Capítulo 11 - Parte 5
Seus olhos se estreitaram enquanto ela encarava o caminho à sua frente. A sensação opressiva que a cercara momentos antes dissipou-se como uma onda recolhendo-se à margem, mas parecia haver deixado para trás um vácuo estranho, como se parte de Zahara tivesse ficado presa naquela maré.
“Qual a razão de ela estar ali?”, era a questão principal que se instalou em sua mente.
Ela sabia que havia um propósito… mas o quê era exatamente?
“Certo… o que diabos aconteceu aqui?”, resmungou em pensamento, enquanto começava a alisar sua nuca. “Eu só me distraí por um minuto e esqueci o que vim fazer…”
Seus dedos apertaram involuntariamente a alça da bolsa. Foi então que sentiu um movimento brusco dentro dela, seguido de um som baixo e rouco, algo entre um suspiro e um grunhido abafado.
— Zarek? — sussurrou, franzindo a testa.
Realmente… ele estava ali dentro. Ela ainda lembrava disso, e parecia ser a única coisa verdadeiramente clara em sua mente.
Após Zahara sussurrar, houve um breve silêncio antes de outro movimento agitar a bolsa novamente, sacudindo-a com mais força, como se algo lá dentro estivesse se debatendo.
Zahara se surpreendeu com o movimento brusco dando um pequeno solavanco com a alça, como se estivesse o repreendendo. Em seguida, olhando pelas redondezas para ver se ninguém havia visto a movimentação estranha.
Mas por sorte, a rua estava vazia novamente.
“O que deu nele? Vai começar a fazer baderna no meio da vila?”
Foi quando outro sentimento invadiu o seu ser.
Dessa vez, um temor profundo, algo que fazia tempo que Zahara não experimentava, pareceu estrangular o seu peito a fazendo prender a respiração.
Cada pelo de sua pele arrepiou, mas não somente isso. A marca em seu peito reagiu e emitiu um brilho suave, começando a arder levemente.
Assim que Zahara viu, se apressou e moveu sua mão até ela, enquanto sentia um mau presságio.
Sem hesitar, ela correu para se ocultar em um beco próximo e puxou a bolsa para a frente, abrindo-a rapidamente.
Lá dentro, os olhos de Zarek, aquelas fagulhas em brasa, ardiam com intensidade, mas não estavam voltadas para ela. Ele encarava um ponto indefinido dentro da própria escuridão da bolsa, imóvel, como se estivesse em transe.
— Zarek…! — Ela o chamou o mais alto que pôde enquanto sussurrava.
Mas ele não respondeu. Naquele instante, algo também estava acontecendo com ele.
•••
Uma sensação atravessava seu corpo disforme, vindo de todos os lados ao mesmo tempo, como se o ar estivesse carregado por uma aura invisível, vibrando diretamente em sua essência, arrebatando sua consciência.
Por um instante, tudo ao redor dele havia sumido. Som, luz, movimento… o mundo foi reduzido a uma escuridão densa e silenciosa.
Era aquele limbo de sempre… aquele breu vivo onde a percepção pulsava, como se estivesse prestes a se romper.
“Aqui de novo…? O que aconteceu dessa vez?”, se questionou Zarek, assim que percebeu que fora arrebatado. “Wa… espero que a Zahara não precise de mim agora…”
Ele não conseguia ver, nem ouvir nada dessa vez. Mas havia uma presença à espreita, como se algo estivesse à margem de sua mente, observando-o do outro lado de uma cortina invisível.
Zarek olhou ao redor.
— Olá…? Alguém…? — murmurou, mas sua própria voz soou abafada, como se fosse tragada pelo vazio antes mesmo de chegar aos seus ouvidos.
“Hmmm… onde será que foi para aquela sombra… será que ela tá escondida? Espera… será que é ela que está me puxando para cá?”
— Dona Sombra…? — arriscou novamente, tentando contato.
Porém… nada. Nenhuma resposta. Só o peso daquela presença.
Zarek estreitou o foco, tentando rastrear sua origem. Era como estender a mão para algo no escuro. E quanto mais se concentrava, mais aquilo parecia se aproximar.
Ou talvez fosse ele quem estava indo até ela.
A sensação ficava cada vez mais nítida, conforme ele cavava. Era sutil, quase imperceptível… mas persistente. Similar a algo pressionando os dedos contra uma porta, esperando ser notado, até que a porta fosse aberta.
Era isso…? Queria que ele abrisse? Ou era apenas porque ainda não conseguia forçar a entrada?
Foi então que ele sentiu, como se conseguisse se conectar com a consciência daquilo que o espreitava.
De repente, algo instintivo, quase animal, emergiu por trás daquela aparente calma.
Algo sombrio. Faminto… algo que se debatia nas sombras.
Aquela sensação por um momento pareceu invadir sua consciência e Zarek recuou, surpreso.
Foi quando, sem aviso, o chão dissolveu-se sob seus pés — se é que podia ser chamado dessa forma — e tornou-se uma massa escura, densa, que começou a puxá-lo para baixo. Como areia movediça.
