Capítulo 33: Nohin.
Se alguém do nosso mundo visitasse Neda, especificamente no reino de Nohin, a primeira impressão que teria seria essa:
— O Oriente Médio?
E não estaria errado em pensar assim. Afinal, Nohin era um continente de clima árido. Desertos escaldantes cobriam quase todo o seu território, que também era planáltico. As únicas regiões baixas eram as costeiras, onde planícies tímidas beijavam o mar.
A vegetação era rala, como os cabelos rareados de um homem calvo. Nenhuma árvore chegava à quatro metros, e todas as plantas se resumiam à cactos, espinheiros e arbustos secos. Os litorais guardavam praticamente toda a vida daquele reino, pois lá tudo era mais verde.
Assim como os outros reinos, Nohin tinha um rei e um deus único. Uma relação difícil, no entanto. A família real de Nohin não estava em bons termos com sua deusa, a senhora das águas. Auga, dama das chuvas e dos trovões, não aceitava o caminho que eles tomaram.
Trezentos anos atrás, antes mesmo das Guerras Mágicas, Nohin era um reino pacífico. A vida nas cidades era pacata, e todos seguiam o ritmo das chuvas. Na presença dela, plantavam o suficiente para a próxima estação, quando ela faltaria. Tudo que faziam não ultrapassava a própria necessidade.
No entanto, quando o reino de Ballochia incendiou a cidade portuária de Ninka, em Danka, o mundo de Neda entrou numa corrida armamentista. Estando do outro lado do hemisfério, Nohin poderia ter se abstido do conflito, mas não foi o que aconteceu.
Akai Nohin, o rei daquela época, foi o governante mais estranho na história da família real. Ele não se contentava com o que tinha. Ele foi o único que não julgou Ariza Ballochia, e inclusive achou bem razoável que um rei queira estender seu território.
No entanto, se aliar à Ballochia era suicídio. Mesmo que o reino do polo norte, Oleg, estivesse ao lado dos Filhos Sanguinários, Akai não tinha fé em uma vitória da parte deles. Enfrentar Danka, Zedes, Rusolo e Evolo — o restante do mundo, basicamente — não seria prudente.
Mas ele teve uma ideia.
Ao invés de participar do front, Nohin forneceria tudo que os dois lados queriam. Ballochia importava elixires de todos os tipos, pois o País das Dunas era famoso por seus alquimistas e suas poções de alta qualidade por baixo custo e tempo de produção. A Tetra-Aliança, como foi nomeada nos livros de História, requisitava tomos, varinhas e os magos recém-formados das academias.
E quando a guerra acabou, Nohin custeou a reconstrução de metade do reino de Danka, e uma porção considerável de Ballochia. Para quitar as dívidas, esses reinos cederam alguns territórios. Com isso, e o crescente comércio de grimórios e pedras armazenadoras de ánam (energia mágica), Nohin se tornou uma superpotência.
O custo disso, no entanto, foi o silêncio da deusa Auga. Ela não aprovou nenhuma das ações de Akai, pois considerava os seus métodos como os de um homem sem escrúpulos. A última vez que a Senhora das Chuvas se pronunciou públicamente, e isso entrou para os livros, foi quando ela o chamou de “Akai, o vigarista”.
Desde então, os magos que se especializaram em magia de água se tornaram incapazes de trabalhar. Era como se a magia não quisesse brotar de suas varinhas. O mar recuou das costas, deixando uma faixa sulcada entorno do continente.
Nunca mais choveu.
Não que isso tenha afetado o mercado. Apenas abriu portas para novos nichos, como o de exportação de água. O mar entre Evolo e Nohin foi chamado de Via da Vida, pois era por ele que os navios transportavam inúmeros barris contendo o líquido precioso.
Eles descobriram, inclusive, que apenas os magos nohinianos não podiam fazer magia de água. Dessa forma, a Via da Vida também os levou ao continente sem chuva.
A partir da Grande Renúncia de Auga, Nohin prosperou em muitas áreas, especialmente no ramo da magia. Gênios apareciam o tempo todo, mas não tinham o suporte que os fariam passar para os próximos níveis. Dessa forma, diversas academias surgiram.
A capital de Koito, conhecida por ser A Ballochia do Deserto — graças ao distrito de Kurakawa, que operava tráfico humano, drogas, casas de aposta e prostituição —, era o lar de muitas dessas instituições de ensino.
As principais? A Academia Real de Nohin, de onde os maiores inventores despontavam, e a Academia Hanashihai, onde as magas mais poderosas do mundo nasciam. Aiedem, a Bruxa do Eclipse, responsável pelo fim das Guerras Mágicas, era a diretora desta última.
E foi para a Bruxa Mais Temida do Mundo que Auga, certa noite, resolveu aparecer.
— Aiedem, minha querida — começou a deusa, degustando de um vinho. — Estou pensando em perdoar os meus fiéis.
— Ah, você está, é? — riu a bruxa, achando divertido.
— Mas não será tão fácil.
Claro que não seria.
No dia seguinte, Aiedem convocou uma reunião coma família real e o ancião Kaito. Ela transmitiu a Grande Tarefa do Oriente, como ficou conhecido o “perdão” da deusa. Essa reunião marcou o início dos atritos entre Aiedem e Kaito, pois ele era o Mensageiro da Água, o representante de Auga na terra. Ele nunca perdoaria Aiedem por ela ter encontrado sua deusa.
— Devia ter sido eu!
Aiedem escreveu em um papel, e disse que deveria ser transmitido para todo o povo de Nohin. Disse que a deusa não esperava uma resposta imediata, então eles poderiam levar o tempo que quisesse. Dez, cinquenta, duzentos anos. Trezentos depois, ninguém conseguiu.
Nem mesmo o Homem Mais Forte do Mundo, Hain Dohen, foi capaz de cumprir a tarefa. Talvez a esperança viesse de longe, de um lugar bem distante de Neda, mas ninguém havia pensado nisso.
De qualquer forma, eis a Grande Tarefa do Oriente:
Se da água
Sentires falta,
Perdão não é feito
Que se negue a causa
Nem o jeito
Com que terá de volta
A vida corrente
Em tua casa
Se tua sede
De ambição
Retirou
A adoração
Que tinhas por mim
Apenas aquele
Que ofertar a si
Pode subir
Ao lugar
Onde reside
O teu anseio
E não existe
Outro meio
Para ver
O que só pode
Ser visto pelo fiel
Ele é o único
A conhecer
E subir
A escadaria do céu.

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