“Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”

    Clarice Lispector, a Hora da Estrela


    I. GÊNESE

    [ FRANCIS ]

    O décimo sétimo tentáculo de sutura se fechou às 03h47.

    Francis marcou o horário no tablet sem levantar os olhos da mesa. A luz branca do foco cirúrgico refletia em suas íris vermelhas e artificiais. A barba por fazer arranhava a gola do jaleco de polímero.

    Ao redor, bandejas de aço cirúrgico enfileiradas por tamanho: bisturis de plasma, pinças de micromanipulação, três gerações de conectores neurais que ele mesmo havia refinado ao longo de onze anos. 

    Na mesa, o conjunto de tecido orgânico, polímero reforçado e circuito bioadaptativo que havia custado quatro anos de planejamento e um volume considerável de capital que não convinha rastrear. O tórax subia 0,4 centímetros a cada ciclo registrado no monitor.

    Placas de metal e grampos de sutura rasgavam a linha da testa pálida. Dois cilindros grossos de cromo perfuravam as laterais do pescoço largo. 

    Francis colocou o tablet de lado.

    Sylvia estava encostada na bancada do fundo, os braços cruzados sobre o jaleco e os olhos na criação. O cabelo curto e desgrenhado caía sobre a gola alta do suéter preto sob a jaqueta de couro gasto. As pálpebras caíam à metade sobre os olhos exaustos.

    Francis notou a postura com um olhar sobre o ombro, coçou a nuca e não disse nada. Ela tinha essa maneira de observar que parecia uma acusação ou cobrança, e ele havia aprendido, ao longo dos três anos em que trabalharam juntos, que o melhor tratamento era ignorar.

    O sensor de pressão apitou e fez os dois sobressaltarem em expectativa.

    Os olhos da criatura abriram.

    Íris cinzentas, pupila contraindo contra a luz. Bom. O reflexo pupilar funcionava. Francis anotou.

    A boca da criatura se moveu. O som que saiu era uma coisa úmida e incompleta, como alguém tentando falar com a garganta inflamada.

    “Pa…”

    Uma pausa. Os pulmões lutavam para trabalhar. As cordas vocais buscavam a calibração.

    “Pa… i…”

    Francis pousou a caneta.

    “Prefiro que me chame de tio. Não me sinto em idade de ser pai ainda.”

    Sorriu e piscou com um olho para a mulher de trás, que revirou os olhos com um sorriso. Então, digitou algo no tablet rapidamente.

    Atrás dele, Sylvia descruzou os braços e se inclinou sobre o ombro do doutor para espiar.

    “Da… Vi… D” Ela soletrou com os olhos apertados para a tela.

    “Errado. É D4V-1D. Primeiro do catálogo.” Francis corrigiu sem olhar para ela e voltou para a mesa com a criatura.

    [ D4V-1D ]

    Luz.

    Muita luz. Dói atrás dos olhos, num ponto que eu não sabia que existia até agora. Tudo que existe é luz, o teto e um som de bipe que pulsa no mesmo ritmo que o meu peito.

    Tem um homem se inclinando sobre mim. Jaleco branco. Cabelo cacheado e castanho. Olhos vermelhos, atentos.

    Há também uma mulher mais ao fundo. Ela me olha de modo estranho. Não consigo dizer o que é normal ainda. Meu vocabulário está incompleto. O que é vocabulário mesmo?

    As memórias chegam em fragmentos, sem ordem. Uma rua com paralelepípedo molhado de chuva. O cheiro de algo doce. Uma voz embolada.

    Voz. Eu tenho uma?

    Abro a boca.

    “Pa…i…” Dor. Minha garganta dói.

    “Prefiro que me chame de tio. Não me sinto em idade de ser pai ainda.” O estranho de jaleco respondeu.

    Ele conversa algo. Ouço um nome: David.

    Sou eu?

    Ouço um som vibrante, irritante, repetitivo. Aperto os olhos, meus ouvidos doem. O som para com um bipe.

    O estranho se afasta com sua cadeira para outro canto da sala levando consigo algo pressionado à orelha.

    “Sim. Já tenho ele pronto. Não… Testes?”

    A mulher se aproxima. Ela tem cabelo escuro e olheiras fundas. Na mão que ela põe sobre a grade da minha maca, vejo um anel.

    “Oi,”

    Ela fala, e a voz é baixa, como se não quisesse que o homem ouvisse.

    “Como você está se sentindo?”

    Sentir? O que é sentir?

    Minha boca forma um murmúrio. Pareceu mais ruidoso do que a tentativa anterior. Doeu menos, no entanto.

    Ela me mostra um sorriso curto. Bonito.

    Fica lá, os dedos na grade.

    “Tudo bem. Não precisa falar agora.”

    Ela tem um nome. Sinto meus olhos tremerem, como se fossem saltar das órbitas. Aperto as pálpebras. Textos flutuantes surgem de repente. Faço uma careta de dor.

    A temperatura.

    A temperatura dela, 36,4 graus, atravessa a grade e pousa no dorso da minha mão.

    [ FRANCIS ]

    O comprador veio na quarta-feira seguinte.

    Chamava-se Mertoch, ou pelo menos era o nome que usava. Gordo, suado, com postura curva. Ele entrou no laboratório e examinou primeiro as bancadas, depois os equipamentos, por último Francis.

    “Então.”

    “Isso é ele.”

