A sala parecia mais fria naquele dia. Valerius Severin estava sentado atrás de sua mesa, com os cotovelos apoiados no sólido carvalho. Darian, de pé ao seu lado, como de costume. Ti’metios sentava-se um pouco relaxado demais ali. E, por fim, Kayla, agora com seus ferimentos tratados, estava sentada um pouco tensa demais para a situação. Todos em um silêncio absoluto enquanto esperavam o nobre começar a falar.

    — …Por que a égua está aqui? — O Barão ergueu seu olhar para a égua no canto da sala. Era Moeda, que por algum motivo acompanhou o grupo até ali, e ninguém teve vontade suficiente para impedir. Ela relinchou em resposta.

    — Ela disse que a presença dela é importante — explicou Ti’metios. — Vai lá, começa as perguntas.

    — Certo, começando com: ela fala? — Valerius questionou, olhando para o animal, que agora estava cheirando a mobília.

    — Não fala não, eu acho. — O vampiro olhou para sua montaria. — Você fala, garota? — Moeda negou com a cabeça. — Ela disse que não.

    — Você também consegue entendê-la? — Kayla direcionou a fala ao vampiro. — Achei que eu fosse a única!

    — Claro que consigo.

    — Toca aqui!

    Os dois bateram as mãos de forma estranhamente amistosa. O Barão e seu cavaleiro ficaram em silêncio observando a estranha interação, voltando ao foco da conversa logo em seguida.

    — Eu… vou deixar isso de lado. Darian me contou o que houve ontem, e esperamos a senhorita Kayla acordar para conversar. O que uma servente do Conde Elarion faz tão longe da capital?

    — Sobre isso, eu estava atrás da Moeda. Ela tem o costume de escapar e ir para um campo ao sudeste daqui a cada poucos meses. Como somos amigas, sou eu que costumo buscá-la para facilitar o trabalho.

    O vampiro ficou com um olhar arregalado enquanto ouvia, ergueu-se de sua cadeira e foi imediatamente para sua velha companheira. Passou seus braços ao redor do pescoço de Moeda, abraçando a égua que o “abraçou” com a cabeça.

    — Garota, você fez isso todo esse tempo? Não deveria ter ficado me visitando.

    Kayla observou a cena, Moeda tratando com tanto carinho e respeito alguém tão estranho, um desconhecido para a elfa. Ela olhou para os outros dois.

    — Então… quem exatamente é esse? — ela perguntou para Darian e Valerius.

    — Nós não sabemos na verdade. Ele apareceu com uma das nossas carroças de suprimentos e um morador ferido. É um vampiro, mas tirando isso… não temos muitas informações. Mas ele se chama Ti’metios — respondeu o cavaleiro.

    Ti’metios soltou Moeda e, acariciando seu focinho, ditou em resposta:

    — Não sabem porque não perguntaram. — Ele se aproximou novamente da mesa, apresentando-se enquanto andava. — Eu sou o General dos Exércitos Mortais, o Maior Pecador, responsável pela coordenação dos guerreiros contra os Santos e suas divindades.

    Cada palavra dita por Ti’metios carregava uma intensidade muito maior que seu tamanho. Por um momento, as pessoas naquela sala deixaram de ver o vampiro que apareceu de repente e presenciaram a intensa aura do homem que um dia desafiou divindades.

    — Sou aquele que até mesmo os mais poderosos têm cautela ao confrontar, mais influente que qualquer rei e tão poderoso quanto os maiores Santos.

    E, mesmo que por um instante, Ti’metios parecia maior que qualquer um naquela sala. Ninguém se atreveu a falar diante daquela presença, o ar parecendo preso na garganta, até ele se sentar e voltar à sua expressão relaxada.

    — Mas agora meus títulos não valem de muita coisa. Eu não tenho sequer um terço da minha força original e meu nome já nem deve ser lembrado. Então me chamem só de Ti’metios, é tudo que eu sou agora.

    E mesmo quando o ar foi liberado de suas gargantas, ninguém ergueu a voz para falar alguma coisa por alguns segundos que pareceram minutos. Kayla foi a primeira a se pronunciar.

    — Vocês não sabiam disso tudo?!

    — Você não era um carpinteiro?! — perguntou Darian.

    Valerius enterrou o rosto na mesa quando percebeu que seu convidado era muito mais problemático do que ele imaginava.

    — Sim, eu era um carpinteiro. Sete séculos atrás, quando eu era humano.

    — E você não achou relevante mencionar isso?!

    Ti’metios pensou um pouco, coçando o queixo.

    — Não. A gente pode voltar a focar no assunto original? O ataque.

    — Os bandidos podem esperar um pouco, não? — questionou o cavaleiro, que foi respondido com olhares de julgamento. — Por que estão me olhando assim?

    — Bandidos não atacam alguém sem carga alguma durante o inverno, Darian — disse o Barão, erguendo o rosto e ajustando os cabelos com a mão. — O mestre vampiro está certo. Por mais problemática ou curiosa que possa ser sua história, ela não é o foco da conversa.

    — Foi pouco depois de eu encontrar Moeda. Ela estava vindo para cá apesar dos meus protestos. No caminho, eles apareceram das árvores. Quando percebi, eu já estava sangrando e meu cavalo estava morto. Moeda correu para longe, e eu fiquei encurralada — a de cabelos púrpura resumiu.

    — E essa é a parte em que Darian e eu chegamos. Aqueles sujeitos deviam ser mercenários.

    — Mas qual o motivo de atacarem Kayla? — o jovem cavaleiro perguntou, um pouco hesitante por não saber se receberia mais uma onda de olhares de julgamento. Para sua sorte, não recebeu.

