Sardinha com macarrão.

    Se havia algo melhor que isso, Nathan não conhecia. Mesmo que o restante da raça humana odiasse a segunda-feira, Nathan ia na contramão. Afinal, apenas na segunda era servida sardinha com macarrão como merenda. As cozinheiras faziam magia naquele prato.

    As crianças merendavam na área comunal da escola. De um lado, havia o palco, no meio o pátio e do lado oposto ficava a cantina. Ele sempre achou isso engraçado. Notando que as mesas estavam cheias, caminhou por entre os alunos, e se sentou na beirada do palco.

    Quando pensou que ia comer sozinho, alguém ficou do seu lado.

    — Fala, Thanna.

    Era o Túlio, um garoto aparentemente popular na escola — ainda que Nathan não soubesse o motivo.

    — Cê tá de cara feia desde hoje mais cedo. Tá tudo bem?

    — Tá, tá sim — e remexeu no prato, repassando a surra que levou no domingo —, eu só não dormi direito.

    — Tô ligado. Tá acompanhando a nova safra de animes da temporada?

    — Nada. Tô lendo uma novel brasileira. Raifurori, conhece?

    — “Riflle Loli”? — indagou Túlio, achando divertido. — Cê curte lolis?

    — Não, não, haha! Mas a história é bacana. O autor é meio sádico. Não supera o Tappei em termos de infernizar o protagonista, mas é um demônio escrevendo.

    — Um demônio, é? Ah, falando em escrever… — Túlio olhou para os lados, analisando os arredores. — Sabe guardar segredo?

    Ih, rapaz.

    — Não conta pra ninguém, viu?

    Nathan passou a mão pela boca, como se fechasse um zíper.

    — Valeu. Então, eu tô escrevendo uma novel.

    — Caraca, sério? Sobre o quê?

    — O básico, né? Um isekaizinho de leve. Acho que é bom pra testar ideias.

    — O herói invocado que precisa salvar o reino… — murmurou Nathan, sentindo arrepios.

    — Não curte isekai?

    Se tu soubesse, cara…

    — Bom, eu fiz uns dois roteiros. Os dois ficaram uma merda. O protagonista é muito meh, meio sem sal. Não gosto de heróis desse tipo, e acabei criando um.

    — Herói apelão, né?

    — Sim. Não tinha percebido o quão chato eles são, esses heróis overpower. Nada é um desafio pra eles, tudo é tedioso — Túlio fitou os colegas, que papeavam assim como eles. — O protagonista precisa de desafios.

    — É legal de assistir, né?

    Ruim é vivenciar isso aí.

    — Parece que tem mais sentido, quando ele tem obstáculos.

    — Exatamente. Você cresce junto com o herói — Túlio se empolgou, quase deixando o prato cair. — Você vê ele sendo espancado por cada inimigo que aparece, e vibra quando ele vence por pouco! Tipo o Seiya, tá ligado?

    — Tô ligado.

    Ser espancado não é legal…

    — Então você vai escrever um novo roteiro?

    — Acho que sim. O negócio é não desistir. Quando eu tentei ler um capítulo, quis limpar meus olhos com ácido sulfúrico! — Deixou o prato na coxa e tapou os olhos, como se lembrasse do que escreveu.

    — Ué, por que?

    — Muito diálogo, pouca narração. Os personagens falando do jeito mais forçado possível… MEU! Eu quis morrer, sabia?

    Nathan riu. Túlio parecia mais expressivo que o normal. Acho que ele realmente gosta de escrever.

    — Heh, pelo menos tu parece melhor, agora.

    — Pareço?

    — É. Você… — E viu que todos começaram a devolver os pratos. — Bora, o sino vai já bater.

    Eles rasparam a comida, devolveram para as cozinhas e escaparam pelo corredor. O professor de matemática já estava lá, iniciando o assunto de matrizes — algo que certamente mataria o ânimo de um pré-adolescente. E realmente matou.

