Capítulo 53 - Feira do Livro (III).

A sala de aula estava praticamente cheia.
Não cheia no sentido tradicional e caótico de um intervalo escolar, com corpos se esbarrando e vozes competindo pelo domínio acústico do ambiente, mas preenchida por uma densidade humana que parecia limitar o quanto de oxigênio estava disponível.
Pequenos grupos estavam espalhados como ilhas de ansiedade em um oceano de concreto cinza.
Alguns estavam sentados no chão frio, abraçando os próprios joelhos; outros se encostavam nas paredes descascadas, o olhar perdido em algum ponto do teto manchado de umidade.
Havia cadeiras improvisadas, arrastadas para vários pequenos grupos.
O som ambiente era um burburinho baixo, fragmentado e desconexo.
Eram sussurros urgentes, risadas nervosas que morriam antes de terminar e o som irritante de solas de tênis rangendo contra o piso.
Parecia que todos ali estavam engajados em uma performance coletiva, tentando desesperadamente fingir normalidade enquanto o nervosismo escorria pelas frestas de suas máscaras sociais.
Parecia que estávamos em uma peça, onde tínhamos que nos manter no personagem, depois de um incidente.
E mal conseguimos fingir apropriadamente.
Alguns riam alto demais, gargalhadas estridentes que soavam quase histéricas, destoando da gravidade silenciosa do momento.
Outros falavam baixo demais, quase movendo apenas os lábios, como se tivessem medo de que aumentar o volume da voz pudesse atrair alguma entidade invisível.
O equilíbrio era estranho, frágil, como uma corda de violino esticada até o limite, prestes a arrebentar e chicotear o rosto de quem estivesse perto.
Eu me sentei perto da parede dos fundos, buscando a solidez por um momento para relaxar.
Meus olhos varriam o perímetro, analisando cada rosto, cada movimento.
Meus dedos da mão direita batiam ritmados contra a lateral da minha coxa, um tique nervoso, uma bateria silenciosa que eu só percebia quando já estava no meio do compasso.
Respirei fundo uma vez, sentindo o cheiro de poeira, cera de chão barata e o odor metálico e azedo de suor frio.
Respirei outra vez, tentando forçar o ar a entrar em pulmões que pareciam ter encolhido.
Ainda tinha gente passando mal. E isso era o que mais me incomodava.
Não era algo generalizado como uma virose ou uma intoxicação alimentar coletiva, mas era visível e perturbadoramente específico.
Uma garota sentada a alguns metros de mim, perto do quadro-negro apagado que não era usado há tempos, respirava rápido demais.
O peito dela subia e descia em um ritmo acelerado.
As mãos dela tremiam violentamente sobre o colo, os dedos se contorcendo como se tentasse agarrar algo invisível.
Uma amiga segurava seus ombros com força, murmurando palavras de conforto que se perdiam no ruído ambiente, mas a expressão da amiga não era de conforto; era de terror contido.
Mais para a direita, um garoto estava apoiado numa mesa improvisada.
O rosto dele estava pálido, drenado de qualquer cor, parecendo feito de cera derretida.
Seus olhos estavam vidrados no nada, as pupilas dilatadas, fixas em um ponto vazio no espaço, como se ele estivesse assistindo a um filme de terror que só passava na cabeça dele.
Ele lutava visivelmente para manter a consciência, a cabeça pendendo para frente e sendo puxada de volta em solavancos rítmicos.
Aquilo não era normal.
Não daquele jeito. Não em uma feira de livros escolares.
O ar da sala parecia pesado, denso, quase líquido.
Não estava quente, na verdade, havia uma corrente de ar frio deixada pela chuva, que agora se acalmava levemente no céu ainda nublado.
Eu engoli em seco, sentindo a garganta áspera.
Minha mente, traidora e incansável, voltou ao ocorrido mais cedo, rebobinando as memórias recentes como uma fita velha.
À feira. Às barracas de livros, aos momentos iniciais da feira.
E assim que um pensamento me veio à cabeça.
“Helena deve estar com a cabeça à mil por hora nesse momento…”
Depois do que aconteceu na biblioteca semanas atrás, aquela confusão sobrenatural, a suposta explosão, a tristeza estampada no rosto dela, a última coisa que ela precisava era de mais um evento bizarro para lidar.