    Francis tinha D4V-1D sentado numa cadeira no centro da sala, vestindo uma camisa simples, as mãos sobre os joelhos. A criatura olhava para Mertoch sem mudar a expressão. Seus sistemas de reconhecimento facial ainda estavam em calibração. Identificava rostos, mas não sabia interpretar o que via neles.

    Francis fez um gesto ascendente com a mão no ar e uma interface flutuante surgiu ao lado do experimento sentado.

    [D4V-1D. Estrutura músculo-orgânica completa. Tecido biológico com capacidade de regeneração assistida. Memória implantada funcional, cobrindo aproximadamente vinte anos de desenvolvimento cognitivo. Reatividade emocional dentro do espectro humano padrão.]

    Mertoch andou em volta da cadeira. Francis ficou onde estava.

    “Reatividade emocional.” Franziu o cenho.

    “Isso quer dizer que chora? Que tem birra?”

    “Quer dizer que os sistemas respondem a estímulos de maneira análoga ao humano. Para fins práticos: sim, ele responde. É o ponto. Capacidade de compreensão que nenhuma máquina seria capaz de ter.”

    Mertoch parou na frente de D4V-1D. Inclinou o rosto. A criatura devolveu o olhar.

    “E obedece?”

    “Dentro do protocolo de controle, sim. O chip de supressão garante compliance durante operações de campo. Fora do protocolo, ele age dentro de parâmetros previsíveis.”

    “Previsíveis.”

    “Hm.”

    Do canto da sala, Sylvia espanava uma bancada que já estava limpa em silêncio.

    Mertoch levantou a mão direita e estendeu dois dedos em direção ao rosto de D4V-1D. Lento. Testando.

    A criatura ficou olhando para os dedos com foco total, mas sem outra resposta.

    “Quanto?”

    Francis citou o número.

    “E qual a previsão da próxima etapa?”

    O tecnomédico coçou a nuca antes de responder.

    “É difícil dizer… Tudo que sai depende das zebras que entram.”

    Mertoch recolheu a mão e foi embora sem fechar o acordo naquele dia.

    Francis fez um gesto descendente com a mão e fechou o holograma. A criatura permanecia sentada, sem reação, mas com olhos abertos e focados nele.

    Sylvia limpou a garganta e se aproximou.

    “Não deu certo?”

    Francis deu as costas e voltou às suas anotações e planejamentos na escrivaninha.

    “Deu sim. Ele vai voltar e pagar bem mais que antes. É o que eles fazem toda vez.”

    Sylvia ouviu e não respondeu. O som da caneta do doutor preencheu a sala junto ao movimento líquido das substâncias em compartimentos laterais à mesa.

    A mulher olhou sobre o ombro para a criatura sentada no centro da sala.

    “Você falou que ele tem reatividade emocional como se fosse um atributo técnico.”

    “É um atributo técnico.”

    “Francis…”

    “Sylvia.” Ele interrompeu.

    Ela não terminou o que ia dizer. Pegou o jaleco, pendurou no gancho perto da porta, e foi embora.

    Francis apagou as luzes do laboratório às 22h03. Marcou no tablet.

    Deixou D4V-1D parado no escuro, os olhos abertos, mas em modo de suspensão.


    II. OPERAÇÃO

    [ D4V-1D ]

    Sylvia me deu um nome.

    Foi uma tarde em que Francis tinha saído para uma reunião e ela ficou no laboratório porque, ela disse, tinha relatórios para fechar, mas ficou sentada na cadeira ao lado da minha câmara de alimentação com uma xícara de café nas mãos, olhando pela janela que Francis mandou selar e que agora era só uma parede pintada de cinza.

    “D4V-1D é horrível de falar.”

    Eu disse que não me incomodava.

    “Eu sei que você diz isso. Mas é horrível.”

    Ela ficou um momento em silêncio, mexendo na xícara.

    “Tinha um amigo meu que queria se chamar David. Achava o próprio nome feio. Ficava inventando apelidos.”

    Ela ficou em silêncio de repente. Vi seus olhos se perderem na janela de concreto outra vez. Bebeu o café, que já devia estar frio.

    “Posso te chamar de David?”

    Eu disse que sim.

    Ela assentiu com um suspiro que meu leitor de expressões faciais identificou como de alívio, parecia como se estivesse resolvendo algo que ficou pendente por tempo demais.

    David.

    O nome tinha um peso diferente de D4V-1D. Não sei por quê.

    Ela ficou quieta por um momento, a xícara girando entre os dedos. Então sorriu.

    “Sabe onde eu cresci?”

    “Não.”

    “Numa cidade que tem mercado toda quarta. Aberto, na rua. A gente chama de feira livre. Vendia de tudo. Verdura, peixe, aqueles implantes falsos que desbotam na primeira chuva.”

    Ela parou. Soprou o café na xícara. Olhei para o conteúdo e apertei os olhos. 20 graus. Já estava frio.

    “Mas o que eu mais gostava era a barraca de jabuticaba. Sabe por quê?”

    “Não.”

    “Porque eu sempre chegava ao meio-dia. E o cheiro delas ficava muito bom nesse horário. Depois sumia. Quando a fruta tá no ponto ela cheira muito, mas é rápido. Se você chegasse às duas da tarde não sentia mais nada.”

    Ela ergueu a xícara, não bebeu.

    “Eu ia nesse horário só por causa disso. Só por causa do cheiro. Estranho né?”

