Capítulo 14 - O Despertar da Ruína
O som do Golpe: Aberração ainda ecoava na arena.
Sete cortes.
Sete sentenças.
Hans permanecia de pé.
Mas seu corpo…
Estava fatiado.
Cortes profundos cruzavam seu peito, suas pernas, seu ombro restante. O sangue escorria em fios grossos, manchando o chão em vermelho escuro.
O silêncio tomou conta do estádio.
Hans respirava com dificuldade.
Mesmo assim…
Ele sorriu.
Virou o rosto, procurando alguém nas arquibancadas.
— …Foi bom te conhecer, Noah.
A voz saiu fraca.
Mas sincera.
Os olhos de Noah Kraus se arregalaram.
— NÃO! Ainda dá pra encerrar! DESISTE! A luta acaba se você desistir!
Hans fechou os olhos por um segundo.
Depois os abriu.
— Cala a boca…
Sua voz saiu mais firme.
— E para de tentar me salvar.
Ele virou o rosto para o cavaleiro à sua frente.
— Termina isso, Albrecht.
A arena inteira prendeu a respiração.
Albrecht Eisenwald caminhou lentamente até ele.
Sem pressa.
Sem emoção.
— Você lutou bem.
Ele ergueu a espada.
Nenhuma técnica nomeada.
Nenhum espetáculo.
Apenas um golpe comum.
Seco.
Direto.
A lâmina atravessou o torso de Hans.
O som metálico ecoou.
O impacto fez o corpo dele inclinar para trás.
Seus olhos perderam o foco.
Seu corpo começou a cair.
A gravidade o puxou.
O chão o esperava.
Mas…
Ele não caiu.
Algo segurou seu corpo.
Não.
Algo o levantou de volta.
O ar mudou.
A temperatura caiu.
O sangue no chão começou a vibrar.
Uma energia surgiu do corpo de Hans.
Primeiro como uma névoa.
Depois como fogo.
Uma aura vermelha misturada com preto começou a envolver seu corpo.
Densa.
Pesada.
Avassaladora.
A pressão espiritual esmagou a arena inteira.
Até mesmo alguns lutadores de Rank A recuaram instintivamente.
Albrecht franziu o cenho.
— …O que é isso?
A aura crescia.
Era maior.
Mais violenta.
Mais opressora do que a de muitos Ranks A.
O chão começou a rachar sob os pés de Hans.
O sangue parou de escorrer.
Os cortes começaram a fechar lentamente.
Seus olhos, antes opacos…
Se tornaram completamente negros.
Com um brilho vermelho no centro.
Noah sentiu o coração travar.
— Hans…?
Mas a presença que estava ali…
Não parecia mais Hans.
A cabeça dele se inclinou levemente para o lado.
Um sorriso diferente.
Mais amplo.
Mais antigo.
E então—
Uma voz ecoou.
Grave.
Imponente.
Não vinha apenas da boca dele.
Parecia ecoar de todos os lados ao mesmo tempo.
— Finalmente…
A aura explodiu para o alto como uma coluna de fogo carmesim.
O público ficou paralisado.
Albrecht apertou o cabo da espada.
Pela primeira vez…
Ele parecia sério de verdade.
E no centro da arena…
Hans ergueu a cabeça.
Mas não era mais apenas ele.
Algo havia despertado.
E aquilo…
Estava feliz por ter acordado.
A aura vermelho-negra pulsava como um coração recém-desperto.
Os cortes no corpo de Hans começaram a se fechar.
Não lentamente.
Não naturalmente.
Mas violentamente.
Carne se reconstruindo.
Sangue sendo puxado de volta.
Tecidos se regenerando como se o tempo estivesse retrocedendo.
Em questão de segundos…
Não havia mais ferimentos.
Nem cicatrizes.
Nem sinais da batalha.
Hans — ou o que quer que estivesse ali — ergueu os ombros, testando o corpo como alguém que veste uma roupa nova.
E então a entidade começou a rir.
Um riso profundo.
