Capítulo 19 │Peso da Chuva
Do outro lado da rua, a silhueta de alguém estava sentada no chão, encostada na parede de uma casa vazia — a casa do velho padeiro, que morrera no inverno passado e não deixara herdeiros. A figura estava encolhida, os joelhos contra o peito, uma mala enorme ao lado.
Um relâmpago iluminou o céu.
Cabelos loiros. Cachos grudados no rosto. Uma capa verde-escura encharcada, pesada de água.
Era a garota da venda.
— Nox, olha — Jasper murmurou, puxando a manga de Arin. — É aquela moça. A da discussão.
— Eu vi.
— O que ela está fazendo aí?
— Não sei.
A garota não parecia ter visto eles. Estava de cabeça baixa, os braços cruzados sobre os joelhos, a chuva escorrendo pelo rosto. A mala enorme estava ao lado, tão encharcada que algumas roupas espiando pelas bordas deviam estar completamente arruinadas.
Mas, apesar de tudo — apesar da chuva, da lama, da mala estragada, do dinheiro que não chegara, do mercador que partira sem ela —, ela não estava chorando.
Estava rindo.
Não uma risada alta. Não uma risada de desespero. Uma risada baixa, quase inaudível, que sacudia os ombros enquanto ela olhava para o céu cinzento e deixava a chuva escorrer pelo rosto.
— Ela está… rindo? — Jasper sussurrou.
— Parece que sim.
— Por quê?
— Não sei. Talvez ela tenha enlouquecido.
— Pode ser. A chuva faz isso?
— Às vezes.
A garota baixou a cabeça. Passou a mão no rosto, tentando limpar a chuva — ou as lágrimas, Arin não sabia dizer — e então viu os dois meninos do outro lado da rua.
Os olhos azuis se fixaram neles.
Por um momento, ninguém se moveu. A chuva caía. Os trovões roncavam ao longe. E três pessoas — dois garotos carregados de pacotes e uma garota sentada na lama — se olhavam através da cortina de água.
Então Jasper, sendo Jasper, fez a única coisa que podia fazer.
Acenou.
— OI! — ele gritou, a voz cortando o barulho da chuva. — VOCÊ ESTÁ BEM?
A garota piscou. Olhou para Jasper, para Arin, para os pacotes que eles seguravam, para a chuva que não parava de cair.
E então ela fez algo que Arin não esperava.
Ela riu de novo — mais alto desta vez.
— Estou encharcada! — ela gritou de volta. — Minha mala está estragada! Meu dinheiro não chegou! Estou presa numa vila no meio do nada! E agora está chovendo!
— Então você não está bem! — Jasper constatou.
— NÃO! — A garota jogou os braços para cima, as mãos abertas para o céu, rindo enquanto a chuva escorria pelo rosto. — NÃO ESTOU NADA BEM!
Jasper olhou para Arin. Arin olhou para Jasper.
— A gente pode ajudar? — Jasper perguntou, já começando a atravessar a rua antes mesmo de Arin responder.
Arin suspirou. Ajustou o pacote de farinha no braço. Olhou para a garota na chuva, para a mala estragada, para os olhos azuis que brilhavam mesmo sob a tempestade.
E seguiu o irmão.
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A chuva não dava trégua. Em poucos segundos atravessando a rua, Arin e Jasper ficaram completamente encharcados — como se já não estivessem molhados o suficiente. A água escorria pelo rosto de Arin, pingando da ponta do nariz e do queixo. O pacote de farinha, milagrosamente, continuava seco sob a proteção do couro.
A garota os observava se aproximar com uma expressão indecifrável. Os olhos azuis, cercados por cílios escuros grudados de chuva, iam de Arin a Jasper e voltavam, como se avaliasse se eles eram uma ameaça, uma alucinação ou apenas dois idiotas na tempestade.
— O que vocês querem? — ela perguntou. A voz não era hostil, exatamente. Era cautelosa. A voz de quem já tinha aprendido a não confiar em estranhos.
— Minha mãe disse que quando alguém está na chuva a gente pergunta se precisa de ajuda — Jasper respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Sua mãe parece uma boa pessoa.
— Ela é. Ela fez bolo de mel hoje.
A garota piscou, gotas de chuva escorrendo pelas sardas do nariz.
