Capítulo 37: Nathan 1-I.
— Vamos começar do começo.
— Sim, claro — murmurou o Ajudante, balançando a cabeça. — Vamos começar tudo de novo, depois de 37 exibições.
— Ora, vamos! Nem é muita coisa. E não são exibições, meu caro.
— Sim, sim. Capítulos, como queira.
O Narrador, alisando um quadro-conto, deu uma piscadela.
— Creio que vamos falar sobre o seu xodó.
— Como você sabia? — O Narrador fingiu surpresa, reagindo com exagero. — Eu nem lhe mostrei o cronograma de hoje.
— Estava na sua cara o tempo todo — disse o Ajudante, cansado da atuação do chefe. — No capítulo passado, falamos sobre o Laed Odnum e como Sakai Junko chegou perto de ferrar com tudo.
Caminhavam na direção de um quadro particularmente grande, em uma sessão especial.
— Não falar do Yago Dias seria um contrassenso.
— Sua sagacidade me alegra — falou o Narrador, parando diante da obra.
“Não me sinto elogiado com isso…”
— — —
De qualquer forma…
O itálico, aqui, serve para prepararmos o terreno.
Em uma cidade chamada Itacoatiara, no interior do Amazonas, coisas estranhas aconteciam. Pessoas desapareciam, corpos sumiam do cemitério, e diziam que OVNIs foram avistados no céu.
Diziam que a cidade estava amaldiçoada.
Em um dia comum, desses que não tem importância, um garoto havia acordado no meio da noite. Uma lua de sangue tingia o céu de vermelho, e ele pensou ter escutado vozes. Ele se levantou, saiu do quarto e se dirigiu para a cozinha.
Quando estava para entrar, estancou. Parou subitamente. Estava escuro, mas não o suficiente para não ver nada. No entanto, ele não via a pessoa. Digo, tinha que ser uma pessoa. Era a voz de um homem, que grunhiu em algum lugar na cozinha.
Ele deu meia volta. Pegou uma chave de biela tipo L, na maleta de tranqueiras do pai dele, e voltou para a cozinha. Ajustou a chave nas mãos, como se fosse um jogador de beisebol, ou um samurai nervoso.
Ele entrou na cozinha.
O luar vermelho entrava pelo teto, pois havia uma única telha transparente no canto direito, mais adiante dele, acima da pia. O pai queria luz natural, por isso fez aquilo. A mesa, no meio do lugar, era rústica e velha, mas espaçosa.
Bem debaixo da pia, escondido, um homem de jaleco pressionava o abdômen. Quando percebeu o garoto, entrou em modo de alerta. Tentou se levantar, tatear os bolsos, mas o cansaço era maior.
O garoto supôs que ele não era muito atlético. Pelo jeito como apertava a lateral da costela, deduziu que devia ser a infame Dor de viado, que aflinge os sedentários que correm demais. Apertando a vista, viu o símbolo no jaleco.
“Locita?”
Laboratório Oculto da Cidade de Itacoatiara, um nome que só via no fórum de lendas urbanas que seus amigos criaram.
“Essa merda existe, mesmo?”
Então, aqueles ratos de computador não estavam delirando…
Ele baixou a chave L. Se aquele homem era um cientista, e estava escondido na cozinha dele, alguma merda grande havia acontecido. Sendo o garoto prático que era, gostaria de resolver as coisas o mais rápido possível.
Ele tinha uma prova no dia seguinte, afinal de contas.
E foi assim que iniciou a conversa.
— — —
— Meu nome é Nathan — disse o garoto, deitando a chave na mesa. — Nathan Yago Dias.
— Eu… ah, droga. Eu sou Renato. Renato Farias de Santana — respondeu o homem de jaleco, saindo de baixo da pia. — Me desculpe, eu estava tão concentrado na fuga…
— Percebi. De quem… não — Balançou a cabeça, corrigindo o que ia perguntar. — Do que você está fugindo?
O cientista ajeitou os óculos, e deu tapinhas na roupa. Puxando uma cadeira, falou com certa pressa:
— Você vai achar isso tudo uma loucura, tenho certeza, mas vou explicar mesmo assim. Acontece que eu sou o responsável por estudo de mutações genéticas em um fungo…
“Ah, vai se foder!” Pensou Nathan.
— Você sabe o que é um cordyceps?
— Não faço a menor ideia — murmurou o garoto, sentando ao lado dele.
— É um fungo que infecta insetos e alguns artrópodes, e os transforma em marionetes. Os mais pesquisados eram os que envolviam formigas. Elas, depois de completamente infectadas, tendiam a voltar para o formigueiro.
— E transmitiam o vírus para as outras…
Zumbificação.
— Existe uma espécie particularmente interessante, aqui no Amazonas — falou Renato, como se estivesse em um seminário. — O Ophiocordyceps simia-rex.
Uma espécie que afligia macacos, quando estes estavam prestes a falecer.
— Encontramos um espécime em São Gabriel da Cachoeira, em uma comunidade indígena baré.
