— Por que é que nós estamos carregando as compras? — Ti’metios carregava diversas sacolas que continham diferentes itens: cosméticos, um vestido amarelo que havia chamado a atenção de Aurelyn, uma pedra de afiação e um novo copo de cerâmica. Nenhuma dessas compras havia sido para ele.

    — Não me pergunte — respondeu Darian. Assim como o vampiro, ele também usava os braços como apoio para as sacolas, exceto que as dele continham livros, doces e cenouras.

    Ao olhar para cima, Ti’metios observou a lua se impor no céu. Já era quase hora de voltarem para a mansão. Quando sua mente se voltou para Vaedhion, não se sentiu muito animado com a ideia de continuar a conversa de onde pararam.

    — Dois homens fortes desses… e reclamando de umas sacolinhas — disse Aurelyn, sentada num banco de madeira, com o olhar fixado em Kayla, que, curiosamente, não estava junto do grupo, mas conversando com uma florista.

    — A conversa dela tá dando certo, pelo menos? — O vampiro observou a cena. Era incapaz de ouvir a conversa das duas com os outros sons da cidade se sobrepondo.

    De repente, Kayla se desculpou com a florista, que riu para aliviar o clima. A elfa se despediu e voltou até o grupo com uma expressão constrangida no rosto.

    — Ela tem namorado…

    Aurelyn se levantou e deu tapinhas de consolo nas costas de Kayla. Ti’metios e Darian ficaram se olhando, incertos do que falar sobre aquilo.

    — Tá tudo bem, você ainda vai encontrar uma garota que goste de você — disse o cavaleiro.

    — Mudando de assunto, temos que voltar para a mansão. Eu e Vaedhion temos coisas para discutir. — O vampiro tomou a frente do grupo.

    — Ah, é, já está ficando tarde. Lorde Vaedhion pode ficar preocupado. — Talvez para esquecer o fora que tomou o mais rápido possível, Kayla não hesitou em acompanhá-lo.

    — Mal posso esperar pra me livrar destas sacolas — comentou Darian, seguindo-os.

    Aurelyn olhou ao redor, apenas conferindo se não havia mais nada que desejasse comprar. Sem nada de interesse à vista, ela partiu junto dos outros.


    Ti’metios encarava o quadro de Duncan exposto na sala de reuniões. A pintura demonstrava as diferenças desde a última vez que o vira: as rugas adicionais, os cabelos mais grisalhos e a expressão cansada. Enquanto revisitava memórias dos bons e velhos tempos, teve o pensamento interrompido pelo som da porta se abrindo.

    — Pai.

    — Vaedhion.

    O elfo adentrou a sala e fechou a porta. Seu corpo estava tenso, como se estivesse se preparando para uma luta. Não sabia como começar a falar.

    — Você não tem que se desculpar — disse Ti’metios, virando-se para ele com uma expressão calma. — Você disse apenas a verdade. Eu não estou em condições de me colocar em problemas.

    — Eu tenho, sim, que me desculpar! — Vaedhion se aproximou, com os olhos evitando o contato com os do vampiro. — Não pensei antes de falar e… sei que te magoei com isso.

    Ti’metios puxou Vaedhion para um abraço, apertando-o com força.

    — Águas passadas.

    — Não está magoado?

    — Estou sim, pra cacete. Mas isso não quer dizer que pretendo carregar isso por muito tempo. — Soltando o elfo, ele continuou: — Assim como não pretendo ficar parado pra sempre.

    — Vai buscar uma forma de tratamento.

    — Exato. O problema é… eu não sei quem tem conhecimento para tratar danos causados pelas chamas sagradas.

    — Bem, tem uma maga que você conhec… — Vaedhion parou de falar. Ti’metios levantou a mão para silenciá-lo.

    — Não. Eu não vou pedir ajuda para aquela mulher. Outra ideia.

    — … Muito bem. O Império Felstari.

    — Mas você só tá com ideia merda hoje.

    — Você diz que não sabe quem pode ajudar, eu falo quem pode e você reclama?

    — É.

    — Pois eu não tenho mais ideias! Você tem alguma?

    — … Nenhuma que eu consiga acessar sem minha magia. — Ti’metios cruzou os braços, emburrado.

    — Então você vai aceitar ir pro Império Felstari?

    O vampiro bufou. Não gostava de nenhuma das ideias. Também não queria continuar naquele estado enfraquecido. Teria de deixar seus problemas pessoais de lado.

    — Tá — respondeu Ti’metios, seco.

    — Muito bem, eu vou providenciar uma viagem de trem para Igaral.

    — O que diabos é um “trem”?

    — Um meio de locomoção… é melhor descobrir por conta própria. — Vaedhion foi em direção ao quadro, empurrando-o levemente para a direita e revelando um compartimento secreto. — Aproveitando que estamos nós dois… — Ele pegou uma garrafa que continha uma bebida quase sem cor.

    — Você deixou o Duncan dar ideia no projeto da sua casa, não foi? — Ti’metios encarou a bebida. Não era muito fã de álcool; o sabor, do qual já não gostava quando era humano, ficara ainda pior depois de sua mutação. Mas ele não iria jogar fora a oportunidade de conversar mais.

    — Deixei…

    — Aquele bebum… tá legal, abre esse troço.

    Os dois se sentaram de frente um para o outro. Vaedhion foi quem deu o primeiro gole; o líquido desceu de forma suave por sua garganta, deixando um sabor ligeiramente doce. Ele estendeu a garrafa para o vampiro, que, ao provar de um gole do mesmo tamanho, sentiu um tremendo amargo em sua boca.

    — Então, o que acha dos meus novos conhecidos? — Ti’metios colocou a garrafa na mesa entre eles e limpou o canto dos lábios com a mão.

