O Lorde do Abismo
Mais uma noite. A cadeira range sob meu corpo curvado, braços sobre a escrivaninha, a testa quase tocando o caderno onde uma equação tenta, em vão, fazer sentido. Cálculo diferencial. Uma daquelas expressões que soam como feitiço de outra língua e talvez sejam. Já perdi a conta, mas, somando as outras noites, lá se vão seis, sete horas, uma semana inteira tentando ser… normal.
Mas não dá. A cada linha, vejo tinta escorrer pelas palavras, não como um erro, mas como se as letras derretessem em cor. O cheiro do papel me leva para outro lugar, um mundo onde as cores falam comigo, onde tons dançam, se abraçam, gritam. Um mundo onde eu pertenço.
Mas não. Tenho que focar. Tenho que me libertar disso. Quero que meus pais me vejam. Que, por um momento sequer, olhem para mim e enxerguem algo além do cordão pendurado no pescoço. Além do “ah, ele tem autismo”. Quero ser o filho que eles sonharam. O médico exemplar. O orgulho estampado em jaleco branco.
Talvez… Só talvez meu hiperfoco mude. E me torne um prodígio como Shaun Murphy, ou ao menos brilhante como a Woo Young-woo.
Mas isso é ilusão, não é? Bisturis me dão calafrios. O cheiro de hospital me embrulha. E essas contas… não fazem sentido. Nunca fizeram.
Quero pintar. Quero derramar em tela um emaranhado de círculos imperfeitos, uns sobre os outros, mas sem jamais se tocarem. Como se desenhados por uma mão trêmula demais para ser firme — a minha — e ainda assim, precisa demais para ser aleatória. Azul sobre cinza. Cinza sobre vermelho. E ao centro… uma espiral. Minha atriz favorita.
Não perfeita, não bela. Trêmula como uma corda à beira de estourar. Dela, escorreram linhas negras, finas como rachaduras em porcelana, deslizando até a borda da tela. Como se quisessem fugir do próprio centro. Não há rostos. Nem corpos. Não há ninguém.
Nunca há. Ninguém aparece nos meus devaneios porque ninguém permanece em mim por tempo suficiente para merecer ser sonhado. Sem céu. Sem chão. Só ritmo. Só descompasso. Só o desconforto coreografado.
E, de novo… me perdi. Solto um suspiro. Me encaro no reflexo do celular.
Sério? Sete horas. Sete. E tudo o que fiz foi imaginar quadros que nem posso pintar. Que nunca poderei pintar. Porque querer viver de arte sendo… isso que eu sou? Um garoto autista. É querer demais. Errado. Imperdoável. Quem sou eu pra sonhar?
Desisto. Me encosto, encaro o teto.
E então… Zzzzzzzzzzzzzz.
Um zumbido. Não vem de cima. Nem de baixo. Vem de… trás?
— Pensando em quadros de novo?
Viro o rosto. Meus olhos congelam.
Na moldura da janela, como quem se senta num banco de praça, está um homem. Ou algo assim.
Terno lilás, antigo, estranho — com olhos bordados por toda a costura, ou seriam desenhados? Não sei. Cada um me encara. Caio da cadeira com um baque.
Sinto a dor rasgar minhas pernas quando atinjo o chão. O lápis estoura sob meu peso com um estalo. Papéis se lançam ao ar como folhas assustadas, girando em pânico ao meu redor uma pequena tempestade de fracasso e constrangimento.
— Q-quem é você?
Merda. Gaguejei. E se for um bandido? Já falhei na primeira impressão. O homem sorri. É sereno. Perturbadoramente calmo.
— Eu? Tenho muitos nomes. Vazio. Fim. Abismo. Nada… Mas pode me chamar de Null.
Sua voz é doce. Como fruta madura até demais, quase apodrecendo. Ele pisa no chão com sapatos antigos, de um velhote excêntrico talvez. Carrega um chapéu que o faz parecer um mágico de circo.
E aqueles olhos… púrpura. Profundos. Quase absurdos. Lentes, tem que ser.
— Null? Tá. E o que tá fazendo aqui?
Me recosto contra o armário, tenso. Ele se acomoda na minha cama, cruzando as pernas com elegância teatral.
Com toda a certeza, ele estava encarnando um personagem. E eu apenas espero que isso não seja fruto de uma mente doente.
— Ora… Vim visitar você, Akira. Ou vai me dizer que agora ficou tímido em me mostrar o quarto?
— Como é que você sabe meu nome?
— Isso não importa. Já estivemos a sós tantas vezes… Você só não lembra. Você já me mostrou o que há de mais íntimo. Afinal… Eu sou o ponto zero de qualquer coisa.
— Você fala como se fosse…
— Um deus?
— Não. Um lunático.
Ele ri.
— Isso eu sou. É preciso ser louco pra ser o que eu sou — E então já está atrás de mim. Como? Frio. Sua mão toca meu ombro — Eu sou o fim de tudo. Inclusive… desta narrativa — Seus lábios secos sussurram.
— Você é maluco! Do que tá falando? Narrativa? Fim? Vai me matar?
Me arrasto para trás. Como um inseto. Como um nada.
E, ainda assim, ele parece… real. Real demais.
Será que somos mesmo da mesma espécie?
— Só falar não vai bastar, não é? Melhor mostrar! — sua voz desliza.
Das costas, retira uma bengala.
Vitoriana. Madeira escura. A ponta, de ouro, moldada com delicadeza e esculpida.
Pois do centro, um olho me encara.
Tentáculos sinuosos envolvem o cabo, como se o segurassem.
— Akira… Você está cansado de ser um fardo, não está? Se sente como um nada. Nem ousa pensar em seus próprios sonhos. Não tem amigos. Apenas existe. Porque, no fim, incomodar também é uma forma de existir.
As palavras doem. Cada sílaba uma lâmina.
Ele sabe.
Sabe tudo de mim.
Será uma alucinação? Ou finalmente enlouqueci de vez?
— Mas… e se você pudesse mudar isso?
Só pode ser uma!
ᨖ
Mudar?
