Capítulo 24 │Floresta Profunda
A floresta os engoliu no primeiro dia.
Não de repente, como uma armadilha. Devagar. A cada passo do Relâmpago, as árvores ficavam mais próximas, os galhos mais entrelaçados, o céu mais distante. O que era uma luz dourada e filtrada se transformou em penumbra verde. O que era um caminho de terra batida se transformou em tapete de folhas secas, agulhas de pinheiro, pequenos fungos brancos que brilhavam no escuro.
Arin sentiu a mudança no ar.
Mais pesado. Mais úmido. Cheirando a terra molhada, madeira podre, e algo doce — flores? frutas? Ele não sabia.
— A floresta está diferente — ele disse, a voz saindo mais baixa do que queria.
— É porque a gente entrou de verdade agora — Elena respondeu, sem se virar. — Antes era só beirada. Agora é interior.
— Interior é pior?
— Interior é mais escuro. Mais úmido. Mais… vivo.
A palavra ficou ecoando na mente de Arin.
Viva.
A floresta parecia viva. Não como as árvores do quintal de casa, que estavam ali, quietas, esperando. Essas árvores pareciam estar fazendo alguma coisa. Crescendo. Observando. Se mexendo quando ele não olhava.
Ele apertou as mãos na cintura de Elena.
— Relaxa — ela disse. — O cavalo conhece o caminho.
— O cavalo está tão perdido quanto a gente.
— Cavalo nunca se perde. Eles têm instinto.
— O Relâmpago tem instinto de pedra.
Ela riu. Foi uma risada curta, mas ajudou.
━═✧═━
O sol maior começava a se pôr quando Elena apontou para uma clareira.
— Ali.
Ela desmontou com um movimento fluido, como se tivesse nascido em cima de cavalos. Os pés dela tocaram o chão de folhas sem fazer barulho.
— Por que ali? — Arin perguntou, desmontando com menos elegância. As pernas estavam duras, os joelhos doendo. Ele nunca tinha passado tanto tempo montado.
— Porque é aberto. Dá para ver o céu. Dá para ver se alguém vem. E tem água perto — ela apontou para um riacho que corria a poucos metros dali, a água brilhando na luz alaranjada do pôr do sol.
Arin olhou para o riacho. A água era clara, corrente, fazendo um som baixo e constante.
— E como você sabe que a água é limpa?
— Pela cor. Pelo cheiro. Pela correnteza. — Elena já estava andando em direção à margem. — Água parada é perigosa. Água corrente, não.
Ela se ajoelhou, juntou as mãos em concha, bebeu. Depois se virou para ele.
— Vai. A gente precisa encher as cantimploras.
Arin foi. Ajoelhou-se ao lado dela. A água estava gelada — tanto que doeu nos dentes. Mas era pura. Não tinha gosto de terra, nem de ferrugem, nem de nada. Só água.
Ele bebeu até a barriga doer.
Elena já estava de pé, olhando ao redor.
— Agora lenha.
— Lenha?
— Para a fogueira. Você não vai dormir no escuro, vai?
Arin olhou para o céu. As três luas começavam a aparecer — Nyx, a redonda, já brilhando forte; Selene, a oval, mais pálida; Eos, a quase triangular, pequena e distante.
— No escuro não. Mas como a gente vai fazer fogo?
Elena sorriu. Tirou do bolso uma pequena pedra escura e um pedaço de aço.
— Isqueiro de caçador. Meu tio me deu.
— Você sabe usar?
— Aprender.
Arin suspirou.
━═✧═━
Juntar lenha foi mais difícil do que ele imaginava.
Não porque não tivesse galhos no chão — tinha muitos. Mas Elena não deixava ele pegar qualquer um.
— Esse está molhado — ela disse, jogando fora um galho que Arin tinha acabado de pegar.
— Como você sabe?
— Pela cor. Galho molhado é mais escuro. Galho seco é mais claro. Também pelo cheiro.
— Galho tem cheiro?
— Galho seco cheira a madeira. Galho molhado cheira a terra.
Arin pegou outro galho. Elena aprovou com um aceno.
Ela mesma escolhia os pedaços com cuidado, como se estivesse selecionando ingredientes para uma receita. Galhos finos para começar. Galhos médios para manter. Galhos grossos para durar a noite toda.
— Seu tio te ensinou tudo isso? — Arin perguntou, enquanto amontoava a lenha no centro da clareira.
— Tudo. — A voz dela ficou mais suave. — Ele dizia que a floresta é uma casa. A gente só precisa aprender a morar nela.