Ecoando na arena inteira.
— Após tantos anos… finalmente!
— FINALMENTE! HAHAHAHAHAHA!
O chão tremeu.
A aura se expandiu ainda mais, esmagando a respiração de todos os presentes.
— Finalmente eu posso… estragar esse mundo.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Albrecht manteve a espada erguida, mas seus olhos estavam atentos. Calculando.
— Quem é você?
A entidade virou lentamente o rosto para ele.
Os olhos negros com o brilho carmesim fixaram-se no cavaleiro.
— Eu?
Um sorriso torto se abriu.
— Eu sou quem vai causar a sua morte, Albrecht Eisenwald.
O nome dele ecoou de forma distorcida.
Albrecht engoliu seco.
Instintivamente.
Como alguém que, pela primeira vez em muito tempo… temia pela própria vida.
Mas ele não hesitou.
— Tsc.
E avançou.
Explodiu para frente com tudo.
Velocidade máxima.
Espada apontada direto para o pescoço da entidade.
A lâmina cortou o ar—
Mas a entidade apenas inclinou levemente o corpo.
O ataque passou a centímetros.
Elegante.
Simples.
Humilhante.
Albrecht girou para um segundo golpe.
Falhou de novo.
A entidade nem parecia estar lutando.
Parecia… brincando.
Então ela estendeu a mão direita.
A aura concentrou-se na palma.
O ar começou a distorcer violentamente.
O chão rachou ao redor.
Até Albrecht sentiu o instinto gritar para recuar.
A entidade sorriu.
— Arranhão.
Nada aconteceu.
Silêncio.
A aura dissipou da palma.
Nenhuma explosão.
Nenhuma técnica.
Nenhum ataque.
A entidade olhou para a própria mão.
Franziu levemente o cenho.
— …Hm.
Depois soltou uma risada baixa.
— Pelo visto… eu não tenho meus poderes originais nesse corpo.
Ela fechou a mão lentamente.
A aura ao redor começou a se estabilizar, mas ainda esmagava o ambiente.
— Terei que ir atrás dos meus fragmentos.
Os olhos dela voltaram para Albrecht.
— E você…
Um sorriso cruel.
— Vai servir como aquecimento.
A pressão espiritual voltou a crescer.
E dessa vez…
Não parecia um simples despertar.
Parecia o início de algo muito maior.
A pressão da aura vermelho-negra continuava esmagando a arena.
Não era apenas poder.
Era intenção.
Malícia.
Algo antigo respirando depois de séculos.
Nas arquibancadas, o caos começou.
— ENCERREM A LUTA!
— ISSO NÃO É MAIS O HANS!
— ISSO É ILEGAL!
A voz de Noah Kraus foi a que mais se destacou.
— JUIZ! TERMINA ISSO AGORA!
Outros lutadores também se levantaram. Alguns de Rank B. Outros de Rank A.
Todos percebendo a mesma coisa.
Algo estava errado.
Muito errado.
O juiz, suando frio, apertava os papéis com mãos trêmulas.
Mas sua voz, mesmo instável, ecoou pelo sistema mágico da arena:
— S-segundo as regras do torneio…
— A luta só pode ser encerrada à força quando um dos lutadores declarar desistência.
Silêncio.
— Enquanto ambos permanecerem de pé… a luta continua.
Um arrepio percorreu as arquibancadas.
Noah cerrou os dentes.
— Isso não é mais uma luta!
Mas no centro da arena…
A entidade sorriu.
— Interessante…
Ela inclinou o pescoço lentamente.
— Então até as regras estão presas aqui.
Albrecht respirava com dificuldade.
Ele podia sentir.
Aquilo não era apenas energia monstruosa.
Era algo que ultrapassava classificação.
Ultrapassava ranking.
Ele ajustou a postura.
Concentrou toda sua energia restante.
E então—
A entidade desapareceu.
Não.
Ela simplesmente deixou de estar onde estava.
Albrecht mal teve tempo de mover os olhos.
