Capítulo 22 │Decisão
A noite passou sem sobressaltos.
Arin dormiu no sofá — o mesmo sofá duro, a mesma coberta de lã que cheirava a fumaça de lenha e sabão de cinza. Acordou algumas vezes com o ronco de Jasper, que tinha se movido durante a noite e agora ocupava três quartos do tapete, os braços e pernas abertos como uma estrela-do-mar.
Mas não foi o ronco que o tirou do sono pela última vez.
Foi a luz.
Uma luz diferente. Mais dourada. Mais macia.
Arin abriu os olhos devagar. A cortina da janela estava entreaberta — ele não se lembrava de ter deixado assim. Através da fresta, um feixe de luz entrava na sala, iluminando as partículas de poeira que flutuavam no ar.
O primeiro sol — Ael — estava nascendo.
Arin ficou parado por um momento, apenas observando. As partículas de poeira dançavam lentamente, como pequenas estrelas sem pressa. O fogo na lareira tinha virado brasa — um vermelho escuro que ainda esquentava, mas não queimava.
A casa estava silenciosa.
Não o silêncio vazio do Entre-meio. Um silêncio cheio. A respiração de Jasper no tapete. O vento lá fora, leve, balançando as folhas das árvores. O galo distante, já cansado de cantar.
Arin sentou-se devagar. A manta de lã escorregou dos ombros dele e caiu no chão.
Ele olhou ao redor.
Jasper estava de bruços no tapete, a boca aberta, uma das mãos enfiada dentro da camisa, a outra estendida para o lado como se estivesse tentando agarrar alguma coisa no sonho. A camisa estava suja de mingau — o mesmo mingau do café da manhã anterior. Helga não tinha lavado ainda. Ou tinha lavado e Jasper tinha sujado de novo.
Provavelmente a segunda opção.
O menino parecia tão pequeno ali. Tão frágil. O cabelo loiro — desbotado pelo sol, quase branco nas pontas — estava bagunçado, cheio de nós. Uma das pernas da calça estava enrolada até o joelho. O outro pé estava descalço.
Ele vai sentir minha falta, pensou Arin. A certeza veio sem esforço, como se fosse uma memória de Nox. Ele sempre sente. Toda vez que eu vou para a oficina, ele fica sentado na soleira da porta, jogando pedras e conversando sozinho. Quando eu volto, ele corre para me abraçar como se eu tivesse voltado de uma guerra.
E agora eu vou embora de verdade.
Por dias.
Talvez mais.
Arin desviou o olhar. Não podia pensar nisso agora.
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Ele se levantou, os pés descalços tocando o assoalho frio. O chão rangeu — um rangido baixo, grave, que ele já conhecia. Era a tábua perto da lareira, a que ficava solta desde que ele era pequeno. Helga já tinha pregado aquela tábua umas três vezes, mas sempre soltava de novo. Nox tinha desistido de tentar consertar.
A cozinha estava vazia. O fogão estava frio. A panela da sopa da noite anterior ainda estava de molho na bacia de pedra — Helga tinha deixado de molho para não precisar esfregar tanto depois. A jarra de água estava na mesa, quase vazia. Uma vela queimada até o fim estava no castiçal de ferro, a cera escorrida formando uma pequena montanha amarelada.
Helga não estava. Elena também não.
Arin subiu a escada.
Os degraus rangeram — ele já sabia quais evitar. Pisou nos lugares que Nox pisava. Fez o mínimo de barulho possível. A mão esquerda deslizou pelo corrimão de madeira, sentindo a textura áspera, os nós, as lascas soltas. Nox conhecia cada centímetro daquele corrimão. Tinha escorregado por ele quando era menor. Tinha batido o queixo. Tinha chorado. Helga tinha limpado o sangue e dito “vai passar”.
E passou. Como tudo passa.
A porta do quarto — o quarto de Nox — estava entreaberta. Não completamente aberta, não completamente fechada. Entreaberta. Como se quem tivesse fechado não tivesse certeza se queria privacidade ou companhia.
Arin empurrou devagar.
A madeira rangeu — um rangido agudo, diferente dos degraus. Ele já conhecia aquele rangido também. Sabia que a dobradiça de cima estava enferrujada. Sabia que Helga já tinha passado óleo nela duas vezes, mas a ferrugem sempre voltava. Sabia que Nox já tinha pensado em trocar a dobradiça, mas nunca teve dinheiro para comprar uma nova.
