— Toma, filho. Compra duas cocas pra gente.

    — Dois litros?

    — Uhum.

    Ele assentiu e se levantou da cadeira. Os parentes olharam, felizes por ele estar ali. Não esperavam que fosse comemorar a virada de ano com eles, dada a última vez.

    O garoto caminhou até o portão. O pé. A planta do pé doeu. Tirou a sandália, olhou, tocou, e nada. Uma dorzinha.

    “Esquisito.”

    Imaginação. Coisa da cabeça dele. Ignorando, voltou a andar. A rua era escura, e quase ninguém passava por ela. Assim como ele, deviam estar com a família.

    O comércio mais próximo ficava duas ruas depois da dele. Não era tão longe. Não teria problemas. No entanto, aquela coisa…

    Aquela sensação…

    Era um mal pressentimento. Algo lhe dizia para voltar, mas não deu bola. Até parece! Como se ele fosse se importar com isso! Se sentiu idiota.

    Virando a esquina, viu que não havia luz. Os postes deram defeito? Provavelmente. Supôs que os bandidos dariam uma trégua, por ser fim de ano, e seguiu caminho.

    Um erro.

    Assim que pisou na escuridão, tudo sumiu.

    Sentiu o pescoço espichar, esticar para cima. Seus braços, como se mastigados por alguém, eram esmagados e soltos num período de tempo infinitesimal.

    A dor era louca. Rápida. Veloz como nunca antes sentiu. Sua cabeça inflava, inflava, inflava… E depois secava.

    — GAAAAAAAAAAAAAAH!

    Seu grito cortou a noite, mas ele sabia. Ninguém ouviu. Enquanto era mascado feito chiclete, ele sentiu furos. Picadas. Golpes de agulhas.

    Em cada.

    Centímetro.

    Da pele.

    — AJUDA! SOCORRO!

    Por que? O que ele fez? O que estava acontecendo? Era um pesadelo? Ele queria respostas. Todo aquele sofrimento tinha que ter uma explicação…

    …Que nunca veio.

    Pois desapareceu. A dor se foi, tal como se nunca tivesse existido. Estirado no asfalto, ele viu as luzes ligando. Uma a uma.

    A brisa da noite beijou seu rosto.

    — Mas que… Mas que porra?!

    Tocou a cabeça. Tamanho normal. Apalpou o tronco, os braços e as pernas. Nada pegajoso. Nenhum sinal de sangue. Nada quebrado, aliás. Se movia sem dor.

    Como se nada tivesse acontecido…

    — Isso… Mas que merda! MERDA!

    E se levantou. Revoltado, lembrou do que tinha de fazer. Mas a surpresa veio logo.

    — Nem fu…

    Moitas ao redor. Piso de cerâmica negra. Um letreiro neon de luz verde: Paraguaio Guido. Era o mercado.

    — Como eu vim parar aqui?

    — Ué? Tu veio andando igual um zumbi. Aí do nada tu caiu e levantou. Foi, tipo, muito louco.

    Ele deu um pulo. Virando na direção da voz, viu uma garota de jaqueta preta da Lupo. Ela tinha cabelos curtos, tocando os ombros.

    — Sério, tu parecia tá dormindo. Andando lento, na maciota, o rosto sem expressão. Foi bizarro.

    — Aí eu caí?

    — Sim. Bem aqui, na minha frente. Era como se tu não me visse. Foi bizarro. É algum transtorno? Cê toma remédio?

    — Não, eu…

    — E os postes… Tava bem escuro. Sabe, eu peguei um susto fudido. Tu veio de lá — apontou para a rua atrás dele —, e eu não soube o que fazer.

    — Então… Então realmente tava escuro?

    — Um breu sinistro.

    — Certo…

    Eles ficaram se encarando. Ela, com medo dele. Ele, assustado consigo mesmo.

    — Eu até te diria o que aconteceu, mas tu não ia acreditar.

    — Relaxa, eu sinto que não quero saber.

    Ela pisou no chão, girando a ponta do sapato.

    — Doidera, né?

    — É, pois é… Eu vim comprar refri aqui no Guido.

    — Ah… Ah, sim. Vai lá.

    — Certo…

    E ele seguiu caminho. Entrou no mercado, pegou as duas cocas, foi no caixa, pagou e…

    “O que será que ela tá fazendo aqui?”

    Uma garota relativamente bonita, sozinha no ano novo. Uma cena rara de se ver. Um erro na matrix. Uma chance sem igual…

    Ela havia acabado de acender um cigarro, olhando para o céu noturno. Um brinco de prata balançava no vento. Ele, respirando fundo, se aproximou.

    — Cê tá ocupada?

    — Tô. Tô fumando.

    — Certo.

    Ele já ia passar direto, quando…

    — Idiota. Ninguém se ocupa fumando — disse ela, rindo.

    — Ah, não sei. Eu não fumo. Não sei que tipo de relação um fumante tem com um cigarro.

    — Ah, larga disso. Você ia me convidar, não ia? Anda. Termina o convite.

    — Tá. Se não estiver com nada em mente, quer passar o Ano-Novo comigo?

    — Por que não? Vamos…

    Deu certo.

    Eles caminharam lado a lado, a garota com as mãos nos bolsos. O cigarro ainda pendia no canto da boca dela, fedido como se esperava de um cigarro.

    — Mas ei…

    — O quê?

    — Vê se não tem um piripaque. Não é legal passar mal, quando se está num encontro.

    — Ah, e isso agora é um encontro?

    — Você me chamou pra ir no mesmo lugar em que toda a sua família tá reunida… Tá pulando umas etapas. Mas, sim, é um encontro.

    — Que sorte a minha!

    Ela riu, o peito chiando junto.

    — É uma honra, senhorita.

    — Realmente. É bom que se sinta honrado. Não é qualquer um que recebe um “sim” meu.

    — Lisonjeado, madame.

    Ela riu de novo.

    Estavam praticamente no portão de casa. Ela continuava conversando, animada. Ele estava surpreso. O assunto do piripaque passou feito fumaça.

    Será que foi isso? Uma loucura? Um ataque nervoso, no meio da noite? Se fosse, teria de ir no médico. Ou seria psicólogo? Psiquiatra? Não sabia. Mas se tivesse de ir, iria depois.

    Só no ano que vem…

    — — —

    Não muito longe dali, uma sombra dançava atrás de um poste. Ao contrário de outras sombras, aquela parecia respirar.

    — Arf, arf, arf…

    Ofegante, ela tentava regular a si mesma. Aquilo havia sido um teste. Cem anos de confinamento fazia efeito, agora ela sabia.

    Dominar um simples rapaz demandou um esforço descomunal. Em outros tempos, seria simples. Tão fácil quanto pisar em formigas.

    — E ainda conseguiu resistir. Vermezinho insolente… Mesmo que eu esteja fraca, não é qualquer um que sai ileso…

    E, mesmo não tendo boca, ela sorriu. Aquele garoto…

    — Ele daria um ótimo servo.

    Mas isso ficaria para outro dia.

    Enquanto ela desenhava inúmeros planos de dominar o mundo, o garoto apresentava a convidada, a garota que havia acabado de conhecer.

    Longe das maldades daquele ser de sombras, uma família se divertia.

    Feliz ano-novo!

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