Capítulo 6 — A Estrada
Era o primeiro dia de viagem, já com dez horas desde que haviam saído do baronato. Mas Ti’metios percebeu uma coisa nisso tudo: ele detestava que lhe fizessem tantas perguntas. Enquanto limpava a neve que havia pousado em seus ombros e na crina de Moeda, o ruivo era forçado a ouvir as dúvidas alheias.
— Por que nunca ouvimos falar de você se você é tão importante? — Kayla perguntou, vestindo um grosso casaco de lã de qualidade. Casaco esse que ela conseguiu recuperar do lugar onde foi atacada.
— Porque não era necessário. — Ti’metios ainda usava as roupas que recebeu de Valerius. Apesar de servirem temporariamente, ele já estava incomodado com a qualidade um tanto medíocre e o ajuste constante das mangas e da barra da calça, sem contar as botas um pouco maiores que seus pés.
— E por que não era necessário? — Darian perguntou logo em seguida. Por cima de suas roupas padrão de cavaleiro, ele usava um manto vermelho, um pouco mais escuro que seu casaco, que ostentava o símbolo do barão nas costas.
— Por Zygfrid! Vocês não cansam de perguntar não?!
Quem olhasse de longe, veria um jovem e nobre cavaleiro, uma maga habilidosa e um plebeu de baixa estatura. Somente a julgar pela aparência.
— Quem é Zygfrid? — Mas o de cabelos prateados não desistiu de perguntar, apesar da reclamação.
— Não é relevante agora.
Por curtos instantes, um silêncio que o vampiro pôde apreciar. Mas, surpreendentemente, foi ele mesmo quem o quebrou, olhando para Kayla que estava à frente.
— Como ele está hoje em dia?
— Ele?
— Vaedhion.
— Oh. — A elfa precisou de um momento para pensar no que dizer. — Ele está bem.
E, novamente, o silêncio por alguns segundos.
— E o que mais?
— Você ouve o restante direto dele — ela disse, e, mesmo que o vampiro não conseguisse ver, ele tinha certeza de que Kayla estava sorrindo.
O som dos cascos batendo contra a neve fofa permaneceu por minutos. A noite já havia caído e não era seguro para os cavalos continuarem sem saber onde pisavam. Por sorte, Kayla, que guiava o caminho, sabia de um posto de vigia abandonado, um ponto comum de parada para quem seguia aquela rota durante as outras estações do ano.
As montarias ficaram em um espaço coberto que, antes, devia ser alguma espécie de depósito. Enquanto o trio preparava as coisas para a noite, com Kayla e Darian arrumando onde iriam dormir, Ti’metios acendeu uma fogueira. Eles se sentaram em volta do fogo, aquecendo seus corpos e assando sua comida, que, nessa ocasião, era carne de cervo.
— Você não vai preparar nada? — perguntou o cavaleiro para o ruivo, que encarava as labaredas dançantes com uma expressão mais séria que o normal.
— Não. Eu não como.
— Nem por costume?
— Olha, você perde o costume de comer quando a comida passa a ter um gosto ruim. Exceto pimenta, por algum motivo, mas eu não gosto de pimenta.
Aos poucos, eles percebiam que não tinham muito o que conversar. Ou, ao menos, poucos assuntos que estavam dispostos a compartilhar.
— O Darian eu sei que é daqui de Grande Griffin. Mas e você, elfa?
— Eu? De Sinnarien.
— Caramba, esse lugar ainda tá de pé.
— Mas e você? Qual é a sua terra? — a elfa devolveu a pergunta, um tanto curiosa.
O ruivo encheu o peito com orgulho para falar.
— De Bayern. Um lugar que, na minha época, era bem mais problemático.
— Bayern do Sul ou do Norte? — Darian adicionou.
Essa simples pergunta fez o vampiro fechar a cara.
— Como assim Sul ou Norte? Bayern.
— Tá, mas… Sul ou Norte?
— Essa porcaria se dividiu enquanto eu dormia?! Por quê?! — Ele se levantou enquanto exclamava, esperando uma resposta de um deles.
— Eu não sei direito, é assim já faz três séculos.
O vampiro precisou de um momento para se recuperar, sentando-se novamente e colocando a mão no rosto.
— …Tá legal. Eu já esperava que ia ter alguma mudança grande, afinal. — Ele exalou profundamente.
Sem saber o que falar, os dois mortais comeram a janta do dia. Não muito saborosa pela falta de tempero.
— Durmam, podemos seguir viagem quando o sol nascer. Eu fico de vigia — ordenou o vampiro.
