Capítulo 15 │Estou de Volta
A floresta ficou em silêncio por um longo tempo depois que o garoto de branco desapareceu entre as árvores. Arin continuou parado no meio da clareira, os dentes e as escamas pesando na palma da mão, o sangue das serpentes já começando a secar entre seus dedos.
Os corpos das criaturas estavam ali, enormes, imóveis, espalhados como montanhas de escamas vermelhas. O cheiro de enxofre ainda pairava no ar, misturado com o cheiro metálico de sangue e terra revirada. Moscas já começavam a zumbir ao redor dos cadáveres, atraídas pelo banquete inesperado.
Arin fechou a mão em torno dos dentes. As pontas afiadas cutucaram sua pele, mas ele não se importou. Sua mente ainda estava processando tudo o que tinha acontecido.
O garoto. As correntes. O poder.
A jornada de volta foi longa e confusa. Arin não sabia exatamente onde estava — a fuga desesperada da serpente o levou para dentro da floresta, muito além de qualquer marcação que tivesse feito. Mas o corpo de Nox parecia guardar algum instinto de orientação, porque seus pés o levaram por entre as árvores com uma confiança que ele não sentia.
Ou talvez fosse sorte. Ou talvez fosse o desespero.
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Ele seguiu o que parecia ser oeste — ou leste, já não sabia mais — por horas. Parou apenas para beber água da cantimplora e mastigar um pedaço do pão amanhecido que trouxera. As árvores foram rareando lentamente, a luz dos dois sóis ficando mais forte, as sombras duplas ficando mais nítidas no chão.
Quando finalmente avistou a vila, o sol maior já estava baixo no horizonte, pintando o céu de tons alaranjados e roxos. As primeiras estrelas começavam a aparecer, e as três luas — Nyx, Selene e Eos — já eram visíveis, pálidas, observando.
A rua de terra estava diferente.
Não vazia como de costume. Não silenciosa. Tochas estavam acesas em frente a algumas casas, lançando uma luz alaranjada e trêmula sobre a terra batida. Pessoas estavam reunidas em pequenos grupos, conversando em voz baixa, os rostos sérios e preocupados. Arin viu um homem segurando um forcado como se fosse uma arma. Uma mulher com uma lamparina na mão, a chama balançando no vento. Crianças abraçadas às pernas dos pais.
E no meio da rua, de costas para ele, estava Helga.
Ela falava com Aldric, o velho da venda, com uma urgência que Arin nunca tinha visto nela. Os braços gesticulavam. A voz, mesmo à distância, soava desesperada.
Ao lado dela, Jasper estava agarrado à sua saia, o rosto enterrado no tecido, os ombros tremendo.
Alguém viu Arin primeiro.
— Lá! — gritou uma mulher, apontando. — É o menino!
Todas as cabeças se viraram.
Helga se virou também. Ela congelou por um segundo, dois. O rosto estava inchado, os olhos mais vermelhos do que nunca. Não de choro — ela ainda não chorava na frente dos outros — mas de alguma coisa pior. Desespero contido, noites sem dormir, o terror de uma mãe que achou que tinha perdido um filho.
Ela atravessou a rua correndo. Não andou. Correu.
As mãos agarraram Arin pelos ombros com uma força que doía, os dedos cravando na carne como garras. Ela o sacudiu uma vez, duas, como se precisasse ter certeza de que ele era real.
— Onde você estava?! — A voz saiu num grito rouco, mais alto do que qualquer coisa que Arin já tinha ouvido dela. — ONDE VOCÊ ESTAVA?!
Arin abriu a boca, mas ela não deixou responder.
— Você saiu sem dizer nada! Deixou um desenho no couro que eu não entendi! Tive que ir até a venda do Aldric pra ele me dizer o que estava escrito! “Fui resolver algo”? QUE COISA você foi resolver sozinho na floresta?!
O couro. O desenho. Claro.
Arin sentiu o estômago afundar. Ele escreveu o recado — escreveu mesmo, com palavras — sem pensar que Nox não sabia ler nem escrever. E Helga também não. Para ela, aquilo eram rabiscos incompreensíveis, símbolos estranhos que o filho nunca deveria saber fazer.
