Escrito em co-autoria com TheHandcrusher.

    Nos antigos tempos mitológicos, o mundo era regido pelos Elementais. Nos mares, Hidros era o grande imperador. Piro, o espírito do fogo, regia tudo que havia sobre a terra. Geo, das rochas, o que havia abaixo; Aero, do vento, a vastidão do céu.

    Dizem que eles combinavam forças, sempre que a paz na Terra era ameaçada. Fossem guerreiros vindos do infinito, ou bestas do submundo, os Elementais vinham detê-los. Eles fecundavam a humanidade, e jovens guerreiros, munidos com seus poderes, iam lutar.

    E os escolhidos nasciam todos ao mesmo tempo. Sim, isso mesmo. Os mitos contam que, a cada dois séculos, estrelas brilham no céu, exatamente onde ficam os seus berços. Uma, no entanto, queimava como o sol. A estrela de Phila, a Sacerdotisa Elemental, a mulher com o dever de guiá-los.

    Visto que esses guerreiros, quando jovens, nada sabem de seus deveres, a vida, antes do encontro com Phila, é um tormento. Falta de propósito e ânimo marca seus corações, pois Phila é a única capaz de acordar os Elementais que vivem neles.

    E esse ato de despertar, contavam os mitos, é a Benção do Elemento.

    — Você entendeu, Maria?

    Se ela entendeu? A garota, de cabeça contra o tampo da mesa, dormia um sono leve.

    — Maria! Ei, Maria! Que diabos… de onde vem esse sono todo?

    — Ai, vovô… — Ela esfregou os olinhos, a voz quase gutural. — São cinco da manhã. Ninguém acorda a essa hora, sabia?

    E deitou de novo, ajeitando o rosto entre os braços.

    — Só mais cinco minutinhos…

    — Você escutou o que falei? É de máxima importância que você…

    — Que eu o quê? Ouça essa historinha? Vovô, eu tenho treze anos. Eu não gosto mais de contos de fadas — E fez um gesto de abanar com a mão.

    — Isso não é um conto de fadas, Maria.

    — Ah, é mesmo? O senhor quer que eu acredite nisso? Quer que eu pense que isso é verdade, assim como… — Olhou para trás, apertando os olhos. — Assim como o Furta-Cor?

    Falou do anel atrás dela, pendurado sobre um ganchinho de ferro, bem no meio da parede.

    — O Furta-cor é real, garota.

    — Então me mostra, vovô — pediu ela, sonolenta. — O senhor gosta de contar histórias, só isso. Eu também gosto. Mas acordar cedo para isso…

    — Tem um anel atrás de você, Maria.

    — Sim, sim, tem um anel. Um anel que só dá pra ver ao meio-dia, quando se estende o punho ao sol — falou ela, debochando. — É. É real, sim. Com certeza.

    — Você só precisa acreditar…

    — Vou lembrar disso, quando precisar da fórmula de baskhara.

    O avô soltou o ar pelo nariz, relaxando os ombros. Aquela garota… desde quando ela era assim? Quando mais nova, ele lembrou, fazia questão de lhe ouvir. Ansiava por outras histórias, outras lendas. Mitos novos. Ele, como herdeiro do Templo Naos, sabia de um monte deles.

    Pré-adolescência, que fase mais difícil!

    — Mais importante, Maria. Por que está com tanto sono? — E analisou o rosto dela, especialmente as olheiras.

    — Porque alguém me acordou pra falar bobagem, vovô.

    — É o celular, não é? Passa a noite com ele. O que tanto você faz nele?

    — Ah, vovô, o que todo mundo faz.

    Seus lábios idosos enrijeceram.

    — O senhor não tem que…

    — O que todo mundo faz no celular, Maria?

    — Muita coisa. Jogar, entrar no facebook, no insta, no zap… ver vídeo no youtube, lives na twitch. Ver anime, ler mangá, light novel. Filmes, séries e…

    — Chega, eu entendi. Mas é isso? É isso que você passa horas vendo?

    Ela coçou a cabeça. Queria dormir. Queria sua cama e o calor de volta. No entanto, o avô não ficaria satisfeito. Não com uma resposta simples.

    — Maria?

    — Não faço tudo isso, mas… sim, eu diria.

    — A noite toda? — pressionou.

    — Não, vovô, a noite toda… a noite toda? Não, não, nada disso.

    — Tem certeza? E esse sono? E essa preguiça? Eu, na sua idade, estaria pintando o sete por aí.

    Foi a vez dela de suspirar. Toda vez era isso, esse mesmo argumento.

    — Eu tinha mais energia.

    — O senhor, vovô. O senhor tinha. Eu, não. As pessoas são diferentes, sabia?

