Capítulo 17 │Olhos Azuis
Os dois dias seguintes passaram num ritmo diferente.
Arin se acostumou lentamente à rotina da casa. Acordava cedo — não tão cedo quanto antes, porque Helga insistia que ele descansasse — e ajudava no café. Descobriu que o corpo de Nox sabia amassar pão, mesmo que sua mente não soubesse. Os dedos calejados encontravam o ritmo certo, sovando a massa até ficar lisa e elástica, enquanto o cheiro de farinha enchia a cozinha.
Na manhã do terceiro dia, Helga olhou para ele enquanto amassava o pão e disse:
— Você está diferente.
Arin ergueu os olhos.
— Diferente como?
— Não sei. — Ela franziu a testa. — Mais… calmo. Antes, você sempre parecia estar com pressa. Como se quisesse estar em outro lugar. Agora…
Ela não terminou a frase. Voltou a mexer a panela no fogão.
Mas Arin entendeu. Nox sempre estava com pressa. Pressa de crescer, pressa de trabalhar, pressa de ser o homem da casa, de preencher o vazio que o pai deixou. Mas Arin não tinha essa pressa. Arin sabia que o tempo era precioso — porque ele tinha visto a morte de perto, porque ele sabia que o reino ia cair, porque ele não sabia quanto tempo restava.
Então ele aproveitava. Aprendeu a gostar do som da voz de Jasper tagarelando, do cheiro do pão assando, do calor da lareira à noite, das lições de escrita com Helga — que progredia lentamente, já conseguia escrever o próprio nome, o nome dos filhos, palavras simples como “pão”, “água”, “casa”.
Na tarde do terceiro dia, Jasper arrastou Arin para o quintal.
— Você prometeu! — o menino acusou, os olhos castanhos brilhando de indignação. — Prometeu que ia me ensinar a martelar!
Arin tinha prometido. Ou melhor, Nox tinha prometido. Mas uma promessa era uma promessa.
— Tá bom — ele cedeu. — Pega os pregos.
O problema era que Arin não sabia martelar. Ele tinha visto o ferreiro trabalhar nas memórias de Nox, mas ver e fazer eram coisas diferentes. Ele pegou o martelo — pesado demais para sua mão — e tentou acertar um prego numa tábua velha que Jasper tinha encontrado. O prego entortou.
— Você é péssimo nisso! — Jasper disse, rindo.
— Cala a boca. É a madeira que é dura.
Ele tentou de novo. O prego entortou para o outro lado.
— Tá piorando! — O menino estava quase chorando de rir agora.
— Você quer aprender ou quer ficar aí rindo?
— As duas coisas!
Arin jogou o martelo no chão — de leve, só para fazer drama — e cruzou os braços.
— Pronto. Agora você que se vire.
Jasper pegou o martelo. Era grande demais para as mãos pequenas, mas ele segurou com as duas, a ponta da língua para fora, concentrado como se estivesse realizando um ritual sagrado.
O primeiro golpe acertou a tábua. O prego não entrou, mas não entortou. O segundo golpe acertou o próprio dedo.
— AAAAAHH!
Arin correu para ver. Estava vermelho, mas não sangrando. Nada grave.
— Você sobreviveu — ele declarou, solene.
— DÓI! — Jasper gritou, os olhos cheios de lágrimas.
— Claro que dói. Você bateu um martelo no dedo. Mas olha pelo lado bom: agora você tem uma história para contar.
Jasper parou de gritar. Olhou para o dedo, olhou para Arin.
— Que história?
— A história do dia em que você aprendeu a martelar. — Arin sorriu. — Todo mundo erra no começo. Até o ferreiro, até os heróis. O importante é tentar de novo.
Jasper ficou em silêncio por um momento. Depois pegou o martelo novamente.
— Eu vou conseguir — ele disse, a voz determinada.
— Eu sei que vai.