O quarto estava iluminado por uma luz pálida, quase azulada. A cortina estava fechada, mas a luz da manhã — dos dois sóis — atravessava o tecido fino, criando um brilho suave, difuso, sem sombras.
Elena estava na cama. Não dormindo. Sentada. Com as costas apoiadas na parede, os joelhos puxados contra o peito, os braços abraçando as próprias pernas. A manta de lã — a mesma que Helga tinha dado a ela na noite anterior — estava enrolada nos ombros, cobrindo os braços, deixando apenas o rosto de fora.
O cabelo loiro estava solto, caindo sobre os ombros e as costas como uma cascata de linho claro. Estava úmido — ela tinha lavado o rosto, talvez o cabelo inteiro, na bacia do lavabo enquanto Arin ainda dormia.
Os olhos dela estavam abertos. Fixos na parede à frente. Não pareciam ver a parede. Pareciam ver alguma outra coisa, algum lugar distante, alguma lembrança.
Arin ficou parado na porta por um momento. Não sabia se entrava. Não sabia se devia.
Você já entrou outras vezes, disse uma voz na cabeça dele. A voz de Nox, talvez. Ou a voz dele mesmo. Na noite passada, você entrou. Ela não mandou você embora.
Ele entrou. Os pés descalços fizeram um som seco no assoalho — tap, tap, tap. Cada passo era um pequeno anúncio. Cada pequeno anúncio era uma chance para ela dizer “sai” ou “deixa eu sozinha”. Ela não disse nada. Apenas continuou olhando para a parede.
Arin sentou-se na beirada da cama. O colchão de lã afundou sob seu peso. A cama rangeu — um rangido grave, diferente do rangido da porta, diferente do rangido da tábua solta. Era o rangido das cordas que seguravam o colchão, esticando sob o peso de dois corpos — mesmo que um deles estivesse apenas sentado na beirada.
O silêncio se estendeu. Longo. Pesado. Mas não sufocante.
— Bom dia — Arin disse finalmente. A voz saiu baixa, quase um sussurro. Não queria quebrar o silêncio. Apenas queria fazer companhia.
Elena piscou. As pálpebras dela se moveram devagar, como se estivessem pesadas — não de sono, de pensamento. Ela virou a cabeça, os olhos azuis encontrando os dele.
— Bom dia — ela respondeu. A voz estava rouca, mas não trêmula. A voz de quem já chorou — mas não agora. Agora ela estava calma.
— Não dormiu? — Arin perguntou.
— Dormi. Um pouco.
— Parece que não.
Ela quase sorriu. Foi um movimento pequeno, no canto dos lábios, quase imperceptível. Mas Arin viu.
— Você sempre fala o que pensa? — ela perguntou.
— Quase sempre. — Arin deu de ombros. — Às vezes é um problema.
— Com a sua mãe?
— Com todo mundo. — Ele fez uma pausa. — Até com o Jasper.
— O que o Jasper fez?
— Ele perguntou se eu gostava do bolo de mel. Eu disse que sim. Ele disse que eu estava mentindo porque eu nunca comi o bolo de mel.
— E você comeu?
— Não. Por isso ele descobriu que eu estava mentindo.
Ela riu. Foi uma risada curta, baixa, mas real. Não a risada desesperada da tempestade. Não a risada educada da venda. Era uma risada pequena, íntima, como se ela tivesse esquecido que alguém podia ouvir.
— Jasper é esperto — ela disse.
— Ele é uma peste. Mas é esperto.
Ela riu de novo. Dessa vez um pouco mais alto.
O silêncio voltou, mas não era mais pesado. Era um silêncio confortável, como o silêncio entre duas pessoas que não precisam falar o tempo todo.
Elena baixou os olhos para as próprias mãos. Estavam apoiadas nos joelhos, as palmas para cima, os dedos ligeiramente curvados. As unhas estavam pintadas de azul — um azul claro, quase da cor do céu quando o segundo sol está se pondo. Algumas estavam lascadas, descascando nas pontas.
— Sua mãe — Elena começou, a voz mais baixa agora. — Ela vai querer conversar hoje.
— Vai. — Arin já sabia. Helga não era de adiar coisas importantes. “Conversamos amanhã” significava “vamos conversar amanhã de manhã, antes que qualquer outra coisa atrapalhe”.
— Sobre o que eu vou fazer.
— Sobre o que nós vamos fazer — Arin corrigiu.
Ela levantou os olhos. Os olhos azuis estavam cansados. Não apenas de sono — de vida, de carregar coisas pesadas sozinha. Arin conhecia aquele cansaço. Ele via no espelho todas as manhãs. Ou via no rosto de Nox, que era o rosto dele agora.
