O caminho até o Reino de Scavenger foi mais silencioso do que Noah esperava.

    Depois do caos, dos gritos, do sangue e das chamas, aquele trecho de estrada parecia quase… calmo demais. As rodas das carroças rangiam lentamente sobre a terra batida, enquanto os civis caminhavam em pequenos grupos, alguns carregando sacolas improvisadas, outros apenas segurando as mãos de seus filhos com força, como se tivessem medo de soltá-los nem que fosse por um segundo.

    Noah caminhava um pouco à frente, com a capa ainda marcada por poeira e cinzas secas. Ao seu lado, Hans mantinha o passo, segurando a lança apoiada no ombro, o olhar atento a cada ruído da floresta.

    — Você… — Hans quebrou o silêncio, pigarreando levemente — você podia ter ido embora. Ninguém ia te julgar se tivesse corrido.

    Noah deu um meio sorriso.

    — Já corri demais na minha vida — respondeu. — Dessa vez, eu só cansei de fugir.

    Hans ficou alguns segundos em silêncio antes de rir baixo.

    — Eu pensei que você fosse algum tipo de mercenário maluco… mas acho que você é só um cara teimoso mesmo.

    — E você é um guarda que se joga no perigo mesmo sabendo que pode morrer — Noah retrucou. — Acho que somos parecidos.

    Hans assentiu.

    Não houve aperto de mãos nem promessas grandiosas. Mas ali, naquele trecho de estrada poeirenta, algo simples e forte começou a se formar — uma amizade nascida no meio do caos.

    Horas depois, as muralhas do Reino de Scavenger surgiram no horizonte.

    Altas, negras, reforçadas por torres de vigia e bandeiras marcadas com o símbolo da guilda Scar — agora também com o emblema da Face — tremulavam ao vento. Os guardas nos portões se enrijeceram ao ver o tamanho do grupo, mas ao reconhecerem Ludolf à frente da comitiva, abriram passagem quase de imediato.

    A cidade fervilhava de vida.

    Mercadores gritavam ofertas, ferreiros martelavam aço incandescente, e aventureiros passavam com armas nas costas e capas manchadas por batalhas recentes. Muitos pararam para olhar quando perceberam o número de civis e, principalmente, quando viram Noah — a foice presa às costas, envolta por uma aura sutil que fazia alguns se arrepiarem sem entender o porquê.

    Eles seguiram direto para o palácio.

    O salão do trono de Scavenger era amplo, sustentado por colunas de pedra negra e iluminado por tochas azuis que nunca pareciam se apagar. No centro, sobre uma plataforma elevada, estava o trono.

    E nele, sentado com postura firme e olhar severo, estava Reinhard, o Rei de Scavenger.

    Seu cabelo grisalho caía até os ombros, e sua presença fazia o ar parecer mais pesado.

    — Ludolf — a voz do rei ecoou pelo salão. — Por que você traz tanta gente consigo? E por que meu palácio está cheio de civis exaustos?

    Ludolf deu um passo à frente e se ajoelhou brevemente.

    — Pai… — começou — houve uma abertura de masmorra na Vila de Eidenfall. Um desastre de Rank A. Esses civis perderam tudo. E estes dois… — ele se virou e apontou para Noah e Hans — foram os responsáveis por impedir um massacre completo.

    O murmúrio tomou o salão.

    Reinhard estreitou os olhos.

    — Aproximem-se — ordenou.

    Noah e Hans deram um passo à frente.

    — Esses dois arriscaram a vida, enfrentaram um chefe de masmorra e salvaram dezenas de pessoas — continuou Ludolf. — Venho pedir permissão para que eles ingressem na Guilda Scarface. E também para que o reino ofereça moradia a esses civis.

    O rei ficou em silêncio por longos segundos, avaliando-os como se pudesse enxergar além da pele e dos ossos.

    — Moradia será concedida — disse finalmente. — Ninguém que perca tudo em minhas terras será abandonado.

    Um suspiro coletivo percorreu os civis.

    — Mas quanto à guilda… — Reinhard inclinou-se levemente no trono — Scavenger não entrega esse título sem prova.

    Antes que alguém pudesse responder, as grandes portas do salão se abriram com força.

    — Prova? — uma voz profunda ecoou. — Então vamos testar.

    Um homem alto entrou, passos firmes, capa escura e olhar tão cortante quanto lâmina.

    Arnulf.

    Irmão de Ludolf.

    Noah sentiu o impacto antes mesmo de entender.

    Uma aura esmagadora se espalhou pelo salão como uma maré invisível. Seu peito apertou por um instante.

    Era diferente.

    Pesada. Densa. Perigosa.

    Por um breve segundo, o sistema em sua mente fez algo raro: ficou em silêncio.

    Aquilo…

    Se equiparava a Dusk.

    Hans engoliu em seco ao lado dele.

    — Irmão — Ludolf falou, tenso — isso não é necessário.

    Arnulf ignorou.

    — Querem entrar na Scarface? — ele encarou Noah. — Então enfrentem os dezesseis novatos das guildas unificadas. Se sobreviverem… eu mesmo aceitarei.

    O rei assentiu lentamente.

    — Será feito um Teste de Admissão.

    Hans respirou fundo.

    — Nós aceitamos — disse, antes mesmo que o medo pudesse tomar sua voz.

    Noah apenas sorriu de canto.

    — Parece justo.