E ele conseguiu. Na terceira tentativa, o prego entrou reto. Não perfeito — um pouco torto, um pouco fundo demais de um lado — mas entrou. Jasper olhou para o prego, para o martelo, para Arin, e sorriu como se tivesse derrotado um dragão.
— EU CONSEGUI!
— Conseguiu — Arin confirmou. — Agora me ensina, porque eu ainda não acertei nenhum.
Jasper caiu na risada.
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Na manhã do quarto dia, Arin estava terminando o café quando ouviu batidas na porta. Três batidas firmes, apressadas.
Jasper correu para abrir antes que Helga pudesse impedi-lo.
Era Aldric. O cachimbo estava apagado — o que era raro — e o rosto estava animado, os olhos escuros brilhando com uma energia que Arin nunca tinha visto no velho.
— Chegou! — ele anunciou, sem fôlego, como se tivesse corrido. — O mercador chegou mais cedo! Está na minha venda agora mesmo!
Arin e Helga se entreolharam.
— Agora? — Helga perguntou. — De manhã?
— Disse que ia chegar ontem à noite, mas se atrasou na estrada. Chegou de madrugada e dormiu na estalagem. Agora está na venda, tomando chá e reclamando que ninguém avisou que ele tinha cliente esperando. — Aldric fez uma pausa, recuperando o fôlego. — Tive que vir correndo. O homem não gosta de esperar.
Helga já estava se levantando, tirando o avental de couro e alisando o vestido com as mãos.
— Vamos — ela disse. — Precisamos buscar os dentes.
— Eu vou também! — Jasper anunciou, já correndo para pegar sua capa.
— Não — Helga e Arin disseram ao mesmo tempo.
— Por quê?!
— Porque você ainda está de pijama — Arin apontou.
Jasper olhou para baixo. A camisa de linho estava manchada de mingau, a calça estava torta, e ele estava descalço.
— Isso não é pijama — ele argumentou, indignado. — É roupa de casa.
— Vai se trocar primeiro — Helga disse. — Depois você alcança a gente na venda.
— Mas…
— Sem mas.
Jasper bufou, mas saiu correndo para o quarto. Arin subiu as escadas para pegar os dentes e as escamas, que ainda estavam no baú, enrolados num pedaço de couro. Ele os pegou com cuidado — ainda eram afiados, ainda brilhavam na luz da manhã, ainda lembravam a morte na floresta.
Quando desceu, Helga já estava pronta. Tinha colocado uma capa de lã sobre os ombros, e Arin notou que ela tinha passado os dedos no cabelo — as mechas loiras estavam mais arrumadas do que de costume. O rosto ainda tinha a mancha roxa na maçã, já começando a amarelar nas bordas, mas os olhos estavam firmes.
— Pronto? — ela perguntou.
— Pronto.
Saíram juntos. A rua de terra estava mais movimentada do que nos dias anteriores — era manhã, e as pessoas estavam trabalhando, carregando baldes, alimentando galinhas, consertando cercas. Alguns vizinhos acenaram para Helga. Um homem que Arin reconheceu como o dono do forcado gritou um “bom dia” animado.
Aldric ia na frente, as pernas curtas se movendo com uma agilidade surpreendente para um homem da sua idade.
— Ele é um homem grande — o velho ia dizendo, sem se virar. — Gordo. Usa um casaco vermelho que já foi elegante, mas agora está cheio de remendos. Tem um bigode que parece um ouriço. E fala alto. Muito alto. Não se assustem com o tom de voz dele — ele parece bravo, mas é só o jeito.
— Ele é confiável? — Helga perguntou.
— Já fiz negócios com ele antes. É justo. Paga o que promete. Mas adora pechinchar. — Aldric deu uma risada curta. — Vai tentar baixar o preço. Não deixem.
— E como a gente impede? — Arin perguntou.
— Não aceitem a primeira oferta. Nem a segunda. Na terceira, vocês podem começar a ceder.
Helga e Arin trocaram um olhar. Nenhum dos dois tinha experiência com negociações. Mas não tinham escolha.