    “Não.”

    Ela soltou um pouco de ar pelo nariz com um sorriso.

    “Só sabe responder isso?”

    Abri a boca outra vez, mas parei a tempo de perceber o que falaria. Ela riu de novo.

    Fiquei olhando. Os dentes dela tinham irregularidades. Um espaço no meio dos frontais. De algum modo, combinava com ela. Emoldurava o sorriso. O canto dos meus lábios repuxou sem que eu percebesse.

    “Você tá sorrindo?” Ela perguntou com a boca um pouco aberta.

    Choque, identifiquei. Mas havia outra coisa… Fascínio.

    Fiquei em silêncio.

    “Tem alguém que ia comigo. Toda quarta.”

    Colocou a xícara na bandeja ao lado da câmara, a porcelana bateu no metal com um som pequeno e seco.

    “Desculpa. Não sei por que tô te contando isso.”

    “Não… Precisa… Desculpar…”

    Ela ficou me olhando por um segundo, como se tentasse decidir se eu estava sendo educado ou se havia entendido alguma coisa.

    Em algum ponto da fala dela, meu sistema de ventilação interno desacelerou 0,2 ciclos por minuto. Não registrei na hora, mas Francis me contou mais tarde quando revisou os logs, sem contexto nenhum, só como dado anotado acompanhado, como sempre, do horário em que essa alteração se verificou.

    Eu lembro do odor. Senti o cheiro de pavimento molhado, de barracas de plástico, de peixe, de implantes velhos e reciclados. E também o cheiro de algo doce, forte, fomentado pelo sol de meio dia.

    Como se eu tivesse passado por esse mercado antes, num dia que não está nos meus arquivos, com alguém que não consigo colocar um rosto.

    Talvez seja só a descrição que ela fez. Talvez o sistema de memória construa imagens a partir de dados auditivos. Francis diria que sim.

    Não perguntei para ele. Não sei por quê. Algo me impediu.

    [ FRANCIS ]

    A primeira missão de campo foi simples.

    Um fornecedor do Setor 9 chamado Breno Okafor havia recebido uma transferência de material neural de Francis há seis meses e depois sumido com a mercadoria sem processar o pagamento reverso. A inadimplência que, no mercado formal, resolvia-se com advogados. No mercado que Francis operava, resolvia-se com executores de dívidas.

    Para o azar dos executores, Francis havia fabricado o seu próprio.

    Ele ativou o protocolo de campo às 23h11. Seus olhos brilharam em um vermelho mais intenso quando seu nervo óptico sintonizou com a prótese da criatura.

    [ D4V-1D]

    “Que fedor.” Falei sem perceber.

    Era verdade. Urina, fumaça, eletrônicos mal descartados, e outras improbidades. Este lugar fedia como o inferno.

    Setor 9. Rua molhada. Uma oficina de reparos de implantes com a persiana fechada.

    O endereço que Francis passou ficava nos fundos, atrás de uma porta de aço fina. A fechadura cedeu em um estalo sem que eu fizesse esforço.

    Era um muquifo. Cheio de eletrônicos em embalagens rasgadas jogados por todos os lados. Uma trilha vazia ao centro me levou a um cômodo lateral coberto por uma cortina de cordões neon.

    Okafor estava dormindo num colchão jogado no canto do quarto, rodeado de mais lixo e bebidas.

    Acordou com o brilho do sensor ocular do meu rosto sobre o dele. Ficou imóvel por dois segundos. Acho que se decidia se gritava ou respirava.

    “Que— que é isso? Quem é—”

    Ergui-me ao lado do colchão. Francis havia dado os parâmetros: recuperar o item, neutralizar resistência se necessário.

    “Espera. Espera, eu pago. Juro que pago, só precisa de mais tempo—”

    Ele estava tentando se levantar, percebi pela curvatura das costas que tinha o costume de ficar deitado.

    “Quinze dias. Me dá quinze dias, eu consigo o dinheiro—”

    Fui até a gaveta que os sensores de calor haviam marcado como ponto de interesse. Francis colocou três setas apontando para ela no meu nervo óptico. Desnecessário, só precisava de uma. 

    “Não encosta! Não encosta nisso, seu—”

    Ele pegou algo antes de mim. Olhei por cima do ombro e vi uma faca curta de lâmina enferrujada perto do cabo. Não devia passar de dois créditos naquela favela.

    “Fica longe de mim. Fala pro seu patrão que eu pago. Fala que—”

    Dei um passo em frente sem responder. Ele arregalou os olhos e recuou um passo, mas ao mesmo tempo estocou para frente com a faca.

    Ela entrou no meu antebraço esquerdo até a metade e ficou presa no polímero subdermal. Okafor olhou pra ela, parou, então se voltou pro meu rosto impassível. Da faca pro meu rosto.

    Torceu a faca e murmurou algo que não pertencia a nenhuma das 100 línguas cadastradas no meu banco de dados. Percebi que seus batimentos cardíacos começavam a descompassar.

    “Vai se foder. Vai se foder, seu monstro de merda—” Ele recuava para a entrada do cômodo a passos trêmulos.

    O mundo ficou silencioso de repente, foi quando ouvi a voz de Francis em algum lugar atrás da minha orelha, seca:

    “Contenha-o.”