Vozes começaram a ecoar em sua mente, como se fossem espíritos que haviam sido libertos daquela massa de corrupção ao qual ele acessou.
Elas não vinham de um único lugar. Soavam ao redor, como se o próprio espaço estivesse reverberando. Cada uma com um timbre distinto, lotadas de emoções tão sombrias que pareciam carregar um peso palpável.
—Até quando… você vai ficar com isso…?
— Você não… cansa nunca…?
— Desequilibrado!
— Você está sempre tentando abraçar o mundo. Por que não começa olhando pra perto?
O que era aquilo tudo? Tudo parecia tão irreal, tão sem sentido… que ele apenas ficou paralisado e não resistiu, se deixando afundar.
A última voz surgiu em um tom mais baixo, quase cortez. Mas era uma gentileza falsa. O sarcasmo que escorria por entre as palavras era evidente.
E dessa vez, essa lhe era familiar.
E com ela, veio também aquela imagem novamente. Aquela silhueta que parecia se formar a partir das sombras emergindo da umbra, como uma lembrança que ganhava corpo devagar.
— Vai… faça o que tem que fazer… você sempre faz o que quer. No fim… você vai ver que eu tenho razão.
Zarek inclinou a cabeça, ouvindo atentamente, tentando entender o que tudo aquilo queria dizer.
E foi só quando a escuridão começou a encobrir sua visão por completo que uma voz atravessou a névoa de sua consciência como uma lâmina, rasgando o véu que o separava do mundo.
— Evodr ent Zarek!
Algo dentro dele estalou. E em um instante, a realidade começou a se reconstituir ao seu redor com violência, como o ar retornando para os pulmões de um afogado que foi puxado para fora da água com força.
Seu olhar, antes perdido no abismo, tremeu levemente e, ainda atordoado, piscou devagar, tentando reorganizar o que voltava aos poucos a sua percepção.
A primeira coisa que viu foi o escuro do interior da mochila.
Ele soltou um som baixo, entre um gemido e um suspiro confuso.
— Ah…ah… eu… voltei?
— O que você pensa que está fazendo? — A voz de Zahara invadiu o interior da bolsa, com um tom irritado, atraindo sua atenção.
Zarek se virou lentamente na direção da voz, e a claridade da abertura da mochila invadiu seus olhos. Foi então que ele a viu.
Zahara o fitava com os ombros levemente arqueados pela respiração irregular. Estava suada, com os cabelos grudados nas têmporas e a pele pálida, como se algo tivesse a drenado. Seu olhar, apesar da firmeza que tentava manter, estava carregado de cautela e desconfiança, como se estivesse tentando entender se aquilo dentro da mochila ainda era, de fato, Zarek.
— Zahara… o que aconteceu? — murmurou ele, ainda reorganizando os pensamentos.
Ela não respondeu de imediato. Apenas franziu o cenho e passou a mão sobre a marca, como se conferisse algo.
— Eu que devia perguntar isso — retrucou, num tom tenso, quase ríspido. — Não está pensando em perder o controle logo aqui, está?
Zarek soltou um ruído, mas se interrompeu antes que pudesse formar sua resposta. Naquele momento outra coisa já havia roubado sua atenção, quase como se tivesse entrado em transe novamente.
Ali no ambiente externo, ao redor de Zahara, dezenas — talvez centenas — de pequenos seres flutuavam, empilhados como moscas sobre um pedaço de carne recém exposta. Eles orbitavam Zahara de forma quase cerimonial, como se fossem atraídos por algo que escorria dela.
A voz de Zarek saiu como um murmúrio:
— Ah… Zahara. O que são essas coisas?
Zahara estranhou a pergunta.
— Coisas? — repetiu num sussurro, franzindo o cenho. — Do que está falando? Não mude de assunto.
— Em você… está cheia deles…
Instintivamente, ela olhou para as próprias mãos. Depois, lançou um olhar sobre os ombros, em busca de alguma explicação. Mas tudo parecia normal… pelo menos à primeira vista. Foi então que um estalo percorreu sua mente.
Ela fechou os olhos, respirou fundo… e quando os abriu novamente, era como se o véu entre planos tivesse sido rasgado, revelando aquilo que antes estava oculto.
— Mas o que… — murmurou, com a frase morrendo ainda em sua garganta.
Ela mal conseguia processar o que via, mas bastou olhar para além dela mesma para que sua expressão se fechasse totalmente.
Zeladores… por toda parte. Não apenas ao seu redor, mas também flutuando pelas ruas, como uma neblina viva. A vila inteira estava tomada.
“Aqui está… contaminado?”, pensou.
Zahara demorou alguns segundos para processar aquilo. Seu coração parecia bater na garganta.
E então, num sussurro indignado, como se tentasse convencer a si mesma de que aquilo era impossível, ela murmurou:
— …Tá de sacanagem? Que porra está acontecendo aqui?

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