Não era nada impressionante. Sério, nada. A mansão era como qualquer outra: mármore branco por todos os lados, jardineiros podando arbustos e carros esportivos dourando ao sol. Não perderemos tempo descrevendo isso. Saiba apenas que, depois de seguir por uma trilha, que era um labirinto, Kadu e seu irmão mais velho estancaram diante de uma porta gigante.

    Devia ter uns cinco metros, talvez.

    “Meu Deus, pra quê isso?”

    A porta se abriu por dentro. Não havia ninguém do outro lado. Um olhar rápido foi o suficiente para decretar que, de fato, era o interior de uma mansão comum — estatuetas, réplicas de quadros famosos e um tapete importado.

    “E agora?”

    Ouvindo um som de passos, a dupla virou para trás. A representante da Velva, Alexa Bianca, surgiu diante deles. Parecia ofegante.

    — Podem andar mais devagar? Minhas pernas são curtas!

    — Perdão, senhorita Bianca — disse Kadu, sem saber como se dirigir a ela. — O que estamos fazendo aqui?

    Ela suava. Seu rosto brilhava à luz do sol. Tomou um bom gole de ar, antes de respondê-lo.

    — Você verá em breve — E olhou para dentro.

    Assim que se voltaram para o hall, o inesperado mais esperado aconteceu: o tapete era uma passagem secreta.

    “Que brega…”

    Escadas vermelhas levavam para o subsolo.

    “Espero que não seja um scam…”

    E foi na frente, seguido por um João Pedro cauteloso e desconfiado. O irmão mais velho sentiu calafrios quando desceu. Estava congelando. Pensou que o ar-condicionado havia quebrado.

    “Acho que o duelo vai ser aqui embaixo. Do jeito como tá indo, provavelmente é isso…”

    E era.

    — Cacete…

    Era uma sala ampla. Tão ampla que o fundo e as laterais não eram visíveis. Diante deles havia uma escada, que levava para cima, dessa vez.

    — Você vem comigo — disse Bianca, arrastando João Pedro para o lado.

    — Ei, calma lá, eu sei andar sozinho…

    — E você — virou-se para Kadu —, você sobe a escada.

    Assentindo, o garoto encarou os degraus.

    — Boa sorte — disse João, antes de desaparecer no escuro.

    Finalmente. Não podia vacilar. Ele fechou os punhos, encarando o topo da escada. Haviam luzes azuis ali em cima.

    “Vamo nessa…”

    E, como se o autor que vos falar não tivesse esquecido, eis uma descrição do Kadu:

    Ele era um garoto pequeno. Magrelo. Tinha olhos grandes. Lembravam amêndoas murchas. Pele era morena, os cabelos precisando de um corte. Caíam nos ombros. Também era um inimigo da moda, pois seu look não combinava.

    Era um moletom preto, com uma camisa branca por baixo, e uma calça roxa desbotada. All-stars de sola gasta pisaram o último degrau.

    — A primavera chegou!

    Já não gostando das boas-vindas, Kadu encarou seu adversário. Estava ali, de pé, do outro lado de uma arena gigantesca.

    Uns bons metros separavam as torres de um do outro, com luzes que indicavam cada lado do combate. Azul para Kadu, vermelho para ele. Para o homem que o chamou até ali.

    Black Novice.

    — Hoje é primeiro de novembro — disse Kadu, com um sorrisinho.

    — Eu sei. Também tenho calendário.

    — Não parece. Ah, sim, verdade! Talvez você ainda esteja com a cabeça na festa de ontem!

    — Festa? — Black Novice pareceu confuso. — Que festa?

    Kadu, que esperava um riso, desanimou.

    — Que festa, White Master?

    — O Halloween, criatura! O Halloween. Você tá fantasiado. Era uma piada, cara!

    — Ah… — E bateu o punho na palma aberta. — Aaaaah, tááááá! Entendi, entendi. Saquei. Desculpa. Eu fiquei muito animado, quando vi você subindo. Perdão, sério!

    O garoto revirou os olhos.

    De qualquer forma, Black Novice realmente era um fantasiado louco. Calçava luvas de borracha, uma camisa de mangas longas, uma jeans, botas de jardineiro e uma máscara de duas faces — todas negras, de tons diferentes. Sua voz era esquisita.

    — Modulador de voz?

    — Sim — falou o inimigo, rindo. — Vai que tu gama.

    — Maluco…

    Desviando o foco do mascarado, White Master, que não vestia nada de branco, reparou que a arena era colossal. Haviam doze retângulos, seis para cada jogador. Igual às arenas de CARD. No meio da lateral esquerda, havia um círculo, e o mesmo se repetiu no lado oposto.

    “Ele realmente gosta dessa merda.”

    — HELLO, MUNDO!

    Kadu pulou de susto. Era Bianca quem gritou? Olhou para os cantos, não vendo ninguém.

    — A partida que o Brasil inteiro parou pra ver! — gritou ela, a voz amplificada ecoando pela arena. — O Amante da Ordem, o Cruzador do Sol! BLEEEEEEQUE, NOVAAAAAAAAAAAICEEEE!

    Cheio de si, o dito cujo flexionava os braços, agitando a platéia inexistente.

    — Do outro lado… — Um som de tambores cortou o lugar. — O Destruidor de Sonhos, o Abismo! O homem na torre de marfim! UAAAAAITEEEEE… MÉÉÉÉÉÉÉSTEEEEERRR!

    Kadu coçou a nuca, cheio de desconforto.

    — Disputando pela vaga de Rosto do Brasil! Do campeão tupiniquim! Daquele que será nossa espada, e coração, no mundial de CARD! Façam suas apostas! Quem chegará feliz em casa? O fenômeno meteórico que surgiu no semestre passado? Ou o veterano de guerra, calejado de batalhas tão longas que custaram sua vida social?!

    — Aí é sacangem… — murmurou Black Novice, simpatizando com Kadu.

    Mas o clima esquentou.

    Um punhado de píxels flutou no ar. Eram vagalumes azuis, que voavam em círculos. O holograma de uma mesa se formou. Nela, um baralho trêmulo foi posto no canto direito.

    — Todos prontos? Espero que sim! Não vá embora, minha senhora! Pois é hora…

    Do duelo!

    Uma tela gigante apareceu do nada, acima da cabeça deles. Mostrava a quantidade de pontos de vida de cada jogador, que inicialmente era quatro mil, e a rodada e o turno do momento.

    “Interessante, mas e a…”

    …Moeda? Apareceu logo depois, no meio da arena.

    — Cara ou coroa, White Master? — indagou Bianca.

    — Coroa!

    — Hehe, bom saber…

    E a moeda, que dançava no centro da arena, girou. Girou, girou e girou, e…

    — Puxa, White Master, que azar! Cara! Black Novice, o primeiro turno é seu!

    O adversário, mesmo mascarado, parecia sorrir.

    — Mais sorte da próxima vez, Master.

    “Maldito…”

    Abrindo os braços, Black Novice olhou para cima. Um fio de prata escorreu do teto, com uma esfera na ponta, e oscilou. O brilho assassino da esfera desenhava um arco, e logo ganhou a atenção de Kadu. No entanto, o balanço parou no ato, como se alguém tivesse congelado seu movimento.

    — Eu ativo a minha magia de campo — falou o mascarado, incapaz de conter a empolgação. — E condeno você ao meu próprio ritmo.

    A batalha começou.

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