Capítulo 347: Separação (1)
— Cale-nim, você acha que o caminho para a Ilha do Vento será difícil? É realmente necessário que só uma pessoa vá?
Choi Han perguntou calmamente enquanto Raon acrescentava animadamente na mente de Cale.
{Isso mesmo! Sou invisível, então posso ir! Não há lugar onde um grande e poderoso Dragão não possa ir!}
Cale suspirou e olhou silenciosamente para Choi Han.
Cale não sabia de nada que aconteceu depois do volume 5 de O Nascimento de um Herói.
O que Choi Han teria feito depois do volume 5?
“Bastardo azarado.”
Cale achava que Choi Han tinha mais azar do que ele.
Ele viveu feliz por dezessete anos antes de ser jogado na Floresta das Trevas e viver uma vida terrível que fazia você se perguntar se havia algo pior que pudesse acontecer a uma pessoa.
Então, seu segundo lar, Vila Harris, foi destruído e seu povo massacrado.
Depois disso, ele fez muitas coisas boas para o bem maior, para se fortalecer. O sangue sempre seguiu esse caminho de crescimento como se fosse uma parte óbvia do crescimento.
— …Cale-nim?
— Bastardo azarado.
Choi Han, que olhava para Cale com preocupação, fechou a boca após ouvir o comentário de Cale.
{Humano! Choi Han está perplexo ao olhar para você agora! Eu me sinto da mesma forma! Quem é que está chamando quem de azarado?}
Cale simplesmente ignorou o comentário do menino de seis anos.
Em vez disso, ele escolheu se concentrar na voz do Super Rocha em sua mente.
{Seu bastardo azarado.}
“…É estranhamente desconfortável ouvir isso do Super Rocha também.”
— O que há de tão azarado em mim?
Cale começou a resmungar. Ele tinha uma carranca no rosto.
— Sou o filho mais velho de um conde, sou rico, sou forte o suficiente para não ser espancado até a morte em lugar nenhum, bem, estou um pouco ocupado, mas… E esse negócio está me tornando famoso – merda.
Cale decidiu não reclamar mais.
Só de falar sobre isso ele já ficava irritado.
{Huuu, que fofo.}
Ele ignorou o comentário do Super Rocha.
Ele também ignorou os olhares de pena do grupo que balançava a cabeça para ele. Isso o levou a olhar para o Rei Mercenário.
— Você é mesmo meu amigo. Sinto como se tivesse encontrado o amigo da minha alma!
“O que há de errado com esse bastardo?”
Cale podia ver Bud Illis agarrando sua mão.
— Eu sou igual! Sou o Rei Mercenário! Sou o chefe da Guilda dos Mercenários! Também sou rico. E forte. Mas dá muito trabalho. E minha vida está em jogo com esse trabalho. Merda!
— …Haaaa.
Cale deu uma batida na mão de Bud Illis antes de decidir apenas olhar para o oceano enevoado.
Essa foi a coisa mais relaxante a fazer.
Entretanto, quando ele conseguiu ver uma ilha através da neblina… quando eles se aproximaram o suficiente para que ele visse o porto…
Cale estranhamente começou a franzir a testa.
— Essa é a ilha da minha cidade natal!
Ele podia ver uma grande ilha.
Mas esse não era o problema.
{Humano! Humano! Sinto cheiro de álcool!}
— É o cheiro do álcool!
— Cheira muito a álcool!
On e Hong, que o Rei Mercenário já havia descoberto que eram Gatos, assim como Raon, as três crianças com idade média de nove anos, fizeram uma careta e comentaram sobre o cheiro vindo do porto.
Cale observou a proa do navio chegar ao porto enquanto alertava as crianças, que tinham em média nove anos de idade.
— Pergunte ao Beacrox antes de beber qualquer coisa aqui.
Beacrox assentiu estoicamente. Os gatinhos também assentiram.
Cale então deu às crianças, com idade média de nove anos, uma moeda de ouro extra como mesada antes de desembarcar do navio.
{Humano! Você é mesmo uma boa pessoa! Você deu mais dinheiro do que a nossa mesada!}
— Vamos todos comer juntos!
— Sinto cheiro de comida deliciosa!
Cale se aproximou de Choi Han, que olhava calorosamente para os animados On e Hong, e perguntou.
— Quanto você precisa?
— Com licença?
Cale entregou uma bolsa com dez moedas de ouro.
“Bastardo azarado. Tenho que pelo menos alimentá-lo com muita comida gostosa.”
Parece que ele perdeu muito peso, então hora de engordá-lo novamente.