Como se uma alucinação fosse mudar alguma coisa na minha vida… além de me tornar ainda mais esquisito do que já sou.
— Do que você tá falando?
A coragem me escapa.
Sou como um quadro, revelo mais do que quero, e menos do que consigo dizer.
Ah… quadros… Droga.
— Você sabe. Sua miserável existência! — esticou a bengala em minha direção, a ponta na altura do meu ombro.
Sua postura me lembrava uma daquelas figuras dos Fechtbücher, os antigos manuais de combate. Mas nada ali era técnico. Era quase uma afronta. Nunca imaginei um homem com aquelas roupas em tamanha… ousadia.
Droga!
Se isso fosse uma pintura, reescreveria o fato, pintaria outra realidade sobreposta.
Droga… De novo falando deles.
— E-existência? Miserável?
É… me perdi na linha do diálogo. De novo. Tantos devaneios que nem sei se estou pensando ou falando.
— Não vou repetir. Garoto… você já entendeu a ideia! — lançou um olhar para sua companheira — Pegue. Vamos!
Quase ri. Aquela bengala parecia mais íntima dele do que qualquer pessoa já foi de mim.
— Tá… — estendi a mão, hesitante.
Mas, no instante em que toquei, algo mudou.
Me senti leve. Leve como uma pena, como se a gravidade tivesse esquecido de mim.
Ele não fez força alguma. Não arfou. Nem sequer moveu um músculo.
E ainda assim, no momento em que a segurei, precisei cravar os pés no chão.
Senti meus ombros queimarem, os músculos gritarem — por um instante, jurei que seria arremessado contra o teto, esmagado por uma força que não era minha.
Ia virar uma pintura. Talvez alguém a encontrasse… daqui a semanas, talvez meses.
Se não fizesse som, então nem existia. Né?… Ehr, lá vamos nós de novo. Pinturas. Sempre elas.
— Você é… forte.
Escapou. Involuntário, leve demais pra carregar surpresa.
Por um segundo, quase pareceu… normal. Já nem me lembrava do que tinha me atravessado antes.
O hiperfoco me salva. E me condena.
— Forte? — riu, com um brilho debochado nos olhos. Sua risada era singela, quase forçada — Esse conceito é limitado demais pra mim. Não é como se as coisas pudessem impor seu peso… ou medir força comigo. Estou além das amarras. As regras da realidade não se aplicam a mim.
— Como assim?
— Você entenderá. Em breve. Por agora… falemos do nosso contrato. Como bons cavalheiros que somos!
— Hã…? — quando percebi, já estávamos frente a frente.
Próximos demais. Incômodo demais. E o mais estranho… nada. Nenhum cheiro. Nenhum traço no ar.
Se não fosse pela voz ou pela certeza inquietante de que eu estava o vendo, ele nem existiria.
Me senti como ele.
E isso… estava errado. Errado de um jeito que doía, mas ainda assim, familiar. Como se eu finalmente tivesse encontrado um reflexo… torto, sim, mas meu.
— Que foi?
— Você… não tem cheiro.
— Nem gosto! — riu, como se a frase fosse uma piada interna. Só dele.
Desviei o olhar instintivamente. Não consigo encarar as pessoas nos olhos. É automático. É meu.
Olho para baixo.
Meus pés… calçados.
Sapatos pretos. Engraçados.
Polidos como os de um mafioso de filme antigo.
Quando? Como…?
Esse sonho já está mais caótico que meus devaneios. Digno de O Manicômio. Um dos meus quadros favoritos…
Irônico pensar que já foram depósitos para pessoas como eu.
— O que você é?
— Já disse, não disse? — tirando o chapéu com elegância, exagerada até demais.
E uma ventania me atingiu.
Fria. Quase cortante.
Foi só então que percebi: eu também vestia um terno. Chapéu. Como o dele. Mas preto, discreto. Eu diria que é como eu, se eu fosse requintado como estas vestes.
— Sou o fim de tudo. O vazio. A ausência. O abismo — ele fez uma leve reverência — E preciso de algo seu. Assim como você… precisa de mim!
— Caramba… — segurei firme na cadeira, o coração descompassado.
Senti isso ser tão real. Meu coração não suportaria se fosse. Eu deveria me jogar da janela ou sei lá… se houvesse algo afiado… minha caneta, eu deveria tentar acordar!
— Do que… exatamente precisa de mim e eu de você?
— Se eu soubesse já teria arrancado, não? — confesso que quase ri, mas era impossível rir diante desse pesadelo — E você… não pode querer as respostas todas dadas à boca, não?
— Então como vou aceitar?
— É um tiro no escuro! Como todos os grandes passos dos humanos!
E lá estava de novo… aquele sorriso que não pedia confiança. Largo demais. Vivo demais. Quase maligno. Perverso. Incômodo como som metálico arranhando o vidro.
Minha garganta secou.
Eu devia?
Não sou como os outros. Sou… menos. Menos capaz. E se eu errar…?
— Errar é humano! — rebateu, como se tivesse ouvido meus pensamentos — Se você se sente tão distinto dos demais… então errar te aproxima deles, não acha?
É um sonho. Tem que ser. E em sonhos… tudo pode acontecer, certo?
— Mas eu só erro… nunca acerto! — minha voz saiu embargada, quase infantil.
Fique calmo. Calmo! repeti para mim mesmo, como um mantra.
— E quem disse? — segurou minha mão com força repentina, firme demais para ser só encenação.
Mão contra mão. A dele era quente. Real.
Estranhamente real.
— Você dá ouvidos demais às vozes erradas. Vozes que nunca te entenderam. Quem, além de você, pode medir seus próprios limites?
— N-ninguém…
— Exato!
Seus olhos brilharam, púrpura como o fim de um eclipse. Como um sol que, por trás, projetava luz contra mim. Ou seria só meu subconsciente injetando autoestima antes da próxima queda? Uma falsa alvorada antes da depressão?
— Então seja um bom garoto. Pela primeira vez… pense em si.
Aceite o extraordinário.
Aceite a mim.
Seja meu… minha chave para a resposta.
