A manhã seguinte estava cinzenta.

    A chuva tinha passado, mas o céu ainda estava carregado, nublado, com os dois sóis escondidos atrás de uma camada espessa de nuvens cinzentas. A luz que entrava pela janela era suave, difusa, sem sombras.

    Arin acordou com o barulho de panelas na cozinha.

    Helga já estava de pé. O cabelo loiro preso no coque de sempre, o avental de couro manchado de farinha, as mãos rápidas e eficientes. Jasper estava sentado à mesa, mastigando um pedaço de pão com manteiga, os olhos ainda meio fechados de sono.

    Elena não estava na cama.

    Arin sentou-se de repente, o coração disparando. Ela foi embora?

    Ele olhou ao redor do quarto. A manta de lã estava dobrada no travesseiro. As botas de cano alto não estavam mais encostadas na parede. A mala enorme tinha sumido.

    Ela foi embora, pensou. Sem dizer nada. Sem se despedir. Sem…

    Ele ouviu risadas. Não uma risada, duas.

    Desceu a escada correndo, os pés descalços batendo nos degraus.

    A cozinha estava cheia de movimento. Helga mexia uma panela no fogão. Jasper estava à mesa, mastigando pão. E Elena… Elena estava na cozinha. Com um avental emprestado. Enfrentando uma pilha de pratos sujos.

    — …e aí eu falei para o mercador que se ele não me levasse, eu ia contar para a mulher dele que ele estava flertando com a estalajadeira — Elena dizia, as mãos enfiadas na água ensaboada.

    — Ele tava flertando? — Jasper perguntou, os olhos arregalados.

    — Não. Mas a mulher dele não precisava saber disso.

    — Você é brava! — Jasper riu.

    — Eu sou criativa. São coisas diferentes.

    Helga balançou a cabeça, mas estava sorrindo. O rosto cansado parecia mais leve — a mancha roxa quase tinha sumido, e os olhos azuis escuros brilhavam com algo que Arin não via desde que chegara àquele mundo.

    Esperança.

    Arin parou no meio da sala. Elena lavava pratos, Jasper comia pão, Helga mexia a panela.

    Isso é uma família, pensou. Não a minha. Mas uma família.

    Ele atravessou a cozinha, pegou um pedaço de pão da cesta, sentou-se à mesa ao lado de Jasper.

    — Bom dia — ele disse.

    — Bom dia, dorminhoco — Helga respondeu sem se virar.

    — Você roncou — Jasper acusou.

    — Eu não ronco.

    — Roncou sim. A Elena ouviu.

    — Eu não ouvi nada — Elena disse rapidamente, mas o sorriso no rosto dela a traía.

    — Traidora — Arin murmurou, mordendo o pão.

    Ela riu. Foi uma risada gostosa. Arin sentiu os ombros relaxarem.

    Talvez as coisas estejam melhorando, pensou. Talvez a gente consiga.

    Ele não sabia o que o futuro guardava. Não sabia quando o reino cairia. Não sabia se conseguiria salvar todo mundo. Mas naquele momento, sentado à mesa de madeira com uma família improvisada ao redor, ele sentiu que talvez — apenas talvez — estivesse no caminho certo.

    ━═✧═━

    O café da manhã terminou em clima leve. Helga lavou as últimas panelas enquanto Jasper tentava convencer Elena a mostrar uma das facas de arremesso.

    — Depois — Elena disse, desviando do assunto com um sorriso evasivo. — Quando eu estiver totalmente seca e com minhas próprias roupas.

    — Você promete?

    — Prometo.

    Jasper pareceu satisfeito. Voltou a comer o pão com manteiga como se tivesse acabado de ganhar uma grande batalha.

    Helga enxugou as mãos no avental e se virou para a mesa. Os olhos azuis escuros percorreram os três — Jasper mastigando, Arin sonolento, Elena com as mãos ainda molhadas apoiadas no balcão da cozinha.

    — Nox — ela chamou.

    — Hum?

    — Vocês vão passar o dia trancados dentro de casa?

    Arin ergueu a cabeça.

    — O quê? Não. Eu ia… — ele hesitou. Na verdade, ele não tinha planos. Não tinha trabalho na oficina — o ferreiro tinha dito para ele descansar. Não tinha dinheiro para gastar na venda — Helga já tinha feito as compras. Não tinha nada para fazer.