— Bolo de mel?
— É. Mas eu comi o último pedaço. — Jasper fez uma pausa. — De novo.
Apesar de tudo — da chuva, da lama, da situação miserável — um sorriso minúsculo apareceu no canto dos lábios da garota.
— Pelo menos você é honesto.
— A mãe diz que honestidade é importante. Mesmo quando você come o último pedaço do bolo.
— Especialmente quando você come o último pedaço do bolo — Arin acrescentou, e Jasper fez uma careta.
A garota olhou para Arin. O olhar demorou um pouco mais desta vez, examinando o rosto dele com uma intensidade que fez Arin se sentir estranhamente exposto. Os olhos dela pararam na cicatriz em seu supercílio — a cicatriz de Nox, na verdade, de quando ele caiu na oficina aos dez anos — e depois desceram para as mãos calejadas que seguravam os pacotes.
— Você é o garoto dos dentes de serpente — ela disse. Não era uma pergunta.
— Nox — Arin respondeu. — Nox Siegfried.
— Nox — ela repetiu, como se testasse o nome na boca. — Eu me chamo Elena.
— Elena — Jasper repetiu, saboreando o nome. — É bonito.
— Obrigada. — Elena esboçou um sorriso rápido. — Minha família tem nomes assim. Diferentes.
— Minha família tem nomes normais. Nox. Jasper. Helga.
— Helga?
— Nossa mãe — Arin explicou. — E sim, são nomes bem normais.
— Não tem nada de errado com nomes normais — Elena disse, e havia algo na voz dela que soava quase como defesa. — Nomes normais são… seguros.
Arin franziu a testa. Seguros? Era uma palavra estranha para descrever um nome.
Um trovão estalou acima deles, fazendo Jasper pular. A chuva redobrou de intensidade. O beiral sob o qual Elena estava encolhida não era grande o suficiente — a água escorria pelas telhas quebradas e pingava diretamente sobre a mala dela.
— Você não pode ficar aqui — Arin disse, elevando a voz sobre o rugido da tempestade. — Essa casa está abandonada. O telhado tem mais buracos que telhas.
— Eu percebi. — Elena olhou para a mala encharcada. — Infelizmente, não tenho muitas opções. A estalagem exige pagamento adiantado. E eu estou…
— Sem dinheiro — Arin completou.
— Exatamente.
— O mercador não te deixou nada?
— Ele me deixou três dias de viagem, comida e água. — Elena deu de ombros, um gesto que parecia estranhamente despreocupado para alguém na situação dela. — Já foi mais do que a maioria faria. Ele não é mau. Só é… prático.
— Prático é uma palavra educada para “egoísta” — Arin observou.
— Talvez. Mas ele tem razão. Honra não enche barriga.
— Mas chuva molha os ossos — Jasper interveio, dando um passo à frente. — E você está tremendo.
Era verdade. Arin não tinha notado antes, mas os ombros de Elena tremiam sob a capa encharcada. A túnica de couro marrom estava escura de água, colada ao corpo. Os lábios dela estavam começando a ficar arroxeados.
— Não é nada — Elena disse, mas a voz saiu um pouco trêmula. — Já passei por coisas piores.
— Isso não significa que você precise passar por essa também — Arin respondeu.
As palavras saíram antes que ele pudesse pensar. Eram algo que Helga diria. Ou Rheiner. Ou qualquer pessoa com um pingo de bom senso.
Elena olhou para ele. Os olhos azuis faiscaram, e pela primeira vez Arin viu algo além da teimosia e da ironia. Viu cansaço. Viu solidão. Viu uma garota que estava longe de casa, sem dinheiro, sem amigos, presa numa vila estranha sob uma tempestade.
— Nox — Jasper puxou a manga de Arin. — A mãe não ia gostar de saber que a gente deixou alguém na chuva.
— Eu sei.
— Ela ia dizer “Jasper, Nox, vocês não têm coração?” e depois ia fazer aquela cara.
— Que cara? — Elena perguntou.
— A cara de decepção — Arin e Jasper responderam em uníssono.
Elena soltou uma risada curta, surpresa. Foi um som genuíno, diferente da risada desesperada de antes.
— Vocês dois são estranhos — ela disse.