E eu serei… a chave para a sua.
— E eu… — tentei. Procurei uma saída. Uma fresta. Um ruído qualquer pra me esconder dentro dele.
Auto sabotagem… é normal, né?
Mas a voz falhou. Não me deu tempo.
— Temos um acordo?
E antes que eu dissesse não, ou sim, ou qualquer coisa entre os dois…
Avançou. Íntimo.
Agora ou nunca.
Se for só um sonho…
Então que amanhã eu não seja covarde o bastante pra não fazer nada enquanto estou acordado.
ᨖ
— Sim.
A palavra escorreu.
De peito aberto… ou medo demais pra conter o que ficou preso na garganta, espremido, sufocado.
Se alguém me pintasse agora, seria perfeito. Modelo exato para um quadro de Edvard Munch.
Um miserável.
Vítima do próprio desespero, da ansiedade. Minhas mãos até perderam a força.
E, pro meu desgosto… ele ficou em silêncio.
Como se eu não tivesse dito nada.
Não disse mais nada.
Só se virou.
Girou a bengala entre os dedos como quem brinca com um lápis… distraído demais pra parecer uma ameaça.
E então… me lançou um olhar de canto.
Nele, havia algo… uma malícia, quase charme.
Foi o único instante em que meus olhos tocaram os dele sem serem só relance.
E, por um segundo, desejei não ter olhado.
Será que aceitei o pacto do diabo?
Será que esse sonho tá acabando?
Não sei.
Mas a falta de ar começa a tomar conta.
Asfixia.
Dizem que é assim que um sonho termina.
— Sabe, Akira… — murmurou. E, confesso… um arrepio me percorreu, leve, como sopro atrás da nuca — Todas as coisas… são dádivas de um Criador. Eu o chamo de Ehamacht. Ele é perfeito. Até de mim… teve orgulho em criar. Assim como teve ao criar você. Quando acordar… Não esquece, tá? Você e eu… agora somos um só.
— Tá… — foi tudo o que consegui dizer.
Baixo. Quase inaudível.
O que isso significava?
Por um instante… vi A Criação de Adão.
E juro — me senti tocado.
Como se aquela presença, mesmo vindo do nada, tivesse me alcançado.
Me fez… me sentir vivo.
Mesmo que fosse só isso, uma projeção.
Um reflexo distorcido do meu próprio subconsciente tentando me abraçar.
Ele subiu pela moldura da janela, e o rangido da madeira soou.
Foi então que reparei na sola do sapato, uma caveira à direita… uma borboleta à esquerda.
Nada ali fazia sentido.
Nada tornava as coisas mais fáceis.
E eu já nem sabia o que dizer.
Só não queria que ele fosse embora.
Não agora.
Não com tantos “por quês” entalados na garganta.
— Já vai?
— Já… Vou deixar que você mesmo decida. Discernir o que é devaneio… e o que não é. Entendido?
Como sempre acontece quando alguém me confronta…
Baixei os olhos.
— Certo.
Mas dessa vez… foi diferente.
Foi reconfortante.
Mesmo sem saber quem é esse tal Criador.
E, se ele existe… Peço perdão. Por não saber me amar.
Espero um dia conseguir.
Tanto quanto me ama… É isso que chamam de fé?
Será que ela liberta da mediocridade?
Ou só anestesia a miséria?
Só sei que ele saiu pela janela. Um passo só.
Eu fiquei. Suspirei.
Meus olhos foram até a cama, e o cansaço bateu como uma onda.
Era só um sonho?
Não sei. Talvez…
Talvez fosse um anjo. Um desses que minha família vive dizendo que Deus envia.
Eles falam muito dele. Do Senhor. Misericordioso, justo, salvador dos ingratos e perversos.
Irônico, penso.
Até eles, Ele salvaria. Mas da boca deles… só saem maldições.
Chega disso!
Deito. O tecido me dá boas-vindas.
A cama me abraça.
Bocejo. Mas não paro de pensar.
Foi só um sonho…? Por favor, não!
Não quero ficar sozinho quando acordar.
Mas eu estarei.
Como sempre.
Dormir… é como apertar um reset.
Tic, tac… o tempo volta ao ponto de partida, mas eu continuo perdendo.
Dia após dia.
Como num experimento onde a variável sou sempre eu.
O despertador não tocou.
Acordei antes.
Cinco da manhã.
O céu, estranhamente azul.
O ar, estranhamente seco.
É óbvio que meus lábios estavam rachados.
Meus materiais espalhados pelo chão.
Sonambulismo? Fui vítima disso agora? O quão menos normal eu sou por isso?
Droga. Covarde!
Nem acordei direito e já tô me rotulando. Eu não ia ser melhor?
Me levanto.
Olho pela janela.
Lá está ela.
Yuzuki.
Cabelos pretos ao vento. Os olhos castanhos sorrindo junto aos lábios, enquanto brinca com seu gato.
É. É estranho ficar encarando uma menina assim.
Mas ela é… minha paixão impossível.
Desde criança ela cuidava de mim.
Mesmo tendo a mesma idade, diziam que eu era incapaz de ficar sozinho.
E eu fui isso. Um fardo.
Até os catorze dela.
De lá pra cá? Só “bom dia” e “boa tarde”.
Triste.
Até chamei ela de Monalisa nos meus pensamentos.
Que breguice, Akira.
Fui tomar meu banho.
Me despi no quarto e, ao passar pelo espelho, encarei.
Decepção.
Não sou atraente. Nem serei.
Não é que eu esteja me conformando sem tentar… Mas não quero me moldar só pra caber no molde de alguém.
Sei que, no fim, seria tudo superficial. Queria poder ser quem sou e ser amado assim.
Mentira.
Eu tô me matando pra virar médico. E nem quero isso.
Não me leve a sério.
Depois do banho, aquela velha sensação. O peito apertado.
Ninguém me chamou. Ninguém escreveu. Sem mensagens ou batidas na porta.
Me vesti. Desci.
Fiz meu café.
É, eu sei.
Não sou um completo inútil. Aprendi a não incomodar. A disfarçar.