    — Exatamente — Helga disse, como se lesse seus pensamentos. — Vocês vão sair. Mostrar a vila para a Elena.

    — O quê? — Elena se endireitou, surpresa. — Não precisa…

    — Precisa sim. — Helga cruzou os braços. — Você vai ficar aqui pelo menos até o dinheiro do seu tio chegar, ou até aparecer outro meio de transporte. Não quero você trancada dentro de casa olhando para as paredes. Vai conhecer o lugar. Arejar a cabeça.

    — Mas…

    — Sem mas. — Helga olhou para Arin. — Nox, você conhece cada canto dessa vila. Mostra para ela. E Jasper, vai junto e não enche o saco.

    — Eu não encho o saco! — Jasper protestou, já pulando do banco.

    — Você enche o saco desde que nasceu.

    — Isso é mentira.

    — É verdade. Agora vão.

    Elena olhou para Arin, hesitante. Havia algo nos olhos dela — um misto de gratidão e nervosismo. Talvez medo de sair, medo de ser reconhecida, medo de que alguém soubesse quem ela realmente era.

    Arin entendeu.

    — Vai ser rápido — ele disse, levantando-se. — Só uma volta. Ninguém vai perguntar nada. A galera aqui é mais ocupada com as próprias galinhas do que com a vida dos outros.

    Elena quase sorriu.

    — Tá bom — ela cedeu. — Mas me dá um minuto para me vestir.

    ━═✧═━

    Elena demorou menos de cinco minutos.

    Quando desceu, já estava com a túnica de couro seca, as botas de cano alto calçadas e o cabelo preso num rabo de cavalo baixo — não o rabo de cavalo largo que Nox usava, mas algo mais contido, mais prático. A capa verde-escura estava sobre os ombros, mas ela não fechou o broche.

    A mala enorme continuava no canto da sala, ainda fechada, ainda cheia de segredos.

    — Pronta? — Arin perguntou.

    — Pronta — Elena respondeu. A voz estava mais firme agora. Mais parecida com a garota que tinha discutido com o mercador na venda.

    — Eu vou na frente! — Jasper já estava na porta, os sapatos desamarrados (de novo), a camisa para fora da calça.

    — Amarra esse sapato — Arin ordenou.

    — Agora não!

    — Agora sim.

    Jasper bufou, mas obedeceu. Agachou-se, amarrou os cadarços com pressa, e saiu correndo antes que Arin pudesse dizer qualquer outra coisa.

    — Ele é sempre assim? — Elena perguntou, acompanhando Arin até a porta.

    — Sempre. Piora à tarde.

    — Não imaginei que pudesse piorar.

    — Espere até ele comer mel. Você vai ver.

    Elena riu — aquela risada baixa, gostosa, que parecia aliviar a tensão nos ombros dela.

    Saíram.

    ━═✧═━

    A rua de terra ainda estava molhada da chuva da noite anterior. O cheiro de terra molhada e madeira encharcada subia do chão, misturando-se com o cheiro distante de fumaça de lenha — alguém já tinha acendido a lareira, mesmo com o dia clareando. As poças de água refletiam o céu cinzento, e as sombras — duplas, sempre duplas — se alongavam no chão conforme os dois sóis tentavam romper as nuvens.

    Jasper já estava longe, correndo na frente, os pés descalços (ele tinha tirado os sapatos de novo — Arin nem viu quando) chapinhando nas poças como se fosse a maior diversão do mundo.

    — Jasper! Não corre tão longe! — Arin gritou.

    — Você que é devagar! — o menino gritou de volta, sem parar.

    — Ele vai se machucar — Elena observou.

    — Ele sempre se machuca. Já caiu de pé no balde d’água, já levou uma paulada na cabeça brincando de espadachim, já foi bicado por galinha… — Arin suspirou. — É um milagre ele estar vivo.

    — E você? — Elena perguntou, caminhando ao lado dele. — Você também era assim quando pequeno?

    Arin pensou por um momento. A memória não era dele — era de Nox. Mas, de alguma forma, doía do mesmo jeito.

    — Eu era mais quieto — ele respondeu. — Sempre fui. O pai… — ele hesitou. A palavra ainda era estranha na boca. — O pai não gostava de bagunça. Eu aprendi cedo a não fazer barulho.

    Elena olhou para ele. Os olhos azuis estavam sérios agora.

    — Sinto muito.

    — Pelo quê?

    — Pelo que quer que tenha acontecido.

