Capítulo 37: Viagem
O carro balançava pelas estradas esburacadas, o que impedia João de descansar. Além disso, a voz animada de Thomaz gerava confusão e desconforto na mente do homem de sobretudo:
— Então, eu falei: “Quando eu provar que o paranormal existe, você se casará comigo!”, mas ela riu da minha cara e foi embora do bar… Ainda bem que anotei todos os traços do rosto dela. Pedirei para o desenhista da polícia fazer um retrato dela e… — afirmava o detetive até ser cortado.
— Pode, por favor, calar a boca?
— Ei, que falta de educação, garoto! Estou contando a minha história nessa jornada em busca de respostas sobre o paranormal e você…
— Tanto faz — esbravejou, revirando o corpo nos assentos em busca de conforto. — Quero descansar, mas é impossível viajando ao seu lado.
— … — Respeitando o momento de João, Thomaz se calou, tornando a viagem muito mais silenciosa e monótona.
Uma hora se passou até a cidade de São Paulo ficar visível a olho nu. Mesmo que os dois permanecessem na estrada, era notória a mudança de paisagem. Os prédios, o cheiro e até a paleta de cores da região eram completamente diferentes.
João dormia de maneira completamente desconfortável — visto que não havia espaço suficiente para o seu corpo nos bancos estreitos —, mas isso não o incomodava tanto quanto parecia. Estava claro que ele precisava de um descanso, por menor que fosse.
Esse descanso foi interrompido por uma lombada que levantou o carro, jogando o jovem para cima, que, posteriormente, parou no assoalho. Acordou com uma grande pancada na cabeça, fazendo-o levantar enfurecido.
— Qual é o seu problema?!
— O quê?
— Você não sabe dirigir como uma pessoa normal?!
— Como você é chato, hein? Foi só uma lombada!
— Seu senso de empatia é nulo, não é? — Levantou-se e sentou no banco. — Eu ainda estou machucado!
— Se está machucado, aquiete-se no banco e fique calado! — Vociferou Thomaz, olhando para o jovem.
— Eu estava fazendo isso até você começar a dirigir igual a um imbecil!
— Imbecil é o seu pa…
— CUIDADO!!! — João apontou para frente. O detetive se virou rapidamente e notou um caminhão vindo em sua direção. Num ato rápido e, talvez, genial, jogou o volante com a mão esquerda, usando toda a sua força, fazendo-o girar e desviando-se do grande veículo. Em seguida, parou o volante com a mão direita e redirecionou o carro.
— Um imbecil faz isso?!
— SIM, OLHE PARA FRENTE ENQUANTO DIRIGE!
— Deveria ter te largado naquela floresta…
— Também não sei o motivo de ter confiado em ti! Pode agir como alguém normal pelo menos uma vez?!
— Age como se eu tivesse a obrigação de te levar para a cidade. Não sou seu motorista pessoal, entendeu?!
— Pois pare o carro que eu sigo sozinho daqui.
— Como assim?! — Thomaz encostou o carro no canto da pista e parou. — Está falando sério?
João abriu a porta e desceu lentamente, fechando-a com toda a sua força.
— Falta uma hora para chegarmos ao centro ainda! Você demorará várias horas até chegar lá!
O rapaz de sobretudo ignorou completamente o detetive e seguiu sua jornada até a cidade. Mesmo que demorasse horas ou dias, pensava que seria melhor do que passar mais cinco minutos com aquele cara.
Após 15 minutos, a fadiga impediu João de dar qualquer passo. Com seu braço ainda quebrado e o cansaço das horas de luta e fuga, ele não podia fazer mais nada além de arfar e recuperar o fôlego.
Como um anjo da guarda, um carro parou ao seu lado e abriu a porta, dando-lhe permissão para entrar e descansar. Mas, ao olhar para dentro do carro:
— Tu não presta nem para fazer marra… Entre logo, deixa eu te levar até um local seguro lá na cidade.
O jovem olhou toda a situação e desistiu. Como se não pudesse fazer nada de diferente (e realmente não podia), adentrou mais uma vez no carro, dessa vez se sentando ao lado de Thomaz.
O detetive voltou a dirigir em silêncio. Não demorou muito até ele decidir se explicar:
— Deve se perguntar o motivo de eu ser assim, não é?
— … — ignorou a pergunta, encarando a paisagem pela janela.
— Olha… é verdade que eu tenho um jeito um pouco extravagante, mas você nunca deve julgar o livro pela capa, hahaha!
— Hm… — murmurou o jovem, ainda sem dar atenção ao detetive.