Ela parecia um para-raios para o absurdo.
Eu conhecia bem demais aquele olhar que ela fazia quando as coisas começavam a sair dos trilhos.
A forma como seus olhos corriam de um lado para o outro buscando rotas de fuga, como ela erguia o queixo fingindo uma coragem que não sentia.
Ela e sua mania de fingir estar tudo bem, mantendo aquele falso sorriso que não chegava aos olhos, enquanto claramente estava desmoronando por dentro.
Ela tinha ido tomar água.
Disse que precisava esfriar a cabeça, lavar o rosto.
Eu tinha assentido, fingindo concordar, respeitando o espaço dela.
Eu deveria ter ido junto. Deveria ter inventado uma desculpa, dito que também estava com sede, qualquer coisa.
Suspirei levemente, deixando a tensão se aliviar por um momento.
“É só água”
Tentando convencer meu próprio cérebro paranóico.
“É só um bebedouro. Nada demais. O que pode acontecer em cinco minutos?”
Mas a lógica não funcionava quando a intuição gritava.
Meu corpo mexeu antes que eu pudesse racionalizar ou debater comigo mesma.
A ansiedade se transformou em energia cinética.
Apoiei as mãos no chão frio e me levantei devagar, sentindo as articulações protestarem.
Ignorei o leve formigamento nas pernas por ter ficado sentada na mesma posição por muito tempo.
Dei uma última olhada ao redor da sala, uma varredura panorâmica, como se tentasse memorizar aquele cenário estranho caso precisasse descrevê-lo para a polícia ou para um médico, mais tarde.
O garoto pálido agora estava com a cabeça deitada na mesa.
A garota que hiperventilava parecia ter se acalmado, mas agora chorava silenciosamente.
Nada daquilo fazia sentido. E eu não ia ficar ali esperando para descobrir o final da piada.
Comecei a caminhar entre os grupos de alunos, desviando de pernas esticadas e mochilas jogadas no chão.
Cada passo meu parecia ecoar alto demais nos meus ouvidos, como o som de um tambor dentro de uma caverna, embora eu soubesse que, no barulho geral da sala, eu era silenciosa.
A porta estava a apenas alguns metros.
Quando cheguei perto da maçaneta, estendi a mão para empurrar a porta de madeira pesad…
— AAAAAH!
O grito não apenas soou; ele explodiu no ar.
Foi um som visceral, primitivo, rasgando a atmosfera abafada da sala como uma faca serrilhada cortando tecido.
Não era um grito de susto, daqueles curtos e agudos. Era um grito de horror puro, contínuo, nascido do fundo da garganta de alguém que estava vendo o inferno se abrir.
Meu corpo reagiu antes da mente processar a informação.
Dei um passo em falso, tropeçando no meu próprio pé esquerdo, o coração disparando instantaneamente, como se quisesse saltar pela minha garganta e fugir sozinho.
Por uma fração de segundo, senti o peso do meu corpo inclinar demais para frente, a gravidade me puxando para uma queda inevitável de cara no chão sujo.
O mundo girou.
Mas consegui me ajustar no último instante, num reflexo desesperado, jogando a mão direita contra a parede lateral para recuperar o equilíbrio.
A palma da minha mão ardeu com o impacto no reboco áspero.
— Droga… — murmurei, com a respiração descompassada, os olhos arregalados.
Virei o rosto na direção da origem do som, girando o corpo com as costas ainda coladas na parede.
Era um grupo de garotas da primeira fileira, sentadas juntas em círculo, um pouco mais afastadas da porta, perto das janelas fechadas.
Uma delas estava no centro. E a imagem era aterrorizante.
O corpo dela estava rígido, teso como uma tábua, os músculos do pescoço saltados sob a pele pálida.
Os olhos estavam arregalados de um jeito que não parecia humano, muito menos consciente.
A íris parecia ter sido engolida pela pupila ou virada para trás, deixando apenas o branco leitoso e veias vermelhas visíveis.
A boca estava escancarada, travada em um “O” silencioso após o grito, como se ela quisesse continuar falando ou gritando, mas as cordas vocais tivessem sido cortadas.
— E-está tudo bem? Júlia? — perguntou uma das amigas, ajoelhada ao lado dela, a voz tremendo tanto que as palavras saíram quebradas, gaguejadas.
