Os pensamentos estão em itálico, dessa vez. Achei que ficaria legal.
Capítulo 27: Isekai Genérico.
Pálpebras pesadas. O mundo era uma gangorra, pendendo de um lado para o outro. Seu corpo era feito de chumbo. Era sofrível continuar caminhando. Mas ele precisava. Era dia de prova.
O diafragma se recusava a expandir, e ele quase confundiu isso com asma. Quando conseguiu respirar, ouviu um chiado vir do pulmão. Além da tontura, seu peito estava cansado. Que ótimo dia para fazer uma prova de trigonometria!
— Não consegue dormir?
Lembrou-se de quando foi pedir ajuda.
— Ah, sim. Matemática é… faz sentido. — Ela coçou a nuca. — Isso aqui pode te ajudar, mas eu não sei se é seguro que você tome.
— Eu não me importo. Só preciso dormir.
Ela olhou com relutância, mas mexeu na bagunça de sua mesa e tirou uma cartela de pílulas.
— É isso?
— É o que eu tomo, quando a cólica tá me matando. Funciona.
— Tá certo. Valeu.
Idiota.
Assim que tomou e foi deitar, ele apagou. Acordou no dia seguinte, apenas porque o seu alarme insistia em tocar cada vez mais alto. Foi uma luta, e sua irmã se sentiu culpada. Ele deu de ombros, e seguiu mesmo assim. Suas notas eram mais importantes que a saúde dele.
No entanto…
— Não era só você ir na UPA? — perguntou um dos amigos. Sua voz deu eco na cabeça dele.
— Verdade, aí você conseguia um atestado e ficava de boa em casa — falou outro, pensativo.
— Você não perderia uma chance dessas, Thanna. Tu tá tão mal assim?
Eu só não quero reprovar.
— É, teu rosto tá meio verde.
— Ele disse que tomou Advil?
— Foi. As mulheres tomam isso. Que loucura, cara.
— Tua irmã queria te matar, mano.
Vão se foder.
Seu corpo estava tão mole que parecia gelatina. Uma gelatina terrivelmente pesada. Imaginou que parecia lamentável, já que seus amigos pareciam preocupados.
A faixa de pedestres se aproximou. Quando o garoto parou, sentiu o corpo estancar, feito um carro freiando em alta velocidade. Seu corpo desejava cair na calçada.
Merda, eu devia ter ficado em casa.
Mas era tarde demais.
Seus amigos atravessaram, absortos em algum assunto. A buzina dos carros, as conversas dos transeuntes. O canto dos pássaros, o choro de crianças, tudo se amplificava na mente dele.
Eu só preciso atravessar.
E foi o que fez. Do jeito que ele estava, andar já não era uma função automática. Ele teve de, manualmente, coordenar o pé direito com o esquerdo. Primeiro o calcanhar, depois a planta do pé. Um depois do outro. Enquanto isso, a cabeça era um pêndulo.
Merda. Eu devia ter ficado em casa…
Seus amigos já estavam do outro lado, quando ele tropeçou. Foi por pouco. Um dos pés perdeu o apoio, e quase caiu de cara no asfalto.
Que imbecil.
Mas não havia tempo para alívio. Alguma coisa o fez olhar para o lado. Devagar, sem muita pressa, ele virou o rosto.
Tá de sacanagem?!
Um caminhão vinha sem pretensão freiar.
Puta que pa…
Tudo mudou.
Não pisava na rua, mas num tapete. Um tapete longo que se desdobrava pelo salão, chegando aos pés de um homem de coroa na cabeça. Ele estava sentado numa cadeira de ouro e rubis, muito semelhante a um trono. Haviam duas bandeiras, uma em cada lado, com desenhos de cachorros em cada uma.
Da direita, uma fileira de pessoas de manto se ajoelhou. Da esquerda, homens fizeram o mesmo, mas eles tinham armaduras reluzentes e espadas na bainha.
Riu…
Olhando para baixo, notou que havia um circulo reluzente o envolvendo. Uma circunferência luminosa, com diversos outros círculos dentro.
