Capítulo 42: Nathan 2-IV.
Era como ver um sorvete derreter ao sol.
As ruas se liquefaziam, como se estivessem com calor. A barraquinha de sorvete, que ironia, ia se dissolvendo no asfalto, junto das árvores, dos carros e das motos estacionadas. A orla de Itacoatiara era uma vitaminada com sabor de piche, madeira, água doce e loucuras variadas.
Um tuti-fruti nada saudável.
Nathan via isso com assombro. Ele estava ali, como um idiota mergulhando em areia movediça, se debatendo feito louco. A mistura que o envolvia era gosmenta, grudenta e, o pior de tudo, pesada.
Não era possível erguer nem um centímetro do líquido estranho.
“Que merda é essa, agora?!”
Seu único alívio, naquela situação, era saber que as roupas que comprou estavam no bagageiro da moto. Moto essa que havia sido tragada pelo tutti-fruti, by the way.
Diversas possibilidades passaram pela mente dele: Locita, magia ou algum super vilão. Você poderia rir, se ele fosse uma pessoa normal. Mas ele era Nathan Yago Dias, e ele passava longe de qualquer conceito próximo de “normal”.
Ele fitou o céu, e até ele parecia um capuccino azul com desenhos de espuma. As aves, ainda em vôo, pareciam pedaços de chocolate dando voltas no céu líquido. Era como aquela pintura do Salvador Dali.
A Persistência da Memória.
E foi quando ele entendeu o que estava acontecendo. Não havia sacado de primeira, pois era um movimento mínimo. Olhando para as aves, depois para a superfície que ameaçava o engolir, ele viu que o mundo estava girando.
Sim, isso mesmo. Girando. Claro, o movimento de rotação da Terra era um fato, e ele era um garoto que prestava atenção nas aulas. Mas, havia algo muito assustador sobre isso…
“Nós não devíamos perceber a rotação da Terra…”
Ele não sabia explicar, pois era demasiado complicado, mas os seres humanos não tinham capacidade para sentir, com seus próprios corpos, a Terra girando em torno de si mesma — tampouco em torno do sol.
Então, porque ele sentia que estava se movendo? Ou melhor, sentia que estava sendo movido. Imagino que a Terra, neste exato momento, fosse uma grande vitaminada em um liquidificador.
Tudo derretia e se misturava, sendo girado em torno de um eixo.
“Isso não é coisa da Locita!”
Evoluir o Ophiocordyceps era uma coisa, alterar a realidade era outra.
Então, devia ser magia. Ele não conhecia nenhum mago, mas ouviu histórias de feiticeiro. Causos de gente perdendo membros do corpo de repente, por causa do trabalho de certos magos das trevas.
Nunca ouviu falar de um feiticeiro que pudesse alterar a realidade. Mas o mundo guardava segredos, então não era impossível. Agora, que tipo de fundamento havia por trás desse feitiço?
Ele não era chegado em artes místicas, mas quase toda magia tinha um fundo religioso. A magia cristã, por exemplo, era conhecida como milagre (e as orações e rezas, por exemplo, poderiam ser entendidos como feitiços).
Seria um feiticeiro da Umbanda? Do Candomblé? Eles eram incríveis, mas será que tinham todo esse poder? Talvez fosse um xamã! Bem, Itacoatiara era um município no interior do Amazonas, então as chances eram altas.
De qualquer jeito, ele ia acabar morrendo afogado, se não fizesse algo. O movimento do líquido o fez se aproximar de um coqueiro, que era engolido aos poucos. Com muito esforço, agarrou seu tronco e conseguiu se pendurar.
Havia algo, sim. Algo que ele podia fazer.
Ainda estava no seu bolso. Estava relutante em usar aquilo, mas não tinha escolha. Ele meteu a mão ali, pegou e retirou. Era aquela pílula azul, de onde vinha uma energia índigo fantasmagórica.
Com uma careta, ele engoliu.
Seu corpo ficou mais leve, e uma voz de barítono veio de algum lugar. Ele mal conseguia distinguir o que dizia, pois era como se houvesse interferência, tal qual um rádio mal sintonizado.
Em algum momento, ele conseguiu discernir:
Para conter
O sistema corrompido
Para saber a dor
De quem tem
Sofrido
Vim para trazer
A nova era
E fazer sobrar
Alguma coisa
Para o Beta!
Ele estava repetindo sem saber, e concluiu com um grito:
— BLUE… PILL!
Seu corpo foi coberto por luz azul. Em instantes, uma roupa colada, de um material muito macio e flexivel, cobriu cada perímetro de sua pele. Estava vestido de azul dos pés à cabeça, que era escondida por um capacete metade azul, metade branco.
A viseira, a sola das botas e as palmas das mãos eram negras. Sim, ele havia se tornado um Pill Ranger. Ele virou o Betaman!
— Eu me sinto… forte?
Se pendurar no coqueiro já não era um problema. Era fácil como segurar o guidão de uma moto. Mal sentia o próprio peso.
“A transformação dá super força, então?”
Mas não era só isso.
“Que sensação estranha…”
Ele olhou para baixo e, um pouco mais adiante, havia uma espécie de brilho negro vindo do fundo. Como um garoto que jogou bastante de videogame, sabia que aquilo ali, independentemente do que fosse, era o núcleo…
“A raiz da magia que tá distorcendo o mundo!”
Sem pensar duas vezes, ele se atirou na vitaminada urbana, mergulhando como um Michael Felps esquisito. Nadou com velocidade, coisa que era impensável, minutos antes. O líquido era espesso, mas ele conseguia ver aquela luz.
“Talvez isso seja feito de mana!”
Enxergar magia era uma habilidade interessante.
“Assim, tudo que eu preciso fazer é chegar lá!”
E, chegando lá…
— Mas que porra…
— Bem vindo, Pill Ranger!
Era uma voz de mulher.
No meio do tutti-fruti existencial, sabe-se-lá quantos metros abaixo da superfície, existia um vácuo. Sim, uma esfera enorme, onde uma plataforma de pedra flutuava no centro. Sobre ela, uma mulher de coturno e vestido preto balançava uma varinha.
Uma gótica no colapso do mundo!
— Eu sou Velkryss Vanthelis, uma Femme Fatale!
“Ah, puta merda!” Praguejou Nathan, em pensamento.
— Meu codinome é Megamix, a Grande Alquimista das Misturas! — Ela pôs uma mão na cintura, e a outra apontou a varinha contra Nathan. — E com essa humanidade sofrida, de seus pecados arrependida, farei uma grande…
E louca…
— Batida!
“Não tinha uma vilã menos imbecil, não?”

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