— Boa noite, vampiro — disse Darian, aconchegando-se na lona que usaria de cama naquela noite.
— Boa noite. — Kayla fez o mesmo, só que sua cama era um tanto melhor por ser basicamente um colchão de lã.
Ti’metios encarou as chamas com um olhar vazio. O fogo dançava à sua frente em movimentos aleatórios e instáveis, mas ainda belos de certa maneira. Chamas. Como as que ele usou durante a guerra para destruir, como a que foi usada pelos santos para o mesmo fim, e, especialmente, como a chama que quase tomou sua vida imortal.
— Pode me emprestar seu fogo? — perguntou uma voz que surgiu de repente oposta ao vampiro, escapando de sua percepção enquanto ele estava perdido em pensamentos.
Ele ergueu sua cabeça para ver a origem da voz: uma mulher. A luz das chamas refletiu em sua pele morena, devolvendo tons quentes ao ambiente. Os cabelos verde-claros por pouco não eram brancos, e a pele deixava um contraste curioso.
Mas foram os olhos que chamaram a atenção do vampiro. A brasa refletida neles demonstrava uma cor de rosa-pálido, o que lembrou Ti’metios de uma pétala seca. Em suas costas, havia uma bolsa de couro e, em sua mão direita, ela carregava uma lança enrolada em um pano.
— Claro.
— Muito obrigada.
Colocando a lança no chão, ela retirou da bolsa de couro um bule de metal, um punhado de ervas que o vampiro não reconheceu e um cantil de couro. Sentou-se diante do fogo, preencheu o bule com a água e o posicionou acima das chamas.
Ti’metios permaneceu a observando. Suas roupas não eram apropriadas para o inverno: a blusa branca que deixava os ombros expostos ao frio, e mangas largas com borda dourada que ele apenas considerou um pouco desnecessárias. As calças e botas pretas também tinham ornamentos dourados, e tudo era mantido junto por uma faixa de couro enrolada firme ao redor da cintura.
Eram vestes inegavelmente bonitas. O vampiro valorizava uma roupa bem-feita, apesar de agora ter que usar um tecido de baixa qualidade e sem muito estilo. Mas aquela mulher lhe dava uma sensação estranha, como se visse um velho conhecido, mesmo sabendo que nunca a tinha visto.
— Existem meios melhores de demonstrar interesse em uma dama, sabia? Encarar de cara feia não é bom — disse a mulher enquanto esquentava a água.
— Você não está com frio? — Ti’metios imediatamente se esquivou da provocação.
— Te pergunto o mesmo. Suas roupas não parecem muito boas para o inverno.
— Não fui eu que deixei os ombros expostos para a neve.
— Bom ponto.
A água começou a ferver o suficiente para ser audível. Ela tirou o bule do fogo e colocou o punhado de ervas para o seu chá. Mais um item foi retirado da bolsa de couro: um copo de cerâmica.
— Aceita um pouco?
— Não, obrigado.
— Que pena, não é todo dia que eu tenho a chance de compartilhar bebida com um general — ela afirmou enquanto preenchia seu copo.
Ti’metios a encarou, atento. Suas pupilas se estreitaram depois da frase, como uma besta entrando em alerta.
— Sabe quem eu sou.
— Qualquer pessoa que conhece história a fundo sabe quem você é. — A morena tomou um gole de seu chá, calma, mesmo diante do vampiro. — De cabelos e olhos como o sangue e a pele pálida… se encontrou o vampiro que venceu o instinto, você achou o Pequeno Guerreiro. Você não tinha morrido?
— Eu fiquei melhor — o vampiro respondeu, seco. Era mais fácil não explicar a história toda. — Não sou mais tudo isso, sou apenas Ti’metios. Você falou bastante, mas ainda não sei quem é.
— Muito bem, Metios.
— Não te dei essa intimidade toda não — ele protestou contra o apelido.
— Pode me chamar de Aurelyn, sou uma andarilha. Quando algo me chama a atenção, eu fico por perto. — De nada serviu o protesto, no entanto. Aurelyn se aproximou do vampiro, abaixando-se para ficar na mesma altura. — E você definitivamente sabe prender a atenção dos outros, mesmo sem querer.
Ti’metios a encarou. Os olhos vermelhos voltaram ao normal assim que ele decidiu que Aurelyn não era um perigo, e, no fundo, ele sabia que ela não estava mentindo, mas também não falava toda a verdade.
— Não vou conseguir me livrar de você agora?
— Não vai não.
— Pelo menos vai fazer sua parte?
