Com certeza tinha muitas coisas para se pensar. Após a longa leitura na biblioteca, o tempo foi algo que Ulisses não viu passar; quando deu por si, uma empregada já estava o chamando para o jantar. Porém, não quis levar o assunto de Isclaris para a refeição e, no final, o dia passou e Ulisses não foi chamado para conversar. Agora que os seus pais deixaram que ele fosse com Gray e, ao mesmo tempo, lhe deram uma opção para se livrar desse caminho, Ulisses ficava impaciente por Haru demorar um pouco para lhe chamar e conversar os detalhes sobre o assunto.

    De qualquer jeito, como provavelmente iria ficar fora de casa por muitos dias (ou até mesmo anos, não sabia ao certo e até tinha um pouco de medo), desde que recebeu a notícia, seu corpo ficava ansioso com a possibilidade de estar no Abate de Sangue apenas ao pensar no assunto. Poderia morrer, mas iria confiar em Haru, mesmo que estivesse receoso com isso.

    Porém, mesmo com tudo o que estava acontecendo, Ulisses ainda precisava dar atenção para às suas responsabilidades. As responsabilidades de uma boa etiqueta, diziam que todos devem ter boas habilidades de dança e, na mente de Ulisses, isso só o fazia ter dores nas pernas, como se fosse uma tortura gratuita e chique dos nobres. Porém, nada se comparava à tamanha humilhação que estava sendo colocado pela sua instrutora.

    Só de olhar para o boneco de madeira com um vestido amarelo lhe fazia se sentir humilhado por completo. “Sério que Ulisses se submeteu a isso na novel?” pensou ele, indignado por aceitar fazer isso. Nem na sua vida passada passou pela sua cabeça esse tipo de situação; nunca pensou que iria aprender a dançar com um boneco de madeira de vestido.

    “Vamos lá, Eddie, aja como se já tivesse feito isso mais de uma vez”, pensou, engolindo em seco. Como a Madame Clarice Furiana disse “nessa sexta aula”, provavelmente Ulisses já estava sabendo ao menos um ou dois passos de dança, e Eddie, no corpo de Ulisses, não poderia se portar como alguém que estivesse nas suas primeiras aulas.

    — Tem certeza que preciso usar este boneco? — disse Ulisses finalmente, girando o boneco e, logo em seguida, segurando novamente na sua cintura — Sinto-me desconfortável.

    — Acredito que nenhuma dama iria querer ter os seus delicados pés sendo pisados pelo pequeno Sr. Urion — Clarice riu — e, quando você parar de pisar nos pés da boneca a cada três minutos, eu encontro uma jovem para você dançar.

    — Mas-

    — Olha a sua postura, Sr. Urion!

    Ulisses suspirou e fez com que os seus ombros ficassem mais retos, mas não pô  de deixar que o seu rosto mostrasse a sua indignação.

    — Como espera que uma Dama fique confortável com você a 1 km de distância?

    Ulisses revirou os olhos e fez com que a boneca ficasse mais próximo do seu corpo, estava realmente achando aquilo humilhante.

    — Pare de ser tão bruto, Sr. Urion — disse Clarice — uma dança deve ser leve e delicada em cada movimento, a sua leveza deve ser sentida e vista pelas pessoas que estão lhe assistindo.

    — Não diga… — disse Ulisses ironicamente — e o que a senhora observa na minha dança?

    — Apenas um mini brutamonte sem o menor cuidado numa dança!

    — Que animador… 

    — Pare de falar e se concentre! — ela cruzou os braços — Como eu disse-lhe, segure a cintura com confiança, mantenha postura, ao girar o corpo da sua parceira tenha certeza de olhar para ela, os seus pés precisam ser coordenados com mais cuidado.

    — Mas é um boneco… 

    — Neste momento, ela — Clarice deu ênfase no “ela” — é a sua parceira de dança.

    Ulisses não estava gostando nada das aulas de dança. Mesmo na sua vida anterior, nunca foi bom em danças e tão pouco queria aprender. Tinha aulas de dança a cada três dias e, quando soube disso, ficou bem preocupado, e Madame Furiana até comentou que ele havia regredido um pouco em relação à dança. Depois do primeiro dia, teve mais uma aula e, com o que estava a ter agora, estava na sua terceira aula. Provavelmente Ulisses teve mais algumas aulas antes que Eddie chegasse, mas ele não estava empenhado nas aulas de dança, pois, com os seus planos, estava a crer que todas essas danças não iriam lhe servir para muita coisa.

    — Os meus pés doem… 

    — Os pés de todos doem.

    — Estou tonto.

    — Quem deve estar tonto é essa boneca, é ela quem gira.