Mana…
Sim, não podia ser outra coisa. Aquilo era mana. Franzindo a testa, olhou para trás e avistou um velho de pé. O senhor vestia um manto longo, semelhante aos das pessoas da direita. Sua barba, assim como os cabelos, era longa e grisalha.
E havia um livro em suas mãos.
Isso é tão clichê…
Mas só podia ser isso.
Fui invocado para um mundo de fantasia.
— Peço o seu perdão, meu bonsenhor — disse o rei, notando a confusão no olhar de seu convidado. — E se me permitir a ousadia, peço que nos ouça.
E eu tenho escolha? Você já me trouxe até aqui, o que mais eu poderia fazer?! Tá, certo, certo. Se acalme. Ficar puto não vai ajudar em nada. Se eu não puder voltar ao meu mundo, fazer uma cena aqui não vai ser inteligente da minha parte. Vou ter que dançar conforme a dança.
— Senhor?
— Sim, vossa majestade.
Surpreendendo a todos, o garoto se ajoelhou, levando o punho fechado ao peito. Não esperavam etiquetas de uma pessoa de outro mundo.
— Se eu for de serventia à vossa majestade, anseio atender às vossas expectativas.
— B-Bom… — o Rei tossiu, recuperando a seriedade. — O senhor entende qual é a sua situação?
O garoto ainda estava meio grogue, mas lutou para não cair.
— Senhor?
— Sim, vossa majestade. Creio ter sido invocado para atender ao vosso chamado. É meu dever, e meu dever é a minha razão de existir.
— Isso mesmo… — murmurou o monarca.
Sorrindo, o mago, que invocou o garoto, se pôs ao lado dele.
— Ancião Mil-rem?
— Creio poder sanar as dúvidas do nosso convidado. Ele não me parece bem, por isso vamos conversar a sós. Tudo bem, vossa majestade?
O monarca refletiu, e assentiu logo em seguida.
— Muito obrigado.
E se retirou com o garoto.
Passaram por um arco, no canto esquerdo do salão. Desceram as escadas, e pararam na primeira sala do corredor.
É agora que vou saber o que preciso fazer.
Entraram, e tudo que o garoto viu foi uma mesa, duas caderas e um archote.
— Obrigado por atender ao nosso chamado — falou o velho, fazendo um gesto para que ele se sentasse. — Me concederia a honra de conversar contigo?
Depois de toda aquela cena, você ainda quer pedir? Esse pessoal é meio doido.
— Vejo que o senhor não está bem.
— Não estou. Mais importante que isso, eu irei ajudá-los. Não precisa me convencer.
O mago ergueu as sobrancelhas.
— O que foi, ancião Mil-rem?
— O senhor é muito prestativo, senhor…
— Thanna — disse o garoto.
— Senhor Thanna. Esperava uma reação mais… indignada, se me permite dizer. Sua vida foi interrompida pelo desejo mesquinho de outras pessoas. Eu ficaria revoltado, no seu lugar.
O que ele diz tem fundamento. Isso é o que deveria acontecer, normalmente. Mas eu não quero ferrar minha imagem, caso eu não possa sair daqui.
— Você me parece muito calmo, senhor Thanna.
É engraçado ouvir um “senhor” junto desse nickname.
— Isso já lhe aconteceu antes?
— Não dessa forma, mas eu estou acostumado. As pessoas vivem interrompendo a minha vida — riu o garoto, lembrando-se dos pais, amigos, professores e colegas. — Ser invocado é surpreendente, sim. Mas receber um pedido é bem normal.
— Eu vejo a sinceridade no que diz, mas…
O garoto riu.
— Você me parece farto disso.
— É natural que eu esteja cansado — falou o garoto, olhando para o teto. — Veja, eu não conseguia dormir, noite passada. Estava ansioso demais para uma prova. Aí eu tomei um remédio para cólica, sem pensar nas consequências.
O velho assentiu, para que prosseguisse.
— O rémedio me desmaiou, e eu quase perdi o horário. Uma série de coisas aconteceu, e cá estou eu. Para ser franco com o senhor, ancião Mil-rem, nada disso me surpreende. Não a coisa de ser invocado…
Isso realmente o deixou perplexo.