    Ludolf sentiu um frio percorrer sua espinha.

    Ele conhecia Noah.

    E, naquele sorriso, havia algo que dizia claramente:

    O teste não seria apenas uma prova.
    Seria um aviso.

    E enquanto os portões do salão se fechavam atrás deles, o Reino de Scavenger ainda não fazia ideia de que estava prestes a testemunhar o nascimento de algo… que nem mesmo suas guildas mais fortes estavam preparadas para enfrentar.

    O sol já havia começado a se esconder por trás das muralhas de Scavenger quando Ludolf caminhou pelos corredores de pedra que levavam ao setor recém-designado para abrigar os sobreviventes de Eidenfall.

    Casas simples, mas sólidas, alinhavam-se ao longo da rua estreita. Eram novas, erguidas às pressas por ordem real, mas ainda assim infinitamente melhores do que os escombros que haviam ficado para trás. Crianças brincavam tímidas entre as portas, e adultos conversavam em voz baixa, como se ainda temessem que tudo aquilo fosse apenas um sonho frágil demais para ser quebrado por um som mais alto.

    No fim da rua, diante de uma casa de dois andares feita de pedra clara e telhado escuro, estava Noah.

    Ele observava o céu com expressão neutra, como se o mundo inteiro não passasse de um detalhe distante.

    Ludolf parou a alguns passos dele.

    — Noah — chamou, com cautela.

    Noah virou o rosto lentamente.

    — Algo errado?

    O príncipe respirou fundo.

    — Amanhã será o Teste de Admissão. — Ele cruzou os braços. — Eu preciso te pedir uma coisa… não use suas invocações.

    Houve um silêncio breve, pesado.

    — Não por desconfiança — Ludolf se apressou — mas… se você usar aquele exército de sombras, os novatos podem simplesmente desistir. Isso viraria um espetáculo… perigoso.

    Noah soltou um riso baixo.

    — Não se preocupe — respondeu, com calma. — Só a minha força já é suficiente para dizimar exércitos inteiros. Não vou precisar chamar ninguém de volta.

    Essas palavras fizeram Ludolf engolir em seco.

    Ele conhecia o peso de cada sílaba dita por Noah. Aquilo não era arrogância. Era certeza.

    — Então… — Ludolf deu um passo para trás — conto com você para não destruir metade da cidade.

    — Vou tentar — Noah respondeu, num tom que soava quase divertido.

    Ludolf assentiu e se afastou rapidamente, como se temesse permanecer ali por mais tempo.

    Noah observou o príncipe desaparecer entre as casas antes de entrar em sua própria residência.

    O interior era simples, mas confortável. Uma mesa de madeira, uma cama reforçada, um pequeno armário e uma janela que dava vista para o setor inteiro.

    Ele fechou a porta e apoiou as costas nela por alguns segundos.

    Então, sua voz ecoou dentro da própria mente:

    O Jogador ainda possui giros disponíveis da Roleta do Sofrimento.

    Noah fechou os olhos.

    — Vamos ver… — murmurou.

    Deseja girar a roleta?

    — Sim.

    Um único clique soou.

    E então…

    A luz não foi branca.

    Foi roxa.

    Uma luz profunda, pesada, como se a própria morte tivesse sido destilada em brilho.

    O ar do quarto mudou.

    A temperatura caiu de repente.

    Uma presença esmagadora se formou diante dele.

    E então, lentamente, algo surgiu.

    Uma foice.

    Não uma arma comum — mas uma lâmina que parecia ter sido moldada a partir de ossos ancestrais e sombras condensadas. Runas antigas brilhavam ao longo do cabo, e uma aura roxa densa escorria de sua lâmina como fumaça viva.

    O Sistema falou:

    Foice do Rei Ossorath — Rei dos Esqueletos
    Rank: S
    Raridade: Mítica
    Atributos: +280 Força
    Habilidade Especial: Pode se dividir em duas Mini Foices

    Noah sentiu o coração acelerar.

    Ele estendeu a mão.

    No instante em que seus dedos tocaram o cabo, o mundo explodiu em dor.

    Não foi uma dor comum.

    Foi como se cada osso do seu corpo tivesse sido esmagado ao mesmo tempo. Como se mil lâminas cortassem seus nervos por dentro.

    Noah gritou — mas não saiu som algum de sua boca.

    Seu corpo caiu ao chão, convulsionando.

    Cinco segundos.

    Cinco segundos que pareceram uma eternidade.

    Quando a dor cessou, ele ainda não conseguia se mover.

    Durante quase um minuto, Noah permaneceu no chão, tremendo, sentindo apenas um vazio estranho onde antes existia o próprio corpo.

    Finalmente, com esforço, ele se levantou.

    Suas pernas ainda estavam instáveis.

    Ele olhou para a foice flutuando à sua frente.

    — Com isso em posse… — murmurou — eu vou me tornar um deus.

    A lâmina pareceu pulsar.

    Noah ergueu a mão.

    — Ativar habilidade especial.

    A foice se dividiu com um estalo suave, separando-se em duas mini foices perfeitamente simétricas que surgiram em suas mãos, envoltas pela mesma aura roxa.

    Ele as observou por alguns segundos.

    — Acho melhor utilizar essa arma assim.

    O ar do quarto ficou pesado.

    E, pela primeira vez desde que chegou a Scavenger, o próprio Reino pareceu… estremecer silenciosamente diante do que estava nascendo ali.

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