Esse teu namoro tá ficando feio. Deixa logo esse sujeito...

    — Vem aqui voltar pro teu nego… — E todos cantaram juntos: — A CIDADE INTEIRA…!

    Um bando de cornos sofria num bar, em pleno dia três de janeiro. Ninguém saiu dali. A dona do bar, vendo o vozerio desafinado rasgar a noite, suspirou.

    “Ao menos tô lucrando com isso.”

    Ela também não saira dali. Óbvio que por outro motivo. Um legítimo. Um que fazia sentido: ela morava ali. Sua casa ficava no segundo andar.

    Enquanto secava um copo, um rosto apareceu. Não fisicamente, claro. Foi em pensamento.

    “Até parece…”

    Aquele cara não bebia. Tinha raiva do álcool. Pai alcoólatra, mãe pinguça. Briga a noite toda, o som de garrafas quebrando, gritos e choro.

    “Mas bem que ele podia, né?”

    Ela meio que esperava. Meio que gostava dele. Não um amor pesado, desses de fazer suspirar, perder o sono. Não, nada disso. Ela só queria funfar¹ com ele.

    Mas o cara era uma porta. Muito bom em tudo, menos com mulheres. Não percebia a cantada mais óbvia, nem a maior das indiretas.

    Ainda assim, o número de garotas afim dele não era desprezível. Não era o mais bonito, e nem precisava ser. Era o cara mais legal da escola.

    Não era um contador de piadas, mas todos riam das sacadas que ele tinha. Curtiam suas pedradas filosóficas aleatórias.

    Um bom ouvinte. Sempre tinha o que dizer.

    “Um cara muito foda.”

    Mas ele nunca foi de dar bola pra ela. Se viam nos corredores, se cumprimentando por reflexo. Nada muito relevante.

    Faziam dois anos desde o baile de formatura. Daquela noite em que ela dançou com ele. Engraçado, não? Mesmo não sendo amigos de fato, foi com ela que ele decidiu vir à festa.

    — Sabe como é. Você fica comigo e os meus pais na mesa, tiramos fotos, comemos bolo e dançamos. Vai ser divertido. O que acha? — Foi o que ele disse.

    — Acho uma boa ideia…

    E parou de enxugar.

    Essa resposta. Ela nunca se perdoou por ter dito algo assim, tão besta. Tão bobo. A chance de ouro, uma em um milhão, desperdiçada. Despedaçada em mil pedaços.

    Se ele pensou que ela achou normal, um convite de um amigo pro outro, ela não julgaria. Sua esperança de ser cotada como pretendente havia morrido.

    E no presente…

    — Sozinha.

    Pelo segundo ano consecutivo. Uma mulher jovem, relativamente bonita e solteira. Mesmo que não se importasse com o discurso tradicionalista de sua mãe, ela, no fundo, sentia uma pontada de solidão.

    “Eu devia esquecer esse cara.”

    Faria bem. No entanto, mesmo sabendo disso, ela esperava, como quem aguarda um milagre. Como um enfermo espera a cura.

    No auge de suas loucuras, em seus sonhos, ela via o rapaz montado num cavalo, feito um príncipe. Ou um cavaleiro. E ela, a princesa. A dama.

    Se beijos desfizessem o feitiço da autosabotagem e fracasso aparente, ela queria um. Dois, na verdade. Três beijos no seriam ruins.

    Mas era óbvio. Era claro como o dia que ele não ia aparecer ali. Talvez estivesse viajando. Ou se mandado de vez, quem sabe?

    Era óbvio que ele não viria num cavalo. Para quê cavalos, se a modernidade trouxe a bis?

    Ela não podia acreditar.

    Ao invés de esfregar o copo, ela passou na cara. Amassou o pano no olho. Não era possível. Tinha que ser ilusão.

    Socado num moletom térmico preto, camisa verde por baixo, calça bege e tênis branco, o rapaz desceu da moto. Cruzou as mesas, ainda com o capacete em mãos.

    Cabelos negros com a noite, olhar tímido e sorriso nervoso. Era ele.

    — William de Souza Pinheiro?

    — Sim, Sara de Rocha Bittencourt. Sou eu. Não sabia que você lia Dostoiévski.

    — Doutor o quê?

    — Você não entenderia. Escuta… — Ele olhou para frente, mas não para ela. — Você tá linda essa noite…

    Ela sentiu uma interrogação no fim da frase, mas sorriu. Será? Será que ele veio por ela?

    — Digo, não só nessa, claro. Você devia estar linda em todas as outras. Digo, de dia também, naturalmente. Linda em todas as manhãs. Ah, bem, nas tardes também. E… e nas madrugadas, claro. Puxa vida! Eu… Eu devia ter parado no início, né?