Ser um fardo é, talvez, meu único talento inato.
Chega.
Desse lugar.
Com pressa, desço a escadaria como quem foge de um incêndio.
Corro para a escola.
Gosto de lá.
Mesmo sem aprender como os outros.
Gosto da ideia de estar fora de casa.
De escapar. Mesmo que lá… eu continue sozinho.
Os professores até tentam. Gosto deles. Não é de todo ruim.
Na verdade… nunca é.
Só não é fácil.
O mundo não me odeia.
Ele só… não me enxerga.
Quem me odeia está perto demais pra ser chamado de “mundo”.
E não… não há nomes pra citar.
Nenhuma figura marcante ou vilão de colégio.
Nunca sofri bullying.
Hoje em dia isso é errado, né?
Politicamente incorreto.
Mas… não que isso mude muita coisa.
Vejo alguns garotos sofrerem.
Os “normais”.
E eu sei. Sei o quanto dói.
Mas ser ignorado… não é tão diferente de ser odiado.
Como se eu não fosse digno nem de rejeição.
Eu sei…
Talvez eu esteja exagerando.
Mas sentir demais também é uma forma de existir, não é?
Não sei. Acho que tem alguma coisa errada comigo.
Talvez… eu não bata bem das ideias como falam.
Pés para fora do portão.
A rua… tão vazia.
E por falar nisso…
Será que vou sonhar com ele de novo?
É tudo o que penso.
Enquanto caminho… percebo. Tudo muda menos eu.
As árvores que antes pareciam tão vivas envelhecem diante dos meus olhos.
Passam por estações, se despem, florescem de novo.
E eu… como se meu inverno nunca acabasse.
Alguns passos, algumas esquinas viradas…E passo por aquele que torce pela minha chegada.
Senhor Fushimi.
Vendedor de takoyaki.
Bolinhos redondos de trigo com polvo, gengibre… enfim.
Sempre paro.
Ele sempre me dá um pouco.
A gente não fala muito.
Mas ele me entende.
— Então, senhor Kurokawa. O de sempre?
— Por favor…
Vejo seu sorriso, e mesmo com os olhos doces… É impossível pra mim.
Impossível sorrir igual.
— Olha só, resolveu falar hoje. O que houve? Viu um lugar bonito o bastante pra virar futura pintura?
— Ehr… sim, talvez… Foi um sonho.
— Um sonho? E como foi?
— Um homem. Vestido de forma estranha. Veio me dizer… coisas estranhas.
— Hm… — Ele me escuta de verdade. Como se digerisse palavra por palavra — Vestido como um marginal? Yakuza? Ou mais alternativo?
— Diria… como um louco da era vitoriana.
— Como o Sherlock Holmes?
— Não. Não como ele. Mais… esquisito. Tipo… Dorian Gray.
Tá, fui longe.
Nada contra, eu gosto daquele filme. Gosto mesmo!
— Mas ele é bonito!
— É. Mas ainda esquisito, não?
— Talvez. Depende do ponto de vista. Até eu posso ser esquisito aos olhos de um jovem, sabia?
— Sei… — murmuro.
Droga.
De novo eu, julgando demais.
Sempre julgando em vez de simplesmente aceitar.
— Eu não devia ter dito “esquisito”, né?
— Talvez. Se foi um sonho ruim, talvez o que você sentiu foi medo. Ou só estranhamento. É sutil… Mas não é errado, como alguns dizem. Nem certo. Depende do entendimento… Dos olhos. E do coração.
— Que difícil… — soltei, num desabafo.
— Sempre é difícil!
Me entregou os bolinhos num saco de papel.
Hoje eu dei sorte — tinha mais do que o dobro da última vez.
— O mais incrível! — falava enquanto fazia, imitando o tom de uma propaganda com um sorriso de canto — Esse cara sou eu!
Sorri de leve.
Esse cara é incrível mesmo.
— Devia ser fácil… — murmurei.
— Devia. Mas aí… qual seria a graça, né?
— Graça?
— É. Se você não enxerga beleza nas falhas, então nunca amou ninguém de verdade. Nós somos todos assim… meio tortos. E um artista… Um artista de verdade devia amar suas falhas. Transformá-las em arte. Fazê-las viver em tinta, em traço.
Ele nem parece que só vende bolinhos.
Sério.
Quem é esse cara, afinal?
— O senhor… é bem inteligente.
— Sou — respondeu com certa simplicidade — O que eu faço não limita o que eu sei. E você também, Akira. Quando colocar isso na cabeça… vai parar de fugir. E vai persistir em ser o artista que já é. Entendido, rapazinho?
— Ok…
Me afoguei na vergonha enquanto comia.
Cada mordida mastigava meu orgulho junto.
Fiquei mudo — mas ele não leu isso como algo ruim.
É… por hoje, minha amargura estava paga.
Voltei pra casa e tudo estava silencioso.
Até demais.
A porta estava escancarada.
Um cheiro estranho cortou o ar e atravessou minhas narinas.
Ferro. Sangue.
O coração disparou.
Pisei devagar pelo corredor.
Cada quarto aberto.
Cada quarto… vazio.
Até o meu. Mas este não estava vazio. Um frio na barriga me fez vacilar ao ver…
Ele.
No centro, em pé como uma estátua. Um homem.
De cabelos brancos como neve descendo até os pés.
Olhos claros, quase transparentes.
A pele reluzia sob o tecido de seda branca e em sua mão… Uma lança. Brilhante como as estrelas.
Outra miragem? Ou só um maluco fazendo cosplay?
Difícil dizer.
Meu cérebro sempre duvida primeiro e depois entra em pânico.
— Você é o Akira?
Sinto sua voz como um jato de cores, pintando o medo em mim e a sensação de estar desprotegido.
— S-sou… P-por quê?
Ele se virou por completo.
A ponta da lança agora roçava meu pescoço. Fina. Precisa. Nem vi quando a ergueu, quando a virou. Será que não se projetou direto em minha garganta?
— Você é uma ameaça de décima categoria! — disse, sem emoção alguma.
E o pior…
Eu? Ameaça?