    Senti algo ferver dentro de mim. Meus olhos se abriram e os lábios também quando dei um passo em frente. Parecia aterrorizado. Estranho. Quando mostrei os dentes para Sylvia a reação foi diferente.

    Agarrei o braço direito de Okafor.

    Ele gritou antes de eu fazer qualquer coisa. Forcei para cima, contra a junta do antebraço.

    CLACK

    Okafor gritou e estremeceu. Quando o soltei, mancou para o canto do cômodo, de seus olhos algo escorria. Emitia um som engasgado e úmido, misturado com gritos contidos. Meu leitor de expressões identificou um misto: Raiva, medo, confusão.

    Peguei o item de recuperação, um cilindro translúcido avermelhado. Estava na mesma gaveta de antes.

    Retirei a faca do meu antebraço e a coloquei na bancada ao lado, pelo lado da lâmina.

    Saí.

    [ FRANCIS ]

    D4V-1D voltou às 01h34 com o item de recuperação e sangue no dorso das mãos. A missão havia extrapolado o parâmetro de força necessária. Okafor reagira, o que não era previsto, e o ciborgue respondera dentro do protocolo de defesa.

    Resultado: ferimento não letal no fornecedor, inutilização de membro, recuperação do material, nenhum rastro identificável.

    Francis registrou: resultado dentro do parâmetro operacional. Excessos toleráveis.

    Quando D4V-1D chegou, Sylvia se aproximou, olhou para as mãos dele, pegou um pano esterilizado e começou a limpar.

    Francis observou. O protocolo do ciborgue foi desativado após o retorno, então a criatura estava em modo de descanso ativo. Os logs mostrariam depois que durante a limpeza das mãos, sua frequência respiratória havia caído para 12 ciclos por minuto, que era o limite inferior do espectro de repouso.

    Francis considerou interessante. Anotou junto à hora do acontecido.

    Sylvia falou enquanto trabalhava — sobre nada específico, a voz baixa, o mesmo tom que ela usava quando estava preenchendo formulários. Ela mencionou um amigo de infância, algo sobre ele e uma doença que ele teve. Francis não prestou atenção no conteúdo. Estava analisando a leitura dos sensores de sua criação.

    Mas registrou, perifericamente, que D4V-1D ficou muito quieto durante essa parte.

    [ D4V-1D ]

    A câmara tem o mesmo cheiro toda vez. Polímero, fluido nutriente, o leve ranço do cobre nos conectores. Nada se parece com ela.

    Dentro da câmara o tempo funciona diferente. Os processos de regeneração desaceleram a percepção, como ficar parado dentro de algo que se move devagar, ouvindo tudo do lado de fora com um atraso de meio segundo. A voz de Sylvia chega assim: ligeiramente atrasada, um pouco mais grave do que é.

    Ela estava me contando sobre quando Elias ficou doente.

    Elias era o amigo. Ela não tinha falado o nome até agora — só amigo, meu amigo, o cara que eu mencionei. Nessa noite ela o nomeou.

    “Elias tinha esse negócio de dar nome pras coisas. Qualquer coisa.”

    Ela sorriu com as lembranças.

    “O banco de praça favorito dele tinha nome, a jaqueta que ele usava tinha nome, acho que era Judy. Eu achava graça nisso. Ele dizia que um nome dá identidade às coisas e torna-as mais próximas de nós.”

    Ela parou.

    “Por isso que eu…”

    Não terminou.

    Eu estava olhando para o teto da câmara. O fluido me cobria até o pescoço. Tinha um parafuso frouxo no canto superior esquerdo — eu sabia porque olhava para esse parafuso toda vez que ficava dentro da câmara, e toda vez ele parecia um grau mais frouxo.

    “Como ele ficou doente?” Meu módulo de fala já estava melhor adaptado com os dias passados na câmara de recuperação.

    Ela demorou para responder.

    “Degeneração. Neural. A mielina…”

    Ela passou uma mão no cabelo.

    “É complicado de explicar. A coisa que isola os nervos foi se desfazendo. Aos poucos. Primeiro foi a coordenação, depois a memória. Ele ia esquecendo.”

    “Tinha cura?”

    Ela olhou para mim.

    “O Francis tinha um procedimento experimental. Disse que podia ajudar. Eu… acreditei.”

    Ela parou, eu não quis continuar. Os dados no meu leitor de emoções dizia que minhas perguntas não seriam bem vindas agora.

    “Elias morreu na mesa.” Ela terminou.

    Meus olhos voltaram ao parafuso frouxo no teto.

    Eu ia dizer algo, não sei o quê, meu sistema estava processando alguma coisa, quando ela mudou de assunto. Começou a falar sobre os relatórios que precisava entregar, sobre um componente que havia chegado errado do fornecedor, sobre o clima lá fora que estava com variação de umidade acima do normal.

    Eu deixei ela falar.

    Naquela noite, dentro da câmara, enquanto meu ombro direito se reconstituía no fluido, veio uma imagem que parecia colada nas retinas.

    Uma escrivaninha velha. A madeira arranhada. Sobre a mesa, uma garrafinha de suco. Reconheci o cheiro sem perceber. Jabuticaba, eu soubera pelo rótulo amassado — com um nome escrito à caneta na lateral do vidro.

    O nome eu não consegui ler.

    A imagem durou três segundos e sumiu quando reabri os olhos.

    O parafuso ainda estava lá.

