Grande Griffin, 712.

    O céu estava nublado; as densas nuvens cinzas impediam a entrada completa da luz solar. Aos poucos, as gotas de água começaram a atingir o chão, porém não era mais que uma garoa.

    Em uma terra desnivelada com grama, o som da colisão do aço e gritos podia ser ouvido enquanto a mais importante batalha dos últimos tempos acontecia. O último confronto de uma guerra comandada por divindades, e em um dos lados estava aquele que era o maior pecador, ousado o suficiente para desafiar os deuses.

    — Sigam em frente! Aguentem só mais um pouco! — gritou uma voz um tanto aguda. Empunhando uma espada e uma adaga como um demônio estava um pequeno jovem, com não mais que um metro e cinquenta e sete, cabelos ruivos de aparência bagunçada, pele pálida e olhos da cor do sangue.

    Sua habilidade era assustadora, lidando com grupos de soldados por si mesmo e dilacerando pelo campo de batalha em direção ao seu alvo. No olho do furacão, um homem enorme de armadura da cor de latão manejava uma lança com habilidade de mesmo nível enquanto eliminava grupos inteiros de soldados em cada golpe, um brilho dourado emanava na ponta da arma. 

    — Santo da Lança! Por que você não vem aqui me mostrar o que esse palito consegue fazer? — Ti’metios anunciou o desafio. O som da batalha entre os soldados rasos pareceu diminuir quando os dois líderes ficaram frente a frente.

    — Campeão de Zigfryd. — O guerreiro balançou sua arma, jogando o excesso de sangue no chão e encarando o vampiro em sua frente. — Tão audaz como da primeira vez que nos vimos.

    — É, eu sei, mas você pode me elogiar depois que eu te matar. — Ele apontou sua espada para o Santo, a lâmina antes cinza pareceu absorver o sangue como uma esponja e adquiriu uma cor vermelha. — Sua divindade já foi enviada de volta para o céu junto das outras, você é o último dos santos ainda vivo e, portanto, a última fagulha de sangue divino presente na terra.

    — Por quanto tempo pretendes ser uma peça daquela criatura?

    — Não serei mais. Zigfryd sacrificou sua vida para criar uma barreira contra os deuses, o mundo pertence aos mortais agora. Mas já é passada a hora de conversa, lute, Santo da Lança! — Com essa última fala, ele partiu em direção ao guerreiro divino com sua espada e adaga desenhando um semicírculo vermelho no ar.

    Suas armas se chocaram, o mero impacto de suas forças foi suficiente para o chão se partir. Aquela era a luta entre dois dos maiores lutadores que já habitaram naquela terra. Ti’metios empunhava a espada e a adaga com uma velocidade inexplicável, ele se afastou do Santo que o perseguiu em seguida.

    — Entrega de sangue para o do palitinho! — O sangue do campo de batalha se ergueu em formatos de cones, afiados como lanças, que dispararam como flechas contra o Santo.

    A lança girou na mão do Santo, os projéteis de sangue se tornaram não mais que meras cinzas ao contato das chamas douradas. Ele continuou em direção ao pecador, em uma cruel e inesperadamente rápida investida, a lança se direcionou ao peito do menor.

    Ti’metios defletiu o ataque com sua adaga, mas adquiriu uma rachadura em sua arma. A lança ainda raspou em seu corpo, sua armadura de nada serviu contra as chamas, e então surgiu um corte em seu abdômen que parecia não se curar com facilidade apesar de sua regeneração.

    — Não se ache demais, pivete!

    A espada vermelha se moveu rapidamente, um corte raso se formou no tórax do Santo que havia recuado a tempo de não receber um golpe crítico.

    — Oh droga, eu queria ter acertado seu coração com essa. Cê é veloz pra um cara tão grande.

    Ti’metios encarou sua adaga rachada, jogou a arma na cabeça de um soldado inimigo, ela não duraria o suficiente contra a lança para que ele pudesse confiar.

    — Mas não é o primeiro que consegue ficar no meu nível.