    — Vou começar a desligar o wi-fi. É, é isso que vou fazer.

    “Era só o que me faltava…”

    Para Maria, não podia ser pior.

    ———

    — Meu Deus, que horror? Mas ele falou quando vai fazer isso?

    — Não, ele não falou. Ficou repetindo o discurso. Disse que preciso me importar mais com o templo, com o mundo espiritual.

    — O seu avô, quem ele pensa que é? O pai do Hamlet?

    Há mais entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia.

    — Isso é ditadura, Maria! — falou Júlia, terminando o suco de caixinha. — Você devia se impor!

    — Mas, assim… de certa forma, ele meio que tem razão.

    — É? Onde? Eu só vejo um velho caduco.

    Maria riu. Júlia sempre conseguia animá-la. Talvez por isso eram amigas, ela pensou.

    — Não vá me dizer que você acredita em bobagens, Maria!

    — Não, não — falou ela, balançando as mãos. — Eu não acredito.

    — Eu acho bom.

    — Eu quis dizer… bem, tem muita coisa que eu queria saber. Essas dúvidas, essas perguntas que nunca fiz. Eu sempre quis saber…

    — Do quê…? Dos seus pais?

    E Maria fechou a boca. Na mosca. Júlia era perspicaz, tão certeira que doía.

    — Eles nunca…

    — Sim, eles nunca voltaram. Eu nem sei quem eles são. Vovô disse que não tem fotos deles, pois todas pegaram fogo.

    — O Incêndio do Templo, né?

    — Sim, aquele de treze anos atrás.

    Júlia franziu a testa.

    — Treze anos atrás…

    — Quando você nasceu — apontou a garota, coçando o queixo. — Não é estranho? É muito…

    — Conveniente?

    — Sim. Conveniente. Perfeito demais. Há treze anos… não é como se não existisse celular, né? Eles deviam ter uns Nokias, pelo menos. Deviam usar Orkut…

    — O problema é que eu nem sei o nome deles.

    A amiga coçou a cabeça.

    — Nem as iniciais…

    — Ele nunca te falou, né? Isso é mais estranho ainda.

    — Eu sei. O vovô é cheio de mistérios. Às vezes… — Ela se apoiou no parapeito da janela, vendo o campo de futebol. — Às vezes, eu tenho a impressão de que ele mente. Sempre que falo dos meus pais… ele sempre caduca.

    — Sim, sim. Eu mesma vi. Perguntei uma vez, quando estava lá. Você tinha ido pegar a pizza, e eu perguntei dele. O velho começou a falar do tempo. Que ia chover, cair granizo.

    Elas abanaram as cabeças. De que adiantava falar do velho? Era inútil. Sabiam que ele não ia confessar. Talvez ele quisesse que fosse assim, que Maria não deveria saber. Não precisava.

    — Mas essa história…

    — Os Elementais?

    — Sim… — Júlia pegou o celular, abrindo o navegador. — Ele disse que estrelas apareciam, né? Quando esses caras nascem.

    — Foi. E tudo ao mesmo tempo, em um fenômeno cíclico.

    Um ciclo de duzentos anos.

    — Tudo balela.

    — Talvez, mas… — Com uma expressão difícil, Júlia mostrou a tela. — Estrelas. A Estrelas Pneumas da Constelação de Arché. Uma constelação que surge a cada duzentos anos, observada desde os tempos babilônicos…

    Era o assunto da manchete.

    — Tudo grego, ao que parece. Pneuma, “espírito”.

    — Arché, “origem”…

    E cinco estrelas menores.

    — Geo, Hidro, Piro, Aero…

    — E Aether… — murmurou Júlia. — Hah! É isso, então. Foi isso que o seu velho deve ter visto.

    — Você acha que ele viu essa manchete?

    — Só pode ser isso. O quê? Você queria um bando de garotos com poderes?

    — Não, eu só… Por que ele faria isso? Mentir assim…

    Ela olhou para o céu, visualizando o rosto do avô.

    — Eu não entendo.

    — É um velho, Maria. Um velho caduca. Eles são desse jeito — E puxou a manga da garota. — Bora, anda! A gente tem que merendar. Hoje é almôndega.

    — Putz. O Júlio Gordo vai acabar, se não formos logo!

    E saíram correndo, risonhas. Maria, no entanto, se repreendia em pensamentos. Seu avô era contador de histórias, não um mentiroso. Talvez ele quisesse ser divertido.

    “Talvez se sinta solitário…”

    Com isso, ela pensou:

    “Vou passar mais tempo com ele.”

    Era isso que ia fazer, enquanto o Éter não chamava…

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