— Você não precisa ir comigo — ela disse.
— Eu sei.
— É perigoso.
— Eu sei.
— Você pode morrer.
— Também sei.
Ela ficou em silêncio, os olhos azuis fixos nele. Não com raiva, não com frustração. Com alguma outra coisa. Arin não sabia nomear aquilo.
— Por quê? — ela perguntou. — Por que você faria isso? Você mal me conhece.
— Você já perguntou isso.
— E você não respondeu direito.
Arin suspirou. Ele olhou para a janela, para a cortina fechada, a luz que atravessava o tecido, as sombras duplas que se formavam no chão — uma mais escura, outra mais clara, uma ligeiramente deslocada em relação à outra. Dois sóis. Sempre dois sóis.
Ele não podia dizer a verdade. Não podia dizer: Eu sou um escritor de trinta e quatro anos que foi transportado para dentro do próprio livro. Eu criei este mundo. Eu sei que ele vai acabar. Eu sei que todos aqui vão morrer se eu não fizer nada. Ela não ia acreditar. Ou ia, e aí o problema seria maior.
Então ele disse uma verdade menor. Mas ainda verdade.
— Porque se fosse eu no seu lugar — ele disse, a voz mais baixa —, eu gostaria que alguém fizesse o mesmo por mim.
Ela olhou para ele. Demorou. Os olhos azuis percorreram o rosto dele — o nariz fino, o queixo quadrado, a pele coberta de sardas que ele começava a reconhecer como suas. As sardas de Nox. Que agora eram suas.
— Você é estranho — ela disse.
— Jasper já disse isso.
— Jasper é inteligente.
— Vocês dois precisam parar de combinar contra mim.
Ela riu. Foi uma risada gostosa. Arin sentiu os ombros relaxarem um pouco.
Eles ficaram ali por mais alguns minutos. Sentados na cama. Em silêncio. A luz da manhã atravessando a cortina. O vento lá fora balançando as folhas. O galo distante, agora silencioso.
A respiração de Elena foi ficando mais lenta, mais regular.
— Nox? — ela chamou, a voz pastosa de sono.
— Hum?
— Obrigada.
— Já agradeceu.
— Sei. Mas é sempre bom repetir.
Arin não respondeu. Apenas ficou ali. Sentado na beirada da cama. Fingindo que não precisava descer. Fingindo que não precisava encarar o dia.
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Mas o dia chegou.
Helga chamou do andar de baixo.
— Nox! Elena! O café está na mesa!
A voz de Helga ecoou pela casa, subindo a escada, passando pelo corredor, entrando pelo vão da porta entreaberta. Não era um grito. Era um comando. Helga não gritava. Helga comandava.
Arin se levantou. Elena também. Ela ajeitou a manta nos ombros, passou os dedos pelo cabelo — não para arrumar, apenas para tirar os nós mais óbvios. Os olhos dela encontraram os de Arin por um segundo.
— Vamos? — ela perguntou.
— Vamos.
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O café da manhã foi rápido. Mas rápido não no sentido de apressado. Rápido no sentido de silencioso. Todos estavam ali — Helga à cabeceira da mesa, Arin à esquerda, Jasper à direita, Elena na ponta, perto da janela. A luz da manhã entrava pelos vidros grossos e cheios de bolhas, criando pequenos arco-íris nas bordas.
Helga tinha preparado ovos mexidos com pedaços de pão amanhecido. Não havia muito mais na despensa — a farinha estava acabando, o queijo tinha acabado na véspera, e a banha estava no fundo do pote. Ela não reclamou. Apenas serviu, comeu, lavou os pratos.
Jasper mastigou em silêncio. Isso por si só já era estranho. Jasper nunca mastigava em silêncio. Jasper mastigava fazendo barulho, falando de boca cheia, contando histórias que ninguém tinha pedido. Mas hoje ele estava quieto. Os olhos castanhos iam de Helga para Arin para Elena, como se tentasse decifrar alguma coisa que os adultos não estavam dizendo.
Arin sentiu o peso daqueles olhos.
Ele sabe, pensou. Ele não sabe o quê, mas sabe que alguma coisa está acontecendo. Crianças sabem. Elas sentem.
Helga terminou de lavar os últimos pratos e enxugou as mãos no avental. O avental de couro estava manchado de farinha e gordura — os mesmos manchas de sempre. Ela não tinha trocado de avental em dias. Talvez não tivesse outro.
