O portal surgiu atrás de Noah sem fazer ruído.

    Não houve explosão, nem luz ofuscante — apenas um rasgo silencioso no ar, como se o próprio mundo tivesse sido cortado por uma lâmina invisível. O interior dele pulsava em azul profundo, girando lentamente como um redemoinho que não obedecia às leis da realidade.

    Noah respirou fundo.

    O cheiro da masmorra ainda estava em suas narinas: ferro queimado, cinzas e sangue seco. Ele deu um passo para trás… e atravessou.

    No instante em que seus dois pés tocaram o solo do mundo real, o mundo explodiu dentro da sua mente.

    Ele não gritou.

    Não conseguiu.

    Vinte e oito consciências se abriram ao mesmo tempo dentro dele.

    Gritos.

    Rugidos.

    O som de ossos quebrando, carne rasgando, chamas consumindo corpos vivos. Ele viu florestas queimadas, vilas saqueadas, crianças correndo, soldados morrendo, presas se fechando, sangue quente escorrendo pelo focinho de lobos infernais.

    Ele viu o mundo através de vinte e oito pares de olhos diferentes.

    Sentiu o peso de vinte e oito mortes.

    Seu corpo perdeu força.

    Noah caiu de joelhos.

    Depois de lado.

    Depois… tudo ficou escuro.

    Ele acordou com o som de sinos distantes.

    Seu corpo estava deitado na terra fria, perto da estrada que levava à vila. O céu estava claro. Nuvens brancas passavam lentamente, como se nada tivesse acontecido.

    Mas dentro dele… havia um inferno silencioso.

    O sistema falou.

    [Herança absorvida com sucesso.]
    28 entidades assimiladas.

    Nova Habilidade adquirida:
    Controle das Chamas Negras Infernais — Rank D+

    Noah sentiu algo se mover em suas veias.

    Um calor profundo.

    Não queimava — pulsava.

    Como se um sol negro tivesse sido aceso dentro do seu peito.

    Ele se levantou lentamente.

    Seu corpo parecia… mais pesado. Mais denso. Cada passo tinha firmeza demais. Ele flexionou os dedos, e os músculos responderam com uma força que não possuía antes.

    Ele estava, no mínimo, duas vezes mais forte.

    Noah respirou fundo.

    As memórias ainda ecoavam em sua mente — fragmentadas, distantes — mas ele não entrou em colapso dessa vez.

    Ele estava começando a se acostumar.

    E isso… o assustou mais do que a dor.

    Ele voltou para casa.

    Lavou o rosto.

    Comer algo quente parecia estranho depois de ter visto o mundo ser devorado por chamas negras.

    Mas ele comeu.

    Depois, dormiu.

    Um sono pesado, sem sonhos.

    A rachadura no ar se abriu de uma vez.

    Não como uma porta.

    Mas como uma ferida sendo rasgada à força.

    O espaço à frente da rua principal da vila estalou, distorceu… e então explodiu em luz violeta. Um portal roxo se formou, girando lentamente como um redemoinho invertido, com veias de energia negra pulsando em suas bordas. O vento mudou de direção, sendo sugado para dentro da fenda, levantando poeira, folhas secas e pedaços de palha do chão.

    O cheiro de cinzas ficou mais forte.

    Muito mais forte.

    Um silêncio pesado caiu sobre a vila por dois segundos.

    Então veio o pânico.

    — UM PORTAL! — um ancião gritou, largando a bengala.
    — Chamem os Cavaleiros! — uma mulher berrou, segurando o filho contra o peito.
    — Chamem os Cavaleiros da Guilda Scar!

    Noah ouviu aquilo e franziu a testa.

    Cavaleiros…? Guilda Scar…?

    Ele deu um passo à frente, sentindo o calor estranho que emanava do portal tocar sua pele como um sopro quente.

    Antes que pudesse se aproximar mais, uma mão firme segurou seu ombro.

    — Não chegue mais perto, garoto — uma voz grave falou atrás dele.

    Noah se virou.