Ela só descobriu o que significava porque Aldric, o velho comerciante, provavelmente tinha algum estudo. Alguém que lidava com mercadorias e contas precisava saber ler.
— Eu… eu não pensei — Arin murmurou. E era verdade. Ele não pensou.
— CLARO QUE NÃO PENSOU! — Helga explodiu. As mãos dela saíram dos ombros de Arin e foram para o próprio rosto, pressionando as têmporas como se quisesse esmagar a própria preocupação. — Você saiu antes do sol nascer e não voltou o dia inteiro! Eu mandei Jasper chamar o Aldric, mandei os vizinhos procurarem, ia mandar alguém entrar na floresta…
Arin olhou ao redor. As pessoas ainda estavam ali, observando. Algumas com alívio nos rostos, outras com curiosidade. O homem do forcado baixou a arma.
Aldric se aproximou, o cachimbo apagado no canto da boca, os olhos escuros fixos em Arin com uma expressão que misturava alívio e severidade.
— Garoto — disse o velho, a voz grave. — Sua mãe quase enlouqueceu. A gente tava se preparando pra entrar na mata atrás de você. O que você foi fazer lá?
Jasper se soltou da saia de Helga e correu para Arin, abraçando suas pernas com força. O menino não disse nada. Apenas agarrou. Os dedos pequenos cravaram na calça de lã como se o irmão fosse desaparecer a qualquer momento.
Arin sentiu o peito apertar.
Ele causou aquilo. Ele mobilizou a vila inteira. Ele fez Helga quase perder o juízo. E tudo por causa de um recado que ninguém sabia ler.
— Eu… — ele começou, a voz falhando. Olhou para Helga, para Aldric, para os vizinhos reunidos. — Eu fui buscar uma coisa. Na floresta. Uma coisa que pode ajudar.
— Ajudar com o quê? — Aldric perguntou, franzindo a testa.
Arin abriu a mão.
Os dentes da serpente rubra brilharam na luz das tochas. Eram enormes — cada um do tamanho de um dedo adulto, curvos, afiados, com manchas escuras de sangue seco. As escamas, menores, refletiam a luz alaranjada como pequenas brasas.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
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Alguém na multidão murmurou uma oração. Outra pessoa recuou um passo. O homem do forcado arregalou os olhos.
Aldric tirou o cachimbo da boca. Os olhos escuros se arregalaram. A mão que segurava o cachimbo tremeu ligeiramente.
— Isso é… — ele começou, a voz falhando. — Garoto, isso é dente de serpente rubra. Onde você conseguiu isso?
— Na floresta — Arin respondeu. A voz saiu cansada, muito cansada. — Eu ouvi uma história. Sobre um baú escondido. Mas não encontrei baú nenhum. Encontrei… outra coisa.
Ele não ia falar do garoto de branco. Não ainda. Talvez nunca.
— Uma serpente rubra — Aldric repetiu, incrédulo. — Você encontrou uma serpente rubra e… sobreviveu?
— Duas — Arin corrigiu, sem pensar. — Tinham duas.
O silêncio voltou, ainda mais pesado.
Helga olhou para os dentes, olhou para o filho, voltou a olhar para os dentes. A boca se abriu e fechou, mas nenhum som saiu. A mão dela, ainda no ombro de Arin, começou a tremer.
— Você está cheio de sangue — ela disse, a voz de repente muito baixa. — Você está ferido?
— Não é meu — Arin respondeu rapidamente. — O sangue não é meu. Eu não me machuquei. Só… cansaço. Só isso.
Helga não pareceu convencida. Mas não insistiu. Apenas puxou Arin para perto, envolvendo-o num abraço apertado — o terceiro do dia — como se nunca mais fosse soltar.
— Você é tudo que eu tenho — ela sussurrou, baixo o suficiente para que só Arin ouvisse. — Você e Jasper. Se algo acontecer com vocês…
— Não vai acontecer — Arin respondeu. E, pela primeira vez, ele acreditou nisso. — Eu vou proteger vocês. Eu prometo.
Aldric pigarreou. O velho comerciante se aproximou, os olhos ainda fixos nos dentes. Ele estendeu a mão, hesitante, e Arin depositou uma das presas na palma enrugada.
O velho examinou. Virou de um lado, virou do outro. Passou o polegar pela borda afiada.