    — Eu estou-

    — Não reclame, Sr. Urion… 

    Ulisses suspirou e então ouviu a porta do salão abrindo e, por um momento, uma chama de esperança surgiu no seu rosto. Por cima dos ombros da boneca, olhou para ver quem era e então observou a empregada Briana entrando com uma bandeja. Ulisses nunca ficou tão feliz por ver alguém; a hora do lanche havia chegado e ele poderia parar de dançar com aquele boneco ridículo.

    — Parece que o horário do-

    — Lanche da tarde! — Ulisses interrompeu a madame — Finalmente!

    — Haha parece que alguém está com fome — disse Briana, indo na direção de uma mesa — eu trouxe alguns lanchinhos.

    — Com fome ou querendo parar com a dança? — disse Clarice — Essas crianças de hoje em dia… 

    — Suponho que as duas coisas — disse Ulisses, largando a boneca e correndo na direção de Briana — o cheiro desses lanches parece estar incrível!

    — Eu fiz com muito carinho — disse Briana, sorrindo — espero que goste.

    Clarice apenas suspirou e, olhando para a boneca em pé, ela fez um gesto com as mãos e então a boneca caiu no chão. Sabia que, com a chegada do lanche da tarde, tudo iria, com certeza, demorar um pouco.

    — Irmão!

    Todos olharam na direção da porta e então viram Ellie entrando, correndo na direção do seu irmão mais velho com um lindo sorriso no rosto, e ela parecia extremamente alegre. Logo atrás, estava Dominique, correndo para chegar perto de Ellie.

    Antes que Ulisses conseguisse falar algo, a sua irmã rapidamente o surpreendeu com um forte e lindo abraço. Ulisses deu um pequeno pássaro para trás, mas logo sorriu em resposta e abraçou a sua irmã também.

    — Ellie não pule no seu irmão desse jeito — disse Dominique — ele está ocupado. O Sr. Ulisses não gosta de distrações… 

    Ouvindo isso, Ulisses ficou bem surpreso. Pelo jeito que a babá da sua irmã disse, parecia que ele iria repreender muito Ellie por o interromper e iria a mandar embora só por ela ter entrado no salão e dado-lhe um abraço. Tudo isso só deixava o garoto mais preocupado, pois, até aquele momento, todos pareciam que ficavam bem surpresos pelo fato de ser amigável com a irmã ou não estar causando problemas. Às vezes, Ulisses parecia ser uma criança muito irritante e sem noção, mas isso seria impossível: ele sendo o segundo protagonista não iria ser assim… ao menos era isso que achava.

    — Está tudo bem — disse Ulisses — mas o que faz aqui, Ellie? Achei que estaria na sua aula de escrita.

    — Eu estava, mas acabei vindo para ver o meu irmão — ela afastou-se de Ulisses — disse que eu poderia vir te ver em qualquer momento… fiz errado, irmão?

    — O quê? Haha claro que não — Ulisses fez um pequeno carinho na cabeça da garotinha — adoro a sua companhia, Ellie, e Dama Clarice também, não é?

    Todos olharam para Clarice.

    — Quem não iria gostar da companhia da Srta. Ellie? — ela sorriu — Fique à vontade pequena.

    — Briana trouxe alguns lanches, coma um pouco deles — disse Ulisses — veja, parece que estão deliciosos!

    — Sim!

    Ellie pegou um dos lanches e começou a comer. A garota disse, com boca cheia, para Briana que os lanches estavam deliciosos; Dominique até repreendeu a garota, dizendo que tal atitude não fazia parte da etiqueta que ela estava aprendendo, e todos riram da pequena, que ficou chateada por ser repreendida.

    Enquanto todos estavam numa agradável conversa, a porta se abriu novamente e todos viram o mordomo entrar. Ulisses tentou esconder, mas parecia ter gostado muito daquela “visita”. Sabia que ele estava ali por um pedido do seu pai, pois George sempre vinha até ele, na maioria das vezes, vinha a pedido do pai; o único motivo que ele conseguia pensar para ele estar ali era para o chamar para uma conversa.

    Provavelmente será isso. Com tudo que acabou acontecendo, ficou surpreso por irem lhe chamar em tão pouco tempo, achava que seu pai ou a sua mãe iriam conversar com ele só no dia seguinte.

    — Pequeno Sr. Urion — disse o mordomo — o seu pai lhe chama para uma conversa.

    — Ah! Claro — disse Ulisses — eu já estou indo.

    — Mas eu acabei de chegar — disse Ellie — fique comigo.

    — Eu vou precisar conversar com o papai — ele sorriu para a irmã — e eu volto o mais rápido possível, eu prometo.

    Sem nem ao menos esperar uma resposta, Ulisses foi na direção do mordomo e, logo em seguida, o homem começou a levar o garoto para ver o pai no seu escritório. Sabia que o provável assunto se tratava de Gray, mas não sabia ao certo o que Haru iria falar para ele; talvez fosse mais detalhes da sua ida para o reino dos elfos? Estava realmente um pouco nervoso em relação a isso e, a cada momento que virava um corredo,r ficava mais nervoso ainda.