— …Mas o pedido do rei. As pessoas fazem isso o tempo todo. Me colocam num beco sem saída, e depois perguntam se eu “quero” o que eles querem. É muito fácil fazer uma garota te beijar, quando você aponta uma arma contra o abdômen dela.
O mago arregalou os olhos. Que tipo de herói era esse?
— Meu pai, ontem, perguntou se eu queria ajudar a construir a cerca do vizinho. Vizinho esse que tem um quintal enorme, o desgraçado. Disse que, se eu ajudasse, estaria ajudando a família, já que uma das laterais do nosso terreno também ficaria cercada, por compartilhar esse limite com o vizinho.
Mil-rem parou de alisar a barba.
— Ele disse que eu poderia recusar, e curtir em paz o meu domingo. Até parece! Ele sabia que eu ia aceitar. Mesmo reclamando até o fim, eu ainda assim vou lá. Esse é o tipo de pessoa que eu sou. É uma droga ser assim, mas…
Ele sorriu para o anciâo.
— Shikata ga nai, né?
— Eu não sei o que signfica essa expressão — confessou o velho, se inclinando sobre a mesa. — Mas sinto que é algo realmente triste.
— É um jeito de ver isso — concordou o garoto. — De qualquer forma, senhor Mil-rem, modéstia e cortesia não são nada. Não querem dizer nada. É a embalagem do biscoito envenenado. Se me permite dizer… é algo que todo mundo faz, mas que eu odeio.
O velho viu um lampejo quase assassino naqueles olhos de peixe-morto.
— Alegorias, metáforas, parábolas. Dizem que é para facilitar o entendimento. Eu não preciso disso. Facilitando ou não, ainda é algo desagradável o que eu vou ter que fazer. Não ponha açúcar na minha lama, ancião Mil-rem.
— Como um jovem consegue dizer coisas tão… tristes? — perguntou Mil-rem. Foi mais para si mesmo do que para o rapaz.
— Direcione a sua pena para quem precisa dela. Eu sou um idiota sem salvação.
O garoto se levantou.
— Creio que estamos perdendo tempo.
— Você realmente não deseja cortesias e modéstias?
— Eu quero fazer o que tenho de fazer.
———
Eles foram para a sala ao lado.
Lá, uma mesa redonda tomava o centro. Haviam mapas por todas as partes, com potes de tinta preta sujando pincéis e penas. Homens se debruçavam sobre eles, discutindo em voz baixa. Os militares de olhos duros e caras franzidas, ao verem o ancião Mil-rem, bateram continência e o saudaram.
O velho dispensou a recepção, dada a conversa anterior.
Thanna, com sua camisa branca, calças azuis e tênis all-star, se sentiu deslocado. No entanto, a tontura ainda era mais forte. Fez um esforço colossal para não dormir.
— Imagino que este deva ser o herói das lendas — disse um homem.
Ele se aproximou, junto de uma mulher. Ambos eram loiros de olhos vermelhos. Suas fardas eram azuis com botões dourados, e suas botas eram de cano alto, assim como os outros. Mesmo que suas posturas fossem de respeito, tinham sorrisos brincalhões no rosto.
— Eu sou Inoar dylo Dancha, e é uma honra estar em sua presença — falou o homem, dirigindo-se a Thanna.
— E eu sou a irmã desse idiota. Sou Ainoah dylo Dancha, e é um prazer te conhecer — apresentou-se a mulher, balançando os cabelos do garoto.
— Como esperado de uma história de fantasia, sempre tem uma mulher deslumbrante para acalmar os leitores — murmurou Thanna, afastando a mão dela.
— Ele recusou minha graciosidade, irmão — falou Ainoah, em tom abatido. Fingido, no entanto.
Alguém pigarreou alto, interrompendo o encontro.
— Que pessoa mais desagradável.
— Eu sou Naiter dylo Nanso, o responsável por essa equipe — disse o homem que pigarreou, metendo-se na frente do ancião Mel-rim.
Até o velho sentiu incômodo ao vê-lo.