— E você aprendeu.
— Aprendi. — Ela fez uma pausa. — Faz tempo.
Arin não perguntou quanto tempo. Não queria cutucar a ferida.
━═✧═━
Fazer o fogo foi uma cerimônia.
Elena se ajoelhou no chão, colocou um punhado de folhas secas e lascas de madeira sobre uma casca de árvore. Depois começou a bater a pedra contra o aço.
Nada.
Mais uma vez.
Nada.
Na terceira tentativa, uma faísca acertou as lascas. Ela soprou devagar, com cuidado, como se estivesse acariciando o ar. A fumaça apareceu. Depois uma chama pequena, trêmula, quase invisível.
Elena alimentou o fogo com folhas secas, depois com galhos finos. Em poucos minutos, a fogueira crepitava no centro da clareira, lançando sombras dançantes nas árvores ao redor.
— Pronto — ela disse, sentando-se. — Não é tão difícil.
— Para você não é.
— Para você também não vai ser. Depois de algumas noites.
Arin sentou-se do outro lado do fogo. O calor era bom. A luz dançava no rosto de Elena, destacando as sardas, os olhos azuis que pareciam brilhar.
— O que vamos comer? — ele perguntou.
— Carne seca. Pão amanhecido. — Ela tirou os alimentos da sacola. — Mas amanhã a gente encontra coisa melhor.
— Coisa melhor como?
— Plantas. Raízes. Se a gente tiver sorte, algum peixe no riacho.
— Você sabe pescar?
— Sei fazer cama de galho. É quase a mesma coisa.
Arin não sabia o que era “cama de galho”, mas não perguntou. Estava cansado demais para aprender coisas novas.
━═✧═━
A noite caiu rápido.
As três luas estavam altas agora, iluminando a clareira com uma luz pálida, quase azulada. As sombras eram duplas — sempre duplas — e dançavam no chão conforme o vento balançava as folhas.
Arin deitou na manta de lã, encostado no tronco de uma árvore. Elena estava do outro lado da fogueira, enrolada na capa verde-escura.
— Nox? — ela chamou.
— Hum?
— Está com medo?
Ele pensou antes de responder.
— Um pouco — admitiu.
— Eu também.
O silêncio se estendeu. O fogo crepitava. Lá longe, um animal uivou.
— Do que você tem medo? — Arin perguntou.
— De chegar tarde. — A voz dela estava baixa. — De chegar lá e ele… não estar mais.
Arin não respondeu. Não sabia o que dizer.
— E você? — ela perguntou. — Do que você tem medo?
De todo mundo morrer. De não conseguir salvar ninguém. De voltar para casa e descobrir que nunca existi.
— De não ser forte o suficiente — ele respondeu.
Ela não perguntou o que significava.
O fogo queimou mais um pouco. Depois, um por um, eles dormiram.
━═✧═━
Arin acordou com o cheiro de terra molhada e fumaça.
O fogo tinha virado brasa — um vermelho escuro que ainda esquentava, mas não queimava. Elena já estava de pé, mexendo alguma coisa num graveto.
— O que é isso? — ele perguntou, sentando-se.
— Raiz de mandioca brava. Encontrei perto do riacho.
— Você já foi ao riacho?
— Você dormiu muito.
Arin esfregou os olhos. O céu estava claro — os dois sóis já estavam altos.
— Que horas são?
— Meio-dia.
— Meio-dia?!
— Você precisava dormir. — Elena ofereceu o graveto. — Come.
A raiz estava quente, macia por dentro, levemente adocicada. Não era pão, mas também não era ruim.
— Não é horrível — ele admitiu.
— Esse é o melhor elogio que você pode dar.
Ela riu, e Arin sentiu os ombros relaxarem um pouco.
━═✧═━
Depois de comerem, Elena propôs uma caminhada.
— Precisamos de mais comida. E ervas para chá.
— Chá?
— Para dor. Para cansaço. Para febre. — Ela olhou para ele. — Você nunca tomou chá de ervas?
— Só chá comum. De saquinho.
Ela fez uma careta.
— Isso não é chá.
Ela o levou para uma área mais aberta da floresta, onde o sol dos dois sóis conseguia penetrar. O chão estava coberto de plantas baixas, algumas com flores amarelas, outras com folhas largas e escuras.
— Essa aqui — Elena disse, apontando para uma planta de folhas pequenas e flores roxas — é valeriana. Acalma os nervos. Ajuda a dormir.
— Como você sabe?
— Meu tio tinha um livro. Com desenhos. Eu aprendi a identificar.