    Arin não respondeu. Não sabia como explicar que nem ele sabia direito. As memórias de Nox vinham em fragmentos — um grito aqui, um copo quebrado ali, uma porta batendo. Nada completo, nada claro.

    Nox enterrou, pensou. E eu não vou desenterrar. Não agora.

    ━═✧═━

    Eles caminharam em silêncio por alguns minutos, seguindo a rua principal da vila. Jasper já estava mais à frente, sentado em cima de um muro baixo, esperando os dois com os braços cruzados e uma expressão de impaciência dramática.

    — Vocês demoram tanto — reclamou quando eles se aproximaram.

    — Você corre como se tivesse um bicho te perseguindo — Arin rebateu.

    — É para vocês não ficarem entediados.

    — A gente não fica entediado. A gente fica cansado de correr atrás de você.

    Jasper sorriu, claramente satisfeito com si mesmo.

    — Para onde vamos primeiro? — Elena perguntou, olhando ao redor.

    As casas de madeira e pedra se estendiam em ambas as direções, algumas com varandas pequenas, outras com galinhas ciscando no quintal, outras com cortinas de linho nas janelas, que balançavam com o vento. A vida na vila era lenta, quase preguiçosa — uma mulher varria a calçada de terra com uma vassoura de galhos secos, um homem consertava o telhado da própria casa, crianças menores que Jasper corriam atrás de uma bola de couro esfarrapada.

    — Vamos mostrar tudo — Arin disse. — É uma vila pequena. Não tem muito segredo.

    — Tem o poço! — Jasper exclamou, pulando do muro. — E a estalagem! E a venda do Tio Aldric! E o curral do Tiago, que tem um cavalo manco!

    — Por que você quer mostrar um cavalo manco? — Elena perguntou, confusa.

    — Porque ele é legal! Ele tem uma mancha branca no olho e parece que tá sempre julgando você.

    — Um cavalo que julga as pessoas?

    — É muito engraçado!

    Arin balançou a cabeça.

    — O Jasper tem… uma relação especial com os animais.

    — Especial como?

    — Ele conversa com eles. E às vezes eles respondem.

    — Eles não respondem! — Jasper protestou. — Eles só… fazem sons. E eu entendo os sons. É diferente.

    — Claro — Arin disse, com um sorriso no canto da boca. — É completamente diferente.

    Elena riu. E, pela primeira vez desde que tinha chegado à vila, ela pareceu relaxar de verdade.

    ━═✧═━

    O primeiro lugar que mostraram foi o poço da vila. Ficava no centro da rua principal, numa pequena praça de terra batida cercada por bancos de madeira tosca. O poço era antigo — as pedras estavam escuras de umidade, e o balde de madeira pendia de uma corda grossa, desgastada pelo uso. Uma mulher enchia um balde enquanto uma criança pequena se pendurava na borda, tentando ver o fundo.

    — Aqui é onde a gente pega água quando o poço de casa seca — Arin explicou. — No verão, todo mundo se reúne aqui. As mulheres conversam, as crianças correm, os homens ficam sentados naqueles bancos ali, reclamando do calor.

    — Parece… pacífico — Elena disse.

    — É. Até os soldados aparecerem.

    O clima mudou por um segundo. Elena olhou para ele, mas não perguntou nada. Apenas assentiu. Jasper, que estava distraído tentando pegar um lagarto no chão, não ouviu.

    ━═✧═━

    O segundo lugar foi a estalagem do viajante. O prédio era o maior da vila — duas andares de pedra clara, com uma varanda na frente e uma placa de madeira pintada com o nome desbotado. O cheiro de cerveja e carne assada ainda escapava pelas frestas das janelas, mesmo com a porta fechada.

    — Sua mãe trabalha aqui? — Elena perguntou, lendo a expressão no rosto de Arin.

    — Trabalha. Desde que meu pai morreu.

    — É duro?

    — É. — Arin olhou para a fachada da estalagem. As janelas do segundo andar — onde ficavam os quartos para os hóspedes — estavam fechadas, as cortinas corridas. — Mas ela nunca reclamou. Não na nossa frente.

    Elena ficou em silêncio. As mãos dela, dentro dos bolsos da capa, estavam cerradas.

    — Minha mãe também não reclamava — ela disse, a voz baixa. — Pelo menos não que eu lembre.

    Arin não perguntou mais. Sabia que aquela dor ainda estava fresca — mesmo depois de tantos anos.