    — Darian parece talentoso e de bom coração, apesar de ignorante sobre o mundo. Aurelyn é… como dizer… — O elfo procurou palavras que a descrevessem de forma simples.

    — Estranha?

    — Excêntrica.

    — Quase a mesma coisa.

    — Mas e o que você acha deles? E de Kayla.

    O vampiro cruzou as pernas e coçou o nariz antes de responder.

    — O garoto é talentoso mesmo. Verdade seja dita, se fosse daquela época, provavelmente teria sido pego para ser um Santo. Mas precisa de experiência de verdade ainda. Kayla… hm, não sei direito sobre ela. É competente e Moeda gosta dela, então posso confiar. — Ele tomou um instante para recuperar o fôlego e bebeu mais um gole da garrafa. — Aurelyn é estranha. Sinto que já a conheci antes, por mais que tenha certeza de que nunca a vi até alguns dias atrás.

    O elfo ficou em silêncio, suprimindo a vontade de contar o que sabia. Não desejava ter que lidar com a provável discussão que viria entre os dois depois.

    — Mas ela é boa companhia, assim como os outros dois. Isso me lembra de como as coisas eram antes de eu dar início à guerra… simples. Agora, eu tenho uma pergunta para você. — Ele estendeu a garrafa para Vaedhion.

    — Pode perguntar. — O elfo levou a garrafa até a boca, tomando um gole generoso.

    — Você ainda não se casou? É até estranho agora que paro pra pensar, não tenho nora, nem netos — comentou o vampiro, com uma sobrancelha erguida.

    Vaedhion precisou de um momento para responder, não por buscar palavras, mas por ser um assunto sobre o qual não gostava de falar. Desceu a garrafa com cuidado na mesa.

    — Você tem netos, três na verdade. Mirelle, Chiara e meu caçula, Erwin. Mas eles já são adultos e têm suas próprias vidas. E… eu sou viúvo há alguns anos.

    — Oh. — O olhar de Ti’metios vagou um pouco pela sala antes de se fixar nos olhos de Vaedhion. — Meus pêsames. Perdão por tocar no assunto dessa forma.

    — Está tudo bem. Você precisaria saber eventualmente. Quer ouvir sobre os seus netos?

    — Mas é claro! — O vampiro abriu um pequeno sorriso, ansioso para saber sobre eles.

    — A minha mais velha é a Mirelle. Nunca conheci outra garota tão gentil quanto ela. Muito esperta quando se trata de pessoas! Não é à toa que ela virou médica! — Um sorriso orgulhoso apareceu no rosto de Vaedhion, que parecia brilhar de alegria.

    — Você a criou bem.

    — Foi ela quem decidiu seguir esse caminho, eu apenas apoiei! Chiara… foi um pouco menos tranquila quando era pequena. Mas ainda assim foi uma criança espetacular, adora magia desde que viu um feitiço pela primeira vez! Ela leciona na Academia de Magia de Grande Griffin.

    — Academia de Magia? Isso existe agora?

    — Foi uma ideia que surgiu quando a mana começou a se intensificar. Não sei exatamente o motivo, mas depois da guerra a concentração aumentou, assim como o número e a qualidade dos magos. Então, criamos um lugar onde os jovens podem aprender e treinar! E a minha filhinha é professora!

    — Isso é muito bom. E seu caçula?

    Vaedhion deixou escapar um suspiro pesado.

    — Ele é… complicado. Costumava ser um bom garoto: simples, bondoso. Mas não era tão talentoso. Ficou acomodado comigo pagando as contas e passava mais tempo na taverna do que fazendo algo produtivo. E, apesar dos meus pedidos para que parassem, as pessoas o comparavam comigo e com suas irmãs.

    — E o que aconteceu com ele?

    — Um dia brigamos. A frustração tomou conta dele o bastante para fugir de casa no meio da noite com um dinheiro que roubou de mim. Não tenho contato com ele desde então; a última vez que tentei mandar alguém atrás dele, ele mandou um mensageiro falando que não desejava me ver.

    — Isso é mesmo complicado. O que falou para ele?

    — Que encher a cara todo dia até vomitar não daria sentido para ele. Que a falta de talento não era desculpa para ficar conformado daquela forma.

    Ti’metios bebeu diretamente da garrafa. O álcool não o afetava muito rápido; ainda precisaria de mais alguns goles antes de perder a sobriedade.

    — O que daria sentido para ele, então?

    — Como assim?

    — É óbvio que bebida não traz sentido para a vida. Então o que traz sentido?

    Vaedhion ficou encarando Ti’metios sem entender a pergunta repentina.

    — Você não bebeu tanto. Por que essa pergunta?

    — É minha última missão. Zigfryd me mandou procurar meu sentido, assim como todos os mortais fazem.

    — … Eu… não sei a resposta. Acredito que isso varia de pessoa para pessoa. Para mim, foi depois que você “morreu”. Eu gostei de ajudar nossos homens a reconstruírem suas vidas. Para mim, meu sentido é ajudar quem eu puder e proteger meus filhos se precisarem.

    O vampiro encarou o interior da garrafa, observando seu reflexo no líquido. O que Vaedhion disse fazia algum sentido, mas não ajudava muito em sua busca.

    — Você definitivamente foi a melhor coisa que deixei para trás nesse mundo. — Ele ergueu a garrafa acima da cabeça. — Hoje, bebemos em comemoração à nossa reunião!

    — Ei! Tenho coisas para resolver amanhã ainda.

    — Então bebemos até a hora que você for dormir, fazer o quê.

    Naquela noite, o corredor próximo à sala de reuniões foi preenchido com o som de risadas e conversa alta. Para pai e filho, mesmo que por apenas algumas horas, o mundo do lado de fora pareceu desimportante.

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