    Era um guarda da vila, usando uma armadura de couro reforçada, com uma espada simples presa ao cinto. O rosto dele estava pálido, e os olhos… tensos demais para alguém acostumado a lidar com bandidos ou animais selvagens.

    — Fuja — o guarda disse. — Se os Cavaleiros da Guilda Scar não chegarem a tempo, essa vila vira um mar de sangue.

    Noah piscou lentamente.

    — Quem são esses cavaleiros?

    O guarda respirou fundo, como se o simples ato de explicar aquilo fosse pesado.

    — Eles são… pessoas que enfrentam o que sai desses portais. Pessoas que lidam com coisas que não pertencem a este mundo. — Ele engoliu em seco. — São os únicos que conseguem impedir que vilas inteiras sejam apagadas.

    Noah sentiu o peito apertar.

    Então é isso.

    O mundo estava mudando.

    Ele abaixou um pouco a cabeça e perguntou:

    — Como vocês chamam esses cavaleiros?

    O guarda levou a mão até a bolsa presa à cintura e retirou um pequeno orbe de cristal esverdeado, do tamanho de uma maçã. Dentro dele, partículas luminosas se moviam lentamente, como estrelas presas em um céu particular.

    — Isso se chama Nefrit — ele explicou. — Funciona como um chamado. Ou uma conversa. Podemos avisar postos avançados da Guilda Scar ou falar com cidades distantes.

    Noah quase riu.

    Por um instante, sua mente tentou dizer: é um celular mágico.

    Mas ele conteve o pensamento.

    Aquilo não era seu mundo.

    — E eles vêm rápido? — Noah perguntou.

    — Rápido o suficiente… às vezes. — O guarda fechou os dedos em volta do orbe. — Mas se o que sair desse portal for forte demais…

    Ele não terminou a frase.

    O portal roxo pulsou mais forte.

    Um rugido abafado ecoou de dentro dele.

    Os moradores começaram a se afastar ainda mais, formando um semicírculo largo, como se tentassem deixar o máximo de espaço possível entre eles e aquela coisa que respirava do outro lado.

    Noah deu um passo à frente.

    O guarda imediatamente se colocou à frente dele.

    — Eu falei pra fugir.

    Noah ergueu o olhar.

    Havia algo diferente em seus olhos agora — um brilho discreto, roxo, quase imperceptível.

    — Pode deixar comigo — ele disse, com voz firme.

    O guarda piscou, confuso.

    — O quê?

    — Eu resolvo isso — Noah continuou. — Não precisa chamar ninguém.

    O guarda arregalou os olhos.

    — Você tá louco? — Ele baixou o tom, quase um sussurro. — Você não sabe o que sai desses portais. Nem os Cavaleiros Scar gostam de entrar em um portal roxo sem preparo.

    Noah respirou fundo.

    Ele sentia o calor das chamas negras se moverem dentro dele, como se reconhecessem a presença de algo que deveria ser queimado.

    — Eu sei o suficiente — ele respondeu.

    O guarda hesitou.

    O portal rugiu novamente.

    Dessa vez, algo arranhou o lado de dentro da fenda.

    Um som metálico, como garras raspando em pedra.

    O guarda olhou para o portal, depois para Noah.

    — Hans — ele disse. — Meu nome é Hans. Se você morrer aqui, eu vou ter isso na consciência.

    Noah deu um meio sorriso.

    — Então fica e protege as pessoas, Hans.

    Ele estendeu a mão.

    — Me empresta o Nefrit.

    Hans engoliu em seco, mas colocou o orbe na mão de Noah.

    — Se você estiver brincando com a própria vida…

    — Eu não estou.

    Noah fechou os dedos ao redor do Nefrit.

    O portal roxo pulsou mais uma vez.

    E algo começou a sair.

    O portal roxo pulsou mais uma vez.

    Dessa vez, não foi apenas um brilho — o ar ao redor dele se distorceu como se estivesse sendo queimado por dentro. O vento soprou com força, levantando poeira, folhas secas e pedaços de palha da rua principal. As casas de madeira rangiam sob a pressão invisível, e os moradores se afastavam cada vez mais, formando um círculo largo e silencioso, tomado por respirações presas e murmúrios de pânico.