    ━═✧═━

    O terceiro lugar foi a venda do Aldric. A porta rangeu quando entraram, e o velho comerciante ergueu os olhos do balcão, onde estava pesando um saco de feijão numa balança de metal enferrujado.

    — Olha só quem voltou — Aldric disse, os olhos escuros brilhando. — O matador de serpentes e o javali.

    — Eu não sou javali! — Jasper protestou, já correndo para o balcão.

    — Você comeu o último pedaço do bolo da sua mãe. Isso é javali.

    — Todo mundo comeu! — Jasper mentiu, sem qualquer vergonha.

    — Eu não comi — Arin disse.

    — Você não gosta de bolo de mel.

    — Gosto sim.

    — Desde quando?

    — Desde sempre.

    — Você está mentindo.

    — Você que está mentindo sobre o javali.

    Aldric riu, uma gargalhada rouca que fez o cachimbo balançar no canto da boca. Ele olhou para Elena, que estava parada na porta, hesitante.

    — Você é a garota da discussão de ontem — ele disse. Não era uma pergunta.

    — Sou — Elena respondeu, o queixo erguido.

    — Já resolveu a vida?

    — Ainda não.

    — Pois se precisar de alguma coisa, é só falar. — Aldric bateu no balcão com a palma da mão. — Aqui se ajuda quem precisa.

    Elena pareceu surpresa. Olhou para Arin, que apenas deu de ombros.

    — Aldric é assim — ele explicou. — Ajuda todo mundo. Até o Jasper.

    — Eu não preciso de ajuda! — Jasper protestou.

    — Você precisa de ajuda para amarrar os sapatos.

    — Eu sei amarrar os sapatos!

    — Mostra.

    Jasper olhou para os próprios pés. Estava descalço.

    — Eu tirei eles. Não conta.

    Aldric riu novamente, e Elena não conseguiu segurar um sorriso.

    ━═✧═━

    O quarto lugar foi o curral do Tiago. Ficava nos fundos da vila, perto do início da floresta. Uma cerca baixa de madeira cercava um pasto pequeno, onde um cavalo velho e magro pastava sem pressa. Ele tinha pelo marrom-escuro, crina grossa e embaraçada, e uma mancha branca no olho esquerdo que realmente parecia estar sempre julgando tudo ao redor.

    — Esse é o Relâmpago — Jasper anunciou, orgulhoso, como se o cavalo fosse dele.

    — Relâmpago? — Elena ergueu uma sobrancelha. — Ele parece mais… Devagar.

    — O nome é irônico — Arin explicou. — O Tiago tem senso de humor.

    — Ou falta de esperança — Elena sugeriu.

    — As duas coisas.

    Jasper já tinha pulado a cerca e estava acariciando o pescoço do cavalo, que nem se moveu. Apenas piscou lentamente, como se estivesse ponderando se valia a pena o esforço de respirar.

    — Ele gosta de mim — Jasper disse, convencido.

    — Ele está dormindo de olho aberto.

    — É carinho. Você não entende de cavalos.

    Arin se apoiou na cerca, olhando para o pasto. O céu ainda estava cinzento, mas a luz estava mais clara agora — os dois sóis tinham conseguido romper as nuvens em alguns lugares, criando feixes de luz dourada que cortavam o horizonte.

    Elena se apoiou ao lado dele.

    — Você cresceu aqui? — ela perguntou.

    — Sim. — Arin sentiu a memória de Nox preencher as palavras. — Nasci nessa vila. Nunca saí. Acho que nunca vou sair.

    — Isso é triste?

    — Não sei. — Ele olhou para o cavalo, que finalmente se mexeu — deu dois passos lentos e parou novamente. — Às vezes eu acho que sim. Às vezes eu acho que não tem nada lá fora que valha a pena.

    — Tem — Elena disse, a voz baixa. — Tem sim.

    Arin olhou para ela. Ela não estava olhando para ele. Estava olhando para a floresta, para além do curral, para os picos das montanhas recortados contra o céu.

    — Graventhal é lá? — ele perguntou, apontando.

    — Sim. Do outro lado das montanhas. Alguns dias de viagem.

    — De carroça?

    — De carroça, três dias. A cavalo, um dia e meio. Andando… — ela hesitou. — Uma semana. Talvez mais.

    — Você ia andando?

    — Eu ia. Se não tivesse outro jeito.