Sério?
Tem um cara na minha frente, vestido como uma divindade grega, com dois metros de altura, uma lança celestial e a expressão de quem já decidiu meu fim…
E sou eu o problema?
Que piada.
Que cômico!
— Estou aqui para dar fim à sua miserável existência. Você… ameaça o cosmos. É uma transgressão nascida de um maldito!
Respirei fundo.
Mas o ar… não veio.
— Isso aqui é… alguma pegadinha?
Quando terminei, senti.
O peso.
Seus lábios se apertaram. Sem pressa. O carrasco que sentencia antes mesmo de falar.
— Q-q… quem é você?
— Sou Arkhéion! A Lança da Origem. Agora me diga… Essas serão suas últimas palavras?
ᨖ
— Últimas palavras?
Eu… nem consegui dizer nada.
Foi só um ato. Instinto.
Ele jogou a lança para trás como quem puxa a corda de um arco.
E eu… fechei os olhos.
Se era pra perder a cabeça, que fosse sem ver.
Mas o que veio não foi dor.
Um tilintar metálico.
Sinos?
De boas-vindas ao céu?
Não!
Quando abri os olhos… ele estava ali. O rosto fechado, os músculos em tensão.
A lança, paralisada.
Travada contra a bengala — aquela mesma, com olhos que parecem me encarar.
Sério?
Então… não era um sonho?
Ou era tão real quanto um?
Não sei.
Só sei que o impacto gerou um clarão — feixes de luz que explodiram, e, em segundos, tudo ao redor sumiu.
Não havia mais casa.
Nem rua, cidade.
Só o chão sob nossos pés.
E mais nada.
— Então… você sabe usar seu fragmento!
Ouvi a voz dele ecoar em meio àquela paisagem, como se estivesse dentro de um quadro pintado por Lucas Arruda. Um céu límpido, vasto e vazio.
Não havia gritos.
Nem berros.
Somente um silêncio absoluto, tão distante da humanidade que parecia me arrancar do mundo — como se eu tivesse sido esquecido dentro de um horizonte que nunca se fecha.
Mas não foi isso.
Eu era o alvo… por ironia do destino.
Ele se lançou para trás, girando a lança entre os dedos com a mesma naturalidade em que tentou me matar.
Então avançou.
Rápido.
De cima para baixo.
Não me mexi.
Não consegui.
Mas a bengala… moveu-se sozinha.
Com vontade própria, ergueu-se e bloqueou o ataque.
Novamente, a luz se partiu como vidro, espalhando estilhaços ao meu redor.
Não havia sangue.
Somente o apagamento dos pobres pássaros que tentavam fugir — a última âncora que ainda me prendia à realidade.
E, um a um, sumiram…
Riscados da própria existência.
E eu…?
Por tanto tempo almejei desaparecer.
Mas esses golpes, em vez de alívio, só me trazem medo.
— Grr…
Rosnou. Como um cão raivoso.
A fúria era tamanha que sua vontade parecia escapar pelas têmporas.
O choque o arremessou para longe. Só parou na rua da frente ou no que restava dela.
Antes, uma avenida.
Agora? Apenas rastros queimados, cicatrizes no concreto derretido.
E eu… me sentia observado pelo único ser que jamais desejei encarar.
Sério? Que loucura.
Isso não pode ser real.
Sou só um esquizofrênico do caralho!
— Meu Senhor estava certo! — mesmo à distância, sua voz cortava o ar. Que pesadelo… — Nenhum santo suportaria isso. Nem mesmo um Apóstolo como eu!
Colocou-se em postura.
Era como assistir a um herói grego: teatral, extravagante, roubando a cena como se o mundo fosse palco e ele, o protagonista.
E eu…?
Eu só manchava esse jardim perfeito. A estrela-da-terra, desbotada, enfiada onde não devia florescer.
Que, estranhamente, se negava a morrer…
— Mas ainda assim, não deixo de me perguntar… Por que uma existência tão miserável? Você é tão covarde assim? Null!!
Nada fazia sentido.
Era como uma cena arrancada de um mangá.
Um painel nascido de um pesadelo — daqueles que Junji Ito desenharia.
E eu…
Eu não disse nada.
Como sempre.
O que eu deveria falar?
Se aqui, eu não sou nada… E nem sequer sei qual é o meu papel.
Só o encarei e engoli em seco.
Meu corpo se recusava a morrer engasgado — merda — justo eu, que sempre sofria com engasgos na frente dela, dos meus colegas…
Acho que minha mente simplesmente não conseguia processar.
— Você se esqueceu mesmo, não é?
A voz veio por trás de mim.
Um sussurro que me dava um arrepio.
Senti o toque em meu ombro.
E, quando virei o rosto… lá estava Null. Sorrindo… diabólico.
— Eu não disse para não se esquecer? — sussurrou, a respiração roçando minha orelha — Eu sou você agora. E essa bengala… vai te proteger. Mesmo que você desmaie!
— V-você… sou eu?
— Isso mesmo — Fitando Arkhéion, que ainda me observava. Eu não sabia dizer se ele reparava nos meus trejeitos nervosos ou se conseguia ver também… — E vou te ajudar com esse problema.
— Q-quem é esse cara…?
Nem sei se falei de fato… ou se só pensei alto demais.
— Esse cara… É um enviado de outro Lorde.
— O-outro? Existem outros de você?
— A Origem… — sua voz soou quase como um sopro de falha — Ele trama o meu fim… e teme o próprio. É o primogênito do Criador, Akira. O filho favorito… que ainda assim se sente injustiçado. Chato, não é?
— D-do Criador…?
— Isso, isso! Tudo isso não passa de um jogo de egos. E adivinha? Agora você também está jogando. Hehe… legal, não é?
Jogando? Que raios…
Eu não fiz nada!
O que eu era, afinal?
— Mas… por que ele quer me matar?
— Porque você, depois do contrato, virou um Vestígio. Alguém que carrega um fragmento de mim. E isso… — ele estendeu a mão, e a bengala flutuou até seus dedos — …te torna capaz de coisas que ninguém sequer ousaria imaginar.
