No centro do mundo de Neda, havia uma ilha de campos verdejantes e belas enseadas. Um recife de corais e cinco ilhotas a contornavam, e havia uma serra ao norte dela. Seu clima era ameno, agradável e agraciado com brisas a cada minuto.

    Um paraíso terreno.

    Escondida dentro da serra, havia uma caverna. Sua entrada era circular, como a tampa de um barril gigante. Ali, estantes iam ao infinito, recheadas de tomos sobre magia, anatomia, patologias, ciência política e quase todo conhecimento produzido no mundo.

    Mesmo sendo uma caverna, não era escura. Não, nenhum pouco. Não pense que era iluminada por archotes, tochas e lamparinas. Coisas que lembravam candelabros, iluminados por magia, eram como estrelas no teto. Não havia um único centímetro de escuridão ali.

    Depois de cruzar a Biblioteca do Fim, o visitante veria três corredores. Se tomasse o primeiro, da esquerda para direita, encontraria uma sala ampla, com papéis sujos de tinta cobrindo cada azulejo que pudessem. Uma mesa enorme cruzava o meio do lugar.

    Na mesa havia tinteiros, de diversos tamanhos, mais papéis, ainda recém-nascidos, penas, réguas, esquadros, transferidores, compassos, um metrônomo e uma varinha. Cobrindo as paredes, prateleiras repletas de potes formavam um arco-íris piscodélico.

    Nos recipientes, o visitante veria desde plantas, as mais estranhas possíveis, pedras de formatos diferenciados e brilhos de intensidades variáveis, raízes…

    E olhos, rins, estômagos, bexigas, línguas, arcadas dentárias, cabelos e partes não agradáveis de comentar. Alguns eram de humanos, outros eram de elfos, ogros, duendes, anões, grifos, animais e seres que desafiavam a própria imaginação.

    Além desse ambiente macabro, se você tomasse o segundo corredor, o do meio, veria, para a sua surpresa, uma cozinha bem agradável. Era enorme, como a de um restaurante chique, mas de móveis simples, antigos e, por isso, aconchegantes.

    A mesa era modesta, ainda que pudesse abarcar as três gerações de uma família não muito numerosa. Os pratos eram de madeira, bem polidos e com desenhos de pássaros. Os cabos das colheres lembravam as raízes de uma árvore.

    No fim do terceiro e último corredor, o visitante veria um quarto. À direita de quem entra, uma cama de casal repousava sobre um bloco de pedra negra. Lençóis simples de cores branca e roxa a cobriam, e as fronhas dos travesseiros tinham bordados de flores.

    À esquerda, esquecido no tempo, havia um berço cheio de pelúcias de dragões e espadas que não tinham mais dono.

    No entanto, ficou a pergunta: quem residia esse lugar? Pois bem, vamos aos moradores. A primeira deles, cujo nome batizou a ilha, era Aiedem. Ela era uma mulher de cabelos roxos, que chegavam aos tornozelos. Seus olhos eram negros, feito obsidiana.

    Ela era bem alta, quase do tamanho de um jogador de basquete do nosso mundo. Seus olhos eram divertidos, risonhos, como se estivessem se divertindo o tempo todo. Seus lábios eram finos, e um sorriso discreto os marcavam. Sua pele era bem rosada.

    Encantadora, ela era a Bruxa Mais Temida do Mundo. A primeira mulher a ser escolhida por um deus. Por uma deusa, na verdade. A deusa Aigam, senhora da magia. A única “eleita” que não servia a um reino, fundou um culto ao seu deus ou tramava a dominação do mundo.

    Foi por não ser uma pessoa tão política, nem religiosa, que os outros “eleitos”, conhecidos como “anciões”, a deixaram de escanteio. Mas não se engane. Eles, em nenhum momento, nem por um segundo, a subestimavam. Pelo contrário, foi por temê-la que eles a deixaram em paz.

    Afinal, ela era a bruxa mais temida do mundo.

    Seu poder era tal que, quando as Guerras Mágicas atingiram reinos neutros, como Rusolo e Evolo, Aiedem lançou um feitiço que ocultou o sol. Neda mergulhou em escuridão por nove dias e nove noites, e o frio dos polos alcançou o restante do mundo.

    Foi por isso, também, que ela ganhou a alcunha de Bruxa do Eclipse.

