Capítulo 18 │Negociação
O mercador prendeu a respiração. Os dedos gordos se estenderam, hesitantes, e tocaram uma das presas com a ponta dos dedos, como se tocasse algo sagrado — ou perigoso demais.
— Isso é… — ele começou, a voz falhando. Limpou a garganta. — Isso é material de altíssima qualidade. As presas estão intactas. As escamas não têm rachaduras. Onde vocês conseguiram isso?
— Isso importa? — Helga perguntou, a voz calma.
O mercador olhou para ela, depois para Arin, depois para Aldric, que fumava seu cachimbo tranquilamente no canto, fingindo não prestar atenção.
— Não — admitiu o mercador. — Não importa. — Ele pegou uma das escamas e a ergueu contra a luz. A superfície vermelha brilhou como um rubi. — Sabem quanto tempo faz que não vejo escamas de serpente rubra? Anos. Anos! A maioria dos caçadores morre antes de chegar perto o suficiente para arrancar uma. E vocês têm quinze. Quinze!
Arin manteve o olhar firme. Não havia Jasper para corrigir o número. A escama que ele dera ao irmão estava no quarto, guardada como um tesouro. Aquela não estava à venda.
— Dez dentes. Quinze escamas — Arin repetiu. — É o que temos.
— Muito bem. — O mercador coçou o queixo, os olhos voltando para os dentes. — Vou fazer uma oferta. Uma oferta justa.
— Estamos ouvindo — Helga disse.
O mercador respirou fundo. Os dedos tamborilaram no balcão.
— Cinco moedas de ouro por cada dente. Três moedas de prata por cada escama. Total: cinquenta moedas de ouro e quarenta e cinco moedas de prata.
Arin sentiu o coração dar um salto. Ele não sabia exatamente quanto valia uma moeda de ouro neste mundo — o corpo de Nox nunca tinha visto uma — mas pela reação de Helga, que ficou pálida e levou a mão ao peito, era muito.
Aldric, no canto, deixou escapar uma baforada de fumaça mais longa do que o normal.
— Isso é… — Helga começou.
— Uma oferta inicial — Arin interrompeu, a voz mais firme do que ele se sentia. Lembrou-se do conselho de Aldric. Não aceitem a primeira oferta. Nem a segunda.
O mercador ergueu uma sobrancelha.
— Inicial?
— Inicial — Arin repetiu. — O senhor mesmo disse que não vê material assim há anos. Dez dentes intactos. Quinze escamas sem rachaduras. Isso não vai para qualquer comprador. Vai para alguém que paga muito mais do que cinco moedas por dente.
O mercador estreitou os olhos.
— O garoto sabe negociar.
— Aprendi com minha mãe. — Arin olhou para Helga, que estava imóvel, os olhos arregalados. — E com o Aldric.
O velho comerciante soltou uma baforada e murmurou algo que podia ser “bom garoto” ou “burro” — Arin não soube dizer.
— Muito bem. — O mercador recostou-se no banco, que rangeu novamente. — Sete moedas de ouro por dente. Cinco moedas de prata por escama. É minha oferta final.
— Ainda não é. — Arin cruzou os braços, tentando parecer mais confiante do que se sentia. — O senhor sabe que na capital esses dentes valem o dobro. Talvez o triplo, se forem vendidos para a guilda dos alquimistas. Eles usam pó de dente de serpente rubra para poções de cura avançada, não é?
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
O mercador olhou para Arin por um longo momento. Os olhos pequenos e astutos examinaram o garoto ruivo de catorze anos como se fosse a primeira vez que o viam.
— Como você sabe disso?
Arin sentiu o estômago gelar. Ele sabia porque tinha escrito. No livro 5, um personagem mencionava de passagem que a guilda dos alquimistas pagava fortunas por dentes de serpente rubra. Era um detalhe jogado no meio de um diálogo, um pedaço de construção de mundo que ele tinha inserido sem pensar muito.
Mas não podia dizer isso.
— Ouvi na oficina — ele mentiu. — O ferreiro conserta armas para um caçador. O caçador conta histórias.
O mercador continuou olhando. Depois, lentamente, um sorriso se abriu sob o bigode de ouriço.
— Oito moedas de ouro por dente. Sete de prata por escama. É minha última oferta. Aceitem ou vou embora.
Arin olhou para Helga. Ela estava pálida, os olhos azuis escuros brilhando com uma mistura de choque e orgulho. Ele olhou para Aldric, que deu uma baforada lenta e um quase imperceptível aceno de cabeça.