— Obrigado — Jasper respondeu, como se fosse um elogio.
Arin respirou fundo. A chuva continuava caindo. Os trovões continuavam roncando. E a ideia maluca que tinha surgido em sua cabeça continuava ficando cada vez mais insistente.
— Olha — ele disse. — Nossa casa não é grande. Não é bonita. O telhado também tem goteiras e o chão range em pelo menos sete lugares diferentes. Mas é seca. E tem lareira. E minha mãe provavelmente vai fazer sopa para o jantar.
Elena piscou.
— O que você está oferecendo?
— Um teto. Por esta noite. — Arin ajustou o pacote de farinha no braço. — Você não pode ficar aqui. Amanhã você descobre o que fazer. Talvez o dinheiro chegue. Talvez apareça outro mercador. Mas hoje… hoje você precisa de um lugar seco.
O silêncio se estendeu por um momento. A chuva preenchia o espaço entre eles. Elena olhou para Arin como se tentasse decifrar um enigma. Havia desconfiança em seus olhos, mas também havia exaustão. E algo mais — algo que Arin não soube identificar.
— Por quê? — ela perguntou. — Por que você faria isso? Você nem me conhece.
— Porque é o que minha mãe faria. — Arin deu de ombros. — E porque… bem, eu sei o que é não ter para onde ir.
Era verdade. Ele sabia. Não como Arin — Arin sempre teve um apartamento, um amigo, um cachorro. Mas Nox… Nox sabia o que era estar perdido. Nox sabia o que era sentir que o mundo estava desabando e não ter ninguém para ajudar.
Elena baixou os olhos. Por um momento, ela pareceu menor. Mais jovem. Mais frágil. Então ela ergueu o queixo, e a fachada de teimosia voltou ao lugar.
— Uma noite — ela disse. — Só uma noite. Amanhã eu descubro o que fazer.
— Amanhã você descobre o que fazer — Arin concordou.
— E eu pago pela comida. De alguma forma. Posso ajudar na cozinha. Ou na limpeza. Ou…
— A gente conversa sobre isso depois. Agora vamos sair dessa chuva antes que a banha derreta.
— A banha não derrete na chuva — Jasper apontou.
— Cale a boca, Jasper.
Elena riu novamente — uma risada curta, mas real. Ela se levantou, as botas de cano alto afundando na lama, e pegou a mala enorme com as duas mãos. A mala estava encharcada e devia pesar o dobro do normal. Elena cambaleou ligeiramente sob o peso, mas se recusou a pedir ajuda.
— Eu carrego — Arin ofereceu mesmo assim.
— Não precisa.
— Eu insisto. Você está tremendo.
— É de frio, não de fraqueza.
— São a mesma coisa agora.
Elena hesitou. Depois, com um suspiro de rendição, estendeu a mala para Arin. Era realmente pesada — muito mais pesada do que parecia. Arin sentiu os braços de Nox protestarem, mas conseguiu equilibrar o peso junto com o pacote de farinha.
— O que você tem aqui? — ele perguntou, a voz levemente tensa pelo esforço. — Pedras?
— Roupas. Livros. Algumas armas.
— Armas?!
— Facas de arremesso. Minha especialidade. — Elena sorriu, e era um sorriso diferente dos anteriores. Um sorriso de orgulho genuíno. — Não se preocupem. Não vou esfaquear ninguém. A menos que me deem motivo.
— Eu não vou dar motivo — Jasper disse rapidamente, os olhos arregalados.
— Bom garoto.
Começaram a andar. A chuva continuava caindo, mas agora parecia menos violenta. Ou talvez fosse a sensação de estar fazendo algo certo que tornava tudo mais suportável.
A rua de terra se transformara num rio de lama, e as botas de todos afundavam a cada passo. Jasper ia na frente, chapinhando nas poças com uma alegria que só uma criança de oito anos podia sentir numa tempestade. Elena caminhava ao lado de Arin, os braços cruzados sobre o peito, os olhos percorrendo a rua como se estivesse memorizando cada detalhe.
— Você está mesmo presa aqui? — Arin perguntou, quebrando o silêncio.
— Por enquanto.
— Graventhal fica longe?
— Alguns dias de viagem. Depende do transporte. — Elena fez uma pausa. — Eu tinha um cavalo. Ele… ficou para trás.