A mão da amiga pairava sobre o ombro da garota rígida, com medo de tocar.
A garota, Júlia, não respondeu. Ela nem piscou.
Em vez disso, a tensão que segurava o corpo dela se dissipou instantaneamente. Como se alguém tivesse cortado as cordas de uma marionete.
O corpo dela cedeu de uma vez.
Ela soltou mais um som, um grito curto, agudo e estrangulado, e então desmaiou. O peso morto despencou para frente, em direção ao chão duro.
As outras garotas do grupo se moveram em pânico, um emaranhado de braços tentando segurá-la antes que a cabeça batesse no concreto.
— Ei! Ei, segura ela! Cuidado com a cabeça! — alguém gritou, a voz estridente de pânico.
— Chama alguém! Rápido! Ela não tá respirando direito!
A sala inteira congelou por um segundo, todos os olhos voltados para a cena.
O burburinho anterior foi substituído por um silêncio chocado, seguido imediatamente por uma explosão de vozes.
Eu fiquei parada por um segundo longo demais, incapaz de mover os pés.
Aquilo… aquilo não era só um desmaio comum.
Eu já tinha visto gente desmaiar por pressão baixa ou calor.
Não era assim. O jeito como ela tinha gritado, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dela.
O olhar vazio, desprovido de alma, antes de cair.
Um calafrio percorreu minha espinha, gélido e cortante.
Uma sensação de déjà vu terrível me atingiu.
“É igual aquele ao gar…”
Eu abri a boca para avisar, para gritar para elas se afastarem, mas antes que o som saísse…
TUF!
O som cortou o ambiente como uma lâmina de guilhotina.
Alto. Seco. Inconfundivelmente metálico e explosivo.
Um tiro.
Não havia como confundir com uma bombinha ou um livro caindo no chão.
O estampido ecoou pelas paredes da escola, reverberando no peito de todo mundo presente, uma onda de choque sonora que fez os vidros das janelas vibrarem levemente.
Por um instante, o tempo pareceu dilatar. O mundo inteiro congelou em um quadro estático de horror.
Ninguém respirava. Ninguém se mexia.
Meu coração, que já estava acelerado, falhou uma batida e depois voltou com uma força dolorosa, batendo contra as costelas como um animal enjaulado.
— Q-que porra foi isso?! — alguém gritou do fundo da sala, a voz quebrando no meio da frase.
O pânico estava prestes a se instalar, mas antes que eu pudesse sequer processar a logística do que estava acontecendo.
Quem tem uma arma na escola? Onde foi o tiro? Estamos seguros aqui?
Não era som. Não era cheiro. Era pressão.
Uma pressão súbita, esmagadora, como se o teto tivesse baixado um metro ou como se a pressão atmosférica dentro da sala tivesse triplicado em um milissegundo.
O ar parecia ter se transformado em gelatina.
Meus ouvidos estalaram dolorosamente, como se eu estivesse descendo uma serra em alta velocidade, e um zumbido agudo começou a preencher minha audição.
Meus olhos voltaram, sem querer, magneticamente atraídos para a garota que tinha desmaiado, a tal Júlia.
Ela… estava brilhando.
Não de forma literal, não como uma lâmpada ou um flash de câmera. Era pior. Era uma distorção visual.
O ar ao redor do corpo inerte dela parecia vibrar, ondular, como o calor subindo do asfalto quente em um dia de verão, distorcendo a imagem de quem estava atrás dela.
Havia uma aura sutil, uma luminescência doentia, arroxeada e pulsante, que emanava da pele dela.
Suas marcas estavam se ativando!
— Isso… isso é energia… — murmurei, as palavras saindo num sussurro rouco, mais para mim mesma do que para qualquer um.
Eu reconhecia aquilo. Eu tinha visto antes, mas nunca tão forte, nunca tão cru.
Ela estava canalizando.
Mas não de forma consciente. Era como um vazamento de gás, uma ruptura em um tanque de alta pressão.
A energia mágica estava vazando dela, descontrolada, caótica, inundando a sala e contaminando tudo o que tocava.
Em poucos segundos, o efeito se espalhou como uma onda de choque invisível.
Um garoto que estava perto da porta, o primeiro a ser atingido pela onda de distorção, levou a mão à boca violentamente.
