Capítulo 11 - Parte 7
“Ela estava aqui esse tempo todo? Como eu não percebi?”, indagou Zahara, enquanto encarava o rosto ressequido da pobre mulher. “Isso não é só uma ilusão… a aparição está manipulando mais do que só a minha mente. É como se a minha própria percepção estivesse alterada.”
Ela começou a olhar ao redor, observando como toda aquela sensação nebulosa parecia envolver tudo à sua volta.
“Não parece um feromônio alucinógeno. Eu já estava sendo afetada muito antes de eu me aproximar do foco… então que tipo de habilidade é essa?”
O seu coração parecia palpitar devido à inquietação da dúvida, com o tempo se arrastando vagarosamente. Mas a urgência ainda latejava no fundo de sua mente como um alarme.
Sem hesitar mais, Zahara segurou os ombros da mulher com firmeza, sentindo a pele gelada ao toque. Ela cerrou os dentes e a puxou com cuidado.
— Certo… seja lá o que for, vamos acabar logo com isso. Você não parece estar em condições de esperar mais.
Ela se levantou com um movimento firme, sentindo o peso da mulher nos braços. Os zeladores ao redor começaram a se agitar sutilmente, como se reagissem à movimentação repentina. Mas no exato instante em que tirou o corpo do chão, algo estranho aconteceu.
Foi uma sensação quase imperceptível, mas não o bastante para escapar dela.
O piso de madeira rangeu, mas não de maneira comum. Sob os pés dela, a vibração era diferente. Como se algo mais, também tivesse se movido junto.
Ela franziu o cenho e olhou com mais atenção para o lugar exato onde a mulher estava deitada. Foi então que ela percebeu.
Havia um recorte entre as tábuas. Um contorno formando um quadrado, similar a uma tampa de madeira. Como se fosse um alçapão.
Quando levantou a mulher, aquela tampa se ergueu ligeiramente, somente alguns milímetros. O suficiente para que Zahara notasse.
Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada. Mas ignorou naquele momento, apertando mais o corpo da mulher contra si e atravessando a porta novamente, voltando para o corredor.
“Eu preciso executar o ritual o mais rápido o possível…”, ponderava Zahara, ao passo que carregava cuidadosamente a dama enferma para a sala.
Enquanto isso, aquela estranha sensação referente a mulher em seus braços, continuava a permear a sua mente.
Era algo difícil de se descrever. A presença da mulher parecia instável… como se ela existisse apenas sob o olhar direto, e sumisse sempre que não fosse o foco. Fora de vista, era como se evaporasse, e até mesmo seu peso parecia escapar da percepção.
Zahara a segurou com mais firmeza, tentando fixar os pensamentos, aterrando-se naquele momento com um suspiro controlado.
Assim que chegou à sala, ela empurrou a mesa de centro com o quadril, enquanto mantinha a mulher nos braços, removendo as cadeiras logo em sequência. E então, tendo limpo o espaço, ela se ajoelhou cuidadosamente e deitou a mulher no seu centro, dentro da área que ela estava visualizando como o núcleo de seu ritual.
Seus olhos não se afastaram dela nem por um segundo. Era como tentasse segurar um sonho antes que ele escapasse na primeira piscada.
“Ela ainda está aqui… ainda está aqui…”, repetiu algumas vezes em seu pensamento, como um mantra.
Respirou fundo. Em seguida, ergueu-se com um joelho, pondo a mochila novamente a sua frente e abrindo-a.
Zarek continuava lá, em seu interior.
Porém, Zahara estava tão focada, que apenas o ignorou e esticou a mão em direção a um pequeno frasco com um pó cintilante de mica branca. Contudo, parou subitamente quando ouviu o sussurro rouco de Zarek, ainda meio abafado pelo ambiente:
— Zahara…
Ela parou, olhando para dentro da bolsa.
Zarek a observava com a chama de seus olhos parecendo queimar mais intensamente. Ele parecia inquieto.
Zahara lançou um rápido olhar de canto para a mulher, certificando-se de que ela ainda estava ali, e então voltou seu olhar novamente para Zarek.
— O que foi? — sussurrou — Seja breve, estou um pouco sem tempo.
Ele demorou um momento para responder, como se organizasse os próprios pensamentos.
— Tem… algo estranho acontecendo… — murmurou, quase como um desabafo.
— Sim… eu também percebi. Essa casa inteira parece estar enevoada. É como se tivéssemos sido puxados para um limbo.
