Capítulo 20 │Noite Acompanhado
A lareira crepitava, lançando sombras dançantes nas paredes de madeira. Elena estava sentada no banco mais próximo do fogo, envolta numa manta de lã que Helga havia trazido de algum baú esquecido. Seu cabelo loiro, ainda úmido, começava a formar cachos soltos que escapavam do embrulho improvisado de pano. A túnica de couro estava estendida perto da lareira, secando lentamente, e ela usava uma camisa emprestada de Helga — larga demais, com as mangas dobradas várias vezes.
Helga voltou da cozinha com uma caneca de barro fumegante.
— É caldo de legumes — disse, estendendo a caneca para Elena. — Não é muita coisa, mas esquenta.
Elena aceitou com as duas mãos, como se o peso da caneca fosse a única coisa a mantê-la no lugar.
— Obrigada — murmurou. A voz tinha perdido a aspereza da discussão na venda. Agora era pequena, quase tímida. — Vocês não precisavam fazer isso.
— Talvez não — Helga sentou-se no banco oposto, os olhos azuis escuros fixos na garota. — Mas fizemos. Agora você come e descansa. Amanhã a gente conversa.
Jasper já estava deitado no tapete de pele de carneiro em frente à lareira, de bruços, o queixo apoiado nas mãos, os olhos castanhos grudados em Elena como se ela fosse uma personagem de uma das histórias que ele tanto amava.
— Você realmente sabe jogar facas? — ele perguntou.
— Jasper — Helga advertiu.
— É só uma pergunta!
Elena sorriu. Foi um sorriso pequeno, mas real.
— Sei sim. Meu tio me ensinou. Desde os oito anos.
— E você já acertou alguém?
— Jasper!
— O quê? É legal!
— Não é legal — Elena respondeu, mas não pareceu ofendida. — E não, nunca acertei ninguém. Acertei algumas árvores. E uma vez acertei uma melancia. Fez um estrago.
Jasper arregalou os olhos, claramente imaginando a cena.
— Eu quero aprender!
— Aprender a jogar facas? — Helga ergueu uma sobrancelha. — Com oito anos?
— A Elena aprendeu com oito!
— A Elena não é você.
— Por sorte — Elena murmurou, e Arin soltou uma risada curta antes de conseguir conter.
Helga olhou para ele. Não com raiva, com curiosidade.
— O que foi?
— Nada — Arin respondeu, ainda com um resto de sorriso no rosto. — Só… fazia tempo que eu não via alguém colocar o Jasper na roda.
— Eu não fui colocado na roda! — protestou o menino. — Eu só… estou coletando informações.
— Coletando informações — Arin repetiu, rindo. — Onde você aprendeu essa expressão?
— Com você. Você sempre fala isso quando vai na venda do Aldric. “Vou coletar informações.”
Elena riu. Foi um riso baixo, mas gostoso de ouvir. Helga balançou a cabeça, mas seus lábios tremiam, segurando um sorriso.
A chuva lá fora ainda caía forte, batendo nas telhas com um ritmo constante. O vento assobiava nas frestas das janelas, mas dentro da casa, o calor da lareira e o cheiro da sopa criavam um ambiente que Arin nunca tinha experimentado antes — pelo menos não como Arin.
Isso é uma casa, pensou. Não um apartamento. Não um lugar onde você dorme e come e trabalha. Um lugar onde as pessoas se sentam juntas ao redor do fogo e compartilham uma caneca de caldo.
Ele nunca teve isso.
Nox teve. Nox tinha.
E agora Arin estava ali, ocupando o lugar de Nox, sentindo o que Nox sentiria — um misto de cansaço, alívio e uma pontada de esperança.
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Elena terminou o caldo e colocou a caneca vazia na mesa. Apoiou as mãos nos joelhos, ajeitou a manta nos ombros e olhou para Helga.
— Sua mãe — ela começou, hesitando. A voz estava mais calma agora, mas ainda carregava uma tensão. — Sua mãe me disse que você trouxe os dentes da floresta. Que quase morreu.
— Eu não quase morri — Arin disse, mas a mentira saiu fraca demais.
— Jasper disse que você chegou todo ensanguentado.
