Capítulo 09 - Caminho para os saberes
— A não ser que queira virar um soldado do império, não estou te obrigando a fazer algo que eu quero… — Haru suspirou. — Só quero que veja que há uma opção, caso queira.
— Eu aceito.
Não tinha muito o que pensar; se fosse para a capital e virasse um soldado, não só iria encontrar a protagonista, mas iria ser inimigo dela. Não queria acabar morto por tentar proteger o alvo dela. Stelle sempre foi bem dura com qualquer um que ficasse no seu caminho. Ele sabia que no Abate de Sangue, entre ela e o Imperador, a luta havia se estendido tanto que saiu da arena de combate e foi para o palácio do Imperador, e muitos que foram tentar proteger sua majestade caiu pela espada dela.
— Lisses…
— Está tudo bem, pai… — ele disse rapidamente. — Eu vou para o Reino dos Elfos.
Haru suspirou e passou as mãos pelos cabelos pretos.
— Certo, mas eu quero que seja forte, Lisses.
— Vou fazer o meu melhor, pai…
Ainda soava estranho usar a palavra “pai”, mas não queria pensar nessa questão.
— Volte para o quarto, vou acompanhar Grey até a carruagem junto com a sua mãe e depois lhe chamo para mais detalhes.
Ulisses apenas assentiu com a cabeça e se virou, começando a andar. Ao sair do escritório de Haru, começou a ter muitos pensamentos confusos, enquanto passava pelo corredor e por alguns empregados fazendo o seu trabalho. Em meio às várias indagações, uma sempre se destacava mais do que as outras.
“O que tá acontecendo?”, ele se indagou. Ulisses se perguntava como à história pode mudar drasticamente desse jeito. Não estava fazendo sentido, não era isso que estava esperando que pudesse acontecer tão de repente. O quão havia mudado a história original? Isso sequer seria possível? Se continuasse com isso, temia que pudesse encontrar a protagonista de um jeito ou de outro, e não era isso que estava querendo.
Dependendo de como poderia conhecer Stelle, ou quando, algo na sua cabeça estava a apitar sem parar… e se caso Stelle e Ulisses fossem inimigos no futuro? E se acabasse encontrando a protagonista no seu auge e ela, sem dó, o matasse? Seria pior do que o seu destino original. Não queria isso. Em seus planos não diziam que estava querendo a morte.
Se fosse levado para ser um soldado do império, não iria conhecer Stelle tão cedo como na novel, mas acreditava fielmente que poderia conhecê-la. Porém, poderia ser como inimigos, ou até mesmo só no volume que Stelle se encontrasse com o imperador pela primeira vez, já que a protagonista invade o palácio imperial e todos precisam proteger Sua Majestade. E se ele tivesse que ir proteger o imperador desse ataque?
Isso o fez suspirar, cansado. A sua única alternativa era se livrar desse destino de ser um soldado. Ficou feliz que Haru havia lhe dado a solução, porém teria que se dedicar.
Precisava pensar com calma e, ao chegar no quarto, rapidamente entrou e fechou a porta, ficando completamente sozinho. Nos segundos seguintes, respirou fundo e caiu de joelhos no chão, pensando em como havia chegado a isso. Estava ali a apenas duas semanas e agora estava em frente a esse problema. Como iria atingir o seu objetivo desse jeito? Não era isso que queria.
— O que eu vou fazer? — disse ele, olhando para o chão. — Não posso virar um soldado, isso pode levar a tantos finais para mim.
Ele respirou fundo e então se levantou com calma, se agarrando à sua racionalidade para lidar com essa situação.
— Tenho que fazer algo, não só por mim, mas pelo verdadeiro Ulisses e o seu final horrendo!
“Tenho que ganhar o Abate de Sangue!” Seus pensamentos soaram firmes e diretos.
— Gray, eu espero que morra! — disse apertando os punhos. — Qual é, será que pode ser tão difícil mudar o meu final nessa desgraça?! Por que parece que tudo está me levando a um final diferente, onde eu vou provavelmente conhecer Stelle?
Estava indignado de tantas formas que o seu coração não parava de bater forte. Como isso poderia ser possível? Ulisses não possuía o poder de voltar no tempo, mas, se pudesse, teria voltado para poder se preparar psicologicamente com antecedência.