Zarek balançou levemente sua cabeça, em discordância.
— Não… além disso… eu me refiro a essa sensação… — murmurou Zarek, com os olhos fixos nela — Eu esqueci de lhe falar, mas, naquele instante, no beco… eu tive uma visão daquele sonho de novo. E tinha algo naquele vazio que parecia estar me sondando… batendo no fundo da minha mente.
As chamas de seus olhos tremularam levemente enquanto falava.
— Mesmo depois que voltei, eu continuei sentindo isso. Eu achei que fosse a minha imaginação no começo. Mas agora… parece que está ficando mais forte.
Zahara estreitou os olhos, encarando as chamas inquietas que dançavam nas órbitas dele. E então, próximo ao seu rosto, cruzou um pequeno zelador, girando devagar. Ela inconscientemente o acompanhou com os olhos até ele se perder entre o enxame que pairava silenciosamente no ambiente carregado.
Um pequeno estalo percorreu sua mente, como um lampejo.
“A energia decomposta…”
Zahara girou os olhos rapidamente para Zarek, arregalando-os levemente.
“Eu nem tinha parado pra pensar nisso… Esse lugar está saturado. A densidade dessa energia decomposta deve estar absurda. Claro que isso está afetando ele.”
Mordeu o lábio inferior, frustrada com a própria distração.
“Droga. Bastou uma aparição mexer com as minhas memórias pra eu começar a perder completamente a noção?”
Zahara respirou fundo, tentando se concentrar, enquanto sentia uma leve pressão crescente no peito.
— Ei… como você está?
Zarek desviou brevemente o olhar, como se não soubesse bem como responder.
— Hm… é um pouco incômodo. Às vezes me dá… um arrepio — murmurou, encolhendo-se discretamente, como se sentisse um calafrio.
“Eu vacilei demais…”, pensou Zahara, enquanto observava como Zarek se comportava. “Mas agora não tem muito o que ser feito. Eu não posso simplesmente ir embora daqui.”
Em seguida, ela soltou um suspiro tenso, sentindo o peso das palavras que se seguiam. Inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, e com seus olhos ainda fixos nele, ela disse:
— Você acha que consegue suportar?
Zarek estremeceu ligeiramente, como se o simples som da pergunta o tivesse feito lembrar do desconforto.
— Humm… acho que sim… — respondeu, hesitante.
Zahara o observou por um momento, antes de responder com um tom que beirava a frieza.
— Se esforce. Por favor.
Ela ainda o encarou por um segundo a mais, antes de voltar a esticar sua mão para pegar o frasco.
E foi aí que aconteceu.
Ela viu… por um breve instante, na periferia de sua visão, algo rastejando pela parede ao fundo.
Não foi claro, nem definido, mas foi o suficiente para prender sua atenção.
Uma criatura esguia e alongada, como um verme grotesco coberto por uma pele pálida, quase acinzentada, como a carne de um afogado. Suas múltiplas patas — ou seriam braços? — se moviam de forma silenciosa, arrastando o corpo com uma fluidez desconcertante.
Mas foi só um lampejo.
Zahara virou a cabeça bruscamente com seus olhos agora fixos no canto da sala, onde o movimento havia ocorrido.
Mas não havia nada lá.
A escuridão ali permanecia inerte… como se nada tivesse se movido. Como se tudo estivesse em ordem.
Podia ser aquilo, apenas mais uma ilusão?
Ela desviou o olhar para o lado, observando a mulher ainda imóvel no chão.
“Chega de enrolação… estou perdendo muito tempo.”
E então, com um suspiro discreto, Zahara ajeitou a alça da mochila no ombro, prendendo-a com firmeza a sua frente e direcionou suas últimas palavras para Zarek, sem desviar seus olhos da mulher.
— Zarek… se sentir qualquer outra coisa estranha… qualquer mudança — ela falou com firmeza, com um tom baixo, mas carregado de uma urgência contida — você me avisa na hora. Entendeu?
Zarek assentiu com um movimento leve de cabeça e Zahara retomou os preparativos para o ritual.
Com movimentos precisos, Zahara começou a traçar o círculo ao redor da mulher com o pó branco.
Primeiro a borda externa, contornando cuidadosamente o corpo. Depois, veio a disposição dos escritos, cada um em um ponto específico. E, por fim, ela os conectou dando origem a uma forma geométrica. Um pentágono.
