O ar da arena já não era o mesmo.

    Ele vibrava.

    Cada respiração parecia atravessar uma camada invisível de pressão, como se algo gigantesco estivesse observando tudo do alto. A aura roxa ao redor de Noah pulsava em intervalos irregulares, expandindo e contraindo como um coração vivo.

    Felix sentia isso.

    E, pela primeira vez desde o início da luta, ele não sorriu.

    — Então é assim… — murmurou, os olhos brilhando em azul intenso. — Você cresce enquanto luta.

    Ele abriu os braços.

    O céu acima da arena escureceu.

    Nuvens artificiais, conjuradas à força pura, se formaram girando como um redemoinho. Relâmpagos começaram a se entrelaçar dentro delas, grossos, instáveis, violentos.

    — RAIO DA MONSTRIFICAÇÃO… — a voz de Felix ecoou, distorcida pelo trovão — SEGUNDA FORMA: INVESTIDA DO JULGAMENTO!

    O chão explodiu sob seus pés.

    Felix não correu.

    Ele virou um raio.

    Uma linha azul cortou a arena em menos de um piscar de olhos. O impacto foi imediato — um estrondo tão forte que fez os muros externos do coliseu racharem.

    Noah tentou reagir.

    Mas desta vez…

    Não foi rápido o suficiente.

    O raio atravessou seu torso em cheio.

    — NOAH! — Hans gritou.

    O corpo do Ceifador foi lançado para trás como um projétil, atravessando duas colunas de pedra antes de se chocar violentamente contra a parede da arena. O impacto fez o chão tremer, e uma nuvem de poeira subiu cobrindo tudo.

    — ELE ACERTOU!
    — Isso foi direto!
    — Esse ataque… era pra matar!

    Felix pousou do outro lado da arena, arfando, com o braço direito fumegando pela descarga absurda que acabara de liberar.

    — Mesmo você… — ele respirou fundo — não deveria aguentar isso…

    A poeira começou a baixar.

    Silêncio.

    Um silêncio pesado demais.

    Então…

    CRACK.

    Uma fissura roxa brilhou no meio da poeira.

    Depois outra.

    E outra.

    — O quê…? — alguém sussurrou.

    A parede destruída começou a se recompor.

    Não com pedra.

    Mas com… ossos.

    Estruturas ósseas se entrelaçaram como pilares vivos, sustentando o corpo de Noah enquanto ele se erguia lentamente dos escombros.

    Seu peito estava queimado.

    A roupa rasgada.

    Sangue escorria pela lateral de seu corpo.

    O primeiro sangue da luta.

    Noah cuspiu no chão.

    — …Esse doeu.

    A arquibancada explodiu em gritos.

    — ELE SANGROU!
    — O Felix conseguiu feri-lo!
    — Mas… ele ainda está de pé?!

    Noah estendeu as mãos.

    E, pela primeira vez desde o início do combate, as mini-foices retornaram.

    Elas não surgiram do nada.

    Elas nasceram.

    Sombras se condensaram em cada mão, formando duas lâminas esqueléticas de aura roxa profunda. Mas agora… elas estavam diferentes.

    A foice da esquerda vibrava.

    O ar ao redor dela ondulava como vidro prestes a se quebrar.

    — Mini-Foice Esquerda… — Noah disse calmamente — Oscilação.

    Ele bateu o cabo da foice no chão.

    O espaço à frente dele se partiu.

    Um campo de força roxo-transparente surgiu, como vidro distorcido, bloqueando completamente a linha de visão entre ele e Felix por um segundo.

    Felix sentiu.

    — Isso é… um campo?!

    Noah girou a foice no ar.

    — Oscilação não é só defesa.

    Ele fez um movimento simples.

    O ar foi cortado.

    Uma lâmina invisível, tingida de roxo, cruzou a arena em velocidade absurda. Felix desviou por instinto, mas o corte passou perto o suficiente para rasgar seu ombro, deixando uma linha que fumegava com eletricidade residual.

    — Corte à distância… — murmurou Otto, da arquibancada. — Sem encantamento…

    Noah pisou com força.

    A arena inteira tremeu.

    Fissuras se espalharam pelo chão como uma teia, e uma onda sísmica explodiu sob os pés de Felix, arremessando-o para o alto.

    — E também… — Noah levantou a foice esquerda — terremotos.

    Felix girou no ar e pousou com dificuldade, o corpo vibrando para se manter estável.

    — Hah… — ele sorriu, mesmo sangrando — Então você também esconde monstros nas mãos.

    Noah então ergueu a foice direita.

    A aura mudou.

    Ela ficou mais densa.

    Mais pesada.

    — Mini-Foice Direita… — ele disse — Domínio dos Ossos.

    O chão atrás de Noah se abriu.

    Espinhos de ossos gigantes surgiram, retorcidos, afiados, pulsando com energia necromântica. Placas ósseas se moveram sozinhas, formando uma armadura parcial sobre o corpo dele, cobrindo as áreas feridas.

    O sangue parou de escorrer.

    O osso se moldou.

    — Ele está criando defesa em tempo real… — sussurrou Liselotte, fascinada. — Ossos… como se fossem extensão do corpo dele.

    Noah estendeu a mão direita.

    Projéteis de ossos se formaram no ar e dispararam como balas.

    Felix desviou, explodindo o chão com descargas elétricas para mudar de direção.

    — Ataque e defesa… — ele pensou. — Duas armas… dois domínios…

    Ele sorriu mais uma vez.

