Esse conto foi trabalhoso, espero que gostem!
Capítulo 24: Confissão.
Quarto escuro. O sol entrava pelas persianas, todo tímido. O riff de Rocks Off era o alarme, reboando feito louco. Quem visse de longe, diria que havia uma lagarta na cama. No entanto, era só um garoto enrolado em seus lençóis.
Ele não ia levantar. Não tinha a mínima intenção de levantar. Acordar para quê? Não havia nada de bom naquele dia. Era só uma terça-feira, dessas sem importância. Ninguém ia notar se ele faltasse, há muito tempo seus pais deixaram de se importar.
Bam! Ignorando a melancolia, a porta abriu. Escancarou. Passos firmes e pesados cruzaram o portal, indo em direção à cama. Já esperando por isso, o garoto sentiu mãos enormes o chacoalharem feito um boneco inflável.
Era o seu irmão.
— Vambora, campeão! Tá na hora de vencer!
Vencer o quê? O leão do dia? Se houvesse, mesmo, um leão para matar, queria que fosse morto por ele.
— Anda, Túlio! Qualé, mano! Vai ficar aí, virando fungo?
— Fungo? Talvez… — murmurou Túlio, sonolento. — O que foi? Tá animado demais pruma terça-feira…
— Tchi, tchi, tchi — com estalos da língua, o irmão sorriu. — Não é uma terça-feira, Túlio. É a senhora Terça-Feira. A melhor terça-feira do mês! Não, do ano!
Tinha que admitir, ele chamou a atenção.
— Você não vai querer perder essa chance…
— Chance de quê? — indagou Túlio, tirando o lençol do rosto.
— Ué, tu realmente não sabe? Caramba, quando eu tinha a sua idade, eu contava os dias para esse dia chegar!
— Que dia, cara?
O mais velho riu.
— Que o macaco de deu bom-dia! Pô, se manca! Dos namorados, cara, dia dos namorados! — E ergueu o punho para o alto, ardendo de alegria. —O amor está no ar! Os corações pulsam na mão! Quem será que dirá primeiro? Quem vai sair chorando, quem vai sair rindo?
— Eu, provavelmente — respondeu Túlio, voltando a se esconder com o pano. — Mais um motivo pra não ir.
As mãos do mais velho pararam no ar. Ficou numa pose engraçada, como se comemorasse um gol. Ele franziu a testa, reparando no que o caçula disse.
— Vou faltar.
— Ué, por que? Tà sadboy, agora?
— Não, eu… eu… — E pensou um pouco. Dizer ou não dizer, eis a questão! — Nada, esquece.
O mais velho subiu na cama, virando o garoto para que pudesse vê-lo.
— Esquece, Téo. Esquece.
— Não, agora você tem que me dizer!
— Eu não quero ver ela, pô, só isso. Eu não tenho coragem. Meu coração vai doer, vou ficar lá, igual um mané, vendo os caras se declararem e tal…
Era isso. O raio da compreensão queimou a mente de Téo.
— Aí eu vou…
— Uma garota, é? Uma garota? Uma garota linda de morrer — Se fosse possível, diria que ele sorriu feito o gato de Cheshire. — Você gosta dela.
— Pra cacete.
— Uma garota popular. Boa nos esportes, boa no estudos, sabe onde fica a Jamaica e a capital da Croácia.
— Exato.
— Quando passa, o mundo repara. Se aparece, todos vêem. Se falta, você nota. Entendo.
Ele saiu de cima do irmão, levando a mão ao queixo.
— A garota que todos gostam.
— Ela mesmo… — falou Túlio, sonhador.
— Você é bem clichê. Tem certeza que é meu irmão?
“Eu me faço a mesma pergunta”, pensou o garoto.
— Olha, eu não te julgo. Eu também tive medo. A primeira garota é sempre a mais difícil.
— Sério? — Ele se levantou, genuinamente interessado.
— Sério. Ela era bem fria. Fria tipo tempestade, sabe? Eu gostava disso. Sabia que ia levar um fora.