Em seguida, ela removeu outro frasco de dentro de sua bolsa. Este preenchido com um líquido denso e turvo, de coloração lamacenta.
Sem hesitar, ela o destampou com um estalido suave e se ajoelhou ao lado da mulher. E então, com cuidado, ela ergueu levemente a cabeça dela, apoiando-a em seu braço, e verteu o conteúdo do frasco entre seus lábios entreabertos. Fez isso devagar, evitando que o líquido escorresse ou fosse desperdiçado. Ainda assim, uma pequena gota deslizou pelo canto dos lábios da mulher, escorrendo até o queixo.
Zahara a enxugou com o dedo, sem hesitar. Levou-o à boca e o lambeu.
Assim que terminou, recuou silenciosamente, se posicionando na borda do círculo, com as palmas estendidas sobre os escritos traçados no chão.
“Apesar de essa ter sido minha suposição inicial… isso já não parece mais um vulto. Mas seja lá o que for… se for um parasita… isso vai fazê-la por para fora.”
Ela estreitou os olhos, concentrando-se. Um brilho branco e tênue começou a irradiar dos símbolos no chão, refletindo diretamente em seus olhos alaranjados que cintilaram junto à luz, como se compartilhassem da mesma energia.
Sua voz saiu baixa quando ela começou a entoar o encantamento,
— Obex… Hav… Mah Al… Ezor…
Ela fez uma pausa breve, os olhos agora cravados no rosto imóvel da mulher. Cada segundo parecia pesar mais que o anterior.
— Acta.
A última palavra soou como um estalo invisível.
No mesmo instante, o corpo da mulher reagiu violentamente. Um espasmo atravessou seu tronco como um chicote, fazendo seu quadril erguer-se do chão num arco brusco, e sua coluna se curvou como se algo tentasse escapar de dentro dela.
O seu rosto… enrugou-se numa expressão de agonia. A boca abriu-se escancarada, como se estivesse prestes a soltar um grito estridente, mas não teve som.
Zahara não desviou o olhar. Seus olhos pareciam arder junto com o feitiço.
“Vamos… você consegue… põe isso pra fora.”
O corpo da mulher voltou a se contorcer, dessa vez com um impacto seco ao colidir contra o chão. Um som abafado ecoou pelo ambiente. Mas então algo ainda mais perturbador aconteceu…
Sua barriga se arqueou levemente para cima, como se algo se movesse dentro dela, pressionando de dentro para fora.
A protuberância foi sutil, porém evidente. Um leve inchaço que percorreu sua pele abaixo das costelas. E então, voltou ao normal de forma abrupta.
Zahara franziu o cenho, estranhando a visão.
De súbito, a mulher começou a convulsionar, com seu corpo se sacudindo de forma descoordenada. Os braços se debatendo, as mãos arranhando o próprio peito como se quisessem arrancar algo de dentro. As unhas rasgavam o tecido de suas vestes em movimentos desesperados.
Zahara se ergueu parcialmente, alarmada. Seus olhos se estreitaram ao perceber os sinais:
“Ela está sufocando.”
Num salto contido, avançou até o corpo convulsionante. Posicionou-se por trás da mulher, puxando-a com firmeza para apoiá-la, inclinando seu tronco para frente. Seus braços se moveram pressionando a boca do estômago da mulher, tentando forçar a saída do que quer que estivesse bloqueando sua garganta.
E então, algo começou a subir pela traqueia da vítima, inchando a região, deformando o pescoço em um movimento grotesco. O som de algo molhado e viscoso acompanhava cada pulsar.
Zahara inclinou a cabeça da mulher e forçou sua boca a abrir. Encontrando o culpado do sufocamento.
Uma massa pálida emergia da escuridão da garganta. Quando estava quase à flor da boca, Zahara agarrou a coisa com firmeza, seus dedos se fechando em torno da carne fria e pegajosa. E com um puxão brusco, ela arrancou a criatura para fora.
Só então ela viu com clareza o que havia retirado.
O parasita se assemelhava a uma mão, sem corpo, com dedos longos e contorcidos como as patas de uma aranha. E onde deveria haver o pulso, havia uma protuberância alongada e fina, semelhante a uma cauda que se enroscava lentamente no ar, como se buscasse algo a que se prender.
Zahara manteve o ser afastado, observando com atenção, antes de o jogar para longe e o cortar com um fio.
“Te peguei… verme!”

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