Capítulo 5 - O Homem Que Enfrenta a Maré
O cheiro de sangue e cinzas já tomava conta de Eidenfall.
Casas rangiam com os impactos distantes, gritos ecoavam pelas ruas laterais, e o chão vibrava a cada passo pesado dos Orcs Vermelhos. No meio daquele caos, Noah manteve-se firme, com a foice apoiada no ombro, os olhos brilhando em um tom púrpura discreto.
Ele se virou rapidamente para Hans.
— Leve os civis para longe da linha de combate — ordenou. — Agora.
Hans não hesitou.
O jovem guarda engoliu em seco, mas assentiu com força.
— Certo!
Ele correu para o grupo de moradores mais próximos — idosos que mal conseguiam se manter em pé, mulheres com crianças presas ao peito, homens feridos que ainda tentavam ficar de pé.
— Venham comigo! — Hans gritou. — Rápido!
Enquanto isso, um machado de orc atravessou o espaço onde Noah estava segundos antes. Ele desviou por pouco, girando o corpo e cortando o ar com a foice, abrindo o flanco do inimigo.
Hans conseguiu puxar um idoso pelo braço, enquanto uma mulher segurava o filho com força, os olhos marejados.
— Obrigado… — ela murmurou ao passar por Noah. — Que os deuses o protejam…
Um homem de meia-idade tentou se aproximar.
— Eu posso ajudar, eu—
— Não pode — Noah respondeu sem olhar para ele. — Proteja sua família. Isso já é ajuda suficiente.
Hans levou sete civis para uma área mais afastada da vila, protegida por uma pequena elevação de terra e árvores secas. Ali, eles se aglomeraram, observando a batalha com medo e esperança misturados.
Enquanto isso, a quilômetros dali, na floresta escura que margeava Eidenfall, a Guilda Scar avançava a galope.
Quarenta e sete cavaleiros montados cortavam o terreno com velocidade, capas vermelhas esvoaçando ao vento frio da tarde.
— Vinte e oito Orcs Vermelhos… — murmurou um dos magos. — Em uma vila sem muralhas?
— Isso é massacre certo — respondeu um cavaleiro.
— E tem um único homem tentando segurar isso — disse outro, incrédulo.
A composição da força era absurda:
15 Magos, com cajados cristalinos e grimórios presos à cintura.
20 Cavaleiros, armados com lanças e espadas longas.
4 Curadores, montados em cavalos brancos, protegidos por escoltas.
8 Tanques, usando escudos enormes, com placas grossas de aço mágico.
— Estamos indo para enfrentar uma ameaça de Rank A — murmurou um dos tanques. — E alguém está lá… sozinho?
O líder do grupo, um homem alto de barba grisalha e olhos frios como aço, puxou as rédeas do cavalo, fazendo-o relinchar alto.
Era Ludolf, o líder da Guilda Scar.
— Não importa quem ele seja — Ludolf disse, com voz grave e imponente. — Esse homem está fazendo um favor que salvará centenas de vidas. E quando isso acabar… nós vamos recompensá-lo. De uma forma ou de outra.
Os cavaleiros assentiram.
A marcha continuou, mais rápida.
De volta à vila, o campo de batalha estava mudando.
Com cada orc abatido, o exército de Noah crescia.
Agora, seis Orcs Vermelhos Cinzentos lutavam ao seu lado, seus corpos enormes cobertos por aura roxa, atacando a própria raça com violência ainda maior que antes.
Os lobos mortos mordiam gargantas, arrastavam inimigos para o chão, enquanto goblins cravavam lâminas entre juntas de armadura improvisada.
Noah avançava como um espectro.
Sua foice cortava com precisão, e cada golpe parecia mais pesado, mais rápido.
Mas então…
O portal rugiu.
Um som diferente.
Mais profundo.
Mais grave.
O ar ficou pesado como chumbo.
A energia ao redor da fenda mudou, ficando mais escura, quase negra.
Os Orcs Vermelhos começaram a recuar instintivamente.
Um silêncio estranho se espalhou.
A silhueta que surgia dentro do portal não parecia apenas grande — ela parecia… errada.
O chão começou a rachar ao redor da fenda.
A primeira coisa que saiu foi uma mão enorme, coberta por veias pulsantes e placas ósseas.
Depois o ombro.
Depois o torso.
Uma criatura gigantesca, com mais de quatro metros de altura, passou lentamente pelo portal.
Sua pele era escura como carvão, marcada por símbolos vermelhos que pulsavam como brasas vivas.
Dois chifres longos e retorcidos se erguiam de sua cabeça.
Seus olhos brilhavam como fornalhas.
O Chefe da Masmorra havia chegado.
O ar ficou tão pesado que parecia difícil respirar.
Mesmo Noah sentiu o coração apertar.