— Que coisas?
— Você descobrirá agora!
A colocou nas minhas mãos.
E pulsou.
Como se respirasse. Senti um calor, quase tirei a mão, mas me agarrei no que ele me dizia…
Será que estava me cumprimentando? Não sabia.
Só deveria confiar nele.
Deveria!
— Agora vamos, Akira. Vamos… brincar?
— Brincar…?
Quando olhei para a bengala em minhas mãos, havia mudado.
Um pincel.
— Que diabos é isso?
— Essa é… a sua versão do fim. Um pincel. Pode parecer inofensivo, mas através dele… você mostrará a essência do conceito. Basta imaginar, Akira. Basta só, imaginar!
— Imaginar…?
— É. Deixe que eu te mostro. Você ainda é limitado pelos traumas e infelicidades… mas… tudo muda!
TUDO!
Ele saiu flutuando, como se não precisasse de chão.
Sem mover os pés.
Como uma ideia solta no ar.
Era isso que ele era para mim: uma ideia.
Uma ideia que atraía outras, mas desconexa.
Não me deixava chão para pisar.
Nem sequer para chorar.
— Ele não pode me ver. Só quem eu permito. Pois sou um ser superior. Alma, mente, corpo… nada disso me limita. Estou além desses conceitos!
E então, em sua mão, começaram a nascer borboletas.
Incontáveis.
Brilhando em tons de púrpura, como fragmentos de energia neon, derramando reflexos sobre o meu rosto.
Lindo…
Seria um fã enrustido de Damien Hirst?
— Gosta de arte?
— G-gosto… — respondi, sem fôlego.
— Me deixaria pintar um quadro pra você?
— P… pinte! — foi tudo o que consegui dizer.
Eram belas demais para que eu encontrasse outra resposta.
Ele girou no ar com a graça de um bailarino.
E, num gesto sutil, suas mãos erguidas como as de um maestro deu o comando.
As borboletas avançaram.
Lentas.
Graciosas.
Pareciam inofensivas.
Mas, em um piscar, explodiram.
Cada uma colapsava em partículas de vácuo, implodindo em silêncio absoluto.
Qual o significado de tudo isso?
Eu não sei.
Sinto-me pequeno demais diante da cena, esmagado pela própria beleza que não compreendo.
Talvez devesse agradecer ao meu hiperfoco, é ele quem ainda me permite ler esse quadro, absorver seus detalhes, contemplar sua estranheza.
Eu não era como eles…
Eles…
Arkhéion rodopiou a lança, erguendo uma espiral de ventos reluzentes.
Mas elas atravessaram tudo.
Intocadas.
Seus olhos se arregalaram.
Cambaleou.
O corpo já se desfazia entre as explosões, tingido pelo próprio sangue… azul, como o céu que parecia negar-lhe abrigo.
— Quão vasto é o seu conhecimento?! — gorfou, atônito, cuspindo-o — Não é possível que tenha recebido tanto entendimento em tão pouco tempo! Essas borboletas… carregam a intenção sutil da destruição!
— Destruição? — Null me lançou um olhar ofendido, quase infantil — Esse ignorante ousa chamar meus fins de “destruidores”? Não sabe que a destruição é apenas uma derivação do fim?
Se virou inteiramente para mim, os olhos faiscando.
— Akira… agora é sua vez. Antes que eu… passe dos limites com essa besta.
— T-tá…
Caminhei até a beira.
O prédio — ou o que restava dele — era sustentado por imensos tentáculos cobertos de escuridão.
Engoli seco.
Claustrofóbico.
É belo.
— E-eu… — olhei para Null.
Apenas assentiu, me dando espaço para falar.
Droga.
Que vergonha.
— Eu… eu não quero lutar! Por que você simplesmente não vai embora?
Só consegui dizer isso.
Na real?
Eu não quero conflito.
Mesmo com um deus diante de mim… esse cara confiante não sou eu.
— E acha que eu posso?! Idiota! — gritou, como se o orgulho tivesse sido ferido — Sabe o que meu nome significa? Arkhéion. Não é apenas um nome. É a própria arma que carrego… derivada diretamente do conceito do meu Senhor. Minha personalidade, meus deveres… são o reflexo dos anseios Dele!
Colocou a lança atrás das costas, mantendo o cabo entre os braços.
E a matéria ao redor começou a se desfazer.
— Afinal… eu sou parte. Sou filho. Você entende isso?
Não consegui responder.
Mas… que ironia.
Ele, tão poderoso.
Tão orgulhoso e seguro de si.
Tão forte.
E, no fim… eu só conseguia ver a mim mesmo.
Droga.
De novo.
Dei brecha.
Ele já estava no ar.
Cortando tudo à frente como uma flecha.
Um golpe luminescente rasgou o espaço, como uma onda feita de vento, luz e pura intenção.
Num único movimento, tudo que restava daquele lugar… Sumiu.
Evaporou.
E eu… será que morri?
Como eu deveria me sentir?
ᨖ
Não.
Não morri.
Depois do clarão…
Estava de pé.
Mas… não era mais eu.
Vestia as roupas de Null.
De novo… ele alterou minha percepção? Antes, eu tinha certeza de que era tudo um sonho.
Ou não.
Não lembro.
Mas sei que não acordei assim.
Tenho certeza.
E ainda assim… algo me incomoda.
Isso não sou eu!
Terno escuro.
Chapéu.
E, na minha mão… o pincel.
Sujo de tinta.
É… isso, sim, sou eu.
— É deplorável essa visão! — a voz dele cortou o espaço, carregada de desprezo — Sério? Vai se defender com o fim de astros outrora tão belos?
À minha frente, girava uma espiral.
Uma galáxia em convulsão.
Mas… não havia vida alguma ali.
Era um setor morto, apagado há eras.
E então me peguei pensando:
até onde minha esquizofrenia delirante seria capaz de ir para projetar algo assim?
Tão vasto.
Tão grandioso.
E, ainda assim, comprimido no estreito limite do meu olhar.
E freava a lança de Arkhéion no ar — e a engolia pouco a pouco.