— Isto é para você.
Choi Han tinha uma expressão chocada no rosto, mas Cale, que havia se virado e estava caminhando com On e Hong nos braços, não conseguia ver a expressão.
Entretanto, a expressão de satisfação no rosto de Cale lentamente começou a ficar estranha.
— Ah! Amigo, você voltou? O melhor bebedeiro voltou!
— Nossa, Bud, quando você voltou? Seu pai não disse nada sobre você voltar.
Os ilhéus estavam recebendo calorosamente Bud, que caminhava em direção ao topo da ilha.
— Glenn, quanto tempo não te vejo. Você está bem?
Glenn Poeff. As pessoas também estavam acolhendo o mago ao lado de Bud.
O mago de cabelos roxos fez contato visual com Cale. Ele então imediatamente começou a falar.
— Bud é o estranho.
— …Eu entendo.
Cale assentiu com a cabeça.
O mago Glenn Poeff continuou falando.
— Fazer álcool exige muito foco e esforço.
Cale ouviu Glenn enquanto observava as pessoas se aglomerando ao redor de Bud.
Nenhuma das pessoas que sorriam para Cale e seu grupo, que eram estrangeiros, parecia bêbada.
Cale também conseguia ver os prédios ao redor enquanto se dirigiam para a montanha na ilha. Ele podia ver que todos estavam preparando bebidas alcoólicas.
As pessoas desta ilha pareciam ser trabalhadoras e felizes.
— O ambiente, a umidade, a temperatura e a ventilação para fermentar e amadurecer diferentes tipos de grãos ou frutas. Tudo isso precisa acontecer sem problemas.
Cale assentiu com uma expressão satisfeita após ouvir a explicação completa de Glenn Poeff.
O cheiro de álcool vinha de todos os lugares e definitivamente havia pessoas que pareciam feder a álcool. No entanto, todas eram pessoas que estavam trabalhando na produção do álcool.
Glenn continuou a falar.
— Álcool é arte.
“Hum?”
Cale virou a cabeça depois de sentir que algo estava estranho.
— É lindo e artístico, como magia. Até mesmo o álcool enchido por uma mesma pessoa terá um sabor diferente dependendo da data, hora e temperatura presentes quando ela encheu a garrafa. Não é lindo?
Glenn parecia estar ficando animado aos poucos.
— O álcool é semelhante à vida. É arte, ARTE! É por isso que precisamos tratá-lo como algo precioso e valorizá-lo!
— Uhuuuu!
Os ilhéus começaram a aplaudir.
— Nosso Glenn sempre tem pensamentos tão lindos.
— Pessoas inteligentes também são ótimas com as palavras! Sim, álcool é arte mesmo!
{Ahhh, álcool é arte? Que incrível, humano!}
— Miauuu.
— Miau.
As crianças, com idade média de nove anos, se concentraram na conversa entre os ilhéus.
Cale começou a andar rapidamente e se aproximou de Bud antes de sussurrar atrás dele.
— Ei.
— Hum?
— Apresse-se e me leve lá.
Bud inconscientemente assentiu com a cabeça diante do tom forte de Cale e rapidamente começou a andar.
Bud caminhou lentamente em direção ao pico da montanha na ilha.
Esta montanha, com um caminho surpreendentemente suave, era quase tão fácil de escalar quanto uma colina. Claro, não teria feito diferença, pois Cale simplesmente usou o Som do Vento para subir com facilidade.
— Isso é estranho.
O cheiro de álcool estava desaparecendo à medida que Cale subia a montanha.
Entretanto, Cale sentiu que havia algo estranho.
*Swoooooooooosh-* *Swoooooooosh-*
Ele conseguia ouvir o som do vento quanto mais alto subia.
Rajadas de vento cada vez mais fortes enchiam os ouvidos de Cale enquanto ele se movia.
E finalmente, quando chegou ao pico e olhou para o outro lado da ilha…
— Lá.
Bud apontou para um ponto além do oceano enevoado.
A expressão de Cale ficou rígida.
{Humano! Isso parece muito perigoso! Não vá!}
Ele podia ouvir a voz preocupada de Raon.
*Swoooooooooosh-* *Swoooooooosh-*
No meio do oceano enevoado, ele conseguia ver a ilha que conseguia afastar até mesmo a névoa para se revelar.
Não havia nada que pudesse ser feito.
*Swooooooosh-*
Vento.
Os redemoinhos vindos de várias direções, esses ventos em forma de lâminas, rugiam e cercavam a ilha.