— Aceitamos — Arin disse.
O mercador bateu a mão no balcão com um estrondo que fez os potes nas prateleiras tremerem.
— Fechado!
━═✧═━
A contagem do dinheiro foi um espetáculo à parte.
O mercador abriu uma bolsa de couro que trazia no cinto e despejou o conteúdo sobre o balcão. Moedas de ouro tilintaram contra a madeira gasta, rolando em círculos antes de parar. As moedas de prata vieram em seguida, empilhadas em pequenas torres que o mercador contava com os dedos ágeis, murmurando números baixinho.
— Oito por dez… oitenta moedas de ouro. Sete por quinze… cento e cinco moedas de prata. — Ele separou as pilhas e as empurrou na direção de Helga. — Confiram.
Helga olhou para o dinheiro como se fosse explodir a qualquer momento.
— Eu… — ela começou, a voz falhando. Olhou para Arin. — Você fez isso. Você salvou a gente.
— Nós fizemos — Arin corrigiu. — Eu trouxe os dentes. Você manteve a família de pé. Aldric adiantou o pagamento. Foi todo mundo.
Helga respirou fundo. Com as mãos ainda trêmulas, ela separou uma pequena porção das moedas e estendeu para Aldric.
— Isso cobre o que você pagou aos soldados. E mais um pouco. Pelo chá. Pela paciência. Pela vida.
Aldric tirou o cachimbo da boca e olhou para as moedas por um longo momento. Depois estendeu a mão e pegou apenas metade do que ela oferecia.
— O resto fica com vocês. Invistam. Comprem sementes. Consertem o telhado. Comprem sapatos para o Jasper, que os dele estão furados.
— Eu gosto dos meus sapatos furados! — veio uma voz fina da porta.
Todos se viraram.
Jasper estava parado na soleira, ofegante, o cabelo loiro ainda mais bagunçado do que de costume. Ele tinha trocado de roupa — a camisa estava limpa, a calça não tinha remendos novos — e calçava os sapatos, embora estivessem desamarrados. Os olhos castanhos estavam arregalados, fixos nas pilhas de moedas sobre o balcão.
— Jasper! — Helga exclamou. — Eu mandei você esperar em casa!
— Eu esperei. — Jasper entrou na venda como se fosse o dono do lugar, os olhos ainda fixos no ouro. — Aí eu cansei de esperar. Vocês tavam demorando. E… uau. Isso é muito dinheiro.
— É — Arin confirmou.
— A gente é rico agora?
— Não. Mas a gente não é mais pobre. Já é alguma coisa.
Jasper aproximou-se do balcão, ficando na ponta dos pés para ver melhor. O mercador olhou para ele com uma sobrancelha erguida.
— Esse é o outro filho? — perguntou a Helga.
— O mais novo — Helga confirmou, a voz resignada.
— Ele sempre aparece assim, do nada?
— Sempre.
O mercador soltou uma risada curta, balançando a cabeça.
— Vocês são uma família interessante. — Ele começou a guardar os dentes e as escamas em uma bolsa forrada de veludo. — Foi um prazer fazer negócio. Garoto — disse ele, olhando para Arin —, se um dia quiser trabalhar como comerciante, me procure. Tem faro para isso.
— Eu prefiro ferreiro — Arin respondeu.
— Uma pena. — O mercador ajeitou o casaco vermelho. — Aldric, sempre um prazer. Agora, se me dão licença, tenho uma longa viagem pela frente.
— E eu? — A voz veio do canto da venda.
A garota loira estava encostada na parede, os braços cruzados, o rosto ainda vermelho da discussão anterior. As sardas no nariz pareciam mais escuras contra a pele avermelhada. Ela não tinha saído da venda durante toda a negociação — apenas ficara ali, observando tudo em silêncio, os olhos azuis atentos a cada movimento.
— O que tem você? — O mercador revirou os olhos.
— Ainda preciso chegar a Graventhal.
— E eu ainda preciso ser pago.
— Mas…
— Moça. — O mercador suspirou, a voz perdendo um pouco da aspereza. — Você parece uma boa garota. Teimosa, mas boa. Mas não posso levar ninguém de graça. Tenho família. Tenho despesas. Se seu dinheiro chegar, me procure. Se eu ainda estiver por aqui, a gente conversa. Se não…
Ele deixou a frase no ar, deu de ombros, e saiu da venda com a bolsa de veludo debaixo do braço.