    — Sim. Eu gostei do elogio. Você se enrolou bacana… Mas não faz mal.

    — Não?

    — Não. Se fosse diferente, não seria você.

    — Ah, certo…

    E ele continuou olhando, ansioso. Mas não para ela. Era estranho. Mesmo que não houvesse nada além dela em seu campo de visão, ele ainda assim parecia ver outra coisa.

    Depois de ter decidido algo, ele disse:

    — Sabe… você tá linda.

    — Você já me falou.

    — É, mas… Esse brinco… Foi o que eu fiz, né? Com a paradinha da latinha de coca…

    Ele apontou para ela. Para a orelha. Ela, surpresa, tocou o rosto. Ele lembrava disso? Não, estava brincando. Tinha de estar.

    — Foi no dia que te convidei ao baile, né? No almoço, quando todo mundo tava no auditório…

    — E só a gente ficou na cantina — completou ela, rindo.

    — Sim. Eu tava bebendo Coca. Quando abri, a coisinha lá… A que ajuda abrir, sabe? Ela caiu dentro da lata.

    — Aí você bebeu com medo.

    Ela riu. Lembrava como se fosse ontem.

    — De pouco em pouco, como se fosse chá.

    — Ei, mas foi um sufoco, tá? Imagina se você engole aquilo? Era pronto socorro na hora.

    — Eu ficaria preocupada, mas seria engraçado.

    — Eu sei, mas…

    De novo. Ele olhou para ela outra vez, e sem vê-la, como antes. Viu que ele engoliu saliva.

    — … Não foi pra isso que eu vim.

    — Ah, não?

    — Não, eu… Bem, eu… Eeeeeh… Eu quero que você acabe…

    — Acabar? Acabar com o quê?

    — A minha solidão.

    Quero que você acabe com a minha solidão.

    Direto, não? Deprê demais para um príncipe. No entanto, ela sorriu. Era real. Queria pular de alegria. As palavras que ela sempre quis ouvir…

    Ele as disse!

    — Eu quero passar a noite com você — disse ele, furiosamente vermelho.

    — Sério? Mas aonde? Tem muito lugar para pernoitar

    Ela riu, o termo dançando no ar, feito um tempero bem dosado. Um tiro certeiro. Bem na mosca!

    — Você precisa ser mais direto, William…

    — No lugar mais seguro que você tiver — falou o rapaz, como se estivesse lendo.

    — Mais seguro…?

    — O seu quarto, por exemplo…

    Foi a vez dela de corar.

    — Digo, bem, eu…

    — Não, não, eu entendi. Entendi perfeitamente. Mas você… Nossa! Desde quando você é tão direto?

    — Eu só… É algo que eu queria. Tipo, muito.

    — Sério…? — perguntou ela, enrolando um fio de cabelo no dedo.

    — Sim. Eu… Sério? Ah, ah! Ah, sim. Sério. Sério mesmo. Muito sério.

    — Eu não sabia…

    Ambos tinham uma expressão de “e agora?”.

    — Já que é mútuo, você… Aqui — Ela apontou para a direita. — Tem uma porta. Entra, e me segue.

    Ele passou pelo balcão, quase tropeçando, passou pela lateral e girou a maçaneta. Ao entrar, ele topou com a moça. Camisa larga, coque malfeito e bermuda jeans.

    — As escadas tão atrás de mim. Vem logo…

    E subiram. Um corredor surgiu no campo de visão, e eles o cruzaram bem rápido. Na porta do quarto dela, os dois pararam.

    — Só me responde uma coisa.

    — Certo… Diga.

    — Você gosta… — E se virou para ele, os olhos brilhantes. — Você gosta de mim, né?

    — Muito.

    — O convite pro baile, dois anos atrás…

    — Eu queria me confessar.

    — A testada durante a dança…

    — Queria te beijar. E não deu certo, né?

    — Haha, não.

    Ela estava muito feliz. Quase saltou de alegria.

    — Mas você pode tentar de novo.

    — Posso?

    — Sim. Muitas vezes.

    — Quantas?

    — Quantas eu quiser que você tente.

    Eles se entreolharam.

    — O que foi?

    — Nada, eu só… Sei lá, queria ter feito antes.

    Ela abriu a porta.

    — Tipo, beeeem antes…

    — Então faça agora.

    E o empurrou para dentro do quarto.

    Naquela noite, enquanto os bêbados cantavam cornisses e platonismos, e o autor, que vos fala, mal sabe finalizar um conto, a vontade de duas pessoas se cumpriu.

    O rapaz que não tinha coragem, tentou. A moça que esperava, obteve. Não era todo dia que isso acontecia. O universo nunca foi tão gentil assim.

    Mas, com aqueles dois, ele decidiu ser.

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