diante.

    Não mais incêndios.

    Apenas caminhos que quase ninguém queria percorrer.

    E, mesmo assim, alguém sempre o seguiria.

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