Ela já estava à sua frente.
Velocidade absurda.
Sem preparação.
Sem anúncio.
Um único soco.
BOOOOOOOM!!
O impacto foi direto no peito.
Parte da armadura sagrada de Albrecht estilhaçou no mesmo instante.
Fragmentos metálicos voaram pela arena.
O cavaleiro foi lançado vários metros para trás, deslizando pelo chão até abrir uma cratera.
Silêncio absoluto.
Albrecht cuspiu sangue.
Olhou para o próprio peito.
A armadura — feita para resistir a técnicas nomeadas — estava rachada.
Quebrada.
A entidade caminhou lentamente até ele.
Passos calmos.
Dominantes.
— Achei que você seria mais forte…
Ela inclinou levemente o rosto.
Os olhos vermelhos brilhavam com desprezo.
— Caro Cavaleiro.
Albrecht sentiu o coração bater mais rápido.
Pela primeira vez…
Ele não estava lutando para vencer.
Estava lutando para sobreviver.
E todos na arena perceberam.
Aquilo não era mais uma batalha de torneio.
Era o prenúncio de um desastre.
Albrecht cuspiu o sangue no chão.
Seus olhos não tinham mais arrogância.
Apenas determinação.
Se ele hesitasse… morreria.
Ele cravou a espada no chão por um segundo, estabilizando a respiração. A energia dele começou a subir violentamente, comprimindo o ar ao redor.
— EU AINDA NÃO CAÍ.
A armadura rachada brilhou.
Mesmo danificada, ainda carregava o orgulho de um cavaleiro de alto nível.
E então ele avançou.
Não foi um simples ataque.
Foi tudo.
Velocidade máxima.
Força total.
Sem reservas.
O chão explodiu sob seus pés.
A lâmina cortou o ar em dezenas de trajetórias quase invisíveis.
Um corte horizontal.
Outro vertical.
Estocadas rápidas mirando garganta, coração, joelhos.
Era uma tempestade de aço.
Mas a entidade…
Suspirou.
E deu um passo para o lado.
Um corte passou.
Ela inclinou o corpo.
Outro errou por milímetros.
Ela girou levemente.
A espada raspou apenas a aura.
Albrecht aumentou a velocidade.
Gritou.
Desferiu um golpe descendente capaz de dividir o chão ao meio—
A entidade simplesmente deu meio passo para trás.
A lâmina cravou na arena.
Falhou.
Ela bocejou.
— Que previsível.
Albrecht girou o corpo para um ataque de retorno.
A entidade inclinou o pescoço para o lado, deixando a lâmina passar a centímetros do rosto.
E começou a falar.
Como se estivesse contando uma história.
— Primeiro… vou quebrar este torneio.
Ela se moveu para trás com um deslize leve, desviando de outra sequência de ataques.
— Depois… as cidades ao redor.
Um giro.
Outro corte falhou.
— Os reinos.
Ela passou por dentro da guarda dele, sem tocar na espada.
— As muralhas.
Albrecht tentou um soco com a mão livre.
Ela segurou o punho dele com dois dedos.
Sem esforço.
— Os heróis.
Ela soltou.
O empurrou para trás com um toque.
— E por último…
A aura vermelho-negra começou a pulsar mais forte.
— O próprio conceito de ordem.
Albrecht rugiu e liberou uma explosão de energia para afastá-la.
A onda de choque varreu o chão.
Mas quando a poeira baixou…
Ela estava atrás dele.
— Você é determinado.
Ela inclinou o rosto perto do ouvido dele.
— Eu gosto disso.
Albrecht girou instintivamente com a espada—
Mas ela já não estava mais lá.
A entidade reapareceu alguns metros à frente, andando de costas, sorrindo.
— Continue.
Ela abriu os braços.
— Me entretenha enquanto ainda pode.
E pela primeira vez na vida…
Albrecht Eisenwald parecia pequeno.
Não porque fosse fraco.
Mas porque estava lutando contra algo…
Que nem sequer estava tentando.

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