A garota ficou parada no canto, os olhos azuis faiscando. Por um momento, Arin achou que ela ia correr atrás do mercador e recomeçar a discussão. Mas ela apenas apertou os lábios, pegou a mala enorme no canto da venda, e saiu sem dizer uma palavra.
Os olhos dela cruzaram com os de Arin por um breve segundo antes de desaparecer pela porta.
Ela vai ficar presa aqui, Arin pensou. Sem dinheiro. Sem transporte. Sem nada.
Mas não era problema dele.
Ele tinha a própria família para cuidar.
━═✧═━
A saída da venda foi triunfal.
Helga segurava a bolsa de moedas contra o peito como se fosse um recém-nascido. Jasper pulava ao redor dela, fazendo perguntas sem parar — “A gente vai comprar um cavalo? Um cachorro? Uma espada? Posso ter uma espada?” — enquanto Arin caminhava ao lado, sentindo o sol da manhã no rosto.
A rua de terra estava mais viva do que nunca. Ou talvez fosse a sensação de alívio que fazia tudo parecer mais brilhante. As galinhas ciscavam com mais entusiasmo. O cachorro magro debaixo da carroça abanou o rabo quando eles passaram. Até as sombras duplas dos dois sóis pareciam menos estranhas agora.
— Não vou precisar trabalhar na estalagem hoje — Helga disse, a voz ainda um pouco distante, como se estivesse processando tudo. — Nem amanhã. Talvez nem na semana que vem.
— Você vai descansar? — Arin perguntou.
— Vou dormir. — Ela soltou uma risada curta, quase surpresa consigo mesma. — Dormir até meio-dia. Duas vezes seguidas. Isso é um luxo?
— É um começo.
Quando chegaram em casa, Helga guardou as moedas no baú do seu quarto, trancou com uma chave de ferro que Arin nunca tinha visto antes, e anunciou que ia preparar um almoço especial.
— Especial como? — Jasper perguntou, os olhos brilhando.
— Bolo de mel. De novo. E você não vai comer o último pedaço desta vez.
— Isso é impossível. O último pedaço sempre é meu.
— Não se eu esconder antes.
— Mãe!
Arin riu, sentando-se à mesa. O corpo ainda doía da aventura na floresta — os músculos das costas, o joelho que bateu no chão, o corte na testa que já estava cicatrizando. Mas a dor era diferente agora. Era uma dor suportável. Uma dor que lembrava que ele tinha sobrevivido.
O almoço foi farto. Pão fresco, queijo, ovos cozidos, fatias de carne defumada que Helga estava guardando para uma ocasião especial, e o bolo de mel prometido — que ficou pronto bem a tempo de servir como sobremesa.
Comeram até não aguentar mais.
Depois, Helga olhou para a despensa e franziu a testa.
— Precisamos de mantimentos.
— Mas nós temos dinheiro agora — Jasper argumentou, de boca cheia. — A gente pode comprar o que quiser!
— Exatamente por isso. — Helga pegou um pedaço de couro e começou a desenhar uma lista de compras. Ela ainda escrevia com dificuldade, a ponta da língua para fora, as letras tortas mas legíveis. Arin sentiu um orgulho estranho ao ver. — Farinha, sal, banha, velas, sabão… e algumas coisas a mais.
— Coisas a mais? — Jasper se inclinou sobre a mesa.
— Um pedaço de tecido novo. E talvez…
Ela hesitou. Olhou para Arin.
— Talvez um par de botas novas para o Nox. As dele estão gastas.
Arin olhou para os próprios pés. As botas de couro estavam realmente surradas — a sola gasta, o couro rachado em alguns lugares, os cadarços remendados com barbante. Ele nem tinha notado. O corpo de Nox estava acostumado com o desconforto.
— Não precisa — ele começou.
— Precisa sim. — Helga voltou a escrever, encerrando o assunto. — Jasper, você vai com ele. Comprem tudo o que está na lista. E nada de doces.
— Mas…
— Nada de doces.
Jasper bufou, mas aceitou a derrota com uma dignidade surpreendente.
━═✧═━
Saíram no meio da tarde.
A rua de terra estava quente, as sombras duplas se alongando no chão. Jasper caminhava ao lado de Arin, a lista de compras amassada na mão, os olhos percorrendo cada pessoa que passava como se esperasse encontrar alguém conhecido — ou algo interessante.
— Nox?
— Hum?
— O que você vai comprar com o dinheiro?
— Nada. É para a casa. Para a comida. Para as emergências.
— Mas você não quer comprar nada?
Arin olhou para a rua à frente. Para as casas de madeira e pedra. Para as pessoas que passavam.