    Hans deu um passo à frente e segurou o braço de Noah com força.

    — Já é tarde demais — ele disse, com a voz trêmula. — Agora não adianta tentar entrar aí.

    Noah franziu a testa.

    — Como assim?

    Hans apontou para o portal com a outra mão.

    — Isso não é só um portal. Os Cavaleiros chamam isso de Portal de Masmorra. Quando ele se abre desse jeito… os monstros não ficam presos lá dentro. Eles saem.

    Noah sentiu um frio percorrer sua espinha.

    — Monstros?

    — Orcs, mortos-vivos, aranhas gigantes, exércitos de minotauros… — Hans respirou fundo. — Já vimos vilas inteiras serem apagadas por um único portal desses. Às vezes são lobos infernais. Às vezes… coisas piores.

    O portal vibrou.

    Silhuetas começaram a se formar do outro lado.

    Sombras grandes, pesadas, com ombros largos e cabeças baixas, quase tocando o topo da fenda.

    Cada uma tinha pelo menos dois metros e meio de altura.

    O som de passos pesados ecoou de dentro do portal.

    TUM.

    TUM.

    Hans engoliu em seco.

    — Fuja, Noah… — ele sussurrou. — Não são orcs normais.

    — Como assim?

    Hans virou o rosto lentamente para ele.

    — São Orcs Vermelhos.

    Noah sentiu o ar ficar mais pesado.

    — Eles são maiores, mais fortes, mais rápidos que os verdes. — Hans apertou os punhos. — Um único pode massacrar cinco guardas sem dificuldade.

    O primeiro deles saiu.

    Sua pele era vermelha escura, quase como sangue seco. Veias grossas pulsavam por seus braços enormes, e os olhos amarelos brilhavam com ódio puro. Ele segurava um machado tão grande quanto um homem comum.

    Depois vieram mais.

    Eles saíam de quatro em quatro.

    O chão tremia a cada grupo que atravessava o portal.

    O som de metal arrastando pedra.

    Respirações pesadas.

    Rugidos baixos.

    Quando o último grupo atravessou, vinte e oito Orcs Vermelhos estavam espalhados pela rua principal da vila.

    Eles olharam ao redor.

    E sorriram.

    Hans começou a tremer.

    — Já era… — ele murmurou. — Eles vão transformar Eidenfall em um cemitério.

    Noah respirou fundo.

    Ele estendeu o Nefrit para Hans.

    — Avise a Guilda Scar — ele disse. — Diga que surgiram vinte e oito Orcs Vermelhos na vila de Eidenfall.

    Hans arregalou os olhos.

    — Você tem certeza?

    — Agora.

    Hans segurou o orbe com as duas mãos e falou para dentro dele, com a voz firme, apesar do medo:

    — Aqui é Eidenfall! Surgiram vinte e oito Orcs Vermelhos na vila de Eidenfall!

    O orbe brilhou.

    Ele repetiu.

    — Aqui é Eidenfall! Surgiram vinte e oito Orcs Vermelhos na vila de Eidenfall!

    E pela terceira vez:

    — Aqui é Eidenfall! Surgiram vinte e oito Orcs Vermelhos na vila de Eidenfall!

    O portal rugiu novamente.

    Mas desta vez…

    Uma nova silhueta começou a se formar.

    Era maior.

    Muito maior.

    Uma sombra gigantesca, curvada para passar pela fenda, com pelo menos quatro metros de altura.

    Seus ombros tocavam as bordas do portal.

    O chão começou a rachar sob o peso que se aproximava.

    Hans ficou pálido.

    — Não… — ele murmurou. — Esse é o chefe da masmorra…

    A vila inteira prendeu a respiração.

    E Noah fechou o punho lentamente.

    O inferno estava prestes a pisar em Eidenfall.

    O chão ainda tremia sob o peso da criatura colossal que se movia dentro do portal quando Noah finalmente se virou para Hans.

    Seu rosto não mostrava medo.

    Mostrava… expectativa.

    — Eu vou segurar eles — Noah disse com calma. — Tempo o suficiente para a Guilda Scar chegar.

