Capítulo 22: Quadro-Contos
Eu subi as escadas. Eram de mármore. Quarenta passos. Cruzei a entrada, passando por entre as colunas jônicas. Quando passei pelo portão, lá estavam eles, os Quadro-Contos. Vi que haviam muitos, milhares deles. Eram quadros. Sim, retratos, mas não de rostos. Nem de paisagens, nem de natureza morta.
Mas de palavras.
É, isto é uma porta,
Palavras-compostas
Alinhadas, se postas Isso era para
E tortas, sobreportas Ser Um
Que você vê, sim Vidro de janela
Mas não entende se
São versos, estrofes
De um doido poema
Ou uma tentativa vaga de fazer sentido.
Os quadros eram assim. Um Museu de Quadr-Contos, afinal de contas.
Tinha uma
Escada
De palavras
Que formavam
Uma frase sem algum
Real significado, dispostas
De tal maneira, de tal forma que
Lembravam uma escada que dava para
O nada. O vazio que reside na tentativa de inovar.
Era meio deprimente, confesso. Arte moderna? Concretismo? Não sei. Era como se fosse uma exposição dos primeiros trabalhos de um maluco.
M
U
L H E
R
P
E
I X E
O nome desse era “Sereia”, eu acho.
Arma (cano) Fogo
De
Balancei a cabeça. “Que merda”, pensei. “Que bosta. Grande bosta. É sério que o governo investe nisso? Meu Deus! É por isso que a gente tá mal. Olha essa porra!”
— Que se foda…
Mal entrei, dei meia-volta. Saí do museu.
Tirei o celular do bolso. Vinte e cinco porcento. Sinal fraco. Era mais um dia de merda, como todos tinham sido. E ainda era 8 de janeiro. Eu só queria me divertir. Passei a noite passada terminando um relatório. Acordei com a cabeça latejando, e uma falta de ar tomando conta do meu peito.
Por que eu fui ao museu?
Ah, sim. Lembrei. Foi por causa de um amigo. Ele me disse que ia ter uma exposição, uma sessão nova nele. Uma ala só de histórias reais, penduradas em retratos nas paredes. Achei interessante. Conceitual, até. Disse que era o tal Museu de Quadro-Contos.
O que vi, no entanto, foi chato. Uma piada. Esperava mais. Eram apenas metalinguagens mal-feitas. Uma tentativa de vôo intelectual de um idiota, provavelmente um estudante de humanas imbecil. Eu também era um, inclusive. Conheço meu gado.
Andei a esmo. Todos passavam por mim. Homens, mulheres e crianças. Cachorros aqui e ali. Todos velozes, todos apressados, com algum destino em mente. Um lugar para ir. Eu, porém, não tinha ideia. Ia aonde iam os meus pés.
Me senti tolo. Que vida era essa? Aposto que era desperdício. Pensei nos enfermos, nos mortos, nas crianças em situação de rua e idosos esquecidos. Tanta gente querendo andar, como eu; tanta gente querendo viver de verdade, e eu ali, deprimido. Triste, sem motivo real ou aparente.
Isso me frustrava.
Sinto que procurava alguma coisa. Todos estávamos. Eu, a moça de vestido evangélico, o senhor barbudo com o carrinho de pipoca, todos queriamos encontrar. Ansiávamos pela vida, por um sentido. Um significado. Alguma coisa que faça valer a pena.
Esquecendo a asma, o astigmatismo e a depressão, eu era bom de saúde. Tinha dois braços e pernas funcionais, um repertório acadêmico legal e certa extroversão. Isso deveria bastar, ou assim pensava. Parei no meio do caminho, ainda perto das escadas do museu.
Eu nem tinha visto a tal sessão que o meu amigo falou.
Não gostava de como as coisas andavam. Tudo parecia vago. Nada empolgante acontecia. Nenhuma garota caindo do céu, nenhum dinheiro na rua. Nenhum amigo de anos atrás voltando de repente, me chamando para uma aventura. Nenhum cientista maluco me oferecendo um emprego suspeito.
Queria que alguma coisa acontecesse.
É quase como se eu fosse a Lois Lane, sabe? Esperando o Superman me salvar. Me salvar desse lugar, dessa monotonia. Queria que uma Margot Robie surgisse do além, dizendo que queria o meu número e me chamar pra sair. Ou que um Jack Sparrow batesse na minha porta, me recrutando para uma viagem suicida de tão perigosa que ia ser.
Se super-heróis existissem, queria ser salvo da rotina.
Mas a verdade era dura. Nada ia acontecer. Nenhum vento bateria no meu rosto, revirando minha vida do avesso. A vida não era filme. E eu era tão necessitado dessas coisas, dessas emoções fúteis e ligeiras, que aceitava tudo. Desde reprises de filmes no cinema, passando por shows de bandas que eu nunca ouvi falar, até um museu de quadros que são biografias, contos da vida privada de gente aleatória.
Não me entenda errado. Eu não era um desempregado. Mesmo sendo um estudante, eu ganhava dinheiro com projetos. Não era um vagabundo. Mas essa coisa, esse mal, me acometia. Essa coisa que começa com T, e não termina com “são”.
Tédio.
E isso me fazia pensar. Me fez lembrar de um sonho antigo. Meio delírio de escritor. Queria fazer sagas longas, cheias de furos de roteiro e romances resolvidos no último volume. Mas eu não era criativo, tampouco paciente. Não ia aguentar escrever sobre os mesmos personagens, por mais de uma década.
Minha vida também não era interessante. Biografias? Fora de cogitação. Talvez fosse por isso, sabe, que os famosos pagam para fazerem elas. A vida deles é empolgante. Vale a pena escrever. Não apenas por serem talentosos, viajados e malucos, mas por uma razão bem simples…
E irritante.
Dinheiro. Eles tinham dinheiro, simples assim. Podiam ir pra Nova Zelândia, pro Japão, pra China, Austrália, Rússia, Maldivas. E eu? Que podia eu, Luan? Que nunca saí do Amazonas, sequer dei um passo para fora de Manaus?
Eu, que parei no tempo? Meu rádio morre em 2010. As músicas mais recentes que ouvia, e ouço até hoje, eram de 2017. E nem eram minhas favoritas. Os filmes que eu via? Mesma coisa. As animações? Eu era do tipo de pessoa que dizia que a Cartoon morreu quando Hora de Aventura acabou.
Quadro-Contos?
Eu nunca ia saber sobre o que eram. Se eram livros pendurados nas paredes, como retratos comuns, sobre a vida das pessoas, pouco me importava. De verdade. Se fossem biografias, deviam ser de gente famosa. E até isso já tinha saturado.
Voltei para casa, botei uma jarra para fever e deitei.
“Café sempre me anima.”
Ou impede que eu durma.
“O que eu faria o dia inteiro, se pudesse.”
E eu podia.
“É triste.”
E como um bom idiota, eu não sabia parar de pensar. Pus os fones, rolei pela tela e pousei o dedo. Madonna. Sei lá, senti que seria legal. O True Blue era bom, sabia? E olhei para o canto, onde ficava minha mesa. O notebook, com a tela preta, me olhou de volta.
Pensei no texto.
“É foda.”
Não sabia terminar, nem onde chegar com isso.
“É só burocracia.”
Obrigação.
“Um prazo a ser cumprido.”
Mas a preguiça era maior. Tudo era maçante. Chato demais.
“Que se dane.”
Desliguei, deitei de lado e fechei os olhos. Não durmir.
“Não posso.”
Não pude.
“Não quero.”
Não consigo.

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