— E você foi mesmo assim?
— Fui.
Ele era doido? Ah, verdade, era o Téo. Claro que era doido.
— Eu fui, mesmo sabendo o resultado.
— Mas por que?
— Porque é isso que os homens fazem, Túlio — falou ele, o ânimo renovado. Fogo queimava em seus olhos. — Homens são criaturas muito simples, Túlio, meu irmão. Todos fazemos o que temos de fazer, ainda que saibamos que vai dar errado.
— Isso não faz sentido.
E o mais velho concordou.
— Se você sabia, por que ainda foi?
— Porque foi preciso. Se eu não fizesse nada, o único “não” que eu ouviria era o da minha própria cabeça — falou ele, coçando a nuca. — Acredite em mim, é um inferno. A indecisão é pior do que a escolha errada.
— Não vejo como isso é verdade! — protestou o garoto.
— É exatamente por isso que você deve ir — O mais velho o tirou da cama, pondo-o de pé. — O não você já tem, vá atrás da humilhação.
Túlio respirou fundo.
“É sério isso?”
— Você precisa ir.
— Mas ela vai recusar — disse o garoto, pesaroso. — Vai me rejeitar. Vai dizer não, com certeza…
— Você nunca vai saber, se não for.
Com isso, Téo o deixou sozinho. Antes de sair, deu um último joinha de motivação.
“Droga!”
Ele odiava admitir, mas Téo tinha razão. Era muito ruim. Era horrível. Era terrível não ouvir a resposta dela. Se ele recebesse logo o “não”, ficaria bem. Seria doloroso, mas passaria com o tempo. Seria melhor do que regar essa falsa esperança no peito.
Ele tinha que ir.
———
Ele saiu do quarto, foi para o banheiro e tomou um banho. Enquanto esfregava o shampoo (que raramente usava) no cabelo, pensou no seu discurso. Deveria ser direto? Faria uma carta? Uma serenata? Não sabia. Resolveria isso na hora. Ele era bom no improviso.
Tinha deixado a farda em cima da caixa do vaso, pois tinha vergonha de voltar de toalha para o quarto. Tinha um bom motivo. Da última vez que fez isso, as amigas da mãe dele estavam no corredor, e a toalha caiu enquanto ele as cumprimentava.
Foi meio traumático.
Balançando a cabeça, riu de si mesmo no espelho. Por que lembrou disso? Talvez porque faria algo bem mais vergonhoso que ser visto nu. Ele teria de ser honesto. Desnudaria o coração.
“Eu sou meio dramático, né?”
Você é jovem, rapaz. Jovens são dramáticos.
“Cara, essa espinha no meu queixo… merda! Meu cabelo tá grande pra cacete. Não vai dar tempo de cortar. Essas olheiras… velho, e esse vão entre os dentes da frente? Que cara de nerd! Ah, não, eu tô ferrado. Eu tô muito ferrado.”
Eu vou ser morto!
Ele queria enterrar o rosto na areia.
“Tomara que eu seja menos feio, na próxima encarnação. Isso se eu não for uma barata…”
E suspirou. Deixando os devaneios kafkianos de lado, saiu do banheiro. Estava com a farda do colégio. Camisa e calças azul-escuros, com o brasão da escola no peito. Seus tênis, uns all-stars surrados, já viram dias melhores. Ele atravessou o corredor, e parou na cozinha.
Téo estava sozinho, mordiscando um pão de forma com mortadela.
— Probo-pra-babalha? — indagou, a boca cheia. — Pronto pra batalha?
— Nasci pronto.
— É assim que se fala! — E engoliu o pão, empurrando goela abaixo com o café. — Olha, me agradeça, mas só depois.
— Por que?
Vou te dar uma mãozinha, foi o que ele disse. Téo cruzou o cômodo, parou diante da geladeira, e fuçou em cima dela. Remexeu tudo que estava lá, deixando cair potes e tralhas, até que pareceu encontrar o que queria. Depois, voltou pra mesa e pôs a coisa na superfície.