Ela se sentou à mesa. Os olhos azuis escuros — os mesmos olhos que tinham visto o marido morrer, que tinham visto os soldados baterem nela, que tinham visto o filho voltar ensanguentado da floresta — fixaram-se em Elena.
— Agora — ela disse. — Conte.
Ela não especificou o que era. Não precisava.
Elena respirou fundo.
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Ela contou.
Não foi uma história longa, mas Arin sentiu cada palavra pesar.
Ela contou sobre os pais. Não muitos detalhes — apenas o suficiente. A voz do pai, grave e calma. O cheiro da mãe, flores e algo doce. A febre que levou os dois — rápida, violenta, silenciosa. Os médicos não conseguiram fazer nada. Ninguém conseguiu.
— Eu era pequena — Elena disse, a voz mais baixa agora. — Não lembro de muita coisa. Só… fragmentos. A mão da minha mãe segurando a minha. O rosto do meu pai, pálido na cama. Depois… nada. Só silêncio.
Helga não perguntou nada. Apenas esperou.
— Eu fiquei com outras pessoas — Elena continuou. — Pessoas que não me queriam por perto. Não me maltratavam, mas… eu era uma lembrança. Uma lembrança do que tinham perdido. Do que tinha acontecido.
— Depois? — Helga perguntou.
— Depois meu tio me tirou de lá. — A voz de Elena ficou mais firme. Ela levantou o queixo. — Ele me levou para a casa dele, no campo. Me ensinou a ler, a escrever, a jogar facas, a cavalgar. — Ela fez uma pausa. — Ele é a única família que eu tenho.
— E agora ele está doente — Helga completou.
— Agora ele está doente. — Elena apertou as mãos sobre a mesa. Os nós dos dedos estavam brancos. — A última carta que recebi, ele mal conseguia escrever. A letra estava toda tremida. Ele disse… ele disse que queria me ver antes de…
Ela não terminou.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não sufocante. Arin sentiu o peito apertar — não por ele, por ela. Por uma garota de catorze anos que estava sozinha no mundo, tentando chegar até a única pessoa que ainda a amava.
Como Jasper, pensou. Como Jasper se sente em relação a Helga. Como Nox se sente. Como eu me sinto em relação a pessoas que nunca mais vou ver.
Helga ficou em silêncio por um momento. Depois, levantou-se. Foi até a jarra de água. Encheu três canecas — uma para ela, uma para Arin, uma para Elena. Voltou. Sentou-se.
— Qual é o nome do seu tio? — Helga perguntou.
Ela hesitou. Por um segundo, apenas um segundo, os olhos azuis de Elena se desviaram. Não para Arin, não para Helga. Para a janela. Para o céu lá fora. Para os dois sóis que começavam a romper as nuvens.
— Albannir — respondeu. — Ele se chama Albannir.
O nome ecoou na mente de Arin.
Albannir. Eu conheço esse nome.
Não era uma memória de Nox. Nox nunca tinha ouvido falar de Albannir. Era uma memória de Arin. De quando ele escreveu os livros. De quando ele pesquisou a história do reino.
Albannir. Irmão mais novo do rei Cristopher. O que não quis o trono. O que preferiu viver no campo. O que criou a filha do irmão morto.
Arin guardou a informação. Não disse nada. Apenas observou.
Helga, porém, não pareceu reconhecer o nome. Ela apenas acenou, como se estivesse registrando uma informação útil, e continuou.
— Graventhal fica longe — ela disse.
— Alguns dias. — Elena recostou-se no banco. Os ombros dela estavam tensos, mas a voz estava calma. — De carroça, três. A cavalo, um dia e meio. Andando, uma semana.
— Você ia andando?
— Se não tivesse outro jeito.
— E você não tem dinheiro para carroça nem cavalo.
— Não.
— Por que o mercador não te levou?
— Ele queria pagamento adiantado. — Elena fez uma careta — não de raiva, de frustração. — Meu dinheiro ficou na capital. Meu tio ia mandar, mas houve um atraso. Uma das estradas foi interditada por causa dos soldados… — Ela fez uma pausa. — Eu não podia esperar.
Helga inclinou a cabeça.
— Por que não?
Ela não disse “você podia esperar”. Ela disse “por que não?”.
Elena apertou os lábios.
— Porque se eu esperasse… — ela começou. Parou. Recomeçou. — Porque na última carta, ele disse que não tinha muito tempo. Ele nunca disse isso antes. Ele sempre dizia que estava bem, que era só uma gripe, que não precisava me preocupar. Mas dessa vez… — A voz dela falhou. — Dessa vez ele não mentiu.