— Receio que houve um engano, honorável Mel-rim. Não existe possibilidade alguma, mesmo entre as lendas, do herói ser um garotinho tão mirrado. Sério, essa criança nem deve saber o que fazer — falou Naiter, balançando a cabeça em negação. — Não vamos deixar o destino do reino nas mãos de um…
— Eu ainda estou aqui, seu imbecil — falou Thanna, olhando desinteressado. — Eu sei que o seu tipo de pessoa é assim, nascida pra ser chata. É bom ser quem você é, mas faça isso longe de mim. Você não gosta de mim, e eu acabei de perceber que não gosto de você. Guarde suas reclamações para si mesmo.
Seus olhos não se demoraram no líder.
— Você pode fazer isso, né? Afinal, é o que se espera de um líder.
Todos na sala arregalaram os olhos, inclusive os irmãos. Alguns levaram as mãos às bainhas, prontos para qualquer insubordinação. O homem, sem sequer olhar para o menino, ensaiou um cascudo, que nunca chegou a acontecer…
Porque Thanna agarrou sua mão.
— Seus dedos são longos, mas não entendo o motivo de querer mostrá-los — disse o garoto, encaminhando-se para a mesa.
— VOCÊ É SONSO?! QUEM VOCÊ PENSA QUE É?! EI, NÃO ME IGNORE!!
— Então esse é o campo de batalha — falou Thanna, dirigindo-se a um dos miliatares. Entendo. É uma situação realmente complicada.
— MOLEQUE ATREVIDO! VOCÊ…
— E eu me chamo Mil-rem, Naiter. Diga “Mel-rim” outra vez, e escreverei uma reclamação contra você — disse o velho, passando pelo líder, e se pôs ao lado do garoto.
E quando Naiter pensou em se desculpar, os gêmeos lhe mostraram as línguas. Ninguém mais o respeitava naquela sala?!
— O que vocẽ acha, senhor Thanna? — indagou ancião.
Os militares também olhavam o menino com expectativa. Se ele tinha culhões para falar assim com o senhor Nanso, devia ter poder para tal. Nenhum deles ia admitir, por medo de perderem suas posições, mas acharam merecida a ofensa que o homem sofreu.
Enquanto isso, o invocado esfregava a testa.
— Senhor Thanna? Você não me parece bem — disse Ainoah, se inclinando sobre ele.
— Eu não estou.
Enquanto isso, um dos militares explicava a situação.
“Na fronteira entre o nosso reino (Zedes) e o vizinho (Danka), uma batalha explodiu quando nossos guardas detectaram a vinda de quase 300 soldados dankianos. Nossos reforços demorarão muito para chegar, pois a cidade fronteiriça é praticamente isolada, cercada por uma floresta densa e cheia de monstros.”
“Estimamos que mais de oitenta dos soldados inimigos são cavaleiros, empunhando espada e escudo; outros cinquenta são lanceiros; quarenta ou cinquenta arqueiros mágicos e magos de ataque, visto que fomos informados de que flechas de fogo eram disparadas em parábolas.”
— Nossos guardas não vão vencer. São muito poucos. Vamos acabar perdendo a cidade fronteiriça de Cadil. A chance dela de virar um ponto estratégico para Danka… — murmurou Naiter, mordendo a unha do polegar.
Todos se debruçavam sobre um grande mapa na mesa.
— O que você sugere? — indagou ele ao garoto, a contragosto.
O rapaz sentia ferroadas na cabeça.
— Senhor Thanna?
— Eu preciso que alguém use magia de cure em mim — pediu ele, cedendo à fraqueza do corpo. Todos olharam preocupados. — Não consigo pensar direito, estando assim.
O velho Mil-rem se aproximou, e pôs a mão no ombro dele. Uma luz verde envolveu o corpo do garoto, e ele sentiu-se ficando mais leve. Segundos depois, não sentia mais a tontura, nem mesmo o aspecto mole de seus braços. A confusão de barulhos, que confundia sua mente, desapareceu.
Sentiu que estava feliz, inclusive.
— Muito obrigado, senhor Mil-rem — disse ele, curvando-se para o ancião.
O velho ficou surpreso. Não foi apenas o ânimo, mas o próprio semblante dele mudou.
— Peço desculpas pelas palavras indevidas que dirigi ao senhor, general Nanso — falou Thanna, curvando-se para Naiter também. — Eu estava mal, e isso afetava meu humor. Sinto muito pelo pouco caso que fiz do senhor.
