Capítulo 34: Rusolo.
O reino do polo sul.
O lugar onde o sol nunca nasceu. O continente mergulhado na escuridão de uma noite sem fim. Rusolo era um reino que, apesar da frieza de suas tundras e montanhas, era caloroso. As pessoas, que lutavam contra o desânimo, festejavam todos os dias.
Afinal, permanecer vivo em Rusolo é motivo para festas.
Por alguma razão, e não se sabia qual, os monstros infestavam aquele lugar. Fossem marinhos, terrestres ou batedores de asa, todo dia era uma luta. Era comum ver um rusoliano, às seis da “manhã”, decapitando um Urso das Garras de Ferro.
Todo porto precisava de guardas fortes, que fossem capazes de neutralizar serpentes marinhas. Matar lulas gigantes era comum, e as tripulações se alimentavam delas. As crianças brincavam de matar Águias Morte-veloz, numa espécie de tiro-ao-alvo estranho.
Por serem as presas naquele lugar, nenhum deles gostava de caçar.
Seria mais difícil, se não fosse pela senhora deles. Simetra, a deusa do luar e da caça, seguia o costume dos outros deuses: dava habilidades especiais a uma princesa. Visto que os rusolianos necessitavam de proteção, Simetra lhe garantiu exatamente isso.
Azile, a princesa, se tornou o Escudo Final de Rusolo.
Seus poderes se convergiam no desejo de proteger. Se quisesse afastar os Lobos da Noite, ela cercaria os perímetros das cidades com o fedor de gordura de aielab (um tipo de baleia em Neda). Se os dragões das montanhas aparecessem, ela os afastaria envolvendo cada casa com uma cúpula de fogo.
Azile Rusolo, como uma boa rusoliana, não tinha paz.
Seu esforço era bem reconhecido e, todo início de mês, os rusolianos dedicavam festas em seu nome. Isso a deixava feliz, e lhe dava ânimo para continuar. Mesmo sendo jovem, era uma guerreira obstinada. Ela amava o seu povo, e o seu povo a amava.
No entanto, houve um episódio que mudaria o reino para sempre.
Enquanto dormia um sono pesado, pela exaustão em que seu trabalho resultava, dragões atacaram o castelo. Azile foi levada pelo líder deles, o dragão Vagon. O rei se desesperou, pois ninguém tinha poder para vencer o Grande Dragão de Prata.
Foi numa visita inesperada que Zulo Rusolo, o rei, viu sua esperança. Gain Dohen, a Calamidade no Fio da Espada, viajava pelo mundo. E ele não estava só: seu filho, Hain Dohen, veio junto.
— Vagon, você diz? — repetiu Gain, como se tentasse lembrar de quem era.
— Sim, o ancião traidor de minha corte — falou Zulo, entristecido. — Nunca aceitou que Simetra tivesse mais afeição por Azile do que por ele.
— Entendo — E virou para o filho, um garoto alto, magricelo e, assim como ele, de olhos vermelhos e cabelos azuis. — Acho que você dá conta.
— O-o seu garoto, senhor Dohen? Me-mesmo que seja o seu filho, eu acho que o senhor devia…
— Acredite nele. O menino é melhor que eu.
Os cavaleiros, os magos e a rainha, que ouviam a conversa, arregalaram os olhos. Como um garoto poderia ser mais forte que o homem que parou o Deserto Sangrento de Danka? Mas ele decidiram acreditar. Só lhes restava a fé, depois de tudo.
Hain sentiu o peso do mundo em seus ombros.
Foi a primeira vez que sentiu que expectativas poderiam ser ruins. Ele pensou em recusar, ou pedir que o pai fosse junto. Mas ele teve medo. Não queria que pensassem que seu pai estava errado, então engoliu o temor e cerrou os punhos.
Ele aceitou.
Hain Dohen recebeu uma mochila bem grande, cheia de comida e ervas medicinais. Suas armas eram uma espada e um spellgun, uma invenção recente de um grande inventor misterioso de Rusolo.
— Uma varinha no corpo de uma balestra?
— Ela torna a feitiçaria cem vez mais rápida — disse Zulo, com semblante sério. — Espero que lhe sirva. Esse é o primeiro teste real dela.
— Sério? Eu posso mesmo usar algo assim tão importante?
— Claro que sim, jovem Hain.
O garoto coçou a nuca.
— Espero o melhor de você, rapaz.
— Farei o possível.
E quando Hain estava prestes a deixar o palácio…
— Senhor?
— Hain.
— Sim… — O garoto teve receio, pois o rosto do rei se fechou.
— Salve-a.
Não era mais o soberano de Rusolo. O Rei caminhante do gelo. Era Zulo, o pai de uma garota chamada Azile.
— Salve a minha filha.
Ele acenou com a cabeça, e seguiu o seu rumo.
———
Saindo da capital, que ficava na região do litoral de Rusolo, Hain precisou cruzar o continente. Matou tantos, mas tantos lobos, que seu corpo fedia ao sangue deles. Por causa disso, os Cachorros da Tundra, como eram conhecidos, o assumiram como lider da matilha.