    No entanto, ela não morava sozinha naquela ilha. Como dito anteriormente, o último corredor levava a um quarto com uma cama de casal e um berço. Além de Aiedem, outra figura importante vivia ali…

    E este era o Imortal. O Cavaleiro da Tempestade. A Calamidade no Fio da Espada. O Último Soldado de Neda. O Homem Que a Morte Beijou. Os títulos eram muitos. Todos esses nomes, que inspiraram bardos, pintores e contistas, se referiam a único homem.

    Gain Dohen.

    Um homem que, um dia, já temeu o último suspiro, como todos nós. No entanto, não se sabe se por capricho, ou se realmente por amor, a própria Morte assumiu a forma humana e o beijou. Foi um evento que se deu durante as Guerras Mágicas, 300 anos antes de Nathan Yago Dias pisar em Neda.

    Esse episódio ainda rendia alguns rompantes de ciúmes, por parte de Aiedem.

    Ele abateu um exército sozinho. Matou um cavaleiro empalando-o com o cajado de um mago. Estrangulou um dragão, e fez espadas com os seus dentes, distribuindo entre os seus amigos. Seus feitos eram muitos. Entre eles, havia algo de engraçado.

    Às vezes, ele tirava uns dias para treinar crianças carentes, nas favelas do mundo todo. Essa era uma das particularidades de Gain de que Aiedem e Hain mais gostavam. Aliás, Hain Dohen é outro residente notável daquela ilha.

    Hain Dohen era o filho de Aiedem e Gain, que ainda o vêem como um bebezinho fofinho. Se você o visse hoje, daria de cara com um rapaz alto, como a mãe, de cabelos azuis e olhos vermelhos, como o pai. Magro, magricelo como um poste.

    Mas não se engane.

    Ele era o Homem Mais Forte do Mundo.

    Hain nasceu com uma força sobre humana, digna do filho do Imortal e da bruxa entre as bruxas. Aprendeu a andar aos quatro meses de idade. A falar? Com seis. Com um ano de nascido, ele desviou de uma flecha que mirava seu pai.

    Depois de treinar com Gain, nem mesmo o Capitão da Guarda Real de Zedes foi páreo para Hain. Mesmo durando dois minutos, a luta finalizou com um homem lavado de suor, ajoelhado diante de um menino que nem demonstrava alegria.

    Aos quatorze anos, Hain enfrentou o prodígio do reino de Nohin, Kiringo Kazuhito, conhecido por um estilo quase pendular de estocadas. Foi a primeira vez que Hain não obteve uma vitória. No entanto, ele também não perdeu. Tanto Kazuhito, quanto Hain, desmaiaram ao fim da luta.

    Sei que é chato ouvir os feitos de alguém tãããão incrível, mas me permitam contar mais alguns. Os deuses, certo dia, por se admirarem de um jovem tão habilidoso, resevolveram testá-lo. Cada um criou uma prova, e Hain deveria passar por elas.

    Ele fez a própria espada, ganhando a aprovação do deus da forja. Criou, a partir do mármore, uma estátua de sua mãe, recebendo a benção da deusa das artes. Enfim, até Sera, o deus da guerra, encerrou o duelo com ele em um empate.

    Ele só teve dificuldade com duas provas, concluindo apenas uma. A deusa do amor, Evol, queria fofocar sobre a garota que ele gostava. Apenas isso. Porém, Hain era jovem e inocente demais. Ainda não havia se apaixonado por ninguém.

    Se não fosse um dragão rapitar uma garota, Hain não teria conseguido. Ele recebeu o chamado do rei de Rusolo, do reino das terras do polo sul de Neda, enquanto pensava no que fazer. “Salve minha filha”, pediu ele. Ah, se os bardos pudessem ter visto o momento em que Hain viu Azile Rusolo…

    Evol se satisfez apenas com isso.

    Porém, a última tarefa dos deuses, a da senhora da água, das chuvas e trovões, não resultou em êxito. Hain deveria subir a mítica Escadaria do Céu, escondida em algum lugar nas dunas de Nohin. Esses degraus, diziam as lendas, só podiam ser vistos pelo herói de Neda.

    Infelizmente, tudo que Hain viu naquele deserto, além de caravanas de mercadores, bandidos armados com sabres e um oásis oportuno, foram miragens. Ilusões de calor intenso.

    De qualquer forma, Hain, Gain e Aiedem eram uma família feliz. Aiedem, no entanto, queria que ele passasse mais tempo em casa. Ainda sentia falta do bebezinho que brincava com uma espada de pelúcia. Gain, por sua vez, tinha saudades do tempo em que o garoto dizia, para os quatro ventos ouvirem, que ele era o seu herói.

    Ainda era, só não sabia disso.

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