Como nos filmes, ele fez o objeto deslizar pelo tampo. Túlio pegou e olhou para Téo.
— O que é isso?
— Floricultura Rosalina. Desconto de 50% em buquês de rosa — disse ele, orgulhoso. — “Compre e veja a magia acontecer!”
— Pô, valeu, mas… — deu um sorriso amarelo, — Eu não tenho dinheiro.
— Não seja por isso.
Uma nota de cinquenta reais patinou até o garoto.
— Compre e se confesse.
— Por que você tá me ajudando?
— Porque eu sou teu irmão — disse ele, como se fosse óbvio. — Não perca tempo! Pega um pão e sai correndo! Se você demorar, vão fazer fila e você ainda vai se atrasar pra escola!
— Tá bom, tô indo — cumpriu a ordem, e correu para fora. — Valeu!
Faça o que tem de ser feito, desejou Téo.
A porta se fechou com um estrondo. Lá fora, o sol ainda era tímido, quando Túlio pisou na calçada. Seus passos, apressados, chutavam o concreto. Com o cartão da floricultura na mão, e o dinheiro no bolso, nada podia pará-lo. Nada, exceto uma coisa.
“Minha bolsa!”
Na pressa de se arrumar e tomar café, esqueceu a coitada no chão do quarto. Mas era tarde demais. Já estava longe, bem longe de casa, depois de correr tanto. Teria de ir assim mesmo. Não era a primeira vez, então ninguém se importaria.
“Não faz mal.”
Não demorou muito, e logo viu a placa diante da lojinha. Nunca havia reparado. Ficava na passada do colégio, e ele nunca tinha percebido. No entanto…
— Ele roubou minha bolsa! Pega ladrão, pega ladrão!
Os motociclistas, os carros e até os passageiros de um micro-ônibus pararam para ver. Uma senhora, do outro lado da rua, berrava para um sujeito magricelo. O meliante correu em disparada, carregando a tal bolsinha. Ninguém fez menção de agir.
Mas aquele dia era diferente, e Túlio se sentiu estranho. Nem percebeu quando começou a perseguir o ladrão. Seus tênis cantavam pela calçada, e o bandido olhava para trás, temendo a proximidade entre os dois. Túlio era rápido. Um dos melhores alunos na corrida de 100 metros.
Coisas como “por que estou fazendo isso?”, “fiquei doido?!”, passaram pela mente do garoto, mas não podia parar. Já estava quase alcançando. Percebendo a esquina se aproximando deles, temeu que fosse perder o bandido.
Por sorte, por muita sorte mesmo, pintou uma chance.
“É isso!”
No milésimo de segundo restante, ele agarrou uma lixeira de lata. A tampa voou com o vento. Acelerando o passo, ele ficou lado a lado com o ladrão. Antes que o meliante entendesse qualquer coisa, sua visão ficou escura e ele caiu.
A bolsa escapou, caindo perigosamente perto de um bueiro. Túlio pegou-a, ofegante, e levou as mãos aos joelhos. Mal podia acreditar no que fez. Impediu um roubo!
“Nem ferrando.”
Palmas vieram de todos os lados, e assobios atravessaram a rua. Um grupo se reuniu ao redor do meliante, impedindo que ele fugisse. A senhorinha, alegre, veio agradecer.
— Meu filho, você é um amor! Ai, que bom que você apareceu! Meus documentos, meu celular, tudo está nessa bolsa! — E deu um abraço de estalar os ossos. — Você me salvou! Muito obrigada!
— Tudo bem, senhora, tudo bem…
Ele viu as horas, de relance, pelo relógio da senhora. 7:15. Quinze minutos atrasado. Se tivesse sorte, poderia pular o muro. Porém…
“O buquê, meu Deus! O buquê… eu nem consegui comprar.”
Era isso. Não ia ter como. Ele não ia se declarar. Se não corresse, algo pior do que uma rejeição cairia no colo dele. Devia se apressar e ir pra escola…
— Foi muito corajoso — disse uma voz meiga, vinda de trás dele. — Você foi o máximo.