    Arin ficou em silêncio. Uma semana andando sozinha. Por estradas desertas. Por florestas cheias de serpentes rubras e soldados invasores.

    — Você é louca — ele disse.

    Ela riu. Foi uma risada curta, sem humor.

    — Talvez. Mas é o meu tio. Se fosse o seu, você não faria a mesma coisa?

    Arin pensou em Helga. Pensou em Jasper. Pensou naquela casa de madeira escura, no telhado que precisava de conserto, nas galinhas que ciscavam no quintal.

    — Faria — ele respondeu. — Faria a mesma coisa.

    Elena finalmente olhou para ele. Os olhos azuis estavam cansados, mas havia algo ali — uma centelha de esperança, de gratidão, de alguma coisa que Arin não sabia nomear.

    — Você ainda vai me ajudar? — ela perguntou. A voz estava mais baixa agora, quase um sussurro.

    — Ainda.

    — Mesmo depois de saber que é longe? Que é perigoso?

    — Ainda.

    Ela não perguntou mais. Apenas voltou a olhar para as montanhas.

    ━═✧═━

    Jasper, cansado de fazer carinho no cavalo que não reagia, pulou a cerca e voltou para perto dos dois.

    — Já viram tudo? — ele perguntou. — Porque eu quero ir na fonte. Tô com sede.

    — Fonte é lá no final da rua — Arin apontou. — Vai na frente. A gente alcança.

    — Vocês são devagar!

    — A gente sabe.

    Jasper já estava correndo, os pés descalços levantando pequenas nuvens de poeira.

    Arin e Elena caminharam atrás, em silêncio por um momento.

    — Ele é um bom irmão — Elena disse.

    — É. — Arin sentiu o peito apertar. A frase era verdade — não para ele, para Nox. Mas doía do mesmo jeito. — Às vezes eu acho que ele é a única coisa que me mantém são.

    — E sua mãe?

    — Ela também. Mas ela… — ele hesitou. — Ela tem muito peso. Muita responsabilidade. Eu tento não ser mais um fardo.

    — Você não é um fardo.

    — Não sou?

    — Não. — Elena parou de andar. Olhou para ele. — Você é a pessoa que enfrentou soldados por ela. Que foi para a floresta sozinho, arriscou a vida para conseguir dinheiro. Que trouxe uma estranha para dentro de casa porque estava na chuva.

    — Isso é ser uma boa pessoa, não deixar de ser um fardo.

    — É a mesma coisa. Às vezes.

    Arin não soube o que responder. Apenas continuou andando.

    ━═✧═━

    A fonte ficava no final da rua principal, onde a vila começava a dar lugar aos campos de plantação. Era uma construção simples — uma bacia de pedra entalhada, com água cristalina jorrando de um cano de metal enferrujado. O som da água corrente era tranquilo, quase melancólico.

    Jasper já estava com a boca no cano, bebendo direto da fonte.

    — Jasper, isso é nojento — Arin reclamou.

    — É gostoso!

    — Não é gostoso. É nojento. As galinhas bebem aqui.

    — As galinhas são limpas.

    — As galinhas comem minhoca.

    — Eu também comeria minhoca se fosse crocante.

    Arin suspirou, passando a mão no rosto.

    — Desiste — Elena disse, rindo. — Ele é imune a argumentos.

    — Ele é imune a tudo. Incluindo inteligência.

    — Eu ouvi isso! — Jasper gritou, sem tirar a boca da água.

    — Era para ouvir!

    Elena se ajoelhou na borda da fonte, juntou as mãos em concha e bebeu água com cuidado — um gole pequeno, depois outro, como quem não está acostumada a beber de fonte pública.

    Arin observou.

    Ela ainda tinha modos — modos de gente que foi criada em outro lugar. Em outro mundo. Em um lugar mais requintado.

    Uma nobre bebendo água de fonte de vila, pensou. Isso é coisa de história.

    Ele quase riu.

    — O quê? — Elena perguntou, secando a boca com as costas da mão.

    — Nada. Só… você é diferente.

    — Diferente como?

    — Não sei. Diferente. — Ele deu de ombros. — Não é uma coisa ruim.

    Ela olhou para ele por um segundo, os olhos azuis estreitados, como se tentasse decifrar um enigma. Depois, balançou a cabeça e se levantou.

    — Vocês são estranhos — ela disse.

    — Jasper já falou isso.