    [ FRANCIS ]

    Francis expôs o projeto às 19h de uma terça. Não conseguiu marcar os minutos, e isso o irritou durante toda a exposição.

    Ele tinha o costume de usar a hora do jantar, que nunca era um momento exato porque ele comia quando lembrava, para apresentar as fases seguintes a Sylvia. Ela ouvia com atenção, fazia perguntas técnicas, registrava. Era o sistema que haviam desenvolvido ao longo dos três anos, eficiente o suficiente para que Francis não considerasse alterá-lo.

    Nessa terça, ele colocou o holograma no centro da bancada. A projeção mostrava uma coluna vertebral com as regiões de substância cinzenta destacadas em azul.

    “A substância cinzenta em organismos com menos de seis anos apresenta uma janela de plasticidade que fecha com o desenvolvimento completo da mielina.”

    Ele parou, como se computasse a própria afirmação com cuidado.

    “Se eu conseguir amostras nessa janela, posso testar a hipótese de reprogramação sem recorrer ao substrato sintético, que como você sabe ainda tem o problema de latência que o D4V-1D apresenta nos primeiros ciclos.”

    Sylvia olhava para o holograma.

    “Amostras de quê?”

    “Medulas. Coluna vertebral completa de preferência, para preservar o tecido circundante.”

    Ela apertou os olhos e se voltou para ele como se tivesse escutado um absurdo.

    “De crianças.”

    Era um absurdo.

    “De organismos dentro da janela de desenvolvimento que descrevi, sim.”

    O silêncio durou seis segundos. Francis contou com as batidas da caneta na mesa.

    “Isso é sério?”

    “Há um orfanato no Setor 14. Sem monitoramento externo. O acesso é limpo.”

    Sylvia fechou o holograma.

    “Francis.”

    “Preciso de seis amostras viáveis. D4V-1D é operacionalmente capaz para—”

    “Francis, para.”

    Ela virou para ele.

    “Você está me dizendo que vai mandar o David…”

    “Não me interessa o nome que você usa—”

    “…matar crianças. Pra tirar a medula. É isso?”

    Francis não alterou o tom.

    “É uma fase necessária do projeto. Os dados que essa fase vai gerar são irreplicáveis por outro método. Você entende isso. Sabe por que preciso disso. Sabe pelo que estamos lutando aqui.”

    Ela ficou olhando para ele por um tempo.

    “Ou você se esqueceu?” Ele apertou os olhos.

    Ela suspirou, embargada.

    “Não. Eu não vou fazer parte disso. Você realmente acredita que o que está fazendo pode ser justificado de alguma forma?”

    Francis contou mais dez segundos com o choque da ponta da caneta sobre a mesa. Então bufou e jogou o pescoço para trás na cadeira.

    “Tudo bem. Desculpe.” Ele se virou para o holograma e o fechou com um gesto de mão. “Você é mais importante do que esse plano para mim. Pense em uma alternativa e conversaremos.”

    Sylvia suspirou, encarou o chão por alguns segundos em silêncio. Seus lábios se curvaram fracamente em alívio. Depois pegou o jaleco e foi embora.

    Francis apagou as luzes e foi verificar os logs de calibração de D4V-1D. Mais tarde, às 23:53h ele reabriu o holograma.

    [ D4V-1D ]

    O Setor 14 às duas da manhã é bem silencioso, mesmo que não seja vazio.

    A voz de Francis no implante me deu coordenadas. Eu as segui enquanto identificava algumas marcas de calor atrás de caixas, postes, portões.

    Depois o protocolo de campo ativou. Meus sentidos ficaram confusos, desconexos.

    “Pode deixar que eu cuido disso dessa vez. Manualmente.” Ouvi a voz do doutor, outra vez, antes da visão se apagar.

    Acordei em frente a uma porta de madeira fina. Atrás dela, ouvia respirações e enxergava marcas térmicas. Marcas pequenas.

    Uma luz de corredor fraca de cor laranja que, quando jogada contra as paredes castanhas, parece um tom vermelho escuro. Sangue.

    Vi uma criança acordar, vestida um trapo velho e com o rosto sujo.

    Ela me olhou. Os olhos grandes, o cabelo amassado do travesseiro. Ficou só olhando, e depois, eu não sei por quê, ela abriu os braços.

    Alguma coisa dentro do meu processamento travou. Não vi mais nada. A voz de Francis soou atrás do meu ouvido outra vez.

    Acordei outra vez, de volta ao corredor laranja.

    Minhas mãos estavam vermelhas até o pulso. Havia algo pesado sobre meus ombros, não consegui mover o pescoço para checar pois ainda estava sob o controle do módulo.

    Ouvi um gotejar lento rítmico nas minhas costas.

    A voz de Francis disse: “Colete as amostras e retorne.”

    Enquanto minha visão escurecia outra vez, vi o silêncio da noite se romper com o som de sirenes.

    [ FRANCIS ]

    As amostras eram de qualidade superior ao esperado.

    Francis as processou ao longo dos três dias seguintes, sozinho, porque Sylvia não havia aparecido. Ele havia enviado uma mensagem no segundo dia — “os dados da fase três são relevantes para seu relatório de progresso” — e não recebeu resposta. No terceiro dia não enviou nada.

    D4V-1D ficou na câmara de regeneração durante esse período. Não havia dano físico que justificasse, mas Francis havia notado nos logs pós-missão que os ciclos respiratórios da criatura apresentavam variação irregular desde o retorno do Setor 14. O fluido nutriente aceleraria a estabilização.