A senhorinha largou Túlio, e o garoto pôde ver quem falou com ele. Era uma moça ruiva, um pouco mais alta que ele. Ela tinha um avental florido, rosto anguloso e olhos gentis.
— Toma — disse ela, entregando um embrulho branco. — Por conta da casa!
Era um buquê!
— Sério, pode ficar.
— Moça, eu… eu nem sei como agradecer.
— Me adciona no insta — Ela sorriu, piscando para ele. — Vou mandar reels pra ti.
— Be-beleza.
Ele pegou as flores, sorriu e saiu correndo. Vocês não sabem, mas ele ia demorar muito. Muito, muito mesmo, pra entender o que ela quis dizer. Não se preocupem, ele não vai decepcioná-los.
“Partiu escola!”
———
Ele realmente teve que pular o muro. O vigia fingiu que não viu, deixando que ele entrasse. A escola era dividida em dois prédios: o principal, com a sala dos professores, a biblioteca e a diretoria, e o segundo, descendo o corredor, com as salas de aula.
Descendo o corredor, ele viu uma cena banal, de tanto que já tinha visto.
— Batista, Batistinha… — A voz enjoada chegou aos ouvidos de Túlio. — Eu não disse pra manter essa sua cara longe de mim?
— Mas, mas você que olhou pra mim! — respondeu outra voz, a que o garoto nem precisou reconhecer.
— Ah, é? Matos, Campos!
Dois brutamontes corcundas, vindos do banheiro, apareceram.
— Matos, Campos! Matos… Campos? O que foi? Tô chamando vocês!
— Chefe… — murmurou o de cabelo de cuia. — Tem gente vendo.
O garoto de voz enjoada se virou para eles, depois para o corredor central. No alto dele, Túlio assistia a cena com certa repugnância. O enjoado riu.
— A gente espera ele ir pra sala?
— Campos, é só o Rosário. Ele não vai fazer nada.
Túlio, que se sentia estranho, apertou o punho.
— Ele não vai…
— Tem certeza? — perguntou o garoto, balançando o buquê. Era como se tivesse uma espada.
— Claro! Ou você quer pagar de herói?
“Eu sou a porra de um herói, moleque!”
— Matos, Campos! Acabem com ele!
—É pra já! — responderam eles, em uníssono.
O garoto chamado Matos, e o gêmeo Campos, avançaram. Subiram o corredor, inclinados para frente, tal como rinocerontes arrancando pela Savana. Túlio desviou do primeiro, mas o outro acertou uma cabeçada no peito dele.
Sem ar, levou um soco na costela, no mesmo instante. A adrenalina bombeou no cérebro, incapacitando a dor que devia sentir. Tum! Golpeou Campos, de cima para baixo, com uma cotovelada.
Campos gemeu, esfregando o cocuruto, e foi empurrado contra o irmão. Matos, que se levantava, foi esmagado. O efeito era o mesmo de ver um prédio cair sobre o outro.
Sem peder tempo, Túlio aproveitou o grito do enjoado e desceu o corredor. Pegou a vassoura perto do banheiro e, como um samurai, cortou o ar. Não foi bonito.
— Desgraça…
Bam! Outra vassourada, dessa vez na coxa. E foi golpeando, golpeando, até que o engomadinho se encolheu, feito um tatu de farda.
— Chega, chega! Eu entendi! Para de me bater! — gritou, a voz chorosa.
Túlio parou, mas o berreiro foi o suficiente para chamar a atenção dos alunos. Diversos colegas saíram das salas, dando de cara com Túlio, feito o Kenshi Himura, apontando a vassoura contra Riquelme, o mauricinho do 6-A.
— Hahaha, ele mereceu! — disse um dos moleques, abraçando o garoto samurai.
— Túlio deitou três caras na porrada! — falou um outro, elogiando.
— Caramba, até os Gêmeos! — berraram as meninas.