— Isso vale uma fortuna — ele disse finalmente. — Os mercadores da capital pagam ouro por dentes de serpente rubra. Eles usam pra fazer armas, poções, amuletos… é raro. Muito raro. E isso aqui são… quantos dentes você tem?
— Não contei — Arin admitiu.
Aldric contou. Os lábios se moveram silenciosamente. Quando terminou, o rosto estava pálido.
— Dez dentes. Quinze escamas. Garoto, isso dá pra pagar a taxa dos soldados e ainda sobra pra viver por meses.
Helga levou a mão à boca.
Os vizinhos murmuraram entre si. Uma mulher fez um sinal de proteção contra o peito. Outra se aproximou, os olhos brilhando com uma mistura de medo e esperança.
— Mas como? — Helga perguntou, a voz fraca. — Como você conseguiu isso?
Arin respirou fundo. A verdade não era uma opção. Mas a mentira também doía.
— Eu não matei as serpentes — ele disse, devagar. — Eu só… encontrei elas. Já estavam mortas. Alguém tinha matado. Alguém que eu não vi. Só peguei os dentes e fugi.
Era uma mentira. Mas era uma mentira que protegia todo mundo. Se ele contasse sobre o garoto de branco, sobre as correntes, sobre o estranho poder que tinha visto… ninguém acreditaria. Ou pior: acreditariam, e fariam perguntas que ele não podia responder.
Aldric olhou para ele por um longo momento. Os olhos escuros do velho eram penetrantes, experientes, como se lessem muito mais do que Arin dizia. Mas ele não questionou. Apenas devolveu o dente e deu uma baforada no cachimbo apagado.
— Seja como for — disse o velho, — você tem mais sorte do que juízo, garoto. Mas essa sorte pode salvar sua família. Vou mandar um mensageiro para a cidade amanhã. Conheço um mercador que paga bem por itens de serpente. Em três dias, o dinheiro está aqui.
Três dias. Arin sentiu o alívio percorrer o corpo. Três dias era antes do prazo. Três dias era antes dos soldados voltarem.
— E a taxa? — ele perguntou.
Aldric trocou um olhar com Helga. Algo passou entre eles — uma comunicação silenciosa, antiga, de quem se conhecia há muitos anos.
— Eu adianto o pagamento — Aldric disse. — A taxa vai ser paga amanhã. Quando o mercador trouxer o ouro, você me paga de volta.
Helga abriu a boca para protestar, mas Aldric levantou a mão.
— Não discuta, Helga. Você já cuidou de mim quando minha esposa estava doente. Lembra? Me levou sopa por três semanas. Isso não se paga com dinheiro.
Os olhos de Helga se encheram de lágrimas novamente. Mas ela não chorou. Apenas assentiu, uma vez, a cabeça baixa.
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Aos poucos, os vizinhos foram se dispersando. O homem do forcado deu um tapinha no ombro de Arin ao passar. A mulher da lamparina sorriu para ele. Uma criança acenou.
Jasper continuava agarrado às pernas de Arin, o rosto ainda escondido. Arin se abaixou — os joelhos estalando, o corpo doendo — e colocou a mão na cabeça do menino.
— Ei.
Jasper olhou para cima. Os olhos castanhos estavam cheios de lágrimas.
— Você me assustou — o menino murmurou.
— Eu sei. Me desculpa.
— Achei que você não ia voltar.
— Mas eu voltei.
Jasper fungou. Esfregou o nariz na manga da camisa.
— Você trouxe presente?
Arin riu. Foi um riso cansado, fraco, mas genuíno.
— Trouxe — ele disse, pegando uma das escamas vermelhas. Era pequena, do tamanho de uma moeda, mas brilhava como brasa na palma da mão. — Toma. É sua.
Jasper pegou a escama com as duas mãos, os olhos brilhando.
— Isso é de dragão?
— É de serpente. Mas serve igual.
— Que legal!
O menino saiu correndo para mostrar a escama para a mãe. Helga olhou para Arin, os olhos ainda vermelhos, e balançou a cabeça lentamente — um gesto que misturava exasperação, alívio e amor.
— Vai lavar esse rosto — ela disse, a voz ainda rouca. — E comer alguma coisa. E dormir. Você está exausto.
Arin assentiu.
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