Este conto é isolado.

    Ele queria vomitar.

    E quando não queria, né? Ele nunca teve um dia em que não quis botar o café, o almoço ou jantar pra escorrer pelo vaso.

    Era uma vida de merda.

    “Uma hora… falta só uma hora.”

    Uma hora para o fim do expediente. Uma hora para passar por entre os caixas, as mercadorias e sair por aquela porta, para então pisar em uma casa que não é sua.

    Maravilha, não acha?

    O relógio marcava 17:00 horas. Era um Cassio infeliz, custoso em passar cada segundo. Até os ponteiros sofriam com a escola 6×1.

    O garoto caminhava pelo corredor dos produtos de limpeza. O cheiro do sabão em pó, água sanitária, desinfetantes e amaciantes de todo tipo, se misturavam debaixo do nariz.

    O abdômen endureceu. “Merda”, pensou ele. Já sentia a queimação subir pela garganta. Se não controlasse a respiração, estragaria os 6 reais que gastou no mixto consumido ao meio-dia.

    Como se não bastasse, a cabeça pesava, e os seus pensamentos eram remexidos como sopa em uma panela: a aposentadoria do avô que não caía, o nome sujo de sua mãe, as provas da semana que vem…

    Era tanta coisa ao mesmo tempo, que ele simplesmente queria cair da ponte. Mas era setembro amarelo, e algum idiota viria dizer que não tinha o direito, pois está escrito no evangelho que…

    Enfim, era uma merda.

    “Tá passando…” 

    Meio aliviado, deu uma bela fungada no ar, sentindo a lavanda artificial invadir suas narinas. Ainda tinha que repor os produtos na seção de perecíveis.

    Vou lhes poupar disso.

    — — — 

    Em casa, era a cena de sempre: seis e tantas da tarde, o estômago enjoado e os olhos desfocando feito J1 mini pisoteado na 25 de março.

    Com uma boa fechada de pálpebras, conseguiu normalizar a vista e encontrar a chave cravada na soleira da porta.

    “Sério?” 

    Aquela garota havia chegado primeiro, pelo jeito desleixado como encontrou a chave, exposta fora do carpete. Ia brigar com ela depois.

    Abrindo a porta, sentiu o quarto refluxo do dia: chulé de meia adolescente recendendo pela sala. E ele havia comprado a droga do talco Barla.

    Se não fosse o código penal, alguém comeria terra naquela noite.

    Antes de decidir se a faca de cortar pão cerrava ossos, tinha de dar banho no avô. Afinal, quem precisa de cuidador de idoso, quando se tem parente mão de vaca?

    Fez o ritual de sempre: pôs o velho na cadeira de rodas, levou pro banheiro, ligou a ducha e fez milagre naquele cadáver transpitante. Não fosse por ele, Seu Bebeto exalaria andiroba e copaíba o dia inteiro.

    Era um trabalho ingrato, mas tinha de ser feito.

    Depois, como se vencer não fosse o suficiente, tinha que fazer o jantar. E tinham de ser pratos diferentes, já que o velho era diabético e hipertenso. 

    Enquanto refogava o frango sem tempero do avô, decidiu que não ia fazer jejum. O enjôo não passou, e não queria vomitar. Ainda era terça-feira, depois de tudo.

    “Enquanto isso…”

    Finalmente pegando o celular, abriu o YouTube e deixou rolar a live do Deltas, um streamer que viu crescer na plataforma. Gostava muito dele.

    Até o avô dele curtia o Deltas, pra você ver o nível do cara.

    — Pô, galera, o mundial tá uma merda — falou o streamer, mastigando Cheetos. — A Crowd Five vai perder pra S Class, mano! Time europeu em MOBA é doidera. Os caras tem que investir em bootcamp, mano!

    O garoto também achava isso. Sabia que a Crowd Five era o melhor time brasileiro de Pistol Art Online, mas era só isso. Não eram páreos pros caras da Europa.

    E a S Class, time búlgaro, estava entre os favoritos do campeonato, graças ao grande trabalho de revezamento de posições que os players tinham.

    — Enquanto no server BR os caras ficam presos em suporte, sniper e rushador, os europeus invertem, trocam… o suporte uma hora é sniper, outra rusha… é loucura! A gente é quadrado pra cacete.

    O garoto, relaxado, desligou o fogo e foi servir o velho. Ajudando a sentar à mesa, falou:

    — Tá quente, vovô. Cuidado.

    E o velho acenou rápido, faminto. 

    — “Aposta”? — disse Deltas, lendo o chat. — Nah… EI! — E virou a tela do celular para mostrar na cama. — Meu, cês tem que ver isso!

    Enquanto fritava sardinhas para a irmã, o garoto quis ver o que Deltas mostrava, mas não podia deixar o fogo sozinho.

    — Que escrota, mano! — falou o streamer, meio assustado. — Taí…

    E era uma voz familiar vindo do vídeo…

    — Coisas que eu ouço todo dia na faculdade… — Era uma mulher. — “Vocês namoram?”.

    Tentou lembrar onde ouviu alguém assim, mas…

    — Acho que toda garota já passou por isso: andar pra cima e pra baixo com um cara e ouvir coisas assim.

    Impossível.

    — Ai, que ridículo isso, sabia?

    Não tinha como.

    — Eu tenho sentimentos e todo mundo ignora, gente! 

    Era a melhor amiga dele.

    — Eles dizem ‘ah, mas vocês vivem andando juntos. Provavelmente se pegam escondido’. Nada a ver, cara. Eu nem vejo ele como homem. Pra mim, ele é uma bestie, sabe? Uma garota, uma mulher… 

    Sei lá, as pessoas fazem parecer que eu sou uma tonta por não ficar com ele, mas… Se coloque no meu lugar! Ele é todo esquisito. O jeito como ele sorri é estranho, o rosto dele é compacto… Eu não o beijaria nem se me pagassem! 

    O cheirinho de queimado subia…

    Fazem parecer que eu sou destinada a casar com ele, mas… Não, mano! Não, nunca! Um cara assim, esquisito?

    — Porra… — murmurou Deltas.

    Imagina acordar numa segunda-feira, e ver essa cara do seu lado? Essa cara chupada de cansada? Que horror! Ele provavelmente é a última opção de qualquer garota que se preze…

    Se eu tivesse de escolher entre pular de uma ponte, e ficar com ele, eu pularia sem paraquedas.

    — Pô, chat, parou! Eu nem consegui rir, viado! Caralho, tô até triste, mané… — O streamer fechou a aba do Insta, onde reproduziu o vídeo. — Imagina se o cara vê essa merda, tá ligado?

    Imagina, né?

    — Pô, se eu fosse esse mano… Velho, eu nem falava mais com essa mina. Cê é louco… por mim! 

    Deltas tossiu, ainda incrédulo.

    — Por mim, eu ficava era sozinho, na moral! Antes sozinho, que mal acompanhado!

    O garoto, paralisado, não conseguia nem processar o que ouviu. Seria um sonho? Um erro da matrix, ou ele confundiu as vozes? Podia não ser ela… mas ele viu. Era ela. Tinha que ser ela. Ainda assim…

    Em todo caso, as sardinhas estavam prontas.

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