— Muito obrigado — murmurou Batista, o garoto salvo por Túlio. Ele apertou sua mão. — Valeu demais, cara.
Muitos vieram dar tapinhas nas costas de Túlio, dizendo que ele fez o que todo mundo queria fazer. Disseram que Riquelme era um mala sem alça, todo empombado por ser filho de médico. Falaram que ele fez bem em dar uma surra no menino.
Porém, sempre tinha alguém para discordar. E esse alguém era o diretor da escola.
— Muito bem, muito bem — falou o velho, desamassando o terno. — O show acabou! Suspensão de duas semanas, para quem não sair daqui!
E rapidamente a multidão se desfez.
— Muito bem, muito bem, o que temos aqui? — E andou até Riquelme, ainda abraçado aos joelhos. — O que ele te fez, filhinho?
— Ele me bateu, senhor Mendonça! — falou o mimado, o nariz ranhento. — Em mim e nos meus amigos!
Com amigos, ele se referiu aos gêmeos brutamontes, ainda caídos um sobre o outro.
— Ele foi covarde!
Túlio se irritou, e apenas um passo seu fez Riquelme estremecer.
— Sai de perto de mim!
— E você pare de mentir! — falou o garoto, cutucando-o com o cabo da vassoura. — Ele tava mexendo com o Batista, senhor Mendonça! Só se garante porque tem esses dois idiotas com ele!
— Sai de perto de mim!
O diretor, enrolando o bigode, deu de ombros.
— Tudo que eu vejo são três garotos no chão, e você com uma arma, senhor Rosário.
— Vassoura, senhor men…
— Arma, senhor Rosário. Arma. Você poderia ter causado ferimentos seríssimos, balançando-a por aí. Você é perigoso.
— Mas eu só tava…
— Para a diretoria — ordenou, impassível —, agora!
Túlio obedeceu.
O diretor ignorou Campos e Matos, ajudando Riquelme a levantar. Subindo o corredor, ele foi acalmando o garoto, que fingia soluçar. O riquinho fitava o “agressor”, rindo-se de sua condição. Se pudesse, Túlio voaria no pescoço dele, mas não queria piorar o estrago.
E agora, como ficaria sua confissão?
Se sentiu como um homem condenado francês, indo rumo à guilhotina. No auge da loucura, viu uma tela de Game Over surgir diante dele. Ao chegarem na diretoria, uma garota de cabelos castanhos comia pastel. Quando Túlio a viu, seu coração parou.
Era ela.
“Ah, não, ah, não, me diz que isso não tá acontecendo…”
Mas estava.
— Tá gostoso, filha? — perguntou o diretor, sorrindo para ela. — É de queijo? Eu nem vi qual o moço pegou.
— É sim, papai. Tá muito bom.
— Que ótimo. Olha só, filha — Balançou o ombro de Túlio, cuja alma saíra do corpo havia tempos. — Um delinquente.
— Delinquente?
A garota, sentada numa poltrona, viu o pai passar por ela, dar a volta na mesa e se acomodar na cadeira acolchoada. Ele lambeu os beiços, dando um gole em seu gin disfarçado de latinha de Baré.
— O que aconteceu, papai?
— O nosso convidado, o ilustre Túlio de Rosário Melo, espancou Riquinho e seus amigos com uma vassoura — disse Mendonça. — Ele achou que sairia impune.
O acusado não se conteve:
— Mas ele ia bater no Batista, diretor!
— Ele ia? Que provas você tem?
— Eu… ah, diretor! — protestou. — Todo mundo sabe que Riquelme gosta de intimidar os outros.
Riquelme reagiu, dizendo que era tudo brincadeira, e que ninguém levava a sério.
— O senhor vai mesmo acreditar nele?
— E por que não iria? — rebateu Mendonça, pegando um ofício da gaveta. — O que eu vi, senhor Rosário, foi o senhor empunhando uma arma, com Riquinho indefeso. Você bateu em uma pessoa rendida, senhor Rosário. O senhor não sente vergonha?