— Porra, e vocês foram pra lá, é? — O garoto deixou escapar.
Afinal, era um município bem distante dali.
— Perdão, continue.
— Os anciãos chamavam esse macaco — explicou Renato, como se estivesse mostrando o símio ao garoto —, essa aberração, de sauapóra. “Macaco fantasma”, pois se mexia, mesmo morto.
— Puta merda…
Ele sentiu onde isso ia dar.
— Não me diga que você decidiu testar isso em laboratório… — falou Nathan, se segurando para não xingar o cientista.
— Infelizmente. A primeira coisa que notamos era que o sauapóra tinha duas antenas na cabeça.
— Antenas?
Um macaco alienígena?
— Tipo de ET?
— Não. Lembravam cogumelos — disse Renato, dando de ombros. — É um fungo, no fim das contas. Estudamos o simia-rex, e decidimos…
— Replicar em humanos — completou Nathan, prevendo o que ia dizer. — Em pacientes terminais, imagino.
— E vítimas de acidentes fatais — falou o de jaleco, coçando a testa, desconfortável. — Mesmo Itacoatiara liderando os índices de acidentes de trânsito, não tivemos sucesso nenhum.
Mas se ele fugiu do laboratório…
— Isso, bem, até o fatídico experimento Rebeca-1. Era filha de um dos patrocinadores do projeto, e se envolveu num acidente.
— Rebeca, acidente… — Nathan arregalou os olhos, passando a mão pela boca. — Rebeca Nunes? Aquela Rebeca Nunes?
— Se estiver falando da garota que bateu num ônibus, sim.
— Nem ferrando, cara…
Eles eram colegas de classe.
— Vocês são um bando de monstros…
— Você não está errado, mas me ouça até o final.
Rebeca Nunes teve múltiplas fraturas, e entrou num coma assim que chegou ao hospital. O pai chegou meia-hora depois. Decidido a fazer o dinheiro injetado no projeto valer a pena, mandou que o hospital levasse a garota a uma clínica.
A Clínica do Dr. Tiago Neto.
— Sim, aquele Tiago Neto.
— Você está me dizendo que ele também… — Nathan esfregou a cabeça. Era muita informação. — Desisto.
Renato contou que fizeram o fungo se reproduzir em Rebeca, a partir da fratura semi-exposta de seu crânio. Não houve evolução aparente, em relação aos outros experimentos. No entanto, com o passar dos dias, um par de cogumelos crescia na cabeça dela.
Quando aquelas coisas começaram a espirrar, a sala em que estava foi posta em quarentena. Não sabiam os riscos de expor pessoas saudáveis ao fungo, então só entravam com o auxílio de trajes especiais.
Depois de uma semana, Rebeca simplesmente se levantou da cama.
— Ficamos tão, mas tão perplexos, que nem ousamos entrar outra vez.
E assistiram a garota vagar pelo quarto, como se estivesse perdida. Ela não falava, nem gesticulava. Parecia se mover com dificuldade, tal como se não estivesse acostumada com o próprio corpo.
Era o fungo.
— E as coisas pioraram.
A Locita tinha um galpão, e era lá onde jogaram os cinco primeiros “testes” do simia-rex em humanos.
— Duas horas atrás, os guardas ouviram batidas no galpão. Antes que ele pudesse fazer algo, as pessoas arrombaram o portão.
Elas caminhavam com pressa, obstinadas. Obcecadas, com dois ou três cogumelos na cabeça. Cadáveres que se moviam.
— Elas passaram pelo guarda, como se ele não existisse, e seguiram o próprio rumo. Minutos depois, enquanto discutiamos, desesperados, percebi que havia uma explicação.
A pior possível.
— Assim como as formigas infectadas, depois de completamente tomadas pelo cordyceps, voltavam para o formigueiro…
— Os infectados estavam voltando para casa — completou Nathan, horrorizado.
— Exatamente.
Mas era tarde demais.
— Um deles era meu irmão.
Muito, muito tarde.
— Ele entrou na casa dos meus pais…
Terrivelmente atrasado.
— E eu não sei o que aconteceu. Ouvi eles gritarem pelo telefone, dizendo que alguém arrombou a porta. Eu, eu… eu corri. Tentei ir… mas tive medo…
E desviou o caminho.
— Eles moram na rua de trás, do outro lado do seu quintal — falou Renato, como se pedisse desculpas. — A porta dos fundos estava aberta, e pensei em acordar algum adulto, mas… mas como eu iria falar disso?
Meu irmão virou um zumbi, e provavelmente infectou meus pais!
— Como diabos eu ia falar disso?
— Aí você se escondeu na pia?
— Aí eu me sentei debaixo da pia… Eu vim correndo do laboratório. Estava cansado. A adrenalina passou assim que comecei a pensar, aqui na sua cozinha. O cansaço me obrigou a parar.
— De qualquer forma… — falou Nathan, como se espantasse uma mosca. — Você sabe o que fazer? Tem algum plano?
O cientista o olhou com pesar.
— Imaginei.
“Que ótima notícia!”

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