Por que a galinha queria atravessar a rua?

    Para chegar do outro lado. Essa era a piada, né? Todos já ouviram, em algum momento. Eu, o Narrador, sendo uma existência estranha, perto de vocês, a ouvi em diversas ocasiões. E, por isso mesmo, posso afirmar:

    Ninguém nunca riu disso.

    Sim. Nunca houve um momento, em toda a história da humanidade, em que alguém riu dessa piada. Digo, em toda a história em que ruas e galinhas existiram. Galinhas vieram antes das ruas, isso é um fato.

    Se estivermos falando da Terra, talvez a primeira rua da história tenha surgido na Ásia Menor. Nem me lembro mais. Mas deve ter sido asiática. Afinal, os asiáticos fizeram tudo antes do ocidente. Enfim, como os historiadores adoram a Mesopotâmia, digamos que a primeira rua da história tenha sido em Ur.

    Se bem que elas eram consideradas exóticas. Os primeiros a domesticá-las, vejam só, foram os povos no sudeste asiático. É, as ruas vieram bem antes das galinhas. As galinhas domesticadas, pelo menos.

    Vamos assumir que, mil anos antes do tal Rei dos Judeus ter nascido, alguém tenha pensado na piada da galinha que atravessa a rua. Mesmo ali, no berço da comédia, as pessoas não viam graça nela. Nenhuma. Graça.

    Mas, se você conhece um tal Nathan Yago Dias, talvez as coisas mudem de figura.

    Ele havia saído de casa, naquela manhã de sábado, às 8:34 da manhã, sem destino definido. Em uma dessas ruas de Itacoatiara, ele decidiu comprar uma camisa. A primeira que parecesse legal, e que não fosse parecer um pano de chão em dois meses.

    Ele foi lá, comprou uma com a estampa de um urso pirata, e saiu. No Brasil, é comum que menores de idade andem em motocicletas, então não fique assustado. Ele a havia estacionado do outro lado, e quando foi atravessar a rua…

    Não conseguiu.

    Um caminhão vinha em alta velocidade, ignorando todo mundo. Saiu costurando entre os carros e motos, sendo xingado até a última geração de sua família. No outro sentido, um grande fluxo de motoristas vinha amontoado.

    Ele decidiu esperar. Era normal, até ali.

    Era normal que, sempre que você pensava ter chance de atravessar, algum apressadinho impedia sua ida. Ou que viessem alguns minutos em que, graças ao sinal verde, outro fluxo ininterrupto de motos escorresse pela rua.

    Estava habituado a esperar.

    Não tanto assim, é claro. Porque, nessa brincadeira, quarenta minutos haviam escorregado pelos dedos, sem que ele tivesse a mínima chance de atravessar. Ele estava ali, plantado, imaginando a moto alguns metros a frente, feito um bobão.

    — Ei, menino!

    Uma voz rouca furou o zum-zum dos carros.

    — Por que a galinha atravessou a rua?

    Uma piada. Quer dizer, Nathan conhecia aquilo como uma piada. No entanto, o tom que a pessoa usou foi outro. Parecia uma pergunta. Uma dúvida genuína. E a voz dele pareceu vir do outro lado.

    O homem que falou, estando do outro lado, provavelmente estava naquela loja de roupas, concorrente da que Nathan saiu há um bom tempo atrás. Mas ele não conseguia vê-lo. Talvez fosse culpa das motos e dos carros, que desenhavam listras cinzas e brancas no ar, como uma cortina de rastros de luz.

    O homem com certeza estava falando com ele.

    “E não tá me zoando.”

    Ele não o conhecia. Nunca tinha escutado a sua voz. Mas, de alguma forma, ele sabia que estava falando sério. Não era do feitio de Nathan confiar em estranhos, mas algo naquele homem era peculiar.

    O motivo?

    “Ele falou sussurrando.”

