Capítulo 40: Nathan 2-II.
“Ao pensar
Eu me mutilo,
Me assassino
Quando penso
No motivo
De pensar.”
— Thanna.
Ele odiava a chuva.
A chuva começou no meio de Novembro, se estendendo até dezembro e piorando em janeiro. Chovia todos os dias. Em fevereiro, alternava dia sim e dia não.
Em março, piorava outra vez.
Era uma noite do terceiro mês do ano, pouco mais de dez dias antes dele findar. O jovem estava deitado na cama dos pais, enrolado nas cobertas e na escuridão.
A chuva devia ter rompido algum fio, queimado alguma fase, pois não havia luz em casa. Nem nas casas vizinhas. Talvez o bairro todo estivesse em trevas.
Esse jovem havia aberto o bloco de notas do celular. Rascunhava algumas coisas sem sentido. Não sabia se escrevia um poema, como tinha feito nos últimos dias, ou uma crônica.
Ele pensava no que escrever. Não se considerava um bom autor, então qualquer tema teria a pior execução possível.
Muita coisa o desagradava, mas não queria falar disso. Sim, quem escreveria sobre o enjôo diário, a vertigem de todo santo dia, após qualquer refeição?
Ele também sentia frio. Seu corpo doía, e ele queria que os pais chegassem. Queria poder entrar em seu próprio quarto e, enfim, encerrar o dia.
Mas os pais, como sempre, iam demorar para voltar da rua. Sabe Deus o que estavam fazendo! Para não se frustrar ainda mais, suspirava. Tentava se contentar em continuar digitando.
Havia tanto que reclamar! A falta de luz, a saúde precária, o cansaço constante, o aparente desimportar dos pais, o cinismo dos amigos, a constante degradação do mundo e o preço das coisas no mercado.
Era difícil escrever sobre campos verdejantes, espadas e feitiçaria, quando você lembrava que o seu amigo claramente queria roubar uma amiga sua.
Era estranho. Mesmo que o jovem não tivesse interesses românticos para com a garota, incomodava saber que seu amigo falava dela como quem fala de um pedaço de carne.
Amigo esse que também se aproximava das ex-namoradas de todo mundo, e agia como se não tivesse nada de errado nisso. Você poderia achar que não há, e é exatamente isso que o cara queria que você pensasse.
Essas preocupações normais conviviam com… bem, o caso do fungo na semana passada, o qual ele ainda tentava digerir. Ninguém saberia que algo como um apocalipse zumbi quase aconteceu, ali em Itacoatiara.
Era cômico saber que coisas ordinárias, como a sua saúde frágil e o amigo talarico, conviviam com o Ophiocordyceps Simia-rex e aquela pílula azul em sua mão.
Antes que você comece a pensar em obscenidades, aquilo não era um azulzinho. Ele nem teria com quem usar, mesmo se fosse. Aquilo apareceu há poucos minutos.
Simplesmente surgiu em sua mão, quando ele fez o movimento de abrir e fechá-la. Ele se perguntou sobre o que faria com aquilo.
Não era uma pílula comum. Uma espécie de fogo translúcido crepitava sem queimar, num tom suave de azul. Claramente não era algo comum. Não queria admitir, mas talvez fosse mágico.
Ele respirou fundo e guardou no bolso. Era inútil querer entender aquilo. Afinal, mesmo se não fizesse nada, aquilo seria explicado, cedo ou tarde.
Provavelmente de um jeito esquisito.
Eram oito e trinta e três. A orquestra do mato ecoava lá fora, com os sapos contra-altos harmonizando com o soprano das cigarras. O tipo de música que só se ouve quando a energia das casas some.
Depois de tudo, ele ainda não sabia o que escrever. Estava escrevendo, sim, e isso era um fato. Mas não sabia onde aquilo ia dar. Quer dizer, ele nunca sabia.
Fazendo roteiros ou não, criando escaletas diversas, ele ainda assim ficaria perdido. Ele, assim como os protagonistas, não sabia o que o Mundo Especial tramava.
Suas histórias terminavam em quatro páginas, e a mais longa durou seis. Seus amigos, que também escreviam, diziam que ele era afobado. Precoce, até.
Todos eles estavam tentando. Queriam vencer o Concurso de Prosas e Poemas da Editora Caiçara, cujo primeiro lugar receberia a bagatela de 15 mil reais. Já tinham planos de como gastar o dinheiro.
Todos queriam fisgar o peixe.
Tinham ideias legais, esses amigos de Nathan. E eram realmente talentosos. Talvez fosse o caso da “grama do vizinho ser mais verde”, se o garoto não fosse autoconsciente.
Terrivelmente autoconsciente.
Poderia inventar desculpas. “Eu estava lutando com zumbis”, “ganhei uma pílula mágica” e coisas do tipo. Ninguém ia acreditar, obviamente.
E, mesmo se fossem, não seria o bastante.
Ele não ia se convencer.
Talvez ele devesse se deixar levar. Deixar que o fluxo da vida o arrastasse, tal qual na música do Skank. “Vou deixar a vida me levar…”
— Pra onde ela quiser.
Engraçado que, agora que pensava nisso, a canção cairia bem naquele momento. Pena que não havia baixado-a. Seria perfeito poder ouvi-la.
Outra coisa que se deu conta foi que, olhando para a tela do celular, percebeu que estava falando de si mesmo. Nathan talvez visse um alter-ego no personagem que escrevia.
“Mas, afinal, não seriam todos os personagens alter-egos dos autores? Quando se escreve, parte-se de um ponto de vista, que invariavelmente é o seu.”
Mesmo que você diga que “escrevo da perspectiva do personagem”, ainda seria você. Não teria como ser outra pessoa. Você, outrossim, estaria emulando outra persona ao trabalhar o texto.
Ainda assim, tudo é baseado no que você acredita que essa personagem faria. Como dito antes, ainda é você.
“Toda história seria um ego-trip, então?”
Ele se perguntou. Bem, se escrevesse sobre um psicopata, que orquestrou o assassinato de uma família, matando a própria mãe à sangue frio, ainda seria ele?
Provavelmente sim. Ainda partiria do princípio de “o que eu acho que um psicopata faria”. Ou seja, não seria o personagem que matou. Seria o autor que fez o personagem matar.
Ele riu.
O jovem encarou o texto. Rolou a tela até o início, e releu até o fim. Foi um texto bem estranho, digno de ser ignorado em uma pasta, junto de outros fracassos impressos.
Ainda assim, sorriu.
Era um texto bem honesto, vendo melhor. Ele não estava querendo impressionar ninguém. Salvou o rascunho, e uma nova pergunta veio até ele.
Deveria mostrar aos amigos?
Eles com certeza diriam que era uma droga. Quer dizer, eles pensariam que era um punhado de fezes, mas diriam que era “típico” dele. Deprimente? Um pouco.
Esperou, escreveu mais um pouco, para bater as mil palavras necessárias. Mil e quarenta e três. É, estava ótimo.
Ia mostrar, de qualquer forma.

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