    Os outros ficaram em silêncio. Kayla e Valerius pensando; Ti’metios sem sequer conseguir pensar pela falta de informação que ele tinha na atualidade.

    — Um ataque ao Conde talvez, tirar um usuário de magia do seu arsenal. Ou poderiam te interrogar — sugeriu Valerius.

    — Não pareciam interessados em me manter viva.

    — Voron. — O vampiro citou o nome de repente, e os olhares se voltaram para ele. — Foi como o sujeito com a espada de Glacita foi chamado. Ele era habilidoso.

    O silêncio permaneceu por alguns momentos.

    — E isso é relevante por acaso? — questionou Valerius.

    — Nem um pouco, só achei curioso. Esse tipo de sujeito que trabalha como mercenário costumava evitar conflitos com nobres no meu tempo. Deve pagar muito bem esse serviço. — Ti’metios se inclinou na cadeira e apoiou os pés na mesa de Valerius, o que irritou mais Darian do que o próprio barão. — Qual é a desse conde, aliás? Ele é babaca para alguém querer ferrar com ele? E também deve ser meio burro de enviar uma maga sozinha para buscar a Moeda.

    Kayla ergueu-se de seu assento com rapidez, os olhos cinzas brilhando em fúria direcionada a Ti’metios. Seus cabelos e olhos brilharam por um instante.

    — Não ouse insultar Lorde Vaedhion! Ele valoriza Moeda como ele valoriza sua própria família, e por isso me enviou para buscá-la! E essa rota deveria ser segura. Ele não me colocaria em perigo sem pensar. — Os dois se encararam, a tensão na sala subindo, deixando Darian e Valerius apreensivos.

    O ruivo se levantou da cadeira com uma velocidade inexplicável, seu olhar trêmulo.

    — Você disse Vaedhion? — ele questionou, sua voz firme como se sua pergunta fosse a mais importante.

    — …Ah, certo. Você é da guerra, deve conhecê-lo. Vaedhion Elarion — respondeu o Barão.

    Ti’metios ficou com o olhar arregalado por um instante. Um sorriso contente se abriu no rosto do ruivo, que riu alto o suficiente para ser escutado do lado de fora da sala.

    — A capital ainda é perto do Rio Aethu?

    — Medéia? É sim.

    O vampiro assentiu e assoviou para Moeda, que começou a sair da sala depois de mascar a ponta de uma tapeçaria.

    — Podia fazer isso o tempo todo? — Valerius perguntou, olhando frustrado para a tapeçaria mastigada.

    — Não, ela só aceitou porque vamos partir. Eu saio em trinta minutos.

    — Sair? Assim de repente?! — o cavaleiro questionou a decisão súbita.

    Ti’metios já estava indo até a porta.

    — Fazer uma visita ao garoto. Ele vai gostar de saber que eu estou vivo. Venham se quiserem; se não quiserem, não venham. — E saiu sem mal olhar para trás.

    Os três ficaram quietos, ouvindo os cascos de Moeda se retirando e derrubando alguma coisa no corredor. Kayla se virou para Valerius.

    — Peço perdão pelo incômodo, Barão, mas poderia me fornecer um cavalo? O Conde vai retribuir quando eu chegar.

    O nobre suspirou fundo, pegando uma folha de papel e escrevendo uma autorização.

    — Pegue um nos estábulos, se isso ajuda o Conde Elarion.

    — Muito obrigada, agradeço pela hospitalidade. — A elfa saiu, apressada por conta de Ti’metios, que foi sem explicar nada.

    Com somente os dois na sala, Darian ficou encarando Valerius com os olhos de uma criança que pede algo na loja.

    — …O que foi, Darian?

    — Eu quero ir junto! Sabe quantas oportunidades aparecem de ver o Sentinela?! — Darian tinha uma grande admiração por Vaedhion.

    — Fique de olho no mestre vampiro.

    — Isso! Digo… Sim, senhor. — Darian forçou um rosto neutro e foi se unir ao grupo.

    Valerius observou sua janela, pensativo por um momento.

    — Não faz mal cair nas boas graças do Conde, eu acho.


    No portão, Ti’metios esperava montado em Moeda, equipada com uma sela que ele pegou emprestada sem avisar. Em sua mente, ele cogitava a ideia de ir sozinho; seria provavelmente mais rápido, já que tanto ele quanto a égua não precisavam parar para descansos ou dormir.

    — Então, vai embora? Ainda é meio do inverno — perguntou Luke, guardando o portão sozinho no momento. — As pessoas já estavam se acostumando com você.

    — Tenho que fazer algumas coisas.

    — Pretende voltar então?

    O vampiro ficou em silêncio. Não era uma negação, mas também não era uma confirmação.

    — Bom, espero que consiga se decidir sem problemas.

    O som de cascos surgiu de trás. Eram Kayla e Darian, montados em um cavalo marrom com manchas brancas e um cinza, respectivamente. Levaram um pouco mais de tempo para se preparar porque, diferente do vampiro e sua égua, eles precisavam de suprimentos e descanso na viagem.

    — Eu deveria ter ido sem vocês mesmo.

    — Pois saiba que, independentemente de você, eu teria que avisar o Conde de toda forma. Deixe de ser ranzinza — Kayla respondeu ao ruivo, e tomou a frente na formação.

    Darian, por outro lado, parecia animado enquanto mantinha sua face séria para não parecer que estava ansioso demais com a ideia de conhecer Vaedhion. E assim os três partiram em direção à capital de Grande Griffin, Medéia, ao noroeste do baronato.

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