Avançava, os olhos arregalados.
Mas a espiral devorava tudo.
Sem cor.
E com todas as cores ao mesmo tempo.
Bilhões de tons pulsando em caos, até retornarem ao negro absoluto.
Seria essa… a cor do fim?
— C-como…? — perguntei, atordoado, sentindo meu corpo leve, quase incorpóreo — O que… aconteceu…?
— Eu é que devia perguntar!
Recuando, a voz tingida de medo.
Mas não havia chão.
Ainda assim, projetou luz sob os próprios pés, sustentando-se no vazio.
— Pela sua reação… está transbordando a essência do conceito!
— É… — murmurei, tonto, olhando em volta.
Nem sabia o que dizia.
Que devaneio era esse?
Estava apenas brincando comigo?
Quem?
Quem já não estava mais ali…
Null.
E então, quando baixei os olhos para os meus próprios pés…
percebi.
Eu também flutuava.
— Eu… eu não entendo nada disso!
— Nem eu! — Arremessando a lança para trás, escapando da sucção — No fim, não sinto intenção sua de me ceifar! Mas as feridas são reais… E você ameaça coisas que estão além de uma simples coincidência ruim!
Girou-a num arco de cento e oitenta graus.
E, com ela, a própria realidade.
Raios de luz dispararam em todas as direções, rachando o espaço como vidro estilhaçado.
— Além do mais não me é permitido questionar o que meu Senhor ordena!
O golpe atravessou minha espiral, partindo-a em duas.
Rompendo espaço e tempo como se estivéssemos presos dentro de um quadrinho rasgado.
Senti tudo ser dividido em dois… inclusive minhas percepções.
Sou tão incapaz diante de alguém que pode partir uma galáxia ao meio.
E o próprio…
já vinha outra vez.
A lança voava como uma serpente, cortando o ar em silvos.
Tentou me perfurar várias vezes, e eu desviava, instintivamente, sem pensar.
Cada ataque trazia a morte cravada em sua ponta.
— Como pode pensar assim?! — gritei, a voz arranhando minha garganta.
Só então percebi…
O que me mantinha vivo não eram meus reflexos — eram minhas vestes.
Os olhos nelas se arregalavam, prevendo o que viria, movendo-me antes que eu mesmo reagisse.
Mas isso não me assustava.
O que me aterrorizava de verdade era a ideia que carregava em suas falhas formas de pensar.
— Questionar é a base para acreditar!
Sério que falei isso?
Soou como uma frase feita.
E era.
Mas… sério.
Por que sempre parece mais fácil… quando é o outro?
Quando é a dor de alguém que não somos nós?
— Você não entenderia, humano! — sua voz soava como aço sendo dobrado, era a verdade atirada contra mim — Sua vida patética te limitou a um entendimento raso da existência. Para nós, que não vivemos sufocando vontades… o dever é tudo. É nossa única razão de existir!
— Mas… — desviei de mais um ataque, o corpo tremendo, o ar me faltando — Até eu sei como é isso!
Só vivi tentando atender às expectativas.
Nunca fui atrás do que queria.
Só… fui o filho que me mandaram ser.
— Isso é nobre… para um humano!
Por um instante, pareceu até ouvir meus lamentos.
Mas talvez fosse só o meu ego — eu não conseguiria admitir que alguém estivesse pior do que eu.
Seria esse… meu lado humano e feio?
Só sei que, logo após ele dizer isso… seu corpo pulsou.
E, de repente, sumiu.
Transformou-se na própria lança.
Já flutuava à minha esquerda.
Estranho.
Eu percebia quando se movia.
Sabia para onde iria antes mesmo de acontecer.
Mas… ainda assim, havia um atraso.
Como se meu entendimento sempre chegasse um segundo depois.
Era como se eu assistisse a mim mesmo… em defasagem.
A arma desapareceu de sua mão… e reapareceu vindo na minha direção.
Um piscar.
A dor.
O impacto.
Um gemido abafado.
Vi meu sangue se espalhar.
Então era assim que terminava tudo…?
Não.
A lança não me atingiu.
Ela freou.
Não na carne… mas na roupa.
A maldita.
Aquela a quem eu dediquei todo o meu ódio.
E agora… era ela que me trazia o alívio de ainda estar vivo.
É.
Sou só isso.
Um miserável.
Vítima da própria ignorância.
Eu a julguei.
Como os outros me julgam.
Sem entender.
Sem perguntar.
Ela se enroscara no cabo, por vontade própria.
Como se quisesse, sozinha, me salvar da existência que me foi imposta.
E sangrava por mim.
Fiquei suspenso no ar. Atônito.
A lança desapareceu.
E a roupa se afrouxou, desfazendo-se lentamente… virando poeira negra entre meus dedos.
— Isso é loucura… — murmurei, vendo os fragmentos se dissolverem no vento.
— Minha lança não mata! — sua voz soou mais baixa agora.
Contida.
Reverente.
— Ela toca a origem primária das coisas. E as força a retroceder.
— Origem…?
— Isso. Sendo uma derivação… ela não destrói. Apenas divide a Origem em etapas.
— Não entendo…
— Como fiz com esta cidade. Com as pessoas. Nada morreu. Nada foi destruído. Eles apenas retrocederam. Vidro voltou a ser areia. No segundo ataque, a areia voltaria ao que foi antes. E assim por diante! Até tudo retornar ao estado puro.
— Origem…? — repeti, tentando entender — Mas… se você transforma uma planta em semente, não está matando aquilo que ela se tornou?
Seria um erro lógico?
Meu?
Dele?
Silêncio.
— E uma pessoa…? O que vem antes? Um feto…? Não morreria fora do útero…?
As palavras saíram frágeis, mas, no peito, uma raiva começou a queimar.
Sério que o fim deles foi assim…?
Tão sofrido?
Não haver sangue, nem gritos, me trouxe uma estranha paz.
Mas imaginar o processo…
imaginar cada existência sendo reduzida, regredida até não poder mais respirar…
Isso me trouxe algo que eu não sentia havia muito tempo… raiva genuína.