    — Jasper é inteligente.

    — Vocês dois são contra mim, é isso?

    — É — Elena e Jasper responderam em uníssono.

    Arin suspirou. É isso. Eu perdi.

    ━═✧═━

    O sol maior começava a se pôr quando eles voltaram para casa.

    O céu estava alaranjado agora, com nuvens finas e esparsas pintadas de rosa e púrpura. O sol menor, pálido e distante, ainda estava visível no horizonte oposto. As sombras duplas se alongavam no chão de terra, cruzando-se em ângulos estranhos que ainda confundiam Arin toda vez que ele olhava.

    Jasper estava cansado — tinha corrido a vila inteira, mostrado cada canto, cada árvore, cada galinha (ele apontou cada galinha individualmente, com nomes inventados que ele jurava serem os verdadeiros). Agora caminhava devagar, os pés arrastando na terra, a cabeça baixa de sono.

    — Jasper, não dorme andando — Arin avisou.

    — Não tô dormindo. Tô… economizando energia.

    — Para quê?

    — Para o jantar.

    — Você vai comer e dormir.

    — Exato. Vou economizar energia para comer.

    — Isso não faz sentido.

    — Faz sim. Você que não entende.

    Elena riu — baixo, para não acordar o menino completamente.

    Quando chegaram na porta de casa, Jasper já estava quase caindo. Arin o pegou no colo — o corpo do menino era leve, mais leve do que deveria para uma criança de oito anos. Ele sentiu os braços magros se enrolarem no seu pescoço, a cabeça loira apoiada no ombro.

    Nox já fez isso mil vezes, pensou Arin. Carregar o Jasper para a cama. Esperar ele dormir. Ficar acordado ouvindo ele respirar.

    Nox ama esse menino mais do que tudo.

    E, de alguma forma, eu também.

    Helga abriu a porta antes que eles batessem.

    Os olhos azuis escuros percorreram os três — Jasper dormindo no colo de Arin, Elena com as bochechas rosadas de sol e vento, Arin com os ombros cansados e o rosto sujo de poeira.

    — Divertiram-se? — ela perguntou, um sorriso pequeno no canto da boca.

    — Muito — Elena respondeu. A voz estava mais leve agora, mais solta. — Sua vila é bonita.

    — Não é bonita. É simples.

    — Às vezes a simplicidade é bonita.

    Helga olhou para ela por um segundo. Depois, abriu a porta mais larga.

    — Entrem. A sopa está quase pronta.

    ━═✧═━

    Arin colocou Jasper no sofá — o menino já estava roncando baixo, a boca aberta, as mãos abertas sobre a barriga. Cobriu-o com uma manta de lã, ajeitou o travesseiro embaixo da cabeça.

    Dorme, pequeno, pensou. Amanhã tem mais.

    Ele foi até a cozinha.

    Helga estava de costas para ele, mexendo a sopa na panela de ferro. O cheiro de legumes e ervas enchia a sala, quente e reconfortante.

    Elena estava sentada à mesa, as mãos apoiadas na madeira, os olhos fixos na janela — na luz alaranjada do lado de fora, nos dois sóis se pondo.

    Arin sentou-se ao lado dela.

    Os três ficaram em silêncio por um momento. O crepitar da lareira, o borbulhar da sopa, o ronco distante de Jasper.

    Isso é uma família, pensou Arin novamente.

    Helga se virou. A colher de pau na mão. O rosto iluminado pela luz do fogo.

    — Amanhã — ela disse, olhando de Arin para Elena —, vamos conversar sobre o que fazer. Sobre o dinheiro. Sobre a viagem. Sobre o seu tio.

    Ela hesitou. A palavra “tio” pareceu pesar na língua dela.

    — Mas hoje — ela continuou —, hoje a gente só come.

    Elena abriu a boca para dizer alguma coisa — agradecer, talvez, ou explicar, ou perguntar — mas Helga levantou a mão.

    — Amanhã — repetiu. — Conversamos amanhã.

    Ela virou as costas e voltou para a panela.

    Elena olhou para Arin. Os olhos azuis estavam brilhando — não de lágrimas, mas de alguma outra coisa. Alívio? Esperança? Cansaço?

    — Obrigada — ela sussurrou, baixo o suficiente para que só ele ouvisse.

    — De nada — Arin respondeu.

    E ele não sabia se estava agradecendo por ela ou por ele.

    ━═✧═━

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