Honestamente falando, Cale não conseguia nem ver a ilha em si.
Ele só conseguia dizer que a ilha estava lá com base nos milhares, não, dezenas de milhares de lâminas de vento e redemoinhos que batiam uns contra os outros.
— Cale-nim.
Choi Han se aproximou de Cale com uma expressão séria no rosto.
“…Não parece nada artificial.”
Essa foi a razão da expressão séria no rosto de Choi Han.
Não era aura nem mana. As coisas naquela ilha eram ventos naturais.
Aquele vento rugia como um desastre natural.
As Três Áreas Restritas. Este lugar era apropriado para ser uma das três áreas.
O Dragão Ancestral Eruhaben se aproximou de Cale.
— Faz tempo que não venho aqui.
Ele se virou para Cale e continuou a falar calmamente.
— Você não precisa ir lá.
No entanto, eles puderam ouvir a voz relaxada de Cale respondendo.
— Preciso ir.
Ele pareceu confiante em sua resposta.
O Super Rocha comentou naquele momento.
{Vamos seguir esse caminho difícil.}
{Um caminho onde você não precisa sacrificar a si mesmo ou aos outros. No entanto, será doloroso e difícil para o seu corpo. Você pode se machucar.}
{Mas pelo menos sua mente poderá ficar tranquila.}
Cale começou a falar.
Um caminho onde sua mente poderá ficar tranquila.
— Esse é o caminho fácil.
***
— Você precisa ir sozinho daqui.
Cale estava de pé no convés.
Ele estava estremecendo porque era difícil manter os olhos abertos por causa do vento forte.
Ilha do Vento.
O vento da ilha estava causando ondas fortes, tentando empurrar o navio para longe.
— Eu quero ir com você!
— Eu também!
{O mesmo comigo!}
As crianças, com idade média de nove anos, esbarraram no corpo de Cale.
O mago Glenn Poeff cruzou os braços quando começou a falar.
— Isso é difícil. Aquela ilha só mostra o artefato ancestral para uma pessoa com o atributo vento por vez.
Bud Illis apontou para uma área na ilha que era difícil de ver por causa do vento.
— Aquela é a entrada.
Ele então continuou com uma expressão preocupada no rosto.
— Você se lembra do que eu disse ontem à noite?
Ontem a noite.
Bud Illis contou a Cale como ele conseguiu sair vivo da Ilha do Vento.
Cale lembrou-se do que Bud lhe disse.
— Há um templo no ponto mais profundo da Ilha do Vento. Há um altar com um jarro sobre ele.
— Aquele jarro se enche de um líquido quando você o entrega a uma pessoa ferida ou moribunda. Beber o líquido a curará.
O artefato ancestral em forma de jarra.
— No entanto, esse jarro parece ter um limite, ou talvez seja apenas antigo, mas ele racha toda vez que é usado. Imagino que este artefato ancestral tenha um uso limitado.
O jarro acabaria rachando até o ponto de quebrar.
— Com base na história deixada pela minha família, o jarro foi usado três vezes até agora.
— Você também deve devolver o jarro ao altar dentro de uma semana.
Cale se virou para olhar para Bud.
Ilha do Vento.
A família de Bud chegou àquela ilha em algum momento e criou a primeira cervejaria, mantendo-a em funcionamento até hoje.
— As pessoas da minha família herdam o atributo do vento, o poder ancestral, a cada duas gerações.
Bud tinha um sorriso amargo no rosto quando disse isso.
— Eu sou o guardião da Ilha do Vento.
— Essa foi a vontade do meu ancestral que se estabeleceu nesta ilha. No entanto, nosso ancestral não nos deixou a razão pela qual temos que ser os guardiões da Ilha do Vento. Mas…
Cale nunca tinha visto Bud com uma expressão tão séria no rosto no pouco tempo em que o conhecia.
— Mas ele disse que precisávamos garantir que o artefato ancestral não caísse nas mãos de alguém maligno. Ele disse para destruí-lo caso parecesse que alguém maligno o levaria.
Cale terminou de pensar nas coisas que Bud lhe disse na noite anterior antes de olhar para onde Bud estava apontando.
O Rei Mercenário colocou um sinalizador na mão de Cale, caso ele precisasse dele em uma emergência.
— Dispare o sinalizador se achar que não consegue. Você sempre pode chegar ao artefato ancestral da próxima vez. Você deve conseguir sair em três dias, mesmo que demore um pouco.
Três dias.
Bud disse que três dias eram tempo suficiente para entrar e sair.
Cale assentiu lentamente com a cabeça.