A presença daquela coisa fazia seu instinto gritar.
Isso… é perigoso.
Ele ergueu a foice com mais firmeza.
Atrás dele, seus mortos se posicionaram.
Eidenfall estava prestes a descobrir… que tipo de monstro realmente protegia aquela vila.
O passo do Chefe da Masmorra ecoou pela rua principal como um martelo batendo em um sino fúnebre.
No momento em que aquela criatura colossal saiu completamente do portal, o espaço ao redor da fenda se contraiu violentamente… e então se fechou com um estalo seco, como uma ferida costurada à força.
O portal roxo desapareceu.
Eles estavam presos ali.
O Chefe Orc ergueu a cabeça lentamente, revelando um rosto deformado, com presas longas e símbolos incandescentes gravados na pele negra como carvão. Em sua mão direita, um cajado feito de ossos fundidos pulsava com uma energia estranha, dourada e branca.
Ele não gritou.
Ele não rugiu.
Ele apenas ergueu o cajado.
Três círculos de luz se formaram na ponta.
E então—
Três bolas de fogo do tamanho de cabeças humanas foram disparadas em linha reta contra Noah.
Noah se moveu antes mesmo de pensar.
Seu corpo inclinou-se, girou, deslizou — as bolas de fogo passaram raspando por seus ombros, explodindo contra casas vazias e deixando crateras fumegantes na madeira.
— Hmph…
Ele avançou.
— Ataquem.
O exército de mortos respondeu como uma maré.
Os seis Orcs Vermelhos Cinzentos, agora reforçados por lobos e goblins, avançaram como um muro de carne morta. No choque brutal que se seguiu, Noah aproveitou a abertura.
Sua foice brilhou.
Quatro Orcs Vermelhos caíram quase ao mesmo tempo, seus corpos sendo rasgados por lâminas negras e presas púrpuras.
— Retornem.
Sombras engoliram os cadáveres.
Eles se ergueram, agora cinzentos, de olhos púrpura e aura roxa.
Dez Orcs Vermelhos mortos agora lutavam por Noah.
O Chefe Orc rosnou.
Ele bateu o cajado contra o chão.
Um círculo de símbolos dourados se abriu no ar.
— RAIO DA PURIFICAÇÃO!
Um feixe de luz branca desceu dos céus e cortou o campo de batalha.
Noah saltou.
O raio passou raspando seu ombro, queimando o ar e derretendo o chão onde tocava.
Ele pousou com um giro, mas o coração martelava.
Aquele ataque… é mortal.
Ele correu.
Seu corpo virou um borrão roxo.
A foice descreveu um arco mortal direto para o pescoço do Chefe.
Mas—
Outro círculo de luz surgiu.
Um segundo Raio de Luz caiu do céu.
Ele não teve tempo.
O feixe atingiu Noah em cheio.
O impacto foi como uma explosão.
Uma nuvem de poeira e destroços subiu, e o corpo de Noah foi lançado vários metros, atravessando uma carroça quebrada antes de cair de costas no chão.
— NOAAAH! — os civis protegidos por Hans gritaram em uníssono.
Silêncio.
Por um segundo, ninguém se moveu.
A poeira começou a baixar.
Uma silhueta se mexeu dentro da nuvem cinza.
Noah se levantou lentamente.
Seu corpo estava chamuscado, mas seus olhos brilhavam com uma intensidade nova.
Ele cuspiu um pouco de sangue no chão.
— Já chega de brincar.
A aura roxa ao redor dele explodiu.
Ele desapareceu.
No instante seguinte, três Orcs Vermelhos caíram com as gargantas abertas.
O sangue sequer tocou o chão antes de seus corpos serem puxados pelas sombras.
— Retornem.
Três novos Orcs Cinzentos se ergueram.
Agora, treze orcs mortos lutavam ao seu lado.
Mas ainda restavam quinze Orcs Vermelhos vivos.
Noah estendeu as mãos.
O calor dentro de seu peito respondeu.
Chamas negras começaram a se formar ao redor de seus dedos, dançando como serpentes vivas.
— Chamas Negras Infernais…
Ele avançou.
Cada movimento seu deixava rastros de fogo púrpura no ar.
Ele tocou um orc.
A criatura não teve tempo de gritar.
Seu corpo foi consumido por chamas negras em segundos.
— Retorne.
Mais um morto.
Outro orc foi atingido por um jato de fogo negro e caiu.
Outro.
E outro.
Seis Orcs foram incinerados em menos de meio minuto.
Seis novos mortos se juntaram ao exército.
Restavam apenas nove Orcs Vermelhos vivos.
Cerber se aproximou.
O comandante morto abaixou uma das cabeças em respeito.
— Permita-me usar toda a minha força, meu lorde.