    ———

    Meio-dia. Depois da cagação de regra do professor Rogério, que queria cinco laudas sobre a vida de Laplace, Nathan, Túlio e Eduardo deslizavam pelas ruas. O sol deformava o horizonte, como se o ar fosse um rio fluindo com raiva.

    As costas queimavam, e as mochilas pareciam sacos de pedra.

    — Mas, cara, eu realmente não sei.

    — O quê? — perguntou Nathan.

    — Eu não sei como começar a história.

    Eduardo riu.

    — Que foi?

    — Não é só começar? — Para o loiro, parecia óbvio.

    Depois que o caminhão passou, ele prosseguiu.

    — Tipo, tu já leu um bocado de livro, né? Não deve ser láááá tão difícil!

    — Mano, o começo é a coisa mais importante que tem! — exclamou Túlio, pulando enquanto andava. — Se o teu começo for chato, ninguém vai nem querer saber do meio!

    — Que dirá o final… — concordou Nathan.

    — Sei não, cara. Acho que cê tá botando dificuldade. Tu já leu bastante, viu uma porrada de anime… acho que cê tem o suficiente.

    Túlio assumiu a dianteira, e andou de costas, para vê-los de frente.

    — Tipo, teu MyAnimeList é insano, cara.

    — Eu sei, mas tudo que eu faço fica uma bosta! — Túlio não arredava o pé. — Chato pra caramba. Nem eu leria minha novel!

    — Ah, bem, a gente sempre começa sendo ruim, cara.

    — Tem uma grande diferença entre ruim e HORRÍVEL!

    Como eles conseguem ter tanta energia, com esse calor desgraçado?

    — Não adianta, Edu. Eu devia mesmo é parar.

    — Tu já falou isso umas trocentas milhões de vezes, cara. Lá pelas duas da manhã, do absoluto nada, tu diz que “agora” teve uma ideia genial.

    — Mas a ideia é genial…

    — Sim, cara, é bacana. Mas se tu não fizer nada, vai ser só isso. Só uma ideia.

    É tão estranho! Eles estão falando de isekai, e eu… né?

    — E, tipo, o teu protagonista tem que ser fraco. A gente tem que ter dó dele — falou Eduardo, agora sério. — Tipo o Frodo, entende? Ele é fraquinho. Mas ele tem as manhas, e é esperto. Isso dá gosto de ver. É bem legal ler sobre os grandes feitos de um homem pequeno.

    — É, mas eu não sou o Tolkien…

    — Ah, então se mata, cara! Mas sério, vê se leva essa novel pra frente. Tu só sabe que é ruim quando termina!

    — Tá certo…

    E ficaram em silêncio.

    Nathan, arrastando os All-Stars, pensava consigo mesmo. Ele realmente era fraco. Quando o ancião Mil-rem o invocou, ele não ganhou nenhum poder. Nem magia de fogo, nem um poder roubado que o faria destruir um reino. Ele era só um garoto num mundo de fantasia.

    Um garoto que encerrou a Batalha de Cadil. Atacar a retaguarda dankiana era óbvio, quase uma ideia de principiante. Mas nem o deus da guerra gostou disso. O chamou de covarde, de lixo. Mas o que ele podia fazer? Nathan não ficaria forte de repente, para se meter na luta.

    Ele fez o que podia ser feito.

    Talvez existissem outros deuses em Neda, o mundo que o invocou. Talvez eles não concordassem com Sera, esse deus idiota que o espancou. Até o rei de Zedes, Zano dylo Zedes, achou que Nathan fez o certo! Deuses costumam ser imbecis, então não tinha razão para ficar remoendo.

    É, não tinha porquê.

    Ele riu. Cadil, Neda, Sera, Mil-rem… se ele falasse sobre qualquer um deles, seus amigos perguntariam se ele também escrevia uma novel. Diriam “que nomes estranhos!” “Você tem um gosto horrível pra nomes, cara!” E ficaria por isso mesmo.

    Será que alguém leria sobre mim…

    Se a vida dele fosse uma novel?

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