    Entrou no laboratório às 14:04h do quarto dia e encontrou Sylvia.

    Ela estava de pé em frente às amostras, os frascos alinhados na bancada. As mãos ao lado do corpo. O jaleco abotoado.

    Francis foi até a bancada ao lado e abriu os registros do dia.

    “O que você fez…”

    Sua voz tremia.

    “A janela de plasticidade é uma condição biológica, não é uma escolha—”

    “Para, Francis.”

    Ela virou. Seus olhos foram à câmara onde D4V-1D repousava. A criatura tinha olhos entreabertos, pesados, direcionados ao teto.

    “Eu vou embora.”

    Francis fechou o arquivo.

    “Temos uma fase experimental em andamento. Só precisamos equilibrar o eixo hormonal. Sua saída agora—”

    “Não me importa. Vou embora.”

    Ela foi até a prateleira e começou a pegar seus materiais pessoais — um caderno de anotações, um termômetro de calibração que era dela, uma caneca que ficava na segunda prateleira.

    “Você não tem para onde ir, Sylvia.”

    “Tenho. Qualquer lugar é melhor do que isso.”

    “Você sabe o que acontece com pessoas que—”

    “Ele nunca aprovaria isso.”

    Francis ficou quieto.

    “É o que eu fico me dizendo há dias. Que ele nunca aprovaria. Que se ele soubesse o que o trabalho virou—”

    A voz dela quebrou no meio da frase. Ela virou de costas para Francis, fingindo que organizava a caneca na mochila.

    “Isso é sentimental.”

    “Eu sei. É exatamente isso. Acho que você não entende.”

    Ela fechou a mochila.

    Francis silenciou. Seus olhos pesaram e ele encarou a bandeja metálica na mesa ao lado da garota com um olhar vazio.

    “Vou sentir falta.”

    Ela virou. Olhou para ele com lábios apertados e olhos úmidos. Balançou a cabeça.

    “Não vai.”

    Ele bufou e se aproximou. Ela continuou balançando a cabeça, desviou o olhar e recostou-se na mesa ao lado. Era doloroso ver no que tudo havia se tornado. Os anos de trabalho, de relação e laboratório. Onde haviam levado.

    Ele colocou a mão no rosto dela.

    Depois a beijou. Pressionou-a contra a mesa do laboratório.

    Ela ficou rígida por um segundo, surpresa, confusão, três anos de espera por um gesto que nunca havia chegado, então ficou quieta. Lágrimas escaparam de seus olhos fechados.

    Francis pegou a seringa da bandeja com a mão livre.


    III. CÂMARA

    [ D4V-1D ]

    O fluido da câmara tinha amornado.

    Francis não havia reajustado a temperatura nessa sessão, provavelmente porque estava concentrado em outro procedimento.

    Podia lidar com o frio, não era um problema ou causava falta alguma. Mas ainda assim, algo faltava. Ela.

    Não tinha vindo nesse dia, ou nos anteriores.

    O laboratório era mais quieto quando ela não estava. Francis não fazia questão alguma de preencher o silêncio que a ausência dela deixava.

    Eu estava pensando nisso quando ouvi a porta.

    Os passos dela eram reconhecíveis, calçava sempre o mesmo tipo de sola que fazia um som levemente mais pesado no calcanhar. Eu ouvia esses passos antes de vê-la.

    Percebi meus batimentos acelerarem.

    Mas dessa vez os passos passaram direto pela câmara.

    Eu estava dentro da câmara, o fluido verde cobria o tórax, com a tampa entreaberta. Do meu ângulo eu via o teto e parte da bancada lateral. Ouvi a voz de Sylvia, baixa, depois o silêncio. Depois a voz de Francis, mais baixa ainda.

    Tentei me concentrar na conversa deles, mas o sistema tomou a vez de sussurrar no meu ouvido.

    “Horário de ingresso no estado de repouso pré-ambulatorial alcançado. Liberação de carfentanil ativada.”

    Minha percepção começou a afinar antes que eu entendesse o porquê.

    Pela fresta da tampa entreaberta eu vi as costas de Francis.

    Vi o braço de Sylvia envolvê-las.

    Vi a seringa na bandeja sobre a mesa ao lado deles. Vi a mão do doutor buscá-la.

    Tentei me mover. A vazão do sedativo aumentou sob a minha pele e fez meus olhos pesarem.

    Foi quando vi o braço de Sylvia cair.

    O baque no piso de concreto foi o último som que registrei antes que meu sistema desligasse.


    IV. TÉRMINO

    [ FRANCIS ]

    O procedimento foi concluído às 06h12.

    Francis fechou o tórax de D4V-1D com a mesma série de suturas que havia usado na criação. O hipotálamo de Sylvia havia sido integrado sem rejeição. A leitura dos sensores confirmava: os sistemas de D4V-1D estavam agora completos com a adaptação do sistema endócrino.

    Regeneração autônoma. Imunidade a dano estrutural. A hipótese de memória muscular confirmada pela longevidade demonstrada do tecido original.

    Francis tirou as luvas, jogou no lixo cirúrgico, foi até a bancada e fez café.

    Encheu a xícara e bebeu em pé, olhando para D4V-1D dentro da câmara fechada. Não pôde deixar de sorrir.

    O experimento havia dado certo.