A venda do Aldric apareceu no final da rua. A placa azul desbotada balançava levemente com o vento. As janelas estavam abertas, deixando entrar a luz da manhã.
E antes mesmo de chegarem à porta, eles ouviram as vozes.
— …já disse que não vou pagar! — Uma voz masculina, alta, estrondosa, que parecia fazer as janelas tremerem. — Você me deve, isso sim! Viajou na minha carroça por três dias, comeu da minha comida, bebeu da minha água, e ainda quer que eu te leve mais longe? SEM PAGAR?
— Eu não disse que não vou pagar! — Uma segunda voz, feminina, jovem, tão alta quanto a do mercador. — Eu disse que pago DEPOIS! Quando chegar ao meu destino!
— Depois? DEPOIS? — O mercador soltou uma gargalhada estrondosa. — E como eu vou cobrar você DEPOIS? Vou mandar um pombo-correio?
— O senhor é um homem impossível!
— E você é uma garota sem noção!
Arin e Helga pararam na porta da venda. Aldric suspirou, tirou o cachimbo do bolso e começou a enchê-lo com tabaco, como quem já estava se preparando para uma longa discussão.
— Já começaram — murmurou o velho.
Eles entraram.
A venda estava mais iluminada do que de costume, com as janelas abertas e o sol entrando. Os sacos de grãos estavam nos mesmos lugares, os potes nas mesmas prateleiras, o cheiro de madeira e especiarias flutuando no ar.
Mas no centro da venda, perto do balcão, uma cena chamava toda a atenção.
O mercador era exatamente como Aldric tinha descrito. Gordo, casaco vermelho cheio de remendos, bigode que parecia um ouriço. O rosto estava vermelho — não de raiva, mas de frustração acumulada. As mãos gesticulavam no ar como se tentassem agarrar argumentos invisíveis.
E na frente dele, de costas para a porta, estava a garota.
Arin não viu o rosto dela de imediato — apenas as costas. Cabelos loiros, muito loiros, caindo em cachos sobre os ombros e chegando até o meio das costas. Ela não usava vestido como a maioria das mulheres da vila. Usava uma túnica de couro marrom sobre uma camisa de mangas compridas, calças escuras enfiadas em botas de cano alto que chegavam até os joelhos. Uma capa verde-escura estava jogada sobre uma mala enorme no canto da venda — uma mala de couro, abarrotada, com fivelas de latão e roupas coloridas espiando pelas bordas.
A garota tinha as mãos na cintura e a postura de quem não ia recuar.
— O combinado era me levar até Graventhal! — ela argumentava, a voz firme. — O senhor aceitou!
— Aceitei quando você disse que ia PAGAR ADIANTADO! — O mercador apontou um dedo grosso para ela. — E cadê o pagamento? Cadê? Estou esperando!
— Eu expliquei que meu dinheiro ficou na capital! Meu tio ia mandar por mensageiro, mas houve um atraso!
— Sempre há um atraso! Sempre há uma desculpa! — O mercador jogou os braços para cima. — Você acha que eu sou feito de quê? De ouro? Tenho que alimentar meus cavalos, pagar meus ajudantes, comprar mercadorias!
— E eu tenho que chegar a Graventhal antes do fim do mês! É uma questão de honra!
— Honra não enche barriga, menina!
Aldric pigarreou alto, interrompendo a discussão. Os dois se viraram ao mesmo tempo — o mercador com o dedo ainda apontado, a garota com os punhos ainda na cintura.
Foi quando Arin viu o rosto dela.
Ela tinha a idade de Nox — catorze, talvez quinze anos. O rosto era redondo, com maçãs salientes cobertas por uma constelação de sardas que se espalhavam pelo nariz e pelas bochechas. Os olhos eram de um azul tão claro que pareciam quase transparentes na luz da manhã, como pedaços de céu cortados e colocados num rosto humano. A boca era pequena, mas os lábios estavam firmemente pressionados, e o queixo estava erguido num desafio teimoso.