    Os carros passavam chutados, rasgando o asfalto, enquanto motos cortavam giro e faziam velhos mandarem seus donos se f0d3r3m. Se vocẽ quisesse falar com alguém do outro lado da rua, só seria ouvido se gritasse.

    Mas aquele homem sussurrou.

    E, mesmo assim, Nathan ouviu.

    — Pra chegar do outro lado.

    E algo com certeza aconteceu.

    O bem-te-vi, que cantava num poste e alçou vôo, parou. O Celta, que ultrapassava uma caminhonete, parou no ato. A Pop-100 e a Bis, num beijo entre suas rodas dianteiras, também estancaram.

    Como se o tempo houvesse parado.

    “Mas que porra?!”

    E o pior não foi isso.

    Não, claro que não foi.

    Como se alguém, com mãos gigantes, afastasse brinquedos, todos os automóveis, todos aqueles que passavam pela rua foram empurrados. Sim, arrastados, sem cair ou tombar. Abriram um vão no asfalto, entre Nathan e a moto do outro lado.

    Como a abertura do Mar Vermelho.

    “Então, vamo lá!”

    E ele correu. Assim que montou na moto, observou todas os elementos na calçada. A loja de roupas rival ainda estava aberta, e os clientes e atendentes se moviam normalmente, alheios ao que havia acontecido na rua.

    Mais importante que isso, ele procurou, mas não viu o homem em lugar algum. Provavelmente era um mago, tinha que ser. O que o garoto queria saber, mais que a identidade dele, era se o fluxo imparável do trânsito foi obra dele, ou se o cara estava salvando-o.

    Se fosse a primeira opção, seria terrível ter alguém assim como inimigo. Alguém que podia alterar a realidade, sem que as pessoas normais percebessem, era de uma capacidade absurda. Se fosse o caso, era um gênio. Um gênio maligno.

    E, no momento em que pensou nisso, lembrou de algo.

    “Caiçara: Lendas Urbanas.”

    O site de conspirações, folclore e mitos da cidade. Criado por amigos dele, o site organizava um acervo generoso de narrativas fantásticas, atualizado todos os dias. Se algo como o que acabou de acontecer era uma lenda, devia estar ali.

    Ele pegou o celular, abriu o navegador e entrou no site. Na barra de pesquisa, tentou três palavras-chave, e a terceira deu certo. Apareceu uma lenda correspondente:

    O Limbo da Calçada.

    Limbo, pelo dicionário, significa “borda”, “extremidade”. Calçada é a faixa de concreto, ou de outros materiais similares, localizada entre uma edificação e uma rua, feita com a finalidade única de permitir a ida e a vinda de pessoas.

    Sendo assim, o Limbo da Calçada é um espaço indefinido que surge quando o indivíduo, tomado pela sensação de nunca conseguir atravessar a rua, se encontra no limite de uma calçada. A condição é essa: estar no limite da calçada, que por ela mesma é um limite.

    Caso você sinta, do fundo do seu coração, que não vai conseguir chegar ao outro lado, pronto! Você está num espaço estranho, numa dimensão à parte da nossa. As pessoas que voltaram de lá, e ofereceram subsídio à nossa redação, relataram ter passado meses e anos ali, no limiar da existência.

    O que as une, para além dessa experiência, é o fato de terem sido salvas pela mesma pessoa. Uma voz que perguntou a elas “por que a galinha atravessou a rua?”, com tanta sinceridade que as deixou confusas. Ao responderem, puderam sair dali.

    Ninguém sabe quem é esse homem, e não temos mais informações sobre ele. Nossa equipe teoriza que ele deve ser um dos magos que residem em Itacoatiara, mas não sabemos dizer qual é. Todos são candidatos. 

    — O Limbo da Calçada, é? — murmurou Nathan.

    Ao guardar o celular no bolso, coçou a cabeça, girou a chave e foi embora. Ainda tinha que decidir o que fazer com aquela pílula azul.

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