O dia se passou rápido… Exceto para João.


    Na realidade, seu dia foi o mesmo dos anteriores: andar pelas ruas comerciais do centro em busca de comida, água, um descanso decente e talvez um novo trabalho, mas, assim como antes, falhou em conquistar tudo isso.


    Lembrava do quão sortudo foi ao chegar em São Paulo pela primeira vez. Sem nenhum dinheiro no bolso e sem lugar para ir, sua alternativa era viver como andarilho ou fazer pequenos bicos enquanto estudava sobre rádios na biblioteca.


    Isso durou até conhecer Dona Maria, uma senhora simpática que notou seus esforços pelo seu sonho e lhe ofereceu um dos seus apartamentos, claro, com a condição de que os aluguéis atrasados fossem pagos.


    Dona Maria foi sua mãe quando ele chegou em São Paulo; foi uma pena que ela tenha morrido de um jeito tão trágico.

    “Não é hora de pensar nisso…”

    Sobreviveu mais um dia com sua pura força de vontade. A massa muscular que adquiriu treinando no sítio de seu avô sumia lentamente, sendo consumida pelo corpo como última fonte de energia, isso sem contar os diversos machucados que conquistou ultimamente. Uma pessoa comum já estaria caída em algum canto da floresta de pedras que se formava ali, morta.


    Sem nada mais para fazer, o rapaz decidiu retornar para a praça. Se tudo desse certo, seus dias de sofrimento chegariam ao fim e ele finalmente poderia ter um local para descansar e se cuidar devidamente.


    Chegando lá, já avistou aquela que seria sua salvação: a pequena garota de cabelos vermelhos e curtos descansando no banco de madeira. Era comum que a garotinha sempre estivesse lá antes dele; seu compromisso com horários era extremamente rígido.


    — Olá, Rosa — cumprimentou-se aproximando e sentando ao seu lado — Como foi o seu dia na escola?


    — Foi péssimo como sempre, hahaha! E o seu?


    — Sério? Não parece, você está bem risonha agora…


    Colocando sua mochila em seu colo, Rosa abriu animadamente, como se estivesse esperando anos para mostrar algo a João. Disparou o zíper para o outro lado, enfiou seus braços finos dentro e retirou uma pequena caixinha de suco de uva com um sanduíche embalado, entregando-os para João posteriormente.


    O rapaz, com uma feição assustada e também impressionada, começou a questionar:


    — D-da onde tirou isso?!


    — Toma, pra você! — entregou a comida e a bebida para o rapaz que se mantinha parado, sem entender o que estava acontecendo.


    — Espera, Rosa. Pode me explicar o que está acontecendo?


    — O que aconteceu contigo, João? Nunca viu comida na vida?! Vamos, come logo isso antes que morra de fome.
    De fato, João estava há um bom tempo sem ver comida de verdade na sua frente, numa distância que ele poderia alcançar. Passou os últimos dias comendo coisas descartadas por restaurantes, mercados e lanchonetes que encontrara no lixo. Ao ver uma refeição muito simples — porém, digna — na sua frente, lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.


    — J-João, você está bem?!


    — O-o quê? — Notando as lágrimas pingarem em seu colo, o jovem limpou seus olhos, fingindo que nada estava acontecendo. — Não é nada, Rosa… não se preocupe.


    — V-você está chorando? Pelo… pelo que você esteve passando por todo esse tempo…?


    — Não é nada demais, Rosa! Vamos, me explique de onde tirou isso, estou esperando… — interrogou a garota desembalando o sanduíche e mordendo-o logo depois.


    — Não precisa ser tão agressivo, seu chato! Só peguei o lanche que deram no intervalo hoje. Olha, eu peguei um monte!


    João se espantava com a quantidade de sucos e sanduíches que a garota tirava de sua mochila. Agora, fazia sentido o porquê dela estar tão cheia.


    — C-como conseguiu pegar tudo isso?! Eles permitiram?


    — Na verdade, depois de repetir uma vez, as cozinheiras me proibiram de pegar mais, então tive que furtar alguns… — a ruiva sorriu maliciosamente — não deve fazer falta para eles, mesmo.


    — S-se você está dizendo…


    — Enfim, meus materiais estão beeeem sujos, então me recompense comendo tudo isso. Aqui, ó! — entregou mais um pouco de comida para o homem que já havia deixado sua dignidade de lado e devorava tudo num piscar de olhos.
    Os farelos caíam em seu sobretudo, porém definitivamente aquele era o menor dos problemas quando se falava em sujeira. Na cabeça de João, a única coisa que se passava era o quão grato ele estava por ter conhecido a jovem em sua frente.


    Quando sentia que iria chorar, virava para o outro lado, escondendo sua feição chorosa da garotinha preocupada. Felizmente — ou não —, João estava mais próximo de chorar por engasgo do que por tristeza.