Ele dobrou o corpo e vomitou no chão, o som ácido e gorgolejante arrancando um coro de engasgos e gritos de nojo de quem estava perto.
O cheiro de bile se misturou instantaneamente ao ar pesado.
Outro aluno, um atleta grandalhão que parecia inabalável minutos antes, caiu de joelhos, agarrando a cabeça com as duas mãos e gritando que algo estava queimando seu cérebro.
Ele suava frio, gotas grossas escorrendo pela testa.
Uma menina no canto oposto começou a rir. Alto demais.
Um riso quebrado, maníaco, sem alegria, que subia e descia em escalas estranhas.
Ela olhava para as próprias mãos como se fossem garras de um monstro, rindo de algo que só ela via.
O som não combinava em nada com a situação; era a trilha sonora da loucura.
Todos começaram a tremer fortemente.
— O que tá acontecendo?! — o primeiro garoto disse, encolhido em posição fetal. — Faz parar! Faz parar!
Seus pulsos começaram a tremer… E depois de alguns segundos, uma luz roxa começou a emanar de suas marcas.
Então, veio a agressividade.
A energia não parecia responder à vontade de seu portador, ela parecia selvagem. Como se quisesse se soltar e fugir.
Sem aviso, um aluno empurrou outro com uma força absurda, desproporcional, fazendo-o voar e bater as costas contra a quina de uma mesa.
O som do osso batendo em madeira foi nauseante.
Uma cadeira foi arremessada através da sala, batendo no quadro-negro e explodindo em lascas de madeira e metal.
Gritos se sobrepuseram, confusos, desesperados. Era um pandemônio.
A sala, que antes era um refúgio de ansiedade controlada, virou um caos absoluto e primitivo em questão de segundos.
As barreiras sociais tinham derretido.
— Sai! Sai daqui! — alguém berrava perto da janela, tentando abri-la inutilmente.
Eu recuei, batendo as costas novamente na parede, o coração martelando tão forte que doía.
Meus olhos varriam o cenário apocalíptico.
Minha mente analítica tentava encontrar um padrão, uma solução, mas só havia uma conclusão lógica: sair dali. Agora.
Não dava para entender a complexidade do fenômeno mágico naquele momento.
Não dava para ajudar trinta pessoas surtando ao mesmo tempo.
Aquilo estava além de qualquer coisa normal, além da minha capacidade de contenção.
Se eu ficasse, seria tragada por aquela loucura ou espancada por alguém fora de si.
E eu precisava achar Helena.
Se isso estivesse acontecendo aqui, poderia estar acontecendo no corredor também.
Me virei para correr em direção à porta, aproveitando uma brecha na multidão que se debatia.
Foi quando senti algo rasgar o ar ao meu lado.
Um deslocamento de vento agressivo.
Uma garota, uniforme desalinhado, cabelos cobrindo metade do rosto, surgiu do meio da confusão.
Seus olhos estavam injetados de sangue, vermelhos como se os vasos tivessem estourado, e a expressão dela estava distorcida numa mistura grotesca de dor excruciante e fúria assassina.
Ela não olhava para mim como se me reconhecesse; ela olhava para mim como um obstáculo a ser destruído.
Ela avançou direto na minha direção, um grunhido gutural escapando de seus lábios.
— Ei! — eu gritei, erguendo as mãos, mais por reflexo defensivo do que por qualquer estratégia de combate.
Ela não respondeu. Não havia ninguém em casa naqueles olhos.
O impacto veio rápido demais.
Eu tentei girar o corpo, mas o ombro dela bateu contra o meu peito com a força de um aríete.
A garota era menor que eu, mas a força… a força não era natural.
Fui jogada para trás, meus pés perdendo a aderência no chão encerado.
Caí sentada com violência, o impacto enviando um choque pela minha coluna até o pescoço.
O ar fugiu dos meus pulmões num “oof” doloroso.
— Caralho… — forcei a palavra para fora, tentando recuperar o fôlego enquanto minha visão ficava turva por um instante.
O gosto de sangue surgiu na minha boca onde eu tinha mordido a língua.
Ela não me deu tempo para me recuperar.
Veio de novo.
Os movimentos dela eram erráticos, espasmódicos, como um vídeo com falhas, mas eram rápidos e letais.