— T-Tudo bem… — respondeu o líder, desconcertado. — Apenas nos ajude, por favor.
Os soldados piscavam, curiosos. Até Ainoah sentiu a mudança de tom do garoto.
— Precisamos pensar em algo, senhor Thanna. Não podemos perder Cadil… — e bateu a mesa com o punho. — Não para esses dankianos nojentos!
— Não há chance de vencermos — disse um dos soldados, rangendo os dentes. — Além de ter escudos formidáveis, os magos e arqueiros nos causam baixas constantes. Parecem ter mana infinita. Mesmo com nossos guardas recebendo ajuda da guilda de aventureiros, a situação é desesperadora…
— Já recebemos outro relatório?! — espantou-se Naiter.
— Sim. Esses dankianos devem ter jóias mágicas, aquelas com mana própria. Ou devem ter estoques de energia. Eles também não fazem ideia… o fato é que estamos contra a parde. Será que estamos perdidos?!
— Vamos, senhor Thanna… — suplicou Ainoah, balançando o menino.
O garoto levou a mão ao queixo. Essas pessoas esperavam coisas dele. No entanto, ele não era um gênio militar. O máximo que já viu sobre estratégias, inclusive, vinha daquele livro batido do Sun-Tzu. Ao lembrar da Arte da Guerra, o garoto teve um estalo.
Confiança excessiva.
Assim como aqueles militares acreditavam que ele os salvaria, por ele ser o tal herói invocado, aquele exército dankiano também tinha sua fé.
Eles confiam demais na vanguarda!
Os escudos absorviam os impactos. As lanças puniam os avanços, enquanto magos e arqueiros causavam danos em área e isolados, respectivamente. Os curandeiros, na retaguarda, confiavam cegamente na dinâmica da muralha que seus aliados representavam.
Isso pode funcionar…
— Parece que você teve uma ideia — disse Inoar, lendo a expressão de Thanna.
O rosto de Ainoah se iluminou, e os miliatares ficaram tensos.
— Do que você precisa, senhor Thanna?
— Preciso visualizar o campo de batalha — disse o invocado, encarando Mil-rem. — Só assim para ter certeza.
— Acredita que tem a solução, senhor Thanna? — pressionou Inoar, o que Naiter queria ter feito.
— Se meus cálculos estiverem corretos, sim!
Eu sempre quis dizer isso!
Dessa forma, o ancião estendeu as mãos sobre a mesa. Uma esfera surgiu entre elas, girando em torno do próprio eixo, até que virou um espelho de energia.
Imagens se formaram. Eles tinham uma visão aérea do lugar, como se fosse um jato sobrevoando. Thanna viu, e um sorriso rasgou seu rosto. Era exatamente como ele tinha visualizado. Guerreiros na frente, magos logo atrás, e uma distância considerável entre estes e os curandeiros.
Era quase como se houvesse um vão entre as tropas.
— Senhor Naiter.
— Sim!
— Temos canhões na fronteira, certo?
— Temos. Temos…?
O que ele estava tramando?
— Quão longe um disparo pode chegar?
— Se o operador for um novato, um tiro poderia passar dos inimigos e não atingir ninguém.
É longe o bastante.
— E o impacto? Suponho que seja massivo.
— Os disparos formam crateras, sim… — falou Naiter, apreensivo.
O garoto suspirou, enojado do que estava prestes a dizer.
— Como diria Sun-Tzu, “toda guerra é baseada no engano”.
— O que você…
— Enganos acontecem, intencionais ou não. Podem ser fraquezas, se forem seus, e oportunidades, se for do outro. Nem precisamos desuni-los, Eles mesmos já se dividiram…
Ele apoiou as mãos sobre a mesa.
Ao ouvirem as próximas palavras de Thanna, muitos arregalaram os olhos. Uns, por espanto. Como uma criança poderia pensar em algo assim? Outros, por ultraje. Como ele poderia seguerir algo tão desonroso quanto isso? Ele queria os degradá-los?
— Ofendê-los? — indagou Nathan, balançando a cabeça. — Quem começou foi Danka. Qualquer coisa que vocês fizerem, nesse sentido, é auto-defesa.