O silêncio voltou.
Helga olhou para Arin. Arin olhou para Helga.
— Nox vai com você — Helga disse.
Não foi uma pergunta. Foi uma ordem.
Arin abriu a boca para protestar — não porque não quisesse ir, mas porque a ideia de deixar Helga sozinha com Jasper doía de um jeito que ele não conseguia explicar. O peito apertou. A garganta secou.
— Mãe…
— Não discute, Nox. — A voz de Helga estava calma, mas não deixava margem para discussão. Os olhos azuis escuros estavam fixos nele. — Você vai.
— Mas…
— Você enfrentou soldados. Enfrentou duas serpentes rubras. Sobreviveu. — Ela inclinou a cabeça. — Acha que uma estrada é pior do que tudo isso?
Arin calou a boca. Ela tinha razão. Como sempre.
— Mas e Jasper? — ele perguntou. A voz saiu mais baixa do que ele queria. — E a senhora?
— A gente fica. — A voz de Helga estava firme, mas Arin viu algo nos olhos dela — um brilho, uma umidade, quase lágrimas. Ela não chorava na frente dos filhos. Nunca. Nem quando o caixão do pai foi enterrado. Nem quando a conta da farinha veio mais alta do que o esperado. Nem quando os soldados bateram nela.
Ela espera os filhos dormirem, pensou Arin. Aí ela chora. No silêncio. No escuro. Sozinha.
Nox sabe disso. Agora eu também sei.
— A gente não vai morrer só porque você foi embora por uns dias — Helga disse.
— Uma semana — Elena murmurou. — Talvez mais.
— Uma semana. — Helga repetiu a palavra, como se estivesse testando o peso dela na língua. — Não é muito. A gente aguenta.
Jasper, que até então estava mastigando pão em silêncio, levantou a cabeça.
Os olhos castanhos estavam grandes. Muito grandes. E brilhando.
— O Nox vai embora?
O silêncio que se seguiu foi diferente dos outros. Foi um silêncio que apertou.
Arin olhou para o irmão. Para o menino de oito anos, descalço, com a camisa manchada de mingau — o mingau do café da manhã anterior, Arin tinha certeza — e o cabelo loiro bagunçado, cheio de nós, com algumas folhas secas presas nas pontas.
Ele dormiu no tapete, pensou Arin. Ele sempre dorme no tapete quando está preocupado. Quando os soldados vêm. Quando Helga machuca o joelho. Quando eu vou para a floresta.
Ele dorme no tapete para ficar perto da porta. Para ver quem entra. Para ver se eu volto.
— Só por uns dias — Arin respondeu. A voz saiu mais suave do que ele queria. — Vou ajudar a Elena a chegar até o tio dela.
Jasper franziu o nariz.
— E ela não pode ir sozinha?
— Não.
— Por quê?
— Porque é perigoso.
— Então por que você vai?
— Porque… — Arin hesitou. Ele não podia dizer “porque eu preciso”. Não podia dizer “porque eu sei o que vai acontecer com este reino”. Não podia dizer “porque se eu não fizer nada, todos vocês vão morrer”.
Ele olhou para Elena. Ela estava com os olhos baixos, as mãos apoiadas na mesa, os dedos ainda brancos de tão apertados.
Ela está com medo, pensou Arin. Não de viajar. De chegar tarde demais. De perder a única pessoa que ainda a ama.
Como Jasper. Como Jasper perderia Helga.
— Porque é a coisa certa a fazer — Arin disse.
Jasper ficou em silêncio por um longo momento. A mandíbula dele tremia ligeiramente — aquele tremor que ele fazia quando estava segurando o choro, quando não queria que ninguém visse as lágrimas.
Ele não chora na frente dos outros, pensou Arin. Ele aprendeu com Helga. Nox também aprendeu. Todos eles aprenderam a não chorar.
— Você volta? — Jasper perguntou. A voz estava diferente. Mais pequena. Mais menino.
— Volto.
— Promete?
Arin olhou para o irmão. Para os olhos castanhos que já tinham visto tanta coisa — soldados, violência, a mãe machucada, o irmão ensanguentado. Para o menino que ainda acreditava em promessas.
Eu não posso quebrar essa promessa, pensou. Não posso.
— Prometo — ele disse.
Jasper assentiu. Uma vez. Depois voltou a comer o pão, mastigando devagar, os olhos fixos na mesa.
Ele não chorou. Mas Arin viu o queixo dele tremer.
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