Logo, Hain tinha um exército de lobos.
Ele também teve de abater uma sucessão de lagartos que voam. Eles eram enormes. Andavam sobre as patas traseiras, e as asas, após inúmeras observações, serviam como se fossem as dianteiras. Ele lembrou das aulas que tinha com sua mãe, antes dela virar a diretora da Academia Hanashihai, em Nohin.
Além dos dragões, existem os Wyverns. Ambos são répteis que voam e cospem fogo, mas os Wyverns são diferentes. Suas patas dianteiras fazem parte de suas asas, ao contrário dos dragões, que têm esses membros separados um do outro.
Outra coisa que Hain percebeu, e da pior forma possível, é que muitos wyverns tinham ferrões no fim de suas caldas.
Eles vão acabar me matando.
Depois de chegar ao extremo oeste do continente, Hain viu uma enorme fortaleza de gelo. No alto dela, uma entrada escondia uma caverna. Sem hesitar, ele correu pelo paredão.
Sim, ele correu na vertical. Confiava na própria velocidade.
Vinte dragões pequenos apareceram, mas ele abateu metade deles com facilidade. Depois de tantos dias manejando o spellgun, masterizou a mira. Os malditos explodiam a cada nabucab (feitiço de explosão) de Hain Dohen, tudo isso enquanto ele corria perpendicularmente ao solo.
Ainda tem outros dez.
O restante avançava em vôos razantes. Contra eles, Hain teve de usar a espada. O primeiro que voou em linha reta, coitado, teve um fim miserável. Voou como se buscasse a morte, sendo fatiado ao meio no ar. O restante ou foi decapitado, ou teve o mesmo destino do primeiro.
Quando finalmente chegou ao esconderijo, Hain viu Saduj, o ancião traidor e raptor da princesa. Estava em sua forma humana, e usava a varinha para extrair o ánam da garota. Para Hain, foi como se uma fumaça azul saísse do corpo dela e voasse para a varinha dele.
— Mas que droga você…
Sem dar chance de Saduj virar um dragão, Hain lançou a espada contra ele. A lâmina voou em linha reta, e partiu a cabeça do velho ao meio. Foi bem gráfico. O garoto agradeceu ao fato de a princesa estar dormindo, presa a uma cadeira.
Hain a tomou nos braços e, antes de sair, explodiu a caverna com sua spellgun.
Ele não queria demorar mais. Tinha receio de seu pai e o reino de Rusolo, graças ao tempo que levou para salvar Azile, pensassem que ele morreu. Foi além do próprio limite, correndo a toda velocidade, com a princesa nos braços.
Em algum momento, seu corpo recusava a corrida. Ele parou e, com um esforço descomunal, conseguiu colocá-la gentilmente na neve. Ele caiu ao lado dela, e seu corpo tremeu como se levasse uma onda de choque. Essa era a consequência de passar três semanas sem dormir, comer e descansar.
Era o primeiro colapso muscular total de Hain Dohen.
No dia seguinte, ele acordou sentindo cheiro de saliva. Os lobos o lambiam, como se tentassem acordá-lo. Notou que estava com a cabeça sobre uma loba, que tinha um semblante preocupado. Azile, com seus cabelos azuis marinhos e olhos cor de âmbar, o via de perto.
Hain não soube se foi a fadiga, ou a ansiedade de salvá-la, mas percebeu que nem havia prestado atenção ao rosto da garota. Sua pele era albina, e até os seu cílios eram azuis. Ela era pequena, se bem que qualquer um seria baixinho, perto de Hain Dohen.
O coração dele bateu errado, e se perguntou se havia sido ferido.
— Obrigada — disse ela, bagunçando os cabelos dele.
Hain não soube responder.
Trazê-la de volta ao palácio foi uma verdadeira alegria. O rei, deixando a rainha abraçá-la, quase não largou o garoto. Disse que nunca poderia lhe agradecer o suficiente. E, nesse rompante de alegria, fez uma declaração às pressas.
Com a Espada Gêmea de Simetra, Zulo honrou Hain Dohen com o título de Cavaleiro da Guarda Real de Rusolo. Teria sido épico, se a mãe do garoto, Aiedem, não tivesse surgido descabelada e o abraçasse com força, quase tirando o fôlego dele.
Ela xingou tanto o marido e o rei, que a corte ficou pasma. Não sabiam que a Bruxa do Eclipse soubesse tantos palavrões.
— Meu filhinho, você está bem? Se machucou muito? Mamãe tá aqui… — dizia ela, beijando sua testa e afagando os cabelos.
— Amor, ele está bem… — começou Gain, tomando cuidado.
— Você, fique na sua. Mais tarde a gente conversa.
O rei olhou para Gain como se visse um homem sentenciado à morte, e a corte ficou em silêncio. Mães, bruxas ou não, eram assustadoras. A rainha entendia perfeitamente como ela se sentia, mas estava feliz pelo filho dela ter salvado o seu tesourinho.
Azile, presa nos braços da mãe, nem ousou mencionar os constantes desmaios do garoto.

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