— Ainda bem que não vou ir com Gray logo de cara, mas não posso comemorar até ter esse problema longe de mim. — Ele suspirou e pensou mais um pouco, colocando a mão no queixo. — E acho que não é tão ruim… treinar cedo é justamente o que eu queria, então treinar com os Elfos não vai vir em má hora, creio eu…
Até que veio algo bom em meio a tudo isso. Quanto mais rápido ficasse forte, mais rápido poderia sair desse destino de ser levado por Gray e, se isso acontecesse, consequentemente não iria conhecer Stelle. Essa possibilidade de novo caminho que levava até a protagonista já poderia ser descartada. Porém, se uma mudança assim pudesse acontecer, isso significava que mais mudanças poderiam acontecer, como se fossem encruzilhadas que levavam à mesma pessoa, mas por situações diferentes.
— Parece que o enredo quer me obrigar a encontrar aquela magrela peituda de todo jeito!
Ulisses se jogou na cama e olhou para o teto, enquanto cruzava os braços. Seria mais fácil se pudesse ter muito dinheiro e apenas sumir. Dinheiro poderia resolver, mas não queria que essa responsabilidade caísse em Ellie. Ele se preocupava com ela, de certa forma. Aquele rosto fofo deveria continuar fofo.
— Isso está sendo um pé no saco.
No mesmo segundo, decidiu que não iria apenas ficar se lamentando. Isso não iria ajudar em nada e tão pouco resolver os seus problemas. Tinha que se movimentar até chegar o dia em que teria que ir para Isclaris, iria aprender tudo que podia para não chegar lá de mãos vazias ou com falta de conhecimento. Não iria aprender tudo na pressão, ao menos não na maioria das vezes.
Haru estaria ocupado e não queria preocupar Eduina com as suas ideias. Pensando um pouco, decidiu que iria começar com a biblioteca, mas não sabia com qual livro poderia começar e até o momento nem havia pisado na biblioteca da casa Urion, mas sabia que seria uma das maiores das casas nobres.
Logo Ulisses saiu dos seus pensamentos quando escutou batidas na porta. Dando seu consentimento, a porta se abriu e Briana entrou.
— Sr. Ulisses, peço desculpas por incomodar o seu descanso, só vim pegar as roupas sujas.
— Ah, sim… eu entendo.
Enquanto Briana entrava no quarto, Ulisses acreditou que poderia pegar algumas dicas com ela. Mesmo que Briana não fosse a pessoa mais indicada para esse trabalho, ela ainda poderia ajudar, ao menos para dar uma direção concreta.
— Srta. Briana.
— Sim? — Briana pegou a sexta de roupa e olhou para Ulisses. — Precisa de algo?
— Vamos supor uma situação hipotética… hm… — Ulisses pensou em como fazer a pergunta. — Vamos supor que você queira aprender algo básico sobre magia na biblioteca, que tipo de livro iria ler primeiro?
Briana ficou um pouco surpresa com a pergunta. Não estava esperando e tão pouco foi a pessoa mais indicada para responder, porém tinha noção de algo básico, ao menos até certo ponto.
— Se fosse eu… eu começaria com os livros de conceitos e regras de magia, então…
Sem esperar a resposta completa, Ulisses apenas se virou e começou a ir na direção da saída do quarto.
— Obrigado, srta. Briana!
— Então… eu… — A porta se fechou, deixando a empregada sozinha com a sexta de roupas. — Haah… O Sr. Ulisses realmente não é de esperar.
Briana soltou um pequeno riso divertido e balançou a cabeça, enquanto começava a sair do quarto. Ela sabia que aquela pergunta não era tão hipotética assim, porém não se importava de responder algumas perguntas para o jovem senhor da casa.
※※※※※
Quando chegou na porta da biblioteca, Ulisses respirou fundo para recuperar o fôlego e colocou as mãos na cintura. A porta de madeira, com alguns detalhes em dourado, será linda. Se apenas a porta era assim, Ulisses já poderia acreditar que a biblioteca por dentro fará jus à sua imaginação de uma biblioteca magnífica. Não queria decepcionar as suas expectativas.
Ao abrir a porta, os olhos azuis brilhantes do garoto foram para algo que era melhor que a sua imaginação. A biblioteca era uma construção imponente de três andares, repleta de estantes que se estendiam do chão ao teto, abarrotadas de milhares de livros. As janelas altas permitem a iluminação natural do espaço, criando uma atmosfera tranquila e agradável. Os tapetes vermelhos e paredes em tons de madeira clara acrescentam um toque acolhedor à biblioteca, enquanto a escada circular que conecta os três andares faz a biblioteca parecer ainda mais grandiosa e espaçosa.