    ※※※※

    Quando o mordomo fechou a porta e Ulisses foi se sentar no sofá, o seu pai parou o que estava fazendo e foi até o seu filho. O clima não parecia muito ruim e Ulisses até começou a ficar mais tranquilo.

    — Creio que já saiba o motivo de eu ter lhe chamado para conversar.

    — Mais ou menos… — disse Ulisses — suponho que é para falar da minha ida para o reino de Isclaris.

    — Está certo — Haru sentou no sofá à frente de Ulisses, separado apenas por uma pequena mesa — vou dizer a você como as coisas vão ficar quando for para Isclaris.

    — Bem… entendo.

    — A sua educação como sucessor da família não vai diminuir, vai continuar fazendo todas as aulas. O treinamento elfo é diferente dos humanos, então vai precisar de esforço para se adaptar — “Esse treinamento diferente é bom ou ruim?” pensou ele, nada feliz, mas não queria que isso enchesse a sua mente de negatividade — tenho certeza que irá ficar muito forte… tenho orgulho de você, filho, está ficando maduro mais cedo do que o esperado.

    Ulisses não sabia que o seu pai poderia dizer tais palavras para ele. Na novel, toda a vez que Haru abria a boca para falar do seu filho, ele sempre dizia coisas duras, como “ele é uma vergonha”, “ele me envergonha todo o dia”, “ele vai levar o nome da família ao buraco”, e essas eram as coisas mais leves que ele falava. E como agora estará convivendo com o pai de Ulisses, poderia dizer que Haru era um pai bem… legal. Mesmo que ele tenha aceitado que Gray o levasse para a capital para pagar aquele contrato, no mesmo instante Haru encontrou uma solução para se livrar dele. Ulisses estava achando que isso era a forma do seu pai estar dizendo que ele se importava.

    — Obrigado… — Ulisses sorriu — pai… 

    Haru sorriu e continuou a dizer:

    — Como vai começar a se tornar um guerreiro, tenha em mente que vai ter muitas responsabilidades nas suas mãos.

    — Entendo.

    — Provavelmente a sua irmã vai ficar muito triste, então faça companhia para ela o máximo que puder. Mulheres tendem a ser muito frágeis quando alguém que amam vai embora.

    — Bem, então vou tentar ao máximo ficar com ela no tempo que me resta.

    “Ela vai ver, vou fazer de tudo para voltar em pouco tempo!” pensou Ulisses.

    — A sua mãe está triste, porque vai embora, mas ela entende que é para um bem maior e está muito feliz com isso.

    “Eduina, fique tranquila, porque vou fazer de tudo para ficar forte e conseguir voltar o mais rápido possível.” Ulisses com certeza estava mais que decidido.

    — Não vou conseguir treinar o meu filho, mas, quando voltar, lute comigo!

    As palavras do seu pai pegaram-lhe bem desprevenido. Isso o deixou surpreso, mas isso também o motivou um pouco.

    — Sim! E pode escrever, pai, eu vou vencer você! — disse Ulisses, sorrindo como se já tivesse vencido a luta — Quem sabe posso até lhe superar.

    — Vamos com calma, filho — Haru cruzou os braços e sorriu — mesmo que treine duro, vai ser difícil me superar!

    — Pode ser, mas ainda digo que vou conseguir de um jeito ou de outro.

    — Isso que eu chamo de auto confiança, gostei!

    — Sim, de qualquer forma — Ulisses se levantou do sofá — se me der licença, preciso voltar para minha aula de dança, aquela boneca não vai dançar sem mim.

    — A famosa boneca de dança… os meus pêsames.

    — Que engraçado… — O garoto revirou os olhos.

    Ulisses saiu do escritório do seu pai e respirou fundo. O seu pai parecia estar aliviado, já que o seu filho estava indo se fortalecer para ter o direito de rasgar aquele contrato, e, mais do que tudo, Ulisses não queria decepcionar Haru.

    “Esse é o sentimento de ter um apoio?” Um pequeno sorriso apareceu no canto dos lábios de Ulisses. Na sua vida passada, ninguém nunca o apoiou em nada, e toda aquela coragem que Haru estava lhe dando, poderia dizer que estava se tornando uma energia que nem sabia existir. Era novo e bom.

    Se ficasse na capital, com certeza em algum momento iria encontrar a protagonista da história e tinha medo que, no momento que isso acontecesse, a história faria com que o seu destino fosse acertado. Só de lembrar daquele final horrível fazia com que Ulisses revirasse os olhos.

    Como conhecia a novel, Ulisses poderia usar isso muito bem a seu favor. Bastava usar o que estava nas suas mãos com sabedoria.

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