— É… Tive uma filha anos atrás que amava o paranormal… o nome dela é Agatha.
— Você contaminou ela também?
— Não, não — gargalhou o motorista — foi o contrário… Eu não acreditava nessas coisas também. Para ser sincero, achava tão idiota quanto qualquer outra pessoa. Mas, como um bom pai, precisava fazê-la feliz, entende?
— Sim…
— Num momento turbulento da minha vida, acabei perdendo o emprego e descobri que minha mulher me traía com o chefe dela. Discutimos feio, com ela dizendo que era a única que ajudava em casa com as despesas, e que só tendo relações com o patrão dela para conseguirmos viver de maneira decente… Fui humilhado de todas as formas possíveis por ela, hahahaha!
João se calou completamente, dando atenção não só à paisagem que passava pelos seus olhos, mas também à triste história do homem ao seu lado.
— De certa forma, ela não estava errada… Devido à demissão, eu passava mais tempo fora de casa bebendo do que procurando um emprego novo, e isso a preocupava. Pensava que eu me tornaria um homem capaz de agredi-la e fazer mal à nossa filha. Então, como forma de se proteger, decidiu se mudar com a garota para a casa do chefe.
— Do chefe?
— Bem, ele era um homem solteiro, bem-sucedido e bom. Eu o conhecia e parecia ser uma pessoa de ótima índole… exceto por se relacionar com uma mulher casada — riu ironicamente.
— Entendo…
— Resumindo: o cara era tudo o que eu não era e poderia dar um bom futuro para a Agatha. Antes de irem embora, minha ex-esposa me deu a oportunidade de me despedir da garotinha.
Com o decorrer da história, João notava que a voz do detetive mudava. Antes, tinha um tom firme e alegre, mas após começar a contar seu passado, ganhou um tom trêmulo e deprimido.
— Minha filha não entendia o motivo de se despedir de mim, e mesmo se eu explicasse, não teria sentido algum, já que ela só tinha 5 anos. Contei que partiria numa jornada em busca do paranormal, e que algum dia mostraria para todos que ele realmente existe. Uma boa desculpa, né?
— É… agora que descobriu que o paranormal existe, está feliz?
— Não sei… Sou um ser humano ainda, tenho medo de que algo possa acontecer comigo — respondeu relutante enquanto batucava as mãos no volante nervosamente. — Porém, eu prometi a ela que revelaria ao mundo, e eu não voltarei atrás.
Ouvindo essa última frase, João lembrou de Rosa. Aparentemente, o homem ao seu lado vivia na mesma situação que ele. Será que o destino preparou o encontro de ambos ou foi apenas uma grande coincidência? O jovem de sobretudo não tinha a resposta.
— Acharia engraçado se eu falasse que somos parecidos? — João o encarou.
— Eu me sentiria mal — gargalhou o detetive em seguida. — Mas eu também notei um pouco disso em ti… Está se esforçando muito pela cidade, não?
— Sim, hehe…
— Não quero que se obrigue a depender de mim, mas estamos caminhando pela mesma estrada. Conte comigo para o que precisar.
— Obrigado, Thomaz… Você não é tão ruim assim.
— E você não é tão chato assim.
— É…
⁂
Finalmente, haviam chegado à cidade. Com o passar do tempo, o sol surgiu e a madrugada se transformou em dia. Ambos estavam na porta da casa de Thomaz.
— Bem, João. Aqui está o meu contato, caso precise de alguma coisa — disse, entregando um cartão comercial para o jovem. — Recomendo que vá urgentemente ao hospital resolver o problema nesse seu braço. Foi nojento viajar olhando para ele.
— Certo… — João se afastou da porta do detetive, mas, antes de ir embora, lembrou-se de fazer um pedido ao homem. — Thomaz, acabei de lembrar que não tenho lugar algum para passar a noite. Posso passar o dia na sua casa ho…
Antes de completar a frase, viu a porta se fechando em sua cara e sendo trancada rapidamente. Assustado e um pouco bravo, aproximou-se da porta chamando o detetive:
— Ei, não disse que eu poderia contar contigo para o que eu precisasse?!
— Outra hora, agora não! Vá ao médico para tratar esse braço logo.
— Mas, mas… — suspirou e caminhou para longe da casa do homem. — Que filho da puta… e ainda nem sei onde estou…
Estranhamente, João revelou um pequeno sorriso em seu rosto, mostrando um pouco de felicidade em seu olhar, mesmo após todas as dificuldades que passou em tão pouco tempo.
— Pelo menos eu estou vivo… Certo, hora de voltar aos trabalhos. A minha batalha ainda não acabou.

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