— Mas é claro! Não sou só um rostinho bonito.
— Uhm… — Uma terceira voz se juntou à conversa: Darian, que estava com a cabeça levantada assim como Kayla. Os dois ouviram a conversa. — Podem ser mais quietos e diminuir essa tensão estranha? Estamos tentando dormir.
— Foi mal — os dois falaram em conjunto.
Darian e Kayla voltaram a tentar dormir. Os olhos do ruivo e da morena se encontraram mais uma vez. Aurelyn puxou o ar e disse:
— Por que você tá usando um rabo de cavalo? — Ela falou enquanto mexia no penteado malfeito.
Ti’metios empurrou a mão dela para longe.
— Não toca no meu rabo de cavalo. Porque eu gostei.
Ela se afastou, enfim, para o alívio do vampiro, terminando de tomar seu chá e guardando os utensílios depois de sacudi-los para tirar a sujeira.
— Bom, eu vou dormir também. Conto com você para ficar de olho nas coisas! — A morena sentou-se de costas para uma das paredes, fechando os olhos.
O vampiro suspirou. Nunca em sua vida ele pensou que iria preferir estar em um acampamento cheio de soldados e no meio de uma guerra, a estar em uma simples parada de descanso.
A noite prosseguiu normalmente, apenas com o estalo da fogueira e o ocasional grasnar de pássaros noturnos. Logo o sol surgiu no horizonte, colorindo os céus em um belo e intenso laranja.
Ti’metios estava alimentando os cavalos com feno. Na fogueira, agora apagada, estava uma pequena panela com sopa. Os três estavam acordando, sendo recebidos pelo aroma agradável da comida. Kayla foi a primeira a levantar, ainda descabelada, aproximando-se da panela e observando a sopa. Pegou uma tigela de madeira — uma das três que o vampiro havia deixado perto — e se serviu.
— Hm… — Ela esfregou os olhos com a mão esquerda, questionando a qualidade da sopa, e provou um pequeno gole. — Nada mal pra alguém que não consegue sentir sabor.
Ti’metios tirou os cavalos do estábulo, ajustando suas selas.
— Só porque eu não posso comer eu tenho que ser um cozinheiro ruim?
— Não foi isso que eu disse. — Ela continuou tomando a sopa. — Qual é a história da Moeda, afinal? Eu já perguntei para Lorde Vaedhion, mas ele nunca soube explicar como ela ainda está viva.
— Ela foi um presente para mim, ainda quando era uma potrinha. Ela é como eu: imortal. Mas… eu não sei a origem da imortalidade dela — o vampiro contou enquanto acariciava a égua em questão, que mostrou os dentes alegremente.
Logo, Darian também estava tomando sua sopa, já devidamente arrumado de alguma forma. Aurelyn foi a terceira a se unir em volta da panela, comendo sua porção.
— Então, você vai mesmo com a gente? — Darian perguntou, olhando para a morena.
— Foi o que eu decidi! — ela respondeu, um tanto animada.
— Nesse caso, eu sou Darian. Prazer.
— Aurelyn. Prazer. Que jovem educado! Tá vendo, Metios?
O vampiro apenas a encarou, recusando-se a dar mais corda nas provocações.
— Por que quando você me conheceu eu fui cumprimentado com ameaças? — ele questionou o cavaleiro.
— Você é um vampiro.
— Obrigado por me lembrar.
Kayla terminou de comer, posicionando sua tigela no chão.
— Kayla. Maga e serva do Conde Elarion — a elfa se apresentou com menos decoro.
Após todos comerem, Ti’metios limpou os utensílios usando a neve para absorver os restos da sopa. Era, enfim, hora de partir. Kayla e Darian subiram em seus cavalos.
— Aurelyn, você vai a pé.
Ao tentar subir em Moeda, a égua se afastou e relinchou.
— O que foi, Moeda?
Ela apontou com a cabeça para Aurelyn. O vampiro suspirou profundamente, chamando a morena com um gesto de mão, e ela se aproximou.
— Suba. — Estendeu a mão para auxiliá-la, o que divertiu Aurelyn, que aceitou a ajuda e montou em Moeda. — Eu fico a pé. Moeda disse que eu consigo andar.
— Obrigado, Moedinha! Garotas têm que ficar unidas! — Ela agradeceu ao animal, que mostrou os dentes novamente.
— É… dono da Moeda, né — Kayla comentou em tom sarcástico.
— Fica quieta e cavalga.
E assim a viagem seguiu. Com um vampiro incomodado e uma nova companheira para o caminho.

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