    Era a frase mais simples e mais precisa para descrever o que havia acontecido nessa madrugada, e Francis a repetiu internamente algumas vezes enquanto terminava de beber, convencia-se mais a cada repetição.

    “Eu disse que você era importante…”

    [ D4V-1D ]

    O teto do laboratório.

    Aquele parafuso frouxo no canto superior esquerdo estava prestes a cair.

    Alguma coisa no meu tórax estava diferente. Uma sutura que não estava lá antes. Francis havia operado enquanto eu estava desligado — isso acontecia às vezes. Eu normalmente descobria a mudança no meio de alguma missão.

    A câmara estava aberta e todo o resto estava silencioso.

    Sentei nos degraus da câmara, onde Sylvia costumava sentar.

    Meus olhos buscaram a segunda prateleira sem que eu percebesse.

    A caneca estava lá. Levantei-me e fui até ela.

    Encarei o objeto que parecia um brinquedo nas minhas mãos enormes até que o virei e vi, escrito na base, “Do seu querido Elias”.

    Novamente procurei pelo cômodo, sem saber o que exatamente, mas encontrei. A bandeja sobre a mesa, a seringa vazia.

    Senti uma pontada no topo da cabeça e levei a mão aos olhos para tentar lutar contra as imagens que surgiam neles.

    A seringa, o braço caindo, o silêncio. 

    Cambaleei para a frente, até me chocar contra a câmara de regeneração. O vidro trincou e a estrutura tremeu. A cabeça doía, do topo à nuca.

    Abri os olhos, minha respiração estava desnivelada, meu coração estava acelerado, os sistemas piscavam em telas de aviso carmesins.

    Tinha sangue no piso de concreto, perto da bancada. Francis havia limpado a maior parte — era minucioso — mas o concreto é poroso e absorve antes de ser limpo.

    Fiquei olhando para a mancha.

    A respiração, o peito, a raiva. Eu nunca havia sentido algo do tipo.

    “Pare…” o murmúrio escapou para ninguém. “Pare com isso…”

    Doía, dói. Como dói.

    Segurei-me na câmara com os dois braços. Estava insuportável.

    Um bipe começou a estalar no meu ouvido. Devia ser Francis, de novo.

    Atravessei a sala até a mesa de terminais, com uma braçada, joguei todos no chão em um estrondo de faíscas elétricas dos cabos que arranquei.

    Não parou. Cambaleei outra vez até a câmara, talvez parasse se eu voltasse ao líquido.

    Droga. Como dói.

    Bati a cabeça contra o vidro uma vez. Depois outra.

    “Pare! Cale-se de uma vez!”

    Minha cabeça atravessou o compartimento e libertou o líquido esverdeado como uma cachoeira para o chão do laboratório.

    O fluido nutriente vazou da câmara rachada e encontrou as faíscas dos consoles destruídos. O fogo subiu. As chamas assumiram um tom verde e doentio.

    Ouvi um som metálico de repente num choque contra o chão e olhei.

    O parafuso havia caído do teto.

    [ FRANCIS / D4V-1D ]

    Francis estava na sala de arquivos quando D4V-1D entrou.

    Não levantou os olhos do tablet imediatamente. Havia um conjunto de dados para registrar. os resultados do procedimento da madrugada, a projeção das próximas fases, e Francis tinha o hábito de terminar o que estava fazendo antes de atender interrupções.

    Terminou o registro. Levantou os olhos.

    D4V-1D estava na porta, vestido com uma camisola hospitalar azul clara. Imóvel.

    “Você acordou mais cedo que o previsto. A regeneração deve estar—”

    “Onde está a Sylvia.”

    Francis franziu o cenho e pousou o tablet.

    “Está me perguntando? Que interessante.” Ele girou na cadeira e encarou a criatura com uma mão no queixo.

    Seus olhos examinaram D4V-1D e constataram os cabelos molhados, os ombros a subir e descer e o peito arfante. Fez uma nota mental sobre isso.

    “Sylvia havia decidido encerrar sua participação no projeto. Durante o processo de encerramento—”

    “Francis.” A criação quase rosnou o nome. Francis sequer piscou.

    “Era necessário. O componente que faltava no seu sistema é incompatível com fontes sintéticas — você sabe disso, os logs de calibração mostram—”

    “Você matou ela.”

    “O procedimento era—”

    “Para você me completar.”

    Francis ficou quieto e observou o ciborgue erguer ambas as mãos à frente do rosto.

    “Ela era—”

    A voz quebrou.

    Francis observou. O fenômeno era interessante: a quebra vocal em D4V-1D não estava prevista no espectro emocional padrão para esse gatilho. Havia algo nos parâmetros de apego que havia extrapolado a projeção.

    “Não se preocupe, você vai funcionar melhor agora. O sistema está completo. Essa reação deve ser alguma alteração colateral momentânea, a regeneração vai—”

    D4V-1D entrou na sala.

    Francis calculou a distância e apertou os olhos vermelhos. Os dados de temperamento de D4V-1D não indicavam risco imediato. O protocolo de controle estava disponível se necessário. Sorriu.

    “O que você fez de verdade com Elias?”

    Pausa.

    “As memórias implantadas requerem substrato orgânico de qualidade. O material neural do sujeito em questão era adequado. A origem do material não é relevante para—”

    “Você matou os dois.”

    “Eu—”

    “E usou os dois. Para criar a mim.”