O mesmo sentimento de quando se olha Guernica e finalmente entende do que se trata.
Um peso que não se traduz em palavras, mas em silêncio.
— Como pode dizer que isso não é matar? — Minha voz tremeu — No fim, sua lança mata de qualquer forma!
Silêncio.
Mais uma vez, o silêncio.
— Somos responsáveis por aqueles que não conseguem se defender? — disse, com frieza — Não!
Sério…?
Essa era a resposta?
Só isso?
E, no fim, eu é que sou a ameaça ao cosmos?
ᨖ
Não!
Não sou ameaça alguma.
Eu já fui… há um dia atrás, quando um ser visitou meus sonhos e me fez vítima dos meus próprios anseios.
Eu era um fardo.
Um peso que sufocava a vida daqueles que amava — e, para eles, eu era só isso.
Mas agora?
Mesmo vestindo a alcunha do Fim, não me enxergo mais assim.
Não sou o errado aqui.
Não sou o assassino.
Não.
Não sou eu o dono desse papel!
E ele…
— Usarei tudo de mim nesse próximo movimento! — Sua voz cortou meu pesar como uma lâmina.
Olhei-o.
Já não mais como um anjo distante, mas uma aberração da natureza.
A mão que matava… e ainda assim dizia proteger.
Se eu era todo esse mal, então era contra esse suposto bem que eu deveria me erguer.
Deixei que meus medos e anseios, naquele instante, me vestissem de coragem.
— Você não tem mais salvação. Já se fundiu à mente louca de Null!
A lança desapareceu de suas mãos.
Suas vestes se dissolveram, fundindo-se à própria aura.
Como um pássaro se despindo das penas, restando apenas a essência nua… pronta para atacar.
— Espero que sua alma tenha salvação, garoto…
— Igualmente! — retruquei, sem pensar.
Instintivamente, joguei minhas mãos para trás.
E, por um instante, me senti… capaz.
Confesso.
O pincel pingou.
E dele nasceram dentes na própria realidade — afiados, bestiais, como se algo faminto me aguardasse do outro lado.
— Ehr… — engasguei, o susto me cortando a voz.
Eu já tinha visto isso antes…
Um pesadelo do qual só me restavam fragmentos sensoriais.
Minha pele se arrepiou, mas minha mente se recusou a me revelar.
Minha…?
Será mesmo minha?
E, antes que pudesse entender, avançou.
Rápido demais.
Transformou-se numa grande lança.
Ele era a própria.
— Eu…
Não consegui dizer mais nada.
Sem perceber, já havia sido dividido em dois.
Do estômago para cima, os nervos entorpeceram.
Minhas pernas… não respondiam.
Tramei contra mim mesmo.
Isso não era um sonho.
E eu, definitivamente, não percebi o quão sério… era…
Mas… como eu perdi?
Eu estava tão determinado.
Nem vou encarar!
Não vou revidar…?
Nem sequer pude vê-lo pelas costas.
Maldição…
Crack! Algo me devorou.
Depois? nada.
Um silêncio absoluto.
Seria a morte me levando…?
Quer dizer… penso.
Mas onde estou…?
É tão escuro.
Fundo.
— Onde…? — sussurrei, a voz quase não saindo.
— Hihihi… — uma risada zombeteira ecoou, cortando a escuridão.
Será minha mente fúnebre…? Ou não?
Mas… não era rígida como a de Arkhéion.
Era… diferente.
— Null…?
— E quem mais?
Enfim, surgia.
Abrindo a boca da criatura que me engolira.
Me salvando pela terceira vez… Ou apenas aparecendo para se despedir do fracasso que fui.
Mas… quando foi que vim parar aqui?
A essa altura, o impossível e o inimaginável já eram críveis.
— Ehr… como eu escapei…? Quer dizer… eu vou morrer…
Meus olhos turvaram.
Toquei minhas pernas.
Ah… eu ainda tinha força para isso.
E as senti.
— Como? Eu lá sei? — Se aproximou, um sorriso perigoso nos lábios — Foi você quem fez isso. Você pintou a realidade. Já deve ter imaginado que seria quase impossível vencer alguém tão obstinado quanto ele!
— E-eu…?
— É…
— Mas… eu fui partido ao meio…
Ele silenciou minha boca com um dedo.
— Xi… não fale demais. Você, rapazinho, escapou direto para o meu esconderijo!
— Esconderijo…?
— Isso mesmo, Akira. Bem-vindo, aliás. Este é… — sua voz ecoou enquanto a criatura se desfazia. Como um maestro, abriu os braços, apresentando-me o mais fantástico e terrível dos mundos.
Eu caía.
De bunda no chão, mas com os olhos escancarados.
O céu escuro se abria como um abismo distorcido.
Uma meia-noite em Paris… só que retorcida.
Sem astros.
Sem luz.
Apenas olhos.
Que se multiplicavam no infinito, envoltos em tentáculos medonhos, em formas disformes demais para receber um nome.
— …o Mundo Espelho. Ou melhor… uma dimensão oculta dentro dele. Aqui, todos os vislumbres se tornam reais. E será aqui… onde lhe darei obstinação.
— Isso tudo fica mais louco a cada… instante…
— É, eu sei! — ele riu — Mas… a loucura faz parte da adaptação, não acha? E, afinal… não adianta lhe dar uma fração dos meus poderes se você não souber como usá-los, não é…?
Não sei…
— É… — murmurei, sem convicção.
Me levantei no exato instante em que ele bateu palmas.
Lunático…
Do som, abriu-se um caminho diante de nós.
Pisos mal cortados — losangos, quadrados e, às vezes, até triângulos.
Um mosaico, como se tivesse sido arrancado de um sonho imperfeito.
— Aqui termina um ciclo… e começamos outro…
Falava consigo mesmo.
Ou comigo.
Ou… com você.
Deu alguns passos, e então olhou por cima do ombro.
— Você vem?
— Claro! — respondi, embora soubesse que bastava um passo em falso… e eu cairia para nunca mais levantar.
Só espero… que algo mude.
Todos nós, esperamos, não?

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