— Mas isso é muito baixo… — murmurou Naiter, sentindo desgosto pelo garoto.
— Baixo é mandar 300 soldados atacarem uma cidade pequena. Se esqueceu disso, general? Quantos dos seus homens vão morrer, se não fizermos isso?
Alguns abaixaram as cabeças. Apenas os irmãos dylo Dancha sorriam para ele. Mesmo Mil-rem não sabia oque pensar dos planos do rapaz.
— Quantos aventureiros vão morrer? Quantos civis serão mortos, se eles os guardas forem aniquilados? Quantos homens serão degolados? Quantas mulheres serão violadas, para saciar o triunfo desses patifes? Não espere honra de um inimigo assim, general Naiter.
O líder queria rebater, mas os soldados fecharam os rostos e acenaram positivamente. Alguns socaram a mesa, determinados. Até Mil-rem, enfim, concordou. Um dos militares, o responsável pela comunicação com a guarda de Cadil, não esperou as ordens de Naiter dylo Nanso.
Algum tempo depois, no fronte, no campo de batalha, um soldado se defendia de um dankiano.
— Eu já matei três desses putos… — rugiu ele, sujo de sangue, terra e suor. — E eles não param de vir!
Seu corpo todo protestava. A cada minuto que passava, a armadura ia ficando mais e mais pesada. Seus ombros não aguentavam mais balançar a espada por aí.
Suas pernas tremiam, e ele sentia uma fome violenta. Tinha cortes profundos nas coxas e nos braços. Ele queria desmaiar, mas o dever o impedia. Não podia deixar um dankiano chegar a Cadil.
Sua família estava lá, e ele não deixaria sua mulher desprotegida. O que ele lamentava, no entanto, era o ataque ter acontecido justo naquele momento. Ela estava em trabalho de parto. Enquanto o filho estava para nascer, o pai tinha altas chances de abraçar a morte.
— Eu ainda quero vê-lo crescer, Ruicho…
Quando fez a cabeça do inimigo rolar, ele ouviu um som terrível. Um dos sons mais assustadores do mundo. Um som que, normalmente, o faria baixar a cabeça e temer por sua vida. Porém, ele estava mais do que feliz em ouvi-lo.
Os morteiros mágicos disparavam contra o exército dankiano, mas não atingiam a vanguarda. Ele franziu o cenho. Esperou ver um clarão, e ter sua vista apagada logo em seguida. Esperava morrer na explosão. No entanto, isso nunca aconteceu.
O mais surpreendente foi a reação adversária. Todos olharam para o céu, buscando o alvo dos disparos. Quando finalmente entenderam, paralisaram.
Gritos.
Urros de dor ecoaram pelo campo de batalha.
Os morteiros explodiam a retaguarda, que não tinha a mínima chance de desviar. Curandeiros explodiam aos montes. Pernas e troncos se separavam do corpo, esparramando sangue por todo lado. Mãos segurando grimórios que nunca mais seriam lidos.
O avanço inimigo parou. Já não tinham a mesma força de antes.
Eles não recebiam apenas cura, mas magia que fortalecia seus corpos. Agora que sua fonte de energia simplesmente morreu, eles estavam perdidos.
Os aventureiros, que lutavam lado a lado com os soldados, sorriram de satisfação e desdém. Naquela tarde, a fronteira de Zedes foi tingida de vermelho. E não restou nenhum
Não sobrou nada.
———
Os nobres do reino de Zedes, e o próprio rei, Zano dylo Zedes, batiam palmas. No centro do salão, um garoto de uniforme escolar recebia uma honaria. Uma medalha dourada, com o símbolo de um cachorro no meio. Ele era, para todos os efeitos, um nobre zediano.
— Em nome das famílias de Cadil, da Guilda de Aventureiros e de todo o reinado de Zedes, eu lhe devo toda a gratidão do mundo! — falou o rei, pregando a medalha no peito de Thanna.
Confetes cobriam o ar, e as damas abraçavam seus pares. Crianças gritavam felizes, e muitos queriam apertar a mão do mais novo herói de Zedes. Algumas garotas o olhavam de soslaio, vendo o melhor momento para abordá-lo.