— Mas diretor…
— Vou te dar uma suspensão de dois dias. Se reclamar, vão ser quatro. Hoje estou bonzinho — sorriu para a filha, que desviou o olhar. — Camilinha faz catorze, hoje.
O pior de tudo, para Túlio, nem era suspensão. Ela estava ali, vendo aquela humilhação.
— Pelo aniversário da minha filha, serei generoso com você. Não sou de ter pena de delinquentes, senhor Rosário. Não se acostume — E quando terminou de assinar, notou o embrulho nas mãos do garoto. — Flores? Muito bem, muito bem. O senhor ia se confessar para alguém?
— Papai… — começou Camila, desconfortável.
— Olha, é melhor o senhor desistir, Rosário. Não gaste rosas tão bonitas com o seu próprio enterro. Se eu fosse o pai da garota… — Sorriu, adorando a ideia. — Bem, fiquemos no “se”.
Camila fitou o garoto, como se pedisse desculpas.
— Muito bem, muito bem. Dois dias de suspensão. Acho pouco, mas vai bastar — E apontou para a saída. — Pode ir, senhor Rosário, e não peque mais.
Sem nem olhar para Riquelme ou a garota, Túlio baixou a cabeça e saiu. Lá fora, ele viu uma lixeira. Olhou para ela, depois o buquê. Lixeira, buquê, lixeira, buquê. Jogou fora, e o baque foi curto, mas seco. Sentiu que, ali, descartou uma parte de si mesmo.
A partir dali, o dia transcorreu como deveria.
— Não liga pro Mendonça, Rosário!
— Ele é um merda!
— O Riquelme também!
— Tu é um herói, Túlio!
— Vai, Tulhão!
Ele nunca respondia. De cabeça baixa, nem prestou atenção nas aulas. Na hora da merenda, vários colegas sentaram junto dele. Os pratos de plástico, todos na cor azul, eram raspados até não sobrar nada. Túlio nem tocou na comida.
Calando o falatório ao redor dele, uma garota se aproximou.
— E as flores, Túlio? Você entregou?
Havia expectativa no olhar dela.
— É mesmo, Rosário — falou um dos caras. — Tu tava com um buquê, não tava?
— Ele tava, sim.
Mas antes de que Túlio pensasse no que dizer, o assunto mudou. Logo estavam falando de Riquelme, e sobre como o “reinado besta” dele terminou. Ao que parecia, Túlio era o maioral, o verdadeiro rei da escola. Disseram que esse dia seria lendário.
Túlio, no entanto, só queria ir para casa. E foi o que ele fez, quando o recreio acabou. O vigia fingiu não vê-lo, como da última vez, e o garoto passou pelo portão. Não ficou para colher os louros de seus feitos. Estava derrotado. Falhou na única coisa que queria.
Em casa, Téo quase perguntou “como foi?”, mas sorriu.
— Humilhação?
— Humilhação — respondeu o mais novo.
— Normal.
Túlio assentiu e foi para o quarto. Ligou o playstation 2, pegou o cd do Need for Speed Underground 2, e ficou na tela de seleção dos carros. Riders on the Storm vinha do console, invadindo os ouvidos do menino. A música era boa. A favorita dele.
Mas não era capaz de animá-lo.
———
Ao meio-dia, a filha do diretor subia o corredor com as amigas, falando sobre o incidente daquela manhã. Enquanto as garotas estavam animadas, um zelador veio com uma lixeira, e notou que haviam rosas nela.
“São as que o…”
O homem, que também percebeu, pôs a lixeira no chão. Ele pegou o buquê, verificou o seu interior. Viu alguma coisa, e riu. A garota e as amigas também pararam, curiosas.
— Acho que isso te pertence — disse ele.
As amigas bateram palminhas, e a garota recebeu. Meteu a mão dentro do buquê e, com cuidado, tirou um cartão. Quer dizer, um pedaço de papel pautado, com um nome escrito à mão. E ela conhecia aquela letra. Um garrancho. Um hieróglifo. Uma ofensa à caligrafia…
Para você, Camila.

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