    Francis abriu a boca para responder, mas parou quando percebeu uma alteração súbita nos dados de controle ao lado do ciborgue. Uma caixa de notificação informava:

    [Choque hormonal: Descarga de adrenalina]

    Arregalou os olhos e levou dois dedos à têmpora para ativar o protocolo de controle. 

    [ERRO: FALHA POR CARGA ENDÓCRINA]

    D4V-1D avançou a passos largos e cruzou a sala em menos de um segundo. A cadeira tombou. O tablet bateu no chão de canto, a tela partiu-se ao meio. Francis viu a parede girar, sentiu o impacto no tórax, que o empurrou de volta contra ela. Depois o chão.

    Os joelhos de D4V-1D desceram sobre seu peito antes que ele tivesse tempo para arfar.

    [ FRANCIS ]

    Três costelas fraturadas, confirmado pelo sensor de pressão. O pulmão esquerdo trabalha em quarenta por cento da capacidade usual.

    D4V-1D está sobre mim, com as mãos gigantes fechadas ao redor do meu pescoço. O protocolo não funcionou por conta da instabilidade do implante hormonal. Estranho, eu tinha certeza de que…

    Há um líquido nos olhos dele, claro, levemente viscoso, desce em dois filetes pelas bochechas. Sei exatamente o que é. Instalei um lubrificante óptico para proteção dos sensores visuais em ambientes com partículas em suspensão. 

    Mas da forma que está sendo utilizado agora…

    Ele está chorando?

    Não está. O fluido tem outra função e eu sei disso.

    Mas a palavra que meu sistema de linguagem corporal mostra é chorando, e eu não consigo substituí-la por outra antes que ela registre, e isso — isso especificamente — é repugnante. 

    Quanto tempo faz desde a última vez que eu chorei?

    A mão dele fecha no meu pescoço.

    O pensamento perde a estrutura de frase.

    Terá sido o modelo do chip…

    O fluido cai no meu rosto. Quente. 36,4 graus.

    …as memórias que escolhi…

    …havia alguma alteração na mente clonada, algum processo que os logs não capturaram, alguma variável que eu…

    Não…

    Ele é aquilo que eu queria produzir…

    Um homem, que sente, pensa. Eu o criei. Um homem de lata…

    A baixa oxigenação deve ter causado um curto nos meus softwares. Parece que os meus próprios dados estão sendo exibidos agora.

    Engraçado. Que tipo de expressão estou fazendo?

    [SORRISO: ORGULHO]

    O sistema me informa.

    Ele fecha os olhos.

    Eu perco a força que mantinha os meus abertos.

    Minha teoria estava certa, afinal?

    As memórias…

    Talvez eu devesse ter…

    CRECK


    EPÍLOGO

    [ DAVID ]

    O calor distorceu o ar do laboratório quando as chamas da outra câmara o invadiram. Eu permaneci imóvel no centro da sala. O teto de zinco estalou com a temperatura.

    As labaredas rastejaram pelo piso de concreto e alcançaram as botas de Francis e derreteram o couro antes de subir pelas pernas do meu criador e consumir o jaleco de polímero. Vi seu rosto vazio sumir sob a luz esmeralda.

    O líquido inflamável escorreu até os meus pés e o fogo lambeu a barra da minha veste hospitalar, o que fez o tecido sintético encolher e grudar na minha perna. A pele enxertada escureceu com o calor extremo. 

    Os sensores de dor dispararam alertas no meu sistema nervoso. Eu anulei os avisos e fechei os olhos. A fumaça invadiu meus pulmões biológicos com o gosto de fuligem e plástico queimado.

    O fim parecia aceitável. A cinza cobriria a minha carne ao lado dos restos do meu fabricante e no mesmo lugar em que a única pessoa que me importava se foi.

    Um estalo afiado cortou o ronco do incêndio.

    Um béquer despencou da prateleira metálica e explodiu contra o chão.

    Os cacos de vidro deslizaram pelo piso liso. O ruído penetrou nos meus canais auditivos e buscou arquivos trancados. O impacto da porcelana da xícara de café contra a bandeja de aço. O aroma de sabonete de lavanda e suor frio. A voz de Sylvia emergiu dos blocos de memória corrompidos. Ela falava sobre o mercado de rua. Descrevia o sabor doce e ácido da jabuticaba, dizia que iria me mostrar um dia. A presença dela ocupou a sala em chamas.

    Abri os olhos. O fogo consumia os trapos no meu corpo. Arranquei o tecido em chamas do meu peito com as mãos nuas. O ardor cravou nos músculos, rasgou a epiderme superficial e ativou os protocolos de regeneração celular.

    Ergui o meu corpo, corri até a entrada e chutei a porta pneumática. O aço cedeu com o impacto e a trava eletrônica partiu ao meio. Avancei pelo corredor mergulhado na fumaça, descalço e nu, rumo à luz da rua. O ar gélido da noite bateu contra a minha carne em brasa.

    Ar frio. O Setor 9 ainda dormia, o neon azul e laranja da cidade refletia nas poças da calçada.

    Fiquei parado por um momento e contemplei a neblina que escondia os arranha céus de neon à frente.

    Atrás de mim, o laboratório queimava em fumaça esverdeada.

    Apertei os punhos e caminhei, sem olhar para trás.

    Deixei que as chamas engolissem o monstro, para que o homem pudesse renascer das cinzas.

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