    — Isso sim… — disse, eletricidade se acumulando novamente em suas garras — é uma luta digna.

    Noah ergueu o olhar.

    A aura roxa cresceu mais um passo.

    — Então venha.

    A arena sabia.

    Aquilo já não era um teste de admissão.

    Era um choque entre monstros.

    E ainda estava longe do fim.

    O silêncio que se seguiu à revelação das Mini Foices durou menos de um segundo.

    Então, o inferno desabou sobre a arena.

    Noah avançou.

    Não foi um avanço comum — foi como se o próprio espaço tivesse sido puxado junto com ele. O chão da arena estalou, rachaduras se espalharam em forma de teia e uma onda de pressão explodiu para os lados, arremessando poeira, fragmentos de pedra e obrigando parte da arquibancada a erguer barreiras defensivas às pressas.

    — O-o quê foi isso?! — um lutador da ala leste gritou, sentindo o peito vibrar como se tivesse levado um soco invisível.

    Felix mal teve tempo de reagir.

    A Mini Foice esquerda de Noah vibrou em um tom grave, quase como um sino quebrado, e um campo de oscilação roxo-transparente se formou no ar, semelhante a vidro trincado. O espaço dentro dele tremeu violentamente.

    — Desiste. — a voz de Noah foi calma, quase cansada.

    Felix rangeu os dentes e forçou seus músculos, raios explodindo sob a pele.

    — Cala a boca! — ele rugiu, avançando com as garras elétricas.

    Tarde demais.

    Noah deu um passo lateral e, sem nem olhar diretamente para Felix, lançou um corte à distância. O ar foi rasgado. Não foi um som — foi um estalo seco, como se o céu tivesse quebrado.

    Felix foi lançado para trás, rolando pelo chão da arena, deixando um rastro de sangue e eletricidade instável.

    A arquibancada veio abaixo.

    — ELE CORTOU O AR?!
    — Aquilo foi… invisível?!
    — Se isso tivesse pegado em cheio, o Felix teria sido partido ao meio!

    Felix se ergueu cambaleante, o corpo tremendo. Ele cravou as garras no próprio peito e descarregou raios diretamente nos músculos. A carne se contraiu, os ferimentos se fecharam à força, vasos saltaram sob a pele.

    — EU NÃO VOU CAIR! — ele gritou, avançando de novo.

    Noah suspirou.

    — Eu não quero te matar. Para.

    Felix respondeu com um urro e uma investida suicida.

    A Mini Foice direita de Noah se ergueu.

    Do chão da arena, espinhos de ossos explodiram para cima como lanças brancas. Felix desviou de alguns, teve o ombro perfurado por outro, mas continuou avançando, envolto em raios.

    — ELE AINDA ESTÁ SE MOVENDO?! — alguém gritou, incrédulo.

    Noah fechou a mão.

    Os ossos se rearranjaram no ar, formando uma barreira óssea que absorveu a explosão elétrica de Felix. O impacto fez a arena inteira tremer.

    Quando a fumaça baixou, Noah já estava na frente dele.

    Um soco.

    Não houve brilho, nem técnica aparente.

    Apenas força.

    O impacto foi tão brutal que o ar implodiu, criando uma onda de choque circular. Felix foi esmagado contra o chão, a pedra se despedaçando sob seu corpo como vidro fino. Um crater se formou.

    — DESISTE. — Noah repetiu, sua voz firme agora.

    Felix tentou se mover. Tossiu sangue. Mesmo assim, riu.

    — …você… não manda em mim…

    Ele se eletrocutou de novo. Os músculos incharam ainda mais, as garras cresceram, o corpo todo vibrando em sobrecarga.

    — ELE ESTÁ SE MATANDO! — um curandeiro gritou da arquibancada.

    Felix saltou, usando os raios como propulsores.

    Noah girou a Mini Foice esquerda.

    O campo de oscilação se expandiu de repente.

    O chão tremeu como num terremoto localizado. Lutadores caíram sentados, barreiras mágicas se despedaçaram, e o impacto fez os dentes de muitos baterem involuntariamente.

    Felix perdeu o equilíbrio no ar.

    Noah apareceu acima dele.

    — Última vez. — disse Noah. — Desiste. Eu não quero carregar mais um peso morto.

    Ele desceu o punho.

    Felix foi lançado contra a parede da arena como um projétil, rachando a estrutura mágica que a sustentava. O impacto foi tão forte que o selo de proteção piscou perigosamente.

    Silêncio absoluto.

    Felix caiu de joelhos, respirando com dificuldade. Seu corpo ainda soltava faíscas, mas estava claro: ele estava sendo esmagado em todos os sentidos possíveis.

    Ainda assim… ele se levantou.

    — …eu… ainda… posso lutar…

    Um murmúrio percorreu a arena.

    — Isso já passou de coragem…
    — Isso é insanidade.

    Noah encarou Felix por longos segundos.

    Algo em seu olhar não era raiva.

    Era cansaço.

    — Então aguenta. — disse ele, ajustando a empunhadura das Mini Foices. — Porque eu não vou cair… e você não vai vencer.

    A aura sombria de Noah se expandiu mais uma vez, densa, pesada, fazendo o ar da arena ficar difícil de respirar.

    Felix abriu um sorriso torto, os raios crepitando mais uma vez.

    A luta estava longe do fim.

    Mas agora, todos sabiam.

    Não era Felix que estava testando Noah.

    Era Noah quem estava decidindo até onde deixaria Felix viver.

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