— O que aconteceu?
— Aconteceu que a vida não é justa. — A voz dela era seca, mas havia uma dor enterrada ali. Uma história que ela não queria contar.
Arin não insistiu. Ele entendia. Ele também tinha histórias que não queria contar.
— E o que tem em Graventhal? — Jasper perguntou, virando-se para andar de costas enquanto falava. — Família?
— Algo assim. — Elena hesitou. — Meu tio. Ele está… doente. Preciso chegar lá antes que…
Ela não terminou a frase.
— Antes que seja tarde demais — Arin completou baixinho.
Elena olhou para ele. Os olhos azuis brilharam na escuridão da tempestade. Ela não confirmou, mas também não negou.
— É por isso que você estava discutindo com o mercador — Arin continuou. — Não é só uma questão de honra. É uma questão de tempo.
— Meu tio me criou. — A voz de Elena estava mais baixa agora, quase um sussurro sob a chuva. — Depois que meus pais morreram, ele foi a única família que me restou. Se eu não chegar a tempo…
Ela não terminou. Não precisava.
— Você vai chegar — Jasper disse de repente, com uma convicção surpreendente. — A gente vai ajudar.
— Jasper — Arin começou.
— O quê? A gente tem dinheiro agora. A gente pode pagar alguém para levar ela.
— O dinheiro é da mãe. Para a casa. Para as emergências.
— Isso é uma emergência!
Elena olhou para Jasper. O rosto sardento do menino estava iluminado por uma determinação que Arin raramente via. As gotas de chuva escorriam pelo cabelo loiro grudado na testa, mas os olhos castanhos estavam firmes.
— Você mal me conhece — Elena disse.
— Conheço o suficiente. Você está na chuva. Está longe de casa. Seu tio está doente. — Jasper deu de ombros. — Se eu estivesse longe de casa e a mãe estivesse doente, eu ia querer que alguém me ajudasse.
Elena ficou em silêncio por um longo momento. Então, lentamente, ela estendeu a mão e bagunçou o cabelo molhado de Jasper.
— Você é um bom garoto, Jasper.
— Eu sei — ele respondeu, e Arin revirou os olhos.
— A modéstia não é o forte dele.
— De quem seria? — Elena riu.
A casa apareceu no final da rua. A luz da lareira dançava através da janela, um farol quente na escuridão da tempestade. A fumaça da chaminé subia em espirais cinzentas. Helga estava em casa.
Arin parou por um momento, olhando para a fachada de madeira escura. Quantas vezes ele tinha visto aquela casa nos últimos dias? E quantas vezes ela tinha parecido um refúgio?
Muitas. Sempre.
— Minha mãe vai fazer perguntas — ele avisou.
— Eu respondo — Elena disse. — Não tenho nada a esconder.
Arin olhou para ela. Havia algo nos olhos azuis que sugeria o contrário. Mas não era seu lugar questionar. Não agora.
— Então vamos.
Abriram a porta. O calor da lareira os envolveu como um abraço. O cheiro de sopa de legumes encheu o ar. E Helga, de pé junto ao fogão com uma colher de pau na mão, virou-se e arregalou os olhos.
— Nox. Jasper. Quem é…?
— Mãe — Arin começou, colocando a mala de Elena no chão. — Essa é a Elena. Ela vai passar a noite aqui.
Helga olhou para a garota ensopada. Para a mala pingando. Para Jasper, que já estava tirando os sapatos. Para Arin, que sustentou o olhar da mãe com uma expressão que esperava dizer: Eu explico depois, mas por favor, confie em mim.
Helga respirou fundo. Colocou a colher de pau na panela. E fez o que toda mãe faz quando encontra uma estranha ensopada na sua cozinha.
— Sente-se perto do fogo — ela disse. — Vou pegar uma toalha.
Elena abriu a boca para agradecer, mas Helga já estava subindo as escadas. A garota olhou para Arin, os olhos azuis arregalados de surpresa.
— Sua mãe é sempre assim?
— Sempre — Jasper respondeu, sentando-se no banco mais próximo da lareira. — Ela é a melhor.
— Isso parece verdade.
E pela primeira vez desde que Arin a vira na venda de Aldric, Elena sorriu de verdade.
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