    Hans arregalou os olhos.

    — Você ficou louco?! — ele retrucou. — Você viu o tamanho daqueles monstros? São Orcs Vermelhos! Nem um esquadrão inteiro de guardas consegue segurar isso!

    Noah estendeu a mão.

    — Avise a Guilda Scar pelo Nefrit. Agora.

    Hans engoliu em seco.

    — Você… você vai morrer!

    Noah virou o rosto lentamente para ele.

    — Não — respondeu. — Eu só sou confiante.

    No instante em que terminou a frase, sombras começaram a se reunir ao redor de sua mão.

    A Foice do Camponês surgiu, envolta por uma aura roxa pulsante, como se estivesse viva.

    Hans deu um passo para trás.

    — U-uma foice… — ele murmurou. — Você é um Ceifador?

    Noah sorriu de canto.

    — Apenas observe, jovem guarda.

    Ele ergueu a mão.

    Retornem.

    O chão atrás dele explodiu em sombras.

    Quarenta e três silhuetas emergiram do solo.

    Primeiro vieram os dezesseis Goblins da Floresta, cinzentos, olhos púrpura, armaduras negras, ajoelhando-se ao mesmo tempo.

    Depois surgiram os vinte e sete Lobos Infernais, suas chamas agora púrpuras, uivando em uníssono.

    E por fim…

    Uma sombra muito maior tomou forma à frente de Noah.

    Três cabeças.

    Chamas negras e violetas.

    Cerber.

    O comandante morto se ajoelhou lentamente diante dele.

    — Ataquem… meus mortos — Noah ordenou, com um sorriso tranquilo no rosto.

    Hans sentiu as pernas falharem.

    — Você… você é um Necromante?!

    — Sim — Noah respondeu, simples.

    E então, o inferno correu.

    Os lobos mortos dispararam primeiro, avançando como projéteis roxos contra os Orcs Vermelhos. Goblins seguiram logo atrás, gritando em vozes sombrias, lâminas negras erguidas.

    O primeiro impacto soou como um trovão.

    Machados colidiram com garras e presas. Fogo e aura púrpura explodiram no ar.

    Os Orcs Vermelhos eram monstruosos — enormes, rápidos, brutais. Um deles agarrou um lobo morto pelo pescoço e o esmagou contra o chão, rachando a terra sob o impacto. Outro girou seu machado, lançando dois goblins longe como bonecos.

    Mas os mortos não recuavam.

    Eles avançavam de novo.

    E de novo.

    Com dificuldade, após um confronto violento, três Orcs Vermelhos tombaram, seus corpos enormes batendo no chão com um baque que ecoou pela vila.

    Noah ergueu a mão.

    — Retornem.

    Sombras envolveram os corpos.

    Eles se ergueram novamente — agora com pele cinza, cabelos negros, roupas negras, olhos púrpura e uma aura roxa pulsante.

    Três Orcs Cinzentos viraram-se lentamente.

    E atacaram sua própria raça.

    — Isso… isso é impossível… — Hans murmurou, com os olhos arregalados.

    Noah avançou.

    A foice girou em sua mão.

    Ele correu em direção ao grupo de Orcs, desviando de um golpe de machado e saltando sobre uma perna enorme. Girou o corpo no ar e desceu com a lâmina apontada diretamente para o pescoço de um dos inimigos.

    O Orc rugiu e levantou o braço.

    Antes que Noah pudesse completar o golpe—

    Um punho enorme o atingiu de lado.

    O impacto foi como ser atropelado por uma carroça em disparada.

    Noah foi lançado pelos ares, girando duas vezes antes de se chocar contra o chão e deslizar por vários metros, abrindo uma trilha na terra.

    — NOAH! — Hans gritou.

    O silêncio caiu por um segundo.

    Noah gemeu baixo.

    Então se levantou.

    Ele sacudiu a poeira dos ombros.

    — Tô bem — ele disse, com um sorriso torto. — Mas agora eles passaram do limite.

    A aura roxa ao redor de seu corpo começou a se intensificar.

    E a verdadeira batalha… estava apenas começando.

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