— Jasper fala demais.
— Eu falo o necessário! — defendeu-se o menino, ainda de bruços no tapete.
— Você fala o necessário e o desnecessário e o que não tem nada a ver também — Arin rebateu.
— É dom.
Helga suspirou, passando a mão pelo rosto. A mancha roxa na maçã do rosto estava mais amarelada agora — cicatrizando. O olho ainda estava ligeiramente inchado, mas ela conseguia abri-lo completamente.
— Vamos dormir — ela anunciou. — Amanhã a gente resolve a vida.
— Que vida? — Jasper perguntou, confuso.
— A vida da Elena. A nossa vida. A vida que não para só porque a gente quer descansar.
Helga se levantou. Ajeitou o vestido e olhou para Elena.
— Você dorme no quarto do Nox. Nox, você dorme no sofá. Não quero barulho. Não quero conversa depois que a vela apagar. Estão entendidos?
— Por que eu tenho que dormir no sofá? — Arin perguntou, já sabendo a resposta.
— Porque você é o mais velho e porque eu estou cansada de discutir.
— Mas o sofá é duro.
— A vida é dura, Nox. Aprende isso logo.
Elena abriu a boca para protestar — ia dizer que não precisava do quarto, que o sofá estava bom, que ela já tinha causado transtorno demais. Mas Helga levantou a mão.
— Sem discussão. Você vai dormir no quarto. Amanhã você conta a sua história. E aí a gente decide o que fazer.
Elena fechou a boca. Os olhos azuis brilharam — não de lágrimas, mas de algo que Arin não soube identificar. Gratidão? Medo? Alívio? Talvez tudo junto.
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O quarto de Nox era pequeno, mas tinha uma cama decente — não a de palha que Arin tinha visto no Entre-meio, mas um colchão de lã coberto com lençóis de linho. A janela dava para os fundos da casa, para o quintal onde as galinhas dormiam. A luz da lua — das três luas — entrava pelas frestas da cortina, criando sombras duplas no chão de madeira.
Elena olhou ao redor.
— É… aconchegante — ela disse, mas a palavra soou estranha na boca dela.
— É pequeno — Arin corrigiu da porta. — Mas é seco. Às vezes chove dentro, mas não é hoje.
— Chove dentro?
— Só em dois lugares. O telhado tem umas telhas quebradas. Mas a mãe disse que vai arrumar. Agora que a gente tem dinheiro…
Ele não terminou a frase. O dinheiro, os dentes, as serpentes, o garoto de branco. Tudo aquilo parecia ter acontecido há dias, mas também parecia ter acontecido com outra pessoa.
Com Nox, pensou Arin. Não comigo. Com Nox.
Mas ele era Nox agora.
Elena sentou-se na cama. As botas de cano alto estavam encostadas na parede, secando. Os pés dela — pequenos, com as unhas pintadas de azul — balançavam a poucos centímetros do chão.
— Nox? — ela chamou.
— Hum?
— Por que você fez isso? Me ajudar, eu quero dizer.
Arin apoiou o ombro no batente da porta. Cruzou os braços.
— Jasper respondeu. Você estava na chuva. Estava longe de casa. Alguém precisava fazer alguma coisa.
— Mas você não me conhece. Eu poderia ser uma ameaça. Poderia roubar vocês. Poderia ser uma criminosa fugindo da lei.
— Uma criminosa que usa túnica de couro e tem sardas no nariz? — Arin ergueu uma sobrancelha. — Parece improvável.
Elena quase riu.
— Sardas não impedem ninguém de ser criminosa.
— Mas sardas combinam mais com pessoas boas. É uma regra não escrita.
— Quem escreveu essa regra?
— Eu. Agora.
Elena balançou a cabeça, mas o sorriso apareceu no canto dos lábios. Ela olhou para as próprias mãos, apoiadas nos joelhos. As unhas pintadas de azul lascavam em algumas pontas.
— Meu tio — ela começou, a voz mais baixa agora. — Ele é a única família que tenho. Meus pais morreram quando eu era pequena. Doença. Uma febre que levou os dois na mesma semana. Eu fiquei com o tio. Ele me criou. Me ensinou a ler, a escrever, a jogar facas, a sobreviver.