— Uau… — Ulisses deu alguns passos, mas sem tirar os olhos das estantes de livros.
— Posso ajudar, Jovem Senhor?
Uma voz acabou tirando Ulisses dos seus devaneios e ao ver quem era, viu um senhor de idade, com um óculos e cabelos grisalhos, com um carrinho cheio de livros grossos. Poderia chutar uns 70 anos, no máximo.
— Ah… o senhor é o bibliotecário?
— Sim, o que deseja? — a voz dele será bem calma e acolhedora.
— Onde posso encontrar livros com os conceitos e regras de magia?
— Oh! Acredito que os livros que queira estejam no segundo andar.
— Ah, obrigado.
— Venha, vou ajudá-lo.
Subindo as escadas, Ulisses estava sentindo algo como animação. Queria aprender mais sobre esse mundo de magia, já que o mundo real não tinha nada disso. Ao chegarem no segundo andar, o senhor andou pelas estantes e, ao parar em uma delas, movimentou as mãos e os livros começaram a flutuar na direção de uma das mesas de leitura. Livros grossos e com capas duras, algumas até eram de couro. Ulisses até ficou impressionado. Nunca pensou que, em algum momento, iria poder ver algo assim.
— Esses são os que são mais fáceis de entender. Se quiser algo mais complexo, posso pegar aqueles em nível acadêmico avançado.
— Ah! Não precisa… esses estão bons.
Ulisses queria muito parecer inteligente o suficiente para ler livros avançados, mas não poderia mentir para o bibliotecário e nem para si mesmo. Nunca leu nada sobre magia e, antes de ir para o mundo da novel, a magia era apenas algo fictício e nada real. E como queria aprender tudo, teria que começar do zero para ter melhor entendimento sobre isso.
Ulisses estava tendo aulas de magia, mas as aulas eram apenas duas vezes na semana e isso seria muito demorado. Na sua vida passada, nunca gostou da escola, mas estudar sempre foi o seu forte. Mesmo que tenha saído da escola anos atrás, Ulisses pensava que se lembrava de como estudar adequadamente.
— Obrigado, é… qual o seu nome?
— Oh! Sinto muito pela minha falta de educação, me chame de Borus.
— Certo…
— Preciso voltar ao trabalho, se precisar de ajuda com algo, por favor, me chame.
Borus se virou e começou a andar com seus passos tranquilos. Ulisses suspirou e olhou para a pequena pilha de livros em cima da mesa. Com mais um suspiro, o garoto apenas sentou na cadeira macia e se ajeitou. Por um momento, se sentiu estranho por não conseguir encostar os seus pés no chão. Isso o fazia lembrar que estava no corpo de uma criança, consequentemente o fazendo lembrar que mentalmente era um adulto.
— Haah… merda… — Ulisses passou as mãos pelos cabelos. — Às vezes esqueço que Ulisses tem nove anos.
Mentalmente, estava com idade igual à dos seus pais, talvez fosse até mais velho e isso não saia da sua mente. Se sentia até mal, de certa forma.
Olhando para as suas mãos pequenas, minúsculas em comparação às suas mãos antigas, sentiu como se aquele corpo não fosse seu. Seus olhos até viram um vislumbre das suas mãos grandes, mas logo balançou a cabeça para tirar esses pensamentos da sua mente. Precisava focar em outra coisa agora. Já havia colocado na mente que ainda estava se acostumando com o seu novo corpo.
— Vamos, temos coisas para fazer…
Respirando fundo, Ulisses pegou o primeiro livro, de capa verde, com detalhes em amarelo, e no meio estava o desenho de uma árvore. Magia e natureza, era isso que estava escrito no título. Parecia ser um livro normal, então apenas o abriu e começou a ler as primeiras páginas com atenção aos mínimos detalhes, tomando cuidado para que nada saísse do seu entendimento.
Estava determinado a expandir os seus conhecimentos o máximo possível. Saber o que iria acontecer no futuro seria uma coisa, mas entender como aquele mundo funcionava seria outra, e Ulisses não queria ser pego desprevenido. Na sua vida passava, odiava ser pego de surpresa, mas dessa vez seria diferente. Queria aprender tudo que conseguisse para não ser tão idiota no futuro, e iria garantir isso.

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