    Com um impulso ele partiu contra o Santo da Lança, suas armas causavam ondas de choque fortes o bastante para atrapalhar as lutas nos arredores e tornar a atenção dos soldados em direção ao caótico duelo. Nada mais que vultos para a maioria deles vendo as faíscas surgirem de cada colisão. Cada ataque tinha a intenção de um acerto definitivo, e subitamente o vampiro recuou.

    — Tsc, eu deveria ter me preparado melhor.

    A espada, antes uma peça de qualidade magnífica, havia se destruído contra a lança. As chamas douradas derrotaram o resistente metal fortalecido pela magia de Ti’metios.

    — Hm… — O Santo murmurou, a ponta de sua lança não havia saído ilesa daquele confronto, sua ponta e fio não existiam mais, aquilo era agora não mais que um bastão, mas isso não seria suficiente para matar o Pequeno Guerreiro.

    Ambos arremessaram os restos de suas armas para longe, e partiram um contra o outro. Mas a vantagem já havia ido para um lado.

    — Te peguei, Santo do palito!

    Com garras formadas em sua mão, as mãos de Ti’metios haviam atravessado o ventre do Santo, até mesmo perfurando seus pulmões. Mas ele percebeu algo de errado, o Santo contraiu os músculos e manteve as mãos do vampiro presas.

    — Mas o quê?! — O vampiro tentou puxar suas mãos, mas permaneceu preso ao Santo independente do esforço.

    — Você foi magnífico até o fim, Campeão! Mas a última tarefa imposta a mim é realizar vingança em nome do Deus da Luz! Mesmo que eu precise sacrificar a pouca vida que me resta!

    Ele segurou os ombros do menor. Uma luz dourada emanou de seus braços e pareceu se transferir para o pequeno corpo vampírico.

    — Se reúna com seu senhor no mundo além!

    — Pare com isso!

    Ti’metios tentou retalhar o Santo por dentro, mas não havia dor ou dano suficiente que impedisse aquilo.

    — NÃO!

    Em uma explosão dourada, o Maior Pecador desapareceu do campo de batalha. O corpo do Santo atingiu o chão, não mais do que um mortal como todos os outros. Os poucos sobreviventes, não mais que vinte homens de cada lado, cessaram suas lutas.

    Esse foi o fim da última Guerra Santa.

    Mas não foi o de Ti’metios.

     O de olhos vermelhos estava beirando a inconsciência, em um estado entre a vida e a morte causado pelas chamas douradas.

    “Ah…esse é o além? Dói…tanto…parece que eu estou queimando…”

    Um toque gentil alcançou seu peito, esfriando a intensa sensação do fogo dourado.

    Uma voz grossa e intensa alcançou seus ouvidos, Zigfryd, o primeiro de todos os vampiros.

    — Você fez bem, Ti’metios.

    — Meu senhor? Ah, então eu estou realmente morto…nós conseguimos, fizemos o que você achava quase impossível, não fizemos?

    — Sim, fizemos. Mas para mim não há tempo de comemorações.

    Mesmo incapaz de enxergar seu senhor, Ti’metios conseguia sentir que ele estava realizando algo, um feitiço? Um ritual? Ele não tinha certeza, as palavras não faziam sentido para sua cabeça.

    — Por duzentos e sessenta e dois anos você me serviu lealmente em minha luta, tornou-se aquele em quem eu mais confiava. E agora é chegado o fim disso tudo.

    — É assim que a morte costuma funcionar. — O pequeno brincou.

    — Não, você viverá, estou usando o que resta de mim para impedir as chamas. Não morrerá, mas entrará em um longo sono e suas habilidades enfraquecerão.

    — O quê? Mas…sem você para me liderar, sem missão para cumprir…o que eu farei então?

    — Fará assim como todos os homens, buscará seu sentido. Viva, não está mais preso a nada.

    O silêncio se fez de repente, não havia mais a presença de Zigfryd, nem o calor das chamas.

    — Se esse é teu último desejo, Senhor dos Vampiros…eu…farei…

    Com sua consciência cedendo, o Maior Pecador caiu em seu sono.

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