— Ele parece uma boa pessoa — Arin disse.
— É. — A voz de Elena falhou por um momento. — Ele é. Por isso que eu preciso chegar a Graventhal. Ele está doente. A última carta que recebi, ele mal conseguia segurar a pena. A letra estava toda tremida. Ele disse que não tinha muito tempo. Disse que queria me ver antes…
Ela parou. Respirou fundo.
— Antes de partir.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não sufocante. Arin sentiu o peito apertar — não por ele, por ela. Por uma garota de catorze anos que estava sozinha no mundo, tentando chegar até a única pessoa que ainda a amava.
Como Jasper, pensou. Como Jasper se sente em relação a Helga. Como Nox se sente.
— Você vai chegar — Arin disse.
Ela olhou para ele.
— Como você sabe?
— Porque eu vou ajudar.
A palavra saiu antes que ele pudesse pensar. Foi um impulso estúpido, irracional, que ele sabia que Helga ia odiar. Mas era verdade. Ele ia ajudar. Não porque Elena era bonita, não porque ele queria ser herói. Porque ele sabia o que era estar perdido, sabia o que era não ter para onde ir, sabia o que era depender da bondade de estranhos.
Ele tinha Rheiner, tinha Tobias, tinha um apartamento pequeno, uma carreira medíocre e um bloqueio criativo que durava meses. Mas aqui, neste mundo, ele tinha a chance de fazer a diferença. E ele não ia desperdiçar.
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Elena ficou em silêncio por um longo momento. Os olhos azuis brilharam na penumbra — não de lágrimas, mas de uma emoção diferente. Algo que Arin não sabia nomear.
— Você é estranho — ela disse finalmente.
— Jasper disse a mesma coisa.
— Jasper é inteligente.
— Jasper comeu o último pedaço de bolo de mel hoje de manhã. A inteligência dele é questionável.
Elena riu — uma risada genuína, que pareceu aliviar a tensão no ar.
— Obrigada — ela disse. — Por tudo. Pelo teto. Pelo caldo. Pela promessa.
— Ainda não fiz nada.
— Fez. Mais do que a maioria faria.
Arin não soube o que responder. Apenas assentiu, empurrou a porta e saiu.
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O sofá era duro.
Arin se virou de lado, depois de costas, depois de bruços. O estofado de lã arranhava sua bochecha, e um dos braços do sofá estava torto — um dos pés tinha quebrado e alguém tinha colocado um livro embaixo para nivelar.
Pelo menos Helga trouxe uma coberta, pensou. Pelo menos não estou dormindo no chão.
Lá fora, a chuva tinha diminuído. Agora era apenas um pingar suave, quase melódico, que se misturava com o ronco distante de Jasper — o menino tinha dormido no tapete da sala e se recusado a ir para o quarto.
Helga estava no quarto dela. Elena no quarto de Nox.
Arin no sofá.
Sozinho.
Mas não sozinho.
Ele tinha uma família agora. Não de sangue — pelo menos não de seu sangue. Mas uma família do mesmo jeito.
Nox tem uma família, pensou. E eu estou dentro de Nox. Então, de certa forma, essa família também é minha.
O pensamento era estranho, mas não desagradável.
Ele fechou os olhos. O cansaço veio rápido — o corpo de Nox ainda estava se recuperando da aventura na floresta, e o dia tinha sido longo. A venda, o mercador, a negociação, o dinheiro, a chuva, Elena. Tanta coisa.
Arin ia dormir. Ia esquecer por algumas horas que estava dentro do próprio livro, que o reino ia cair, que todos ali podiam morrer a qualquer momento.
Mas o sono não veio.
Porque foi nesse momento que ele ouviu.
Um som. Baixo, constante, vindo do andar de cima. Não era o ronco de Jasper, não era a respiração de Helga. Era um choro. Um choro abafado, contido, como se alguém estivesse chorando dentro de um travesseiro, com medo de ser ouvido.
Arin sentou-se no sofá. A coberta caiu no chão. Os pés descalços tocaram o assoalho frio.