Ela se jogou sobre mim, as mãos estendidas como garras, buscando meu pescoço ou meu rosto.
Ela não estava enxergando direito, atacando borrões.
Rolei para o lado no último instante, o instinto de sobrevivência gritando mais alto que a dor nas costas.
Senti o vento do golpe dela passar onde minha cabeça estava segundos antes. As unhas dela arranhavam o chão de linóleo, deixando marcas brancas.
Em suas mãos, garras energéticas se formaram, provavelmente, resultado de uma marca ativada.
Me levantei cambaleando, usando a parede como apoio, o instinto finalmente assumindo o controle total sobre o medo.
Eu não era uma lutadora profissional, mas sabia que se ficasse no chão, seria pisoteada.
— Para! — gritei, minha voz saiu rouca, autoritária. — Você tá machucando todo mundo! Você vai se machucar!
Nenhuma resposta. Apenas um rosnado baixo, animalesco.
Ela se virou para mim, os dentes à mostra, saliva escorrendo pelo canto da boca.
Ela avançou outra vez, cega pela fúria induzida pela magia.
Dessa vez eu estava pronta. Ou o mais pronta que se pode estar numa situação dessas.
Quando ela lançou o braço direito num soco desajeitado, eu desviei para a esquerda.
Segurei o braço dela por reflexo, tentando imobilizá-la, mas foi como tentar segurar um pistão hidráulico.
Senti uma força bruta que não condizia com o corpo magro daquela garota. Meus dedos escorregaram no suor dela.
Fui arrastada junto com o movimento dela, perdendo o equilíbrio novamente. Bati a lateral do quadril contra uma cadeira de madeira.
A cadeira se partiu com um estalo seco e alto, e a dor explodiu na minha cintura.
— Droga! — rosnei de dor, a raiva começando a se misturar ao medo. Empurrei ela com o ombro, usando meu peso corporal para criar distância.
O empurrão funcionou apenas o suficiente para ela dar dois passos para trás, tropeçando nos destroços da cadeira.
Aproveitei a fração de segundo. Não dava para lutar contra aquilo. Não ali, não agora. Eu precisava de espaço.
Consegui me soltar do raio de ação dela e corri em direção à saída, desviando de outros dois alunos que brigavam no chão rolando entre mochilas rasgadas.
A garota veio atrás. Eu podia ouvir os passos pesados dela, o som de madeira quebrando e mesas sendo viradas ecoando atrás de mim como uma avalanche.
Alcancei a porta. A maçaneta estava escorregadia de suor de outras mãos que tentaram abri-la.
Girei com força e empurrei com o ombro.
Quase tropecei ao sair no pátio externo.
O cenário mudou drasticamente. Saí da penumbra da sala para a luz cinzenta e difusa do dia nublado.
O ar frio bateu no meu rosto, trazendo o cheiro de chuva e terra molhada, mas não trouxe alívio nenhum.
O caos não estava restrito à sala. O pátio estava mergulhado em uma bagunça generalizada.
Várias pessoas corriam de um lado para o outro, algumas aparentavam ainda ter controle da razão e tentavam fugir ou controlar as brigas que se desenrolaram com os estudantes descontrolados.
A porta bateu atrás de mim, mas não fechou.
A garota veio logo depois, irrompendo pela porta como um touro numa arena. Ela parou por um segundo, os olhos varrendo o pátio vazio até se fixarem em mim.
Eu era o único alvo possível. O único foco para aquela raiva sobrenatural.
Ela respirava com dificuldade, o som rasgado, mas não parecia cansada. Parecia energizada pela própria loucura.
Eu recuei dois passos, levantando os punhos na altura do rosto, uma postura defensiva que aprendi durante as aulas com Miguel.
Minhas pernas tremiam, mas eu as forcei a ficarem firmes.
— Tá bom… — murmurei, cerrando os dentes, sentindo o latejar no meu quadril e o ardor na mão ralada.
A adrenalina agora corria quente nas minhas veias, abafando o pânico e aguçando meus sentidos.
O mundo parecia mais nítido, mais lento.
— Se é assim que vai ser…
Me preparei, flexionando os joelhos.
Ela soltou um grito estridente e correu na minha direção, sem técnica, apenas fúria pura.
Aquele dia maluco estava muito longe de terminar…

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.