    Após finalmente se alimentar, pôde dar atenção à garotinha que, surpreendentemente, estava alegre vendo toda aquela situação.


    — D-desculpe por agir feito um ogro na sua frente, Rosa… e… muito obrigado pela comida… estava deliciosa…


    — Que bobinho, não precisa ser tímido. Você parece um morador de rua, então pensei que estava com fome.


    — Ok, me arrependi de ter pedido desculpas.


    — Ei, mas é verdade! Você nitidamente não está bem, eu só quis te ajudar…


    João posicionou sua mão sobre a cabeça da ruiva e acariciou-a, deixando a garotinha envergonhada.


    — Obrigado, Rosa… — disse sorrindo com os olhos — Você realmente me salvou agora…


    — Eu… — a ruiva escondeu seu rosto melancólico de João — não sabe o quanto eu precisava ouvir algo assim…


    — E você não sabe o quanto eu precisava comer, hahaha!


    — Tu sempre foi uma pessoa muito magra. Precisava comer desde que te conheci.


    O rapaz, irritado com a piada da ruiva, deu um pequeno tapinha em sua cabeça.


    — Ai!


    — Sua boba… Aliás, agora que percebi que você cortou o cabelo. Por que fez isso?


    — Tive meus motivos… Não acho que entenderia.


    — Sei… sabe que pode contar comigo para o que der e vier, né?


    — Claro que sei, seu esfomeado! — Rosa retribuiu o tapa com um pequeno soco no braço do jovem, que gemeu de dor em seguida — D-desculpa!


    — Haha… tudo bem…


    — Ei… pode contar comigo também, tá?


    — Certo, Rosa! Agora, pode me contar qual é o seu plano e onde vou poder descansar?


    A jovem, mostrando uma feição inspiradora e animada, levantou-se e prontamente apontou para uma direção até então desconhecida por João.


    — Vamos para minha casa!


    — Ei, achei que tinha dito que eu não descansaria lá…


    — Não, não. Você não vai ficar na minha casa, mas é lá que fica o lugar onde vai descansar.


    — Está dizendo que vai me colocar para dormir no quintal?


    — Aguarde e verá…


    Após um bom tempo caminhando e conversando, finalmente chegam na… mansão da Rosa?


    — VOCÊ É RICA?!


    — Não! Isso só é um casarão velho que meu pai deixou para mim e minha mãe. — A jovem retirou as chaves do bolso e abriu o portão, liberando a passagem para ambos. — Venha comigo que vou te mostrar.


    Andando pelo vasto quintal, João notava que aquela residência era um pouco estranha. De fato, ao se olhar pela primeira vez, parecia um local de alto valor, mas, observando mais a fundo, era possível notar a pintura desgastada, os canteiros que deveriam conter um belo jardim destruídos e esburacados, musgos tomando forma nos cantos das paredes. Era nítido que aquela casa precisava de cuidados muito maiores do que os de uma criança de 14 anos e uma mãe ocupada.


    Chegaram na tão sonhada “nova casa de João”, mas o jovem não se sentiu muito confortável.


    — O… que é isso?


    — Casa de ferramentas!


    João caminhou até a porta, abrindo-a devagar.


    — E-espera, João! Tem muita coisa aí!


    Abrindo a porta, João viu um amontoado de baratas, aranhas e outros insetos fugindo para fora devido à sua presença. Além disso, diversos equipamentos empoeirados e sujos estavam espalhados pelo chão e pelas estantes. Era até espaçoso, mas a quantidade de tralhas fazia com que o espaço livre fosse minúsculo.


    João tossia com a quantidade astronômica de poeira que subia, enquanto Rosa gritava e pulava de medo com as baratas correndo assustadas pela grama alta que os envolvia.


    — M-meu Deus — o rapaz dizia em meio às tosses e espirros — essa era a sua ideia?


    — N-não pode olhar os dentes dos cavalos… Ah!


    — É “cavalo dado não se olha os dentes”… Bem, é melhor do que nada, mas…


    — Se não gostou, pode voltar para o nada!


    — Ei, ei! Já está me expulsando?


    — Vou te trazer algumas coisas para você colocar no chão e dormir. Quando minha mãe estiver fora, pode arrumar as coisas para ficar mais agradável a ti.


    — Falando nisso, e sua mãe?! E se ela descobrir que você está mantendo um estranho dentro de casa?


    — Ela está mais ocupada do que nos últimos dias, só costuma voltar e sair de madrugada, então não precisa se preocupar… Então, aceita?


    João olhou para dentro da pequena casa e respondeu à jovem com um sorriso confiante no rosto:


    — Posso deixar isso agradável em algumas horas. Óbvio que aceito, Rosa.


    — Perfeito! Mas só deixarei você dormir aqui se cumprir com minha condição.


    — E qual seria ela…?


    Rosa encara o rapaz com um olhar intimidante, um sorriso malevolente e esfregando as mãos, como se tivesse algo planejado há meses.

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