Arin olhou para a planta. Parecia qualquer outra.
— E essa? — ele perguntou, apontando para uma planta de folhas largas e flores brancas.
— Camomila. Para dor de barriga. Essa você conhece.
— Essa eu conheço.
— E essa — Elena tocou em uma planta pequena, de folhas serrilhadas e caule vermelho — é beladona.
Arin sentiu um frio na espinha.
— Beladona? Não é venenosa?
— É. Por isso você não come. Mas se preparar direito, vira remédio para dor. — Ela fez uma pausa. — Meu tio dizia que a diferença entre remédio e veneno é a quantidade.
Arin guardou a informação. Não que fosse usar. Mas saber que Elena sabia o que estava fazendo era um alívio.
Ela encheu a sacola de couro com folhas, raízes e flores. Explicou cada uma. Mostrou como identificar pela textura da folha, pelo cheiro, pela cor do caule. Arin tentou prestar atenção, mas a maioria parecia igual.
— Você não está prestando atenção — Elena disse, sem tirar os olhos da planta que colhia.
— Estou sim.
— Está não. Sua mente está em Oakhaven.
Arin ficou em silêncio.
— Está pensando neles? — ela perguntou.
— Sempre.
Ela levantou os olhos. Os olhos azuis estavam suaves.
— Eu também penso no meu tio. Sempre. Mas se eu ficar só pensando, não vou chegar lá.
— Eu sei.
— Então presta atenção. Porque amanhã você vai ter que colher sozinho.
Arin suspirou.
— Tá bom. Me ensina de novo.
Ela sorriu.
━═✧═━
No terceiro dia, a floresta mudou.
Arin percebeu aos poucos. Primeiro, as árvores ficaram mais altas — tão altas que ele não conseguia ver o topo. Depois, os galhos ficaram mais retorcidos, parecendo braços, como se estivessem tentando agarrar o céu. Depois, o chão ficou mais macio — coberto de agulhas de pinheiro e folhas secas, abafando o som dos cascos do cavalo.
— Estamos no caminho certo? — Arin perguntou.
— Acho que sim — Elena respondeu, mas a voz não estava tão confiante.
Ela parou o cavalo. Olhou ao redor.
— O que foi?
— Não sei. As árvores… estão diferentes.
— Diferentes como?
— Mais velhas. Mais antigas. Essa parte da floresta… — ela hesitou — …não está no mapa do meu tio.
O sangue de Arin gelou.
— Não está no mapa?
— Ele não desenhou essa parte. Disse que era perigosa. Que ninguém ia.
— E a gente foi?
— Parece que sim.
Arin olhou para as árvores. Elas pareciam vigiar. Os galhos retorcidos pareciam braços. As sombras duplas dançavam no chão como se tivessem vida própria.
— E agora? — ele perguntou.
— Agora a gente tenta voltar.
Ela virou o cavalo. Começaram a andar de volta.
Mas as árvores eram todas iguais. Os caminhos se repetiam. Os riachos que eles tinham cruzado antes pareciam ter desaparecido.
Uma hora se passou.
Duas.
O sol maior começava a se pôr.
— Estamos andando em círculos — Arin disse.
— Eu sei.
— Você sabe?
— Eu sei. — A voz de Elena estava tensa. — Mas não sei como sair daqui.
O silêncio pesou.
Arin sentiu o pânico ameaçar subir. Lembrou da floresta, das serpentes, do garoto de branco. Lembrou de estar perdido, sozinho, sem saber para onde ir.
Mas agora não estava sozinho.
Elena estava com ele.
— Vamos parar — ele disse. — Descansar. Pensar.
Ela olhou para ele, surpresa.
— Você está calmo.
— Estou fingindo.
Ela quase sorriu.
— Está funcionando.
Desmontaram. Amarraram o cavalo. Sentaram-se em um tronco caído.
— Meu tio dizia que quando a gente se perde, o melhor a fazer é parar — Elena disse. — Parar, escutar, esperar. O desespero é pior que a falta de direção.
— Seu tio parece um sábio.
— Ele é. — A voz dela falhou um pouco. — Era.
Arin não perguntou o que significava “era”. O passado dela ainda era uma ferida aberta.
Ficaram em silêncio por um tempo. O vento balançava as folhas. Os pássaros cantavam. O cavalo fungava baixo.
Foi então que ouviram.
Passos.
Não passos de animal.
Passos de homem.
━═✧═━

Regras dos Comentários
Para receber notificações, ative o sininho ao lado do botão de Publicar.