Noah encarou o campo de batalha por um segundo.
— Permissão concedida.
Cerber rugiu.
Um uivo triplo rasgou o ar.
Chamas negras explodiram de suas três bocas.
Ele avançou como uma avalanche.
Em poucos segundos, três Orcs foram dilacerados e queimados, seus corpos caindo como bonecos.
Mas quando Cerber ergueu uma das cabeças para eliminar o próximo—
O Chefe Orc ergueu o cajado.
Um novo círculo dourado se abriu.
— RAIO DA PURIFICAÇÃO.
O feixe de luz branca desceu.
E acertou Cerber em cheio.
O impacto explodiu o chão ao redor do comandante morto.
E pela primeira vez…
O inferno de Noah vacilou.
O som de cascos cortando a terra ecoou pela estrada que levava a Eidenfall.
A Guilda Scar chegou como uma tempestade.
Cavalos frearam bruscamente ao alcançarem o limite da vila. Magos, cavaleiros, tanques e curadores pararam ao mesmo tempo — e então ficaram em silêncio absoluto.
À frente deles…
Havia um campo de batalha que não fazia sentido.
Lobos infernais de chamas púrpuras lutavam ao lado de goblins cinzentos. Orcs cinzas de aura roxa avançavam contra orcs vermelhos vivos. Um Cérberus de três cabeças feito de sombras e fogo negro rugia no centro do caos.
E no meio de tudo…
Um único homem.
— …Que tipo de monstro é esse? — um dos magos murmurou.
— Ele está… comandando mortos — sussurrou um cavaleiro.
Ludolf, o líder da guilda, apertou as rédeas do cavalo.
— Não interfiram — ordenou, com a voz grave. — Observem.
Noah caminhou lentamente pelo campo tomado por cadáveres e chamas roxas.
Os últimos Orcs Vermelhos ainda lutavam, mas já estavam cercados.
— Agora restou você… chefão — Noah disse, com um sorriso irônico.
Ele girou a foice uma vez.
— Vou te mostrar quem é o verdadeiro chefe daqui.
O Chefe Orc ergueu o cajado e abriu um sorriso torto.
— Quando eu te matar — ele falou, com uma voz grave e distorcida — vou arrancar as cabeças de todos os que estão por perto.
Noah arregalou os olhos por um segundo.
Ele fala…
— Então você escolheu morrer consciente — Noah murmurou.
— Ataquem.
O exército inteiro se moveu.
Lobos mortos dispararam.
Orcs cinzas avançaram como um muro.
Goblins correram entre pernas, cortando tendões.
O Chefe Orc bateu o cajado no chão.
Um círculo dourado se abriu.
Explosões de luz varreram o campo, destruindo vários mortos.
Mas eles voltaram.
E voltaram.
E voltaram.
— Isso é impossível… — Hans sussurrou, segurando um dos civis.
— Ele tá vencendo… — uma mulher murmurou, com lágrimas nos olhos.
Noah avançou entre as explosões.
Chamas negras serpentearam por seus braços.
Ele saltou, correu sobre as costas de um lobo morto, pulou sobre um orc cinza e se lançou diretamente contra o Chefe.
A foice desceu.
O Chefe bloqueou com o cajado.
O impacto gerou uma onda de choque que empurrou os mortos ao redor.
Noah foi lançado para trás, deslizando, mas se firmou.
O Chefe atacou com uma sequência de golpes de luz, cada um abrindo crateras no chão.
Noah desviava por centímetros.
Ele sentiu o calor passar por sua pele.
Ele sorriu.
— Lento.
Ele estalou os dedos.
Cerber surgiu atrás do Chefe e mordeu uma de suas pernas.
O monstro rugiu.
Noah aproveitou.
Chamas negras envolveram sua foice.
Ele cortou.
O braço esquerdo do Chefe voou.
O cajado caiu.
Um silêncio pesado caiu sobre a vila.
— Ele conseguiu… — um dos curadores murmurou.
O Chefe cambaleou.
— Eu ainda… — ele tentou falar.
Noah apareceu na frente dele num piscar de olhos.
— Não.
A foice subiu.
E desceu.
A cabeça do Chefe Orc foi arrancada em um único arco perfeito.
O corpo caiu de joelhos.
Depois tombou.
O campo inteiro ficou em silêncio.
As chamas roxas começaram a se apagar lentamente.
O sistema falou.
[Aviso]
Mortos de nível comandante podem ser renomeados.
Noah caminhou até o corpo.
Ele colocou a mão sobre o pescoço sem cabeça.
— Retorne dos mortos…
Sombras subiram como um mar.
— Dusk…
[Nome reconhecido.]
[Comandante Morto — Dusk adquirido.]
A criatura colossal se ergueu novamente.
Agora ajoelhada.