Ele ouviu novamente. Elena. Ela estava chorando. Não o choro alto, desesperado da tempestade — era um choro baixo, triste, de quem já chorou tanto que quase não tem mais lágrimas.
Arin ficou parado por um momento. O que ele fazia? Subia? Batia na porta? Fingia que não ouviu?
Você sabe a resposta, disse uma voz na cabeça dele. Não era a voz de Nox, não era a voz de Arin. Era uma terceira voz — a mesma que tinha surgido quando ele enfrentou os soldados, quando ele olhou para o céu e viu os dois sóis. Você sabe o que fazer.
Arin suspirou. Levantou-se. Subiu a escada.
Os degraus rangeram — ele já sabia quais evitar. Pisou nos lugares que Nox pisava. Fez o mínimo de barulho possível.
Chegou na porta do quarto. A porta estava entreaberta.
Ele empurrou devagar.
A luz da lua — das três luas — entrava pela janela, iluminando o quarto com uma luz pálida, quase azulada. Elena estava na cama, enrolada na coberta, os ombros tremendo. O cabelo loiro estava espalhado no travesseiro, e as mãos dela estavam sobre o rosto, como se tentasse esconder as lágrimas.
— Elena — Arin chamou baixo.
Ela parou de chorar. Não se virou, não respondeu. Apenas ficou imóvel, como se esperasse que ele fosse embora.
Arin entrou. Sentou-se na beirada da cama. O colchão de lã afundou sob seu peso.
— Não precisa se esconder — ele disse. — Todo mundo chora.
— Eu não choro — a voz dela saiu abafada, ainda escondida atrás das mãos. — Eu nunca choro. Não desde…
Ela não terminou.
— Não desde que seus pais morreram? — Arin completou baixo.
Elena não respondeu. Mas os ombros dela tremeram mais um pouco.
— Eu entendo — Arin disse. — Não do jeito que você pensa. Mas entendo.
Ele não explicou. Não podia explicar. Como dizer para uma garota de catorze anos que ele não era quem ela pensava? Que ele era um escritor de trinta e quatro anos dentro do corpo de um ferreiro? Que ele tinha sido transportado para dentro do próprio livro e não sabia se algum dia voltaria?
Ela não ia acreditar. Ou ia, e aí o problema seria maior.
Então ele só ficou ali. Sentado na beirada da cama. Em silêncio. Enquanto Elena chorava baixinho, com vergonha de ser ouvida.
Depois de alguns minutos, ela se virou.
Os olhos azuis estavam vermelhos, inchados. As sardas no nariz pareciam mais escuras contra a pele pálida.
— Você vai ficar mesmo aí? — ela perguntou, a voz rouca.
— Vou.
— Por quê?
— Porque ninguém deveria chorar sozinha.
Elena olhou para ele por um longo momento. Depois, sem dizer nada, ela se afastou ligeiramente, abrindo espaço na cama.
— Só não conta para o Jasper — ela murmurou. — Ele vai achar que sou fraca.
— Você não é fraca.
— Eu sei. Mas ele não precisa saber que chorei.
Arin deitou ao lado dela — não perto, não encostado, mas ali. No mesmo colchão. De costas, olhando para o teto de madeira. As vigas escuras, as rachaduras, a infiltração no canto. Ele já conhecia cada detalhe daquele teto.
Elena se virou de lado, de costas para ele. A respiração dela foi ficando mais lenta, mais regular.
— Nox? — ela chamou, a voz pastosa de sono.
— Hum?
— Obrigada.
— De nada.
— Não é por hoje. É por… por acreditar em mim.
Arin não respondeu.
Elena dormiu. A respiração dela se misturou com a chuva lá fora, com o ronco de Jasper no andar de baixo, com o vento batendo nas telhas.
Arin ficou acordado por mais algum tempo. O teto de madeira olhou para ele.
O que você está fazendo? uma voz perguntou. A voz de Rheiner, talvez. Ou a voz da esfera. Ou a voz dele mesmo. Você não pode salvar todo mundo. Não pode cuidar de todo mundo. Você mal consegue cuidar de si mesmo.
Arin fechou os olhos.
Talvez não, pensou. Mas posso tentar.
O sono veio. E Arin não sonhou.
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