— E como prometido, o senhor será enviado de volta ao seu mundo! — declarou Zano, para o desânimo de todos.
Vindos da multidão, gêmeos loiros e um velho barbudo se juntaram ao rei e o herói.
— Sentirei sua falta — disse Ainoah, bagunçando os cabelos do menino.
— Espero que nos vejamos outra vez — falou Inoar, apertando a mão dele.
O ancião, sorrindo atrás da barba, pôs as mãos nos ombros do garoto.
— Você fez bem, Thanna. Você salvou Cadil. Não se culpe pelo que teve de fazer — falou Mil-rem, fazendo um círculo mágico surgir nos pés dele.
— Obrigado, ancião.
— Você fez o que tinha de fazer. Não se esqueça disso.
— EU PROTESTO!
Um militar de cabelos grisalhos, postura firme e rosto enojado, se fez ouvir no meio da algazarra. Ainoah olhou para ele com desgosto, e Inoar fingiu se servir de ponche. Até Mil-rem se viu estalando a língua.
— Esse garoto nos desonrou!
— Meça as suas palavras, general Nanso — falou o rei, firme.
— Vossa majestade, o método que esse maldito usou… foi uma desgraça! Atacar quem não pode se defender… isso é pior do que baixaria! ISSO É DESUMANO!
— Não vou tolarar suas palavras. Cale-se, e eu irei…
— Me perdoar, vossa majestade?! Esse homem cometeu um crime! Ele atacou magos curandeiros, uma classe de pessoas cujo propósito nobre de vida… não os permite lutar! E ele mandou que nosso exército os explodisse!!
— Entenda que Danka também violou as éticas de conflito, general Nanso — interveio Ainoah, furiosa. Seus olhos de rubi queimavam. — Não enviaram declarações de guerra, sequer solicitaram uma reunião com sua majestade! Se aproveitaram da falta de tropas em Cadil, e atacaram!
O rei concordou, pôndo-se diante de Thanna, ao lado da mulher.
— Não é mesmo, vossa majestade?
— Além disso, de acordo com os Códigos de Guerra, se uma infração for respondida com outra, não haverá crime algum!
Olho por olho, dente por dente.
Thanna sorriu. Hamurabi ficaria feliz, ouvindo isso.
— Mesmo assim… — insistiu Naiter, lágrimas nos olhos. — Isso foi covardia…
E olhou para o próprios pés.
— Muita covardia…
— Eu concordo com tudo que você diz.
E a corte inteira se virou para Thanna, que já estava quase desaparecendo.
— Mas, me diga uma coisa, general Nanso… — Ele deu um sorriso inocente. — O que você prefere? Ser um trapaceiro vivo…
Seus olhos brilharam.
— …Ou um moralista morto?
Naiter se calou, chocado. Antes que Thanna finalmente voltasse para a Terra, ele se virou para o ancião, que sorria paternalmente para ele.
— Esqueci de lhe falar, ancião Mil-rem.
— O que, senhor Thanna?
“Senhor” Thanna!
O garoto riu com gosto.
— Senhor?
— O meu nome é Nathan…
Seu corpo foi sumindo, e a última parte visível foi a cabeça.
— …Yago dias.
E desapareceu.
Tudo ficou claro. Seus olhos ardiam. Era como se tivesse olhado para o sol, depois de ter passado horas num quarto escuro. Aos poucos, as formas foram tomando as cores de sempre. Não demorou para notar que estava do outro lado da rua, sendo encarado pelos amigos.
Eles estranharam.
— Oshi, que broche é esse? — indagou um deles.
— É maneiro. Onde tu comprou? — perguntou outro.
Nathan olhou para os lados. Ainda se sentia muito bem. Riu de si mesmo.
Então eu atravessei a faixa de pedestres.
Ele não havia sido morto.
— Nathan?
— Senhor Thanna, meu caro. Senhor Thanna.
E seguiram o caminho para a escola. Depois de salvar um reino, ser chamado de covarde e soltar uma filosofada contra um militar arrogante, ele ainda tinha uma prova de trigonometria para fazer.
Senhor Thanna.
E riu outra vez.

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