Silêncio absoluto.
A Guilda Scar não respirava.
Hans caiu de joelhos.
E Eidenfall… nunca mais seria a mesma.
O silêncio que pairava sobre Eidenfall não era de medo.
Era de reverência.
A fumaça das chamas roxas ainda subia lentamente, enquanto o exército de mortos permanecia imóvel, como sentinelas silenciosas. Noah estava no centro do campo, a foice apoiada no ombro, a respiração pesada, o olhar cansado — mas firme.
Então alguém deu o primeiro passo.
Foi Hans.
O jovem guarda caminhou até ele, as mãos tremendo. Parou a poucos metros, engoliu em seco e então… ajoelhou-se.
— Obrigado… — sua voz falhou. — Se não fosse por você, hoje não existiria mais Eidenfall.
Como se aquele gesto tivesse quebrado uma barreira invisível, os civis começaram a se aproximar.
Uma mulher abraçando os filhos.
Um velho com os olhos marejados.
Homens que haviam perdido casas, mas não a esperança.
Um por um, todos se ajoelharam.
— Obrigado…
— Obrigado, herói…
— Obrigado por nos salvar…
Noah deu um passo à frente, claramente desconfortável.
— Ei… não precisa disso tudo — ele começou a dizer. — Não foi nada…
Mas então…
Seu corpo travou.
Seu olhar perdeu o foco.
O mundo ficou distante.
Vozes começaram a ecoar em sua mente.
Gritos de morte.
Rugidos de monstros.
Memórias de batalhas que não eram apenas dele.
— Matar… sobreviver… dominar…
— Fogo… sangue… medo…
Noah levou a mão à cabeça.
— N-Não…
Ele caiu de joelhos.
Depois, ao chão.
— NOAH! — Hans correu até ele.
Os civis gritaram.
— Ele tá bem?!
— Alguém chama um curador!
Curadores da Guilda Scar avançaram, mas antes que tocassem nele, as sombras ao redor do corpo de Noah se moveram, instintivamente formando uma barreira.
Cerber rosnou baixo.
Dusk ergueu a cabeça.
Ninguém ousou se aproximar.
Depois de longos segundos que pareceram uma eternidade…
Noah respirou fundo.
As sombras recuaram.
Ele abriu os olhos.
— …Tá tudo bem — ele murmurou, sentando-se com dificuldade. — Isso… isso é normal. Não precisam se preocupar comigo.
O alívio percorreu o campo como uma onda.
Hans deixou escapar um riso nervoso, com lágrimas escorrendo.
— Você quase matou todo mundo de susto…
Noah esboçou um pequeno sorriso.
Então passos firmes ecoaram.
Ludolf, o líder da Guilda Scar, aproximou-se, sua capa ondulando ao vento. Ele parou à frente de Noah e se inclinou em um raro gesto de respeito.
— Você salvou uma vila inteira… sozinho — disse ele. — Peça o que quiser. E eu realizarei.
Noah piscou, surpreso.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa dentro do meu alcance — confirmou Ludolf.
Noah respirou fundo.
— Você tem um reino próprio?
— Tenho — respondeu Ludolf. — Sou príncipe do Reino de Scavenger.
Noah olhou ao redor.
Casas destruídas.
Terra queimada.
Pessoas que haviam perdido tudo.
— Então aqui está meu primeiro pedido — ele disse, sério. — Dê moradia a todos os civis que perderam suas casas aqui em Eidenfall.
O silêncio foi quebrado por murmúrios emocionados.
Ludolf assentiu imediatamente.
— Isso será feito hoje mesmo.
Ele então inclinou levemente a cabeça.
— E o segundo?
Noah virou-se para Hans.
— Dê uma vaga na sua guilda ao guarda Hans. Ele é uma ótima pessoa. Corajoso. Leal. E hoje provou que merece.
Hans congelou.
— O-o quê…?
Ele encarou Noah, os olhos brilhando, a boca tremendo.
Aquele olhar dizia mais do que qualquer palavra.
Gratidão. Lealdade. Promessa.
— Aceito — Ludolf disse, com um leve sorriso.
Então ele olhou novamente para Noah.
— E você? Não quer morar em Scavenger também? Nem… uma vaga na minha guilda?
Noah hesitou.
Ele olhou para o que restava de sua casa.
Paredes quebradas.
Memórias espalhadas em escombros.
Ele fechou os olhos por um instante.
E então assentiu.
— …Eu aceito.
Um novo caminho se abria.
Ao cair da tarde, a caravana partiu.
Civis, guardas, Hans, Noah… todos seguindo Ludolf e a Guilda Scar rumo ao Reino de Scavenger.
E, enquanto Eidenfall desaparecia atrás deles, uma coisa era certa:
A lenda de Noah… estava apenas começando.

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