O que ele queria?
Queria voltar para casa. Para seu apartamento. Para Rheiner. Para Tobias. Queria terminar o maldito Livro Dezoito. Queria entender o que estava acontecendo com ele, por que estava ali, quanto tempo ia durar.
Mas não podia dizer isso.
— Talvez uma faca nova — ele respondeu. — A minha está ficando cega.
Jasper pareceu satisfeito com a resposta.
As compras foram rápidas. A venda do Aldric estava mais cheia do que de costume — aparentemente, a notícia da negociação dos dentes de serpente tinha se espalhado, e algumas pessoas estavam lá por curiosidade. Aldric atendeu Arin e Jasper com a mesma eficiência de sempre, mas havia um brilho nos olhos do velho. Um brilho de quem tinha feito uma boa ação e sabia disso.
— Tecido novo? — Aldric ergueu uma sobrancelha quando leu a lista. — Sua mãe vai fazer roupas novas?
— Acho que sim — Arin respondeu.
— Já era hora. As suas estão caindo aos pedaços.
— Eu gosto das minhas roupas caindo aos pedaços — Arin disse, e Jasper riu.
— Eu também! — o menino acrescentou. — A gente combina!
Aldric balançou a cabeça, mas estava sorrindo.
Além dos itens da lista, Arin comprou uma tira de couro nova para a bainha da faca e um pedaço de corda — a que ele tinha usado na floresta ficou toda para trás. Jasper, apesar da proibição da mãe, conseguiu convencer Aldric a dar dois doces de mel “como amostra grátis para clientes fiéis”.
— Você é uma peste — Aldric disse, entregando os doces.
— Obrigado, Tio Aldric!
Saíram da venda carregados de pacotes. Farinha no braço de Arin, sal e banha na sacola que Jasper segurava, velas e sabão embrulhados em pano. O tecido novo, um rolo de linho azul claro, estava debaixo do braço de Arin, macio contra a pele.
— Para onde agora? — Jasper perguntou.
— Casa. A mãe está esperando.
— Mas a gente já comprou tudo?
— Já.
— E aquela loja de ferramentas? A gente não vai lá?
— Para quê?
— Para ver espadas!
— Jasper, a gente não precisa de espadas.
— Todo mundo precisa de uma espada!
— Para quê?
— Para… para matar dragões!
— Não tem dragões em Oakhaven.
— Mas podem aparecer!
Arin riu, balançando a cabeça. Não havia como argumentar contra a lógica de Jasper.
— Outro dia — ele disse. — Agora vamos para casa.
━═✧═━
Foi quando começou a chover.
Não começou devagar, com alguns pingos espaçados. Começou de repente — um trovão estalou no céu, as três luas desapareceram atrás de nuvens escuras, e a água caiu como se alguém tivesse virado um balde imenso sobre a vila.
— CORRE! — Jasper gritou, e os dois dispararam rua abaixo.
As botas de Arin afundavam na terra que rapidamente se transformava em lama. Os pacotes balançavam, ameaçando cair. Jasper ria — ria! — enquanto corria, os pés descalços (ele tinha tirado os sapatos em algum momento, Arin nem viu quando) chapinhando nas poças que se formavam.
— Vamos parar ali! — Arin apontou para uma construção no fim da rua.
Não era a casa deles — ficava na direção oposta —, mas tinha um beiral largo que oferecia abrigo. Correram até lá, chegando ofegantes e encharcados.
— A farinha! — Jasper exclamou, olhando para o pacote que Arin segurava.
Arin examinou o embrulho. Por sorte, o pano grosso e o couro que Aldric usava para embrulhar os alimentos tinham segurado a umidade. A farinha estava seca.
— Salvou — Arin disse, aliviado.
— A banha também! — Jasper ergueu o pote em triunfo. — A banha sobreviveu!
— A banha é gordura, Jasper. Água não estraga.
— Mas podia derreter.
— Não está fazendo sol.
— Podia fazer.
Arin riu, apesar da chuva. O menino tinha uma lógica própria, mas era impossível não gostar dele.
Ficaram ali por alguns minutos, encolhidos sob o beiral, os pacotes protegidos contra o peito. A chuva engrossava cada vez mais. Os relâmpagos riscavam o céu, iluminando a rua deserta como flashes de uma lanterna imensa. As poças se formavam na terra, transformando a rua num pequeno rio de lama.
Foi então que Arin a viu.

Regras dos Comentários
Para receber notificações, ative o sininho ao lado do botão de Publicar.