— Jovem mestre-nim.
Cale se encolheu. Ron olhou para as roupas de Cale antes de continuar a falar.
— Por favor, use a comida e os materiais da bolsa espacial conforme necessário. Você sabe o que tem dentro, certo?
— Sim, sim. Eu sei muito bem. Eu sei tudo o que você acabou de me dizer, Ron.
Cale rapidamente assentiu com a cabeça.
{Humano! Lance o sinalizador se precisar de ajuda! Eu vou destruir a ilha!}
Ele podia ouvir os sussurros do cruel Dragão.
— Cale-nim, estarei esperando aqui fora da ilha.
“…Não há necessidade de esperar no navio.”
Cale fingiu não ouvir o comentário de Choi Han.
— Cale.
— Eu prolongarei sua vida por você.
Cale interrompeu Eruhaben rapidamente antes de saltar do convés e voar para o alto. Ele se virou para o grupo e acenou.
— Eu voltarei.
*Swooooooosh-*
Era um ruído silencioso comparado aos ventos da Ilha do Vento, no entanto, o Som do Vento começou a envolver o corpo de Cale.
Ele então disparou em direção à ilha como uma flecha.
*Swoooosh-* *Swoooosh-*
O manto de Cale e suas roupas por baixo estavam esvoaçando.
No entanto, ele voou em direção ao local que Bud havia apontado sem qualquer hesitação.
“Fazia tempo que não ia a um lugar sozinho.”
Ele não se moveu sozinho desde que ganhou o Escudo Indestrutível.
{Vai ser perigoso.}
{Tome cuidado.}
Cale começou a sorrir.
Ele podia ouvir as vozes dos donos dos poderes ancestrais.
“Acho que não estou completamente sozinho.”
Ele ainda tinha as vozes em sua mente.
*Swoooooooooosh-* *Swoooooooosh-*
Ele pôde ver dois grandes redemoinhos colidindo um contra o outro quando chegou ao ponto que o Rei Mercenário havia apontado.
*Shaaaaaaaaaaaa-*
No entanto, Cale conseguia ver uma pequena distância entre eles.
{Cale Henituse, siga o caminho que eu lhe disser. É a única maneira de não ser cortado pelas lâminas de vento.}
Cale pensou no caminho no mapa que o Rei Mercenário lhe entregou antes de avançar em direção àquela pequena abertura.
Cale podia ouvir a voz da ladra, a dona do Som do Vento naquele momento.
{Eu era uma pessoa comum.}
A voz rouca estava cheia de tristeza.
{No entanto, quando minha família morreu e nossa casa foi destruída…}
Essa tristeza lentamente se transformou em raiva.
{Então me tornei uma ladra. Acabei me tornando a maior ladra do continente ocidental.}
{Foi porque roubei um artefato ancestral de um templo.}
*Swooooooosh-*
Cale conseguia ver a ilha enquanto atravessava a abertura entre os dois redemoinhos.
Ilha do Vento, uma das Três Áreas Restritas.
— Não há vida na Ilha do Vento.
Foi isso que o Rei Mercenário lhe disse.
— Isso ocorre porque só há terra e pedras envenenadas por mana morta.
Cale podia ver a ilha negra.
A ladra continuou falando.
{Eu era uma pessoa comum, mas sabia lidar com o vento e tinha outro poder único.}
Os poderes que ela tinha no passado.
O Som do Vento.
Consistia em vento e som.
{Eu podia ouvir o som do vento.}
O som que o vento fazia.
{Eu podia ouvir as vozes dos Elementais do Vento.}
Os elementais eram seres naturais considerados os mais próximos da natureza.
Ela não era uma Elfa nem uma Elementalista, de modo que pudesse fazer um contrato com um Elemental, entretanto, a ladra conseguia ouvir as vozes dos Elementais do Vento.
Ela não conseguia vê-los nem senti-los, mas bastava ouvi-los.
{De qualquer forma, desde o começo eu não podia enxergar. Eu só precisava do som.}
A maior ladra dos tempos ancestrais era cega. No entanto, ela podia sentir e ouvir tudo.
{Encontre o chicote do meu pião.}
{Ele lhe trará vários aliados fortes, além de amigáveis e astutos, porém temperamentais.}
A mulher de voz rouca falou gentilmente com Cale.
{Gostei da sua decisão. Vamos caminhar com calma pelo caminho difícil. Eu estarei com você.}
Cale começou a sorrir enquanto olhava para a ilha negra.
***
Uma semana depois, Cale ainda não havia saído da ilha.

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