Ela era… impressionante.
Não bonita no sentido tradicional — não como a vizinha que Arin admirava em seu mundo, com seu short curto e cheiro de xampu de coco. Era uma beleza diferente. Uma beleza de tempestade, de faísca, de alguém que entrava numa discussão com um mercador gordo e não recuava um centímetro.
— Aldric! — O mercador abriu os braços como se recebesse um velho amigo. — Finalmente! Quem são esses?
— Meus clientes — Aldric disse calmamente, acendendo o cachimbo. — Eles têm itens para vender. Mas antes… — Ele olhou para a garota. — Quem é você?
A garota abriu a boca, mas o mercador respondeu primeiro.
— Uma dor de cabeça! — Ele apontou para ela novamente. — Apareceu na capital, pediu carona até Graventhal, disse que pagava. Eu, bom homem que sou, aceitei. Viajou três dias na minha carroça, comeu minha comida, bebeu minha água…
— O senhor já disse isso — a garota interrompeu, revirando os olhos.
— E vou dizer de novo! — O mercador bufou. — Agora quer que eu leve ela até Graventhal sem pagar! Sem um tostão!
— Eu vou pagar! — A garota se virou para Aldric, os olhos azuis faiscando. — Meu tio está enviando o dinheiro. Deve chegar a qualquer momento. Eu só preciso que alguém me leve até Graventhal primeiro. É urgente!
— Urgente por quê? — Arin perguntou, sem pensar.
A garota se virou para ele. Os olhos azuis o examinaram de cima a baixo — um garoto ruivo, de catorze anos, com mãos calejadas e roupas simples. Os olhos dela pararam nos dentes de serpente que Arin segurava, enrolados no couro, e algo brilhou em seu olhar. Interesse? Curiosidade?
— Isso não é da sua conta — ela respondeu, o queixo erguido.
— Se você quer ajuda, talvez devesse tornar da conta dos outros — Helga interveio, a voz calma mas firme.
A garota olhou para Helga, para Arin, para Aldric, para o mercador, que cruzou os braços com um suspiro exasperado. Ela pareceu hesitar — algo raro, Arin imaginou, para alguém que discutia com tanta convicção.
— É uma questão pessoal — ela disse finalmente. — Familiar. E eu realmente preciso chegar a Graventhal. O mais rápido possível.
O mercador soltou um bufo.
— Família, honra, urgência… Todo mundo tem uma história. — Ele se virou para Aldric. — Onde estão esses clientes? Prefiro fazer negócio com pessoas que realmente têm dinheiro.
Aldric deu uma baforada no cachimbo e apontou para Arin e Helga com a ponta.
— Estão bem aqui. E têm algo que vai interessar você.
O mercador olhou para Arin, para o pacote de couro em suas mãos, para o formato dos dentes que se destacavam através do couro. Seus olhos se arregalaram.
— Isso é…?
— Dentes de serpente rubra — Arin disse. — E escamas. Dez dentes. Quinze escamas.
O mercador ficou em silêncio por um momento. Depois, um sorriso enorme se abriu sob o bigode de ouriço.
— Bom dia, meus amigos! — ele disse, a voz de repente muito mais calorosa. — Sente-se, sente-se! Vamos conversar! Tem chá? Aldric, sirva chá para os meus clientes!
A garota loira olhou para Arin novamente. Dessa vez, o olhar demorou um pouco mais. As sobrancelhas finas se franziram ligeiramente, e Arin teve a impressão de que ela estava avaliando — mas o quê, exatamente, ele não sabia dizer.
Aldric serviu chá. O mercador se ajeitou num banco. A negociação ia começar.
Mas os olhos azuis da garota ainda estavam fixos em Arin, e ele sentiu — por algum motivo que não conseguia explicar — que aquele encontro na